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Sjangerlære

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2   Teori  og  metode

2.3   Sjangerlære

Não se pode ficar indiferente, dentro da possibilidade hermenêutica, diante das estruturas simbólicas de sentido, que se irmanam ao mecanismo religioso, presentes na contemporaneidade. Existe, na religiosidade brasileira, um sem número de posturas compreensivas, que apontam para uma arquitetura do Sagrado, engendradas nas manifestações do tipo multiforme, na cultura brasileira.

Tomando por base a concepção de Paul Tillinch de que “a religião é a substância da cultura e a cultura, a forma da religião” e as leituras de Pierre Sanchis e José Bittencourt Filho sobre o fazer religiosidade brasileiro, temos o intuito de mostrar que a ”Matriz Religiosa Brasileira” tornou-se uma possibilidade, em seus múltiplos matizes e ordenamentos de poder, do simbiótico ao político.

Bittencourt Filho (2003) afirma existir uma “Matriz Religiosa Brasileira” oriunda de valores essenciais presentes nas camadas abissais da existência social. Esses valores, por sua vez, são desejados enquanto imutabilidade e permanência. Verificamos, no entanto, que as articulações político-sociais e econômicas advindas do Neoliberalismo, inclusive mercadologicamente, irmanadas ao religioso, congregam a mutabilidade e a secularização que torce a semântica e a institucionalidade das congregações de cunho tradicional. O humano socialmente engajado vê-se diante de uma expropriação de sentido e o busca no imaterial de religiões geridas no simbólico pós-moderno. Simbólico que é notoriamente agressivo, uma vez que, na pós-modernidade, percebe-se “a apropriação de símbolos alheios, assim como a constante perversão de símbolos” (Bittencourt Filho, 2003:37).

Diante do já dito acerca da formulação da doutrina, das concepções eclesiológicas, manifestações litúrgicas e de toda uma teologia histórica e comportamentalmente

engajada do neopentecostalismo, envolve-nos o questionamento sobre como a presença cultural neopentecostal absorveu a cultura, de modo a adentrar no político por meio da própria Matriz Religiosa Nacional. Antes mesmo de buscar definir este matricial religioso, deve-se acrescentar ainda que o neopentecostalismo apresentado não se trata de um paradoxo à tessitura cultural brasileira, mas um desmembramento próprio dos tempos hodiernos.

Os elementos formadores da Matriz Religiosa Brasileira são amalgamados heterogêneos provenientes de tradições religiosas muito distintas. No Brasil fecundaram pela mestiçagem e sincretismo, segundo Bittencourt Filho (2003:41), o catolicismo ibérico, as religiões indígenas e africanas, o espiritismo europeu do século XIX e fragmentos do catolicismo romanizado. O protestantismo do tipo histórico, também presente, cumpriu o papel de recalcar ainda mais os conteúdos multiformes da religiosidade brasileira, uma vez que a ela foram associados o mal e o pecado. O pentecostalismo exacerbou a negação da religiosidade construída, todavia com o deuteropentecostalismo das Missões da Quadrangular, acabou por abrir-se ao carismatismo norte-americano. Tínhamos estabelecido a seguinte “guerra”: de um lado, a Matriz Religiosa Brasileira, suas miscigenações e sincretismo, e do outro lado, o protestantismo, seja em sua vertente tradicional e racionalista, seja na do pentecostalismo popular e carismático.

Guerra insólita, diante dos resultados já estabelecidos, quando o conteúdo social resultante é, na verdade, o sucesso do já incrustado no imaginário compartilhado. Antonio G. Mendonça (1998:49), citado por Bittencourt Filho (2003:44), coloca a necessidade de um projeto religioso de sucesso estar intimamente ligado ao conteúdo cultural e, desta forma,

“Cremos que o estudo da religião no Brasil, tanto do seu desenvolvimento ao longo dos quinhentos anos de história como da efervescência religiosa

deste fim de século, tem que reconhecer sempre, como ponto de partida, a necessidade de descobrir no lastro cultural que se formou ao longo do tempo, as origens das formas de crença, tanto no estado de pureza, se que é possível ao menos metodologicamente, como no das mutações. Temos que construir, a partir desses elementos fundantes, um sistema que expresse, mais ou menos genericamente, o imaginário subjacente que sustenta de maneira mais ou menos equilibrada as diversas formas religiosas que se vão mantendo ou surgindo. A maior ou menor relação de qualquer movimento religioso com esse imaginário ajudará a explicar o sucesso ou o fracasso de cada um deles”.

A Matriz Religiosa Brasileira, agora já compreendida como um todo cultural imbricado ao sentido e ao fazer religioso brasileiro, apresenta um emaranhado de posturas que se aglutinaram. O elemento religioso chegado com os colonizadores portugueses, no Brasil do século XVI, era de um catolicismo ibérico repleto de mágica mítica e folclore. A liturgia e os sacramentos povoavam o imaginário popular com uma ritualística milagrosa que fazia dos santos uma réplica da corte pagã olímpica. O natural era um mesmo com a crença e o arcabouço nutrido no espiritual. Virtualidade e realidade coincidiam à pobreza que circundava os católicos que aqui chegaram.

O Brasil, construto imaginário de Éden, foi aos poucos se tornando lugar de purgo. Os índios de “pureza” e “inocência” foram demonizados em suas crenças e tinham que ser cristianizados, conversão escravista e jesuiticamente estabelecida, mesmo que de forma contraditória. O negro escravo, dos terreiros além mares, trouxera também sua crença, e esta, diante da proibição, só fez aumentar ainda mais o sincretismo oriundo da miscigenação. Combinação religiosa colonial que Bittencourt Filho fará notar em duas linhas.

“Pode-se dizer, em grandes linhas, que no Brasil colonial colidiram duas grandes concepções religiosas: uma que sacralizava o ambiente natural e as forças espirituais a ele subjacentes; outra que ressaltava símbolos religiosos abstratos e transcendentais. Tais concepções não se mantiveram estanques, porquanto, na prática religiosa popular, foram desde logo combinadas” (Bittencourt Filho, 2003:49).

Tais combinações sincréticas manifestaram-se como uma solução possível diante da negação do poder católico da Casa Grande, que buscava o controle dos seus escravos para além do tronco e da senzala, pela apropriação do universo simbólico que envolvia os dominados. O proprietário tinha no cristianismo, que demonizava os cultos ancestrais indígenas e os ritos politeístas africanos, uma forma clara de controle. Todavia as relações de poder e o encontro das culturas conduziram a mutações identitárias nos confrontos simbólicos e culturais. O colonialismo havia se tornado o caldeirão ideal para o fomento de uma matriz que, agregados elementos contemporâneos evidentes da ordem simbólica do capitalismo, serviria para a cristalização do fazer religiosidade no Brasil. A religião, que era instrumento de controle, tornava-se igualmente resistência.

“Com efeito, as formas religiosas e culturais condenadas como idolátricas e/ou demoníacas foram sendo canalizadas para uma religiosidade camuflada – transformada por isso mesmo em instrumento de resistência e de manutenção da identidade ante as violências do opressor – e puderam assim compor um acervo religioso singular” (Bittencourt Filho, 2003:57).

A síntese sincrética era, portanto, uma necessidade e fora estabelecida não somente dentro dos âmbitos culturais e religiosos, mas envolvia dominação política. Desse modo, ultrapassamos a religião enquanto sentido matricial. Não se trata de averiguar um modelo eclesial, mas a forma como a religiosidade é experenciada socialmente. Como essa experiência do Sagrado, em suas múltiplas realizações simbólicas, incutiu no indivíduo um sentido global de acesso à leitura da realidade. Nosso objeto de estudo, o neopentecostalismo é uma experiência simbólica da Religiosidade raiz, deste sincretismo e miscigenação primeiros acrescidos a elementos contemporâneos, mas, ainda assim, religiosidade que se filiou a um modelo político matricial com matizes de ordenamento do poder necessárias à vitalidade simbólica e existencial das comunidades. A religiosidade permite de fato

“(...) as construções sociais da realidade em nossa cultura” (Velho, 1994:54). Cabe ressalvar, no entanto, que para além do sincrético, a religiosidade e a cultura delas inseparáveis, permitem um processo dialético constante. Bittencourt Filho, ao falar sobre tal característica da religiosidade, coloca que: “Neste domínio é perfeitamente plausível a reapropriação, a reinterpretação e, por que não dizer, a ‘reinvenção’ de conteúdos pertencentes aos sistemas religiosos institucionalizados” (2003: 71). Passos (1999: 15,16) reafirma tal convicção ao dizer que:

“(...) O catolicismo popular assimila os conteúdos do catolicismo oficial, o pentecostalismo do protestantismo histórico. Trata-se de um processo de apropriação feita pelo povo recriando os significados a partir de suas condições de vida e em função destas condições. A recíproca também ocorre quando o oficial assimila elementos do popular seja por processos não-intencionais seja como estratégia de conquista de povo. A história do catolicismo no Ocidente é a prova mais nítida deste processo desde as suas origens no mundo greco-romano quando sai de um contexto rural (de cultura hebraica) e se insere nas cidades gregas, tomando elementos da cultura e do cotidiano popular. A hegemonia a que chegará no Império a partir de Constantino não pode ser descrita em termos unicamente políticos mas também culturais. As religiões do povo se relacionam também numa dialética horizontal, seja nos trânsitos religiosos dos sujeitos de um grupo para outro, por processos de conversão e de produtividade religiosa, seja por processos de trocas e sincretismo religioso”.

Outras características culturais estão presentes de forma indelével dentro do prospecto matricial religioso brasileiro, os quais apenas de forma breve, citaremos: a transposição de seus elementos dentro dos mais variados meios sociais, indo do popular ao erudito através de mecanismos de acomodação e adaptação que validam a religiosidade como mística e significação partilhadas, não importando o status social do crente, mas sua disposição frente ao sagrado; ou ainda a experiência simbólica necessariamente ligada ao êxtase, transcendendo a pertença formal à Instituição. De fato, o que temos é um espaço do sagrado sendo compartilhado pelas religiões e é esse espaço o que se caracteriza como Matriz Religiosa Brasileira.

O Protestantismo tradicional, no entanto, rechaçou a tradição religiosa brasileira já em seu cerne, no seu estabelecimento institucional no país, utilizando, para isso o que Bittencourt Filho (2003: 89) chamará de “uma espécie de pietismo racionalista, ou seja, uma realidade subjetiva e individualista, porém muito bem delineada nos seus contornos, pela rigidez doutrinária e pelo fundamentalismo bíblico”. Em contrapartida, os Pentecostalismos aproveitaram-se da religiosidade já instaurada no contexto cultural brasileiro e adaptaram-se melhor a esta realidade, muitas vezes com o intuito proselitista. Temos o Pentecostalismo, portanto, muito mais próximo dos processos culturais de ordem católica, a que tanto se mostram contrários, do que de fato do Protestantismo, do qual se mostra muito mais como uma ruptura. Segundo Walter J. Hollenweger (1996), o movimento pentecostal se difunde justamente nas culturas católicas por não ser uma Igreja tipicamente protestante. Os elementos da diversidade pentecostal são muitos e acabaram por tornar parte integrante da cultura religiosa matricial, tidos como da ordem “evangélica”. Bittencourt Filho leciona o ideário pentecostal matricial ao colocar:

“Ainda no terreno da diversidade, é oportuno registrar que o ideário pentecostal acomoda elementos paradoxais, tais como: por um lado, enseja a liberdade de expressão religiosa e de liderança aos leigos e, por outro, organiza-se segundo autoridades centralizadoras e verticalistas; evita a adoção de sistemas legais e doutrinários rígidos, ao lado de uma interpretação bíblica literalista e/ou fundamentalista; não constrói um sistema ético elaborado, mas pauta-se por uma moralidade rigorosa; a par de uma mentalidade milenarista e escatológica, centraliza a prática religiosa na solução de problemas imediatos e cotidianos; reproduz pos valores vigentes na sociedade circundante, ao mesmo tempo em que rejeita simbolicamente essa mesma sociedade; enfatiza o afastamento da sociedade enquanto amolda os adeptos a ela. Os conflitos objetivos e subjetivos resultantes desses paradoxos contribuem para que se multipliquem as cisões e a tão decantada diversidade” (Bittencourt Filho, 2003: 118-119).

O Protestantismo Histórico ou de Missão, que queria modernizar o crente transformando-o em cidadão e socialmente protagonista, não conseguiu levar em consideração as peculiaridades da matriz simbólica, cultural e sociopolítica nacional.

A modernização engessara-se e acabou por tornar-se uma subcultura limitada e de pouca empatia diante do arcabouço brasileiro. Tentou-se, por fim, um projeto que faria do Protestantismo um ensejo religioso brasileiro, que pensasse a raiz brasileira para a evangelização protestante. Como a Matriz Religiosa apresentava-se completamente alicerçada no sincretismo, a aventura deveria orientar-se pelo ecumenismo, pelo espaço desinstitucionalizado e de transformação social (Bittencourt Filho, 2003:126). Outras alternativas, no entanto, mostraram força, como os ultraconservadores e os carismáticos do “reavivamento”; todavia, o resultado de tantas alternativas possíveis somente fez esgotar o projeto protestante para a sociedade brasileira, diante de tantos fracionamentos divergentes.

A pluralidade, o sincrético, o miscigenado, matizes da religiosidade matricial brasileira, encontraram, mesmo pela negação, um encontro real dentro do pentecostalismo e de forma ainda mais enfática no neopentecostalismo. Estar atento a essa realidade nos coloca diante de uma leitura que apresenta tais posturas religiosas como ativamente determinantes não somente do modo como aquele que crê se relaciona no espaço social, mas também dos empreendimentos sociais que são realizados para fazer de sua comunidade um espaço elaborado de sentido e de direitos.

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