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Fortellemåte

In document Jesus som barn i to legender (sider 48-60)

3   Analyse  av  tekster

3.1.4   Analyse

3.1.4.1   Fortellemåte

Capixabas Eucariontes

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O Coronelismo fecundou-se no Espírito Santo através de um modelo oligárquico do tipo familiocrata. As Oligarquias familiocráticas, termo construído por Eul-Soo Pang (1979:40), possuem o clã como célula fundamental, reunindo pessoas da mesma linhagem, parentes por afinidade, afilhados e, mesmo, o povo dependente do ponto de vista sócio-econômico. A mediação motivadora seguia a ordem de defesa dos interesses comuns do clã e a legitimação residia na habilidade do chefe do clã em dispensar favores aos seus membros.

“O chefe captava os recursos necessários para a sobrevivência de seus dependentes e agregados, servia de árbitro nas questões entre eles e intervinha junto ao governo para obter favores. Em suma, o coronel desempenhava várias funções que num regime político mais evoluído seriam normalmente da responsabilidade do Estado. Tais práticas eram costumeiras em virtude da inexistência de um estado central forte e organizado” (Pang, 1979:41).

Essa organização esteve presente no Espírito Santo notadamente pela família Monteiro, edifício político coronelista que possuiu na figura de Jerônimo Monteiro, presidente do Estado entre 1908-1912, grande pai, Laio maior.

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O termo eucariotes é aqui utilizado de maneira metafórica para evidenciar um núcleo político bem definido, como que ladeado por uma membrana verdadeira. Estrutura presente, na Biologia, em células com o núcleo – matriz da carga genética – envoltas por uma membrana real.

“Os coronéis são, de fato, criadores de códigos de comportamento social bem brasileiros, numa sociedade fechada à cidadania e centrada nas grandes famílias oligárquicas” (Vasconcellos, 1995:15). Tal consideração de João Gualberto prediz toda a construção a que desejamos dar continuidade, enquanto temática. A instituição imaginária do coronel proclamou um momento político, tanto no Brasil, quanto no Espírito Santo, em suas especificidades. Jerônimo Monteiro representa tais especificidades.

A estrutura coronelista capixaba caminha conjuntamente com a monocultura cafeeira no século XX. Núcleos urbanos foram sendo formados como necessidade às atividades econômicas que precisavam convergir a produção para os portos. Nessas localidades, em especial Vitória e Itapemirim, estavam os serviços de beneficiamento e transporte do café, assim como os serviços de construção civil, comércio, indústrias artesanais e os serviços públicos. Essa congruência acabou por ampliar as relações sociais e econômicas gerando categorias sociais ligadas às elites cafeeiras, com demandas políticas de cunho republicano.

A República, proclamada, não representou rupturas dentro do sistema imaginário, mas uma continuidade que rearranjou o poder das elites e renovou o vigor de um comportamento político. Outras personagens foram sendo instaladas dentro do cenário político a partir de agremiações partidárias que articulavam os interesses das elites. Temos um jogo perene de alianças que evidenciava o amálgama de um mesmo imaginário, de uma mesma visão de mundo, de interesses compartilhados numa solidariedade capciosa: estamos diante do coronelismo espírito-santense, que excluía a maioria da população da vida política e fazia do Estado a sala de estar das famílias de grandes proprietários de terras e comerciantes. A simulação partidária

subsidiaria o jogo das elites no prosperar coronelista, e o favor era um artifício estrutural que unia em amizade os César e os Brutos.

Toda essa estrutura terá, no Espírito Santo, um nome forte que altivamente trará, em sua face, os traços da política encarnada em rugas coronelistas. Pedra extraída de uma Fazenda com nome “Monte Líbano”. Jerônimo de Souza Monteiro nasce em 4 de Junho de 1870.

No sul do Estado, mais precisamente no vale do Itapemirim, uma fazenda, a já citada como berço do coronel, conhecia o ar da prosperidade que lhe confiava à elitização dos membros da família que a possuíam. A Monte Líbano, mais que tão somente uma fazenda próspera, era o centro de formação dos Souza Monteiro, e exercia, dessa forma, uma função imaginária que produzia indivíduos aptos à direção, a práticas sociais excludentes. Legitimava-se, assim, uma superioridade produzida no meio social que criava “significações sociais imaginárias” (Vasconcellos, 1995:138), que alimentava tais elites com mais poder. Mestres de um poder que não se restringia ao âmago da fazenda, mas subsistia engendrado no Estado.

A Fazenda Monte Líbano foi ainda sede política do maior professor de Jerônimo, seu pai Francisco de Souza Monteiro, que se tornara dirigente do partido Conservador em Cachoeiro e utilizava-se das práticas coronelistas de prestação de favores para disputar a liderança da região sul. Seu prestígio advinha, portanto, de ajudas e favores: distribuição de roupas, sapatos e diversos agrados ao eleitorado.

Jerônimo estudara Direito na província de São Paulo cuja formação de jurista com influências positivistas influenciou decisivamente sua atuação enquanto político, uma vez que o positivismo fortalecia o autoritarismo elitista, assim como as práticas coronelistas.

“O positivismo, aliás, fortalecia as práticas coronelistas, na medida em que alimentava o autoritarismo das elites. Ele estimula uma visão de mundo na qual a evolução gradual e as mudanças dirigidas pelo topo do sistema político eram desejadas. A ditadura republicana era bem própria ao tipo de política que se praticava no Brasil no fim do século XIX e no início do século XX” (Vasconcellos, 1995:141).

Iniciou Jerônimo sua vida pública estando ao lado do presidente Moniz Freire e em oposição ao seu irmão Bernardino. Elegendo-se deputado estadual, em 1895, e federal, em 1897, Jerônimo tinha como aliados: Pinheiro Junior, Galdino Loreto e José Monjardim. Presenciava-se o fim da cena política dos pioneiros coronéis e a disputa, agora, como exigência dos novos tempos, o poder estabelecia-se entre os donos do verbo, dos articuladores do significado, doutores que faziam discursos movidos pelas palavras belas e pelo conhecimento da máquina burocrática.

Após romper com Moniz Freire, Jerônimo deixa o Partido Construtor em 1898, ainda como deputado federal, e funda o Partido da Lavoura, que lançara candidato à presidência estadual em oposição a Moniz Freire. O coronel Ramiro de Barros Conceição perde a disputa e Jerônimo refugia-se trabalhando na Monte Líbano e, posteriormente, em Santa Rita do Passa Quatro, em São Paulo. Todavia, o homem político já estava há muito cunhado de maneira indelével e permanente. Sua constituição visceral e identitária possuía características fortes que não se apagariam tais como: a formação típica de uma família oligárquica em que se ausentava o conceito de cidadania; o curso de direito positivista que legitimava o elitismo e o comportamento de dominação; e a disputa pela direção de sua parentela com o irmão Bernardino.

Em 13 de janeiro de 1906, Jerônimo é indicado para secretário geral do Estado, mas não aceita, regressando a vida à política capixaba somente quando, nomeado pelo presidente do Estado, assume, como advogado, a negociação das dívidas públicas que estavam colocando o estado em completa letargia e ingovernabilidade.

Jerônimo com “competência” obtém sucesso e sua candidatura à sucessão na presidência do estado adquire ares de conciliação. A que se fazer, no entanto, uma devida ressalva, uma vez que essa “competência” de Jerônimo fora campo para uma intensa polêmica. Com ares de negociata, em condições fraudulentas, a negociação das dívidas veio a público após ser denunciada por Moniz Freire e Graciano Neves, no Congresso Nacional. O coronel Henrique da Silva Coutinho, antes disto, apresenta seu candidato da seguinte forma:

“O Dr. Jerônimo Monteiro pertence a uma das mais representáveis famílias do Espírito Santo. É digno irmão do atual Bispo Dom Fernando de Souza Monteiro, ilustre sacerdote, virtuoso, cheio de bondade e partidário extremado da difusão do ensino, tendo criado nesta Diocese dois institutos de ensino secundário. O Dr. Jerônimo já representou o nosso Estado, na Câmara dos Deputados, deixando traço brilhante se sua passagem, conquistando a estima e o respeito dos seus pares, pelo seu espírito reto e por sua dedicação à causa pública. O Estado deve-lhe relevantes serviços, que o espírito partidário não conseguirá desmerecer, à vista eloqüente dos fatos” (Novaes, 1979:65/67).

As eleições realizadas em 2 de fevereiro consagraram Jerônimo como presidente do Estado. “Jerônimo Monteiro não era um coronel ignorante, como aqueles que o Segundo Império gerou” (Vasconcellos, 1995:150), visto que visitara São Paulo e Minas Gerais para conhecer o funcionamento da maquinaria pública e implantar medidas modernizadoras no Espírito Santo. O que se presenciava era a modernização nascida nos berços de jacarandá de outrora. Produto que o coronelismo metamorfoseara: um doutor de jagunços à surdina, mas com um poder oligárquico gerado no seio de imaginários e representações engendradas no latifúndio. O transitório locava-se no inacabado e no interminável, presenciava-se a modernização da vida pública, assistia-se a manutenção da rede complexa dos privilégios.

“Era o moderno que surgia do velho, impregnado de um imaginário que não tinha, ele mesmo, sofrido mudanças. Suas raízes continuam fincadas num imaginário marcado pela exclusão popular, da certeza da incapacidade

política das massas. A expressão cunhada pelo jornalista Aristides Lobo sobre a proclamação da República: o povo assistiu bestializado, é muito feliz para explicar o que se passava na Primeira República. As práticas políticas elitistas permaneceram inalteradas. Prova bem isso a eleição quase unânime de Jerônimo Monteiro” (Vasconcellos, 1995:150).

Muita coisa foi realizada durante sua gestão. O direito a aposentadoria e pensão para viúvas no funcionalismo público foi um direito assegurado. Serviços de água e iluminação pública, obras de cunho sanitário, bondes elétricos, urbanização, a construção do parque Moscoso, criação da Prefeitura Municipal de Vitória, além do Arquivo Público e do Museu do Estado, reestruturação do comércio varejista, inauguração da Escola Modelo, do Colégio agrícola – Fazenda Modelo Sapucaia e da Escola de Aprendizes Artífices do Espírito Santo. A economia fora impulsionada com a criação de inúmeras fábricas como: a fábrica de tecidos para aproveitamento de fibras têxteis; usina de açúcar (Paineiras); fábrica de cimento; de papel; de óleo vegetal; serraria industrial e a Usina hidrelétrica do Rio Fruteiras (Bittencourt, 1987: 129/130). Este projeto industrializante, no entanto, veio a constituir-se um grande fracasso.

Jerônimo deu a sua marca ao Estado, em que a divisa “Trabalha e Confia” registrava o seu imaginário ao imaginário espírito-santense. Criaram-se, assim, os símbolos do Estado com significação própria.

Para consolidar-se como chefe político do Estado, Jerônimo Monteiro contraíra dívidas que alcançavam, em 1908, a cifra de 24.000.000$000 (vinte quatro mil contos de réis), dez vezes o valor arrecadado com a somatória dos tributos estaduais do ano. A audácia do presidente do estado o colocou como incontestável líder político; afinal, deve-se a ele todo um processo de modernização. Todavia tal empreendimento arruinara as finanças estaduais. Liderança banhada no moderno que se fazia presente pelos moldes coronelistas.

“Não há dúvidas de que, durante a administração de 1908 a 1912, Jerônimo Monteiro transformou-se no chefe político incontestável do Espírito Santo. De forma paradoxal, essa liderança fundou-se, ao mesmo tempo, na sua figura de modernizador e nas suas práticas políticas coronelistas” (Vasconcellos, 1995:161).

Práticas coronelistas essas que se evidenciam em livro de Affonso Lyrio7. Ficam registradas as marcas do coronel Jerônimo que se utilizou de violência política e a influência das armas. Homem que colocara, nas contas de Affonso Lyrio, dezoito membros da família em altos cargos administrativos, que demitiu de funcionários públicos por motivos de pouca eqüidade, além de questões que envolviam a economia do estado e da fazenda Monte Líbano. Exemplo disso foi o monopólio para o fornecimento de calcáreo para a fabricação de cimento.

Jerônimo, após muitas disputas marcadas por tráfico de influências e desentendimentos familiares, morre em 22 de outubro de 1933 deixando uma vida política marcada pelos meandros da República Velha. Morre um dos produtos mais bem acabados do coronelismo que se modernizara para manter-se vivo e que, diante das exigências sociais, soubera responder aos sinuosos caminhos do construto político de maneira eloqüente. Muito embora nunca deixasse de lado herança das políticas edificadas na maneira oligárquica. Os privilégios estavam ressalvados, assim como os interesses daqueles que caminhavam com passos curtos rumo ao desconcertante muito próximo. O coronelismo de Jerônimo custosamente foi apagando-se, enquanto coronelismo de avó virtuosa a beira do leito de morte, mas a sombra daquela dentição amarelada sorri na herança que os novos políticos aprenderam a maquinar.

“[...] de 1908 a 1912 a oligarquia conseguiu ser completa. Meu tio Jerônimo era Presidente do Estado, meu tio Antonio era presidente da Assembléia,

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LYRIO, Affonso. Feitos e proezas de um piedoso conde do Papa. (Subsídios para a história política do Brasil Republicano). Vitória: Tipografia de A Tarde, 1915.

meu tio José, deputado estadual. Dom Fernando era bispo. Eis todos os poderes reunidos: eles tinham o poder federal e administrativo”.8

Jerônimo era um mestre da significação, utilizando a terminologia de Castoriadis re- apropriada por João Gualberto, ou mesmo um mentor, como em Leal; talvez a personificação da personagem política necessária e possível àquele período, enquanto imaginário. Sabe-se, era núcleo eucarionte que vigora d’outras formas e com nomenclaturas persistentes e diversas.

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Depoimento de Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, Vitória, 1987. In: VASCONCELLOS, João Gualberto Moreira. Op.cit. p. 174.

4. CONSTRUÇÃO DE NOVOS PERSONAGENS E IMAGINÁRIOS:

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