2 Teori og metode
2.2 Hermeneutisk tilnærming
de Valores na Gênese de uma Santidade Mundana
Diante do mundo, o pentecostal expressava sua austeridade e sua rejeição aos modismos com um estereótipo que lhe conferia uma identidade particularmente cunhada em ideais ascéticos e contra culturais. Com o surgimento do neopentecostalismo, no entanto, ocorreu uma verdadeira transmutação de valores estéticos e culturais, usos e costumes, o que fez transcender a concepção de santidade dentro das igrejas. As igrejas pentecostais faziam, e algumas não renovadas ainda fazem, uma separação do “crente” com o “mundo” através de um rigorismo legalista de ordem puritana.
“(...) a igreja pentecostal separa os seus membros do mundo com a condição de criar para eles um mundo separado, não só do ponto de vista ético (o crente não fuma, não bebe, não adultera, não fica em bar, não vive pelas ruas, não vê televisão, não vai ao cinema, não escuta rádio), como do ponto de vista da rotina de vida” (Brandão, 1980: 142,143).
Mudanças comportamentais multiplicaram-se entre os neopentecostais. Houve alterações comportamentais iniciadas e protagonizadas pelos membros do deuteropentecostalismo, mais propriamente pelos membros da Igreja Quadrangular, nos anos de 1950, por esses se mostrarem mais flexíveis que os da Assembléia de Deus e da Congregação Cristã. Todavia, somente nos de 1980, é que tais liberalismos tornaram-se mais evidentes. As roupas aderiram ao processo da moda secular, e as músicas, por intermédio do movimento gospel, permitiram a entrada do rock e de outros ritmos, anteriormente associados ao maligno, no movimento renovado das novas interpretações evangélicas.
A Congregação Cristã, a Assembléia de Deus e, em especial, a Deus é Amor mantêm uma profunda ligação com o legalismo e com a manutenção de hábitos consagrados como de santidade.
A expressão neo-testamentária de que o “Diabo é Príncipe deste Mundo” corroborou para que o cristianismo adotasse uma tradição de negação do corpo e conseqüentemente do mundo, gerando, desta forma, uma postura contra o chamado “mundanismo”. Associaram-se nesta grande metástase (contra) cultural as feições metodistas, Holiness, puritana e pietista. O crente pentecostal deveria afastar-se do mundo para ficar mais próximo de Deus e expressar, junto com toda a comunidade, sua vocação à santidade. Vestir-se como “crente” era um sinal irremediável e inquestionável de conversão, de “aceitação de Cristo”.
Mariano, ao dizer sobre esta postura pentecostal, coloca que:
“Para não serem contaminados e corrompidos pelas coisas, paixões e interesses do mundo, os líderes pentecostais procuraram imprimir na conduta dos fiéis, desde a conversão, normas e tabus comportamentais, valores morais, usos e costumes de santificação. Infundem neles o desejo de viver o Evangelho de acordo com o mais puro asceticismo de rejeição do mundo, segundo a definição weberiana, de modo a distanciá-los de coisas, atitudes, valores e instituições do incrédulo, porém tentador mundo circundante” (Mariano, 1999: 190).
Tem-se desta forma proposto um caminho de santificação que cria como valores a negação do mundo em um caminho de asceticismo. Estabelece-se uma soteriologia arminiana que cria virtualmente um mundo determinado pela Lei, em que resta ao humano apenas a obediência ou a danação. Entre os postulados da Lei Divina, na interpretação pentecostal, os mais duros são em relação ao lazer e ao sexo, fontes perigosas dos embustes satânicos. Mas o neopentecostalismo, na voz da pastora Sônia Hernandes, da Renascer em Cristo, responde que o sexo é prazeroso e “uma das coisas boas que Deus inventou para gente” (Revista da Folha, 109, maio de
Na Universal, o sexo com prazer é incentivado e estimulado entre os casais heterossexuais e monogâmicos como forma de manutenção da vida conjugal, propondo-se, inclusive, métodos contraceptivos como a vasectomia. A Pesquisa Novo Nascimento realizada no Grande Rio chegou a constatar que 78% das mulheres neopentecostais da Universal utilizavam algum método contraceptivo (Fernandes, 1996: 65, 67, 89).
As práticas pentecostais de asceticismo associam o lazer ao ócio, à luxúria, ao materialismo e à volúpia consumista, ou seja, ao pecado. O fiel pentecostal deve, portanto, devotar seu tempo livre à Igreja e à Deus. Diante do “politeísmo de valores”, da leitura weberiana, o fiel deve manter-se circunscrito ao seu grupo de convivência “sanitário”, seus “irmãos de fé”, de sua comunidade para manter-se fiel. As igrejas neopentecostais também acreditam na força da comunidade, todavia, cristianizaram o lazer com manifestações públicas de musicalidade, dança e arte gospel. Cristianizaram casas noturnas, lanchonetes e bares. Encontros comunitários em acampamentos, jantares e festas são incentivados, bem como toda uma literatura que romanceia testemunhos dramáticos lidos como novelas.
Percebemos que, diante da gama vasta de alterações comportamentais, dentro do novo pentecostalismo existe a necessidade de se transcender o estereótipo em busca de ascensão social e de respeitabilidade, de formação de uma nova identidade que “no terno e na gravata” grita o pedido de visibilidade e dignidade. Segundo Ricardo Mariano (1999), a austeridade pentecostal, repleta de rígidas regras de conduta, tornou-se disfuncional e até propagadora de patologias de ordem psiquiátrica. Para ilustrar tal perspectiva, Mariano cita o depoimento do psiquiatra evangélico e pastor da Comunidade S8 do Rio de Janeiro que transcreve-se aqui:
“A idéia de santidade é confundida com separatismo. Nós não estamos em guerra contra a cultura. A cultura é um meio pelo qual nós podemos
evangelizar o mundo (...). O etnocentrismo evangélico é sinal de forte medo do mundo (...). Muitas vezes a igreja traz saúde, traz cura, traz libertação, traz transformação. Mas muitas vezes a igreja adoece as pessoas. O exagerado formalismo, uma exagerada perspectiva de comportamento, de conduta e de enquadramento num standard, num padrão de cristianismo, uma exagerada cobrança mútua. (... O mau uso de uma cultura evangélica, de uma cosmovisão evangélica pressionando o membro da igreja verticalmente, num discurso absolutista, isso é patologizante, produz doença)” (I Consulta sobre Crescimento dos Evangélicos no Brasil, 2.6.1993. In: Mariano, 1999: 199, 200).
De fato diante de uma vasta gama de considerações acerca da rigorosidade da Lei Pentecostal, do patológico oriundo deste mecanismo de controle denominacional, da perda de fiéis e do pouco crescimento, o Neopentecostalismo comprometeu-se com outro modelo de interpretação de leitura do mundo, um modelo pautado pela transmutação de valores que propiciariam uma Santidade “Mundana”. Este empreendimento ainda não fora muito compreendido por denominações mais tradicionais como a Congregação Cristã no Brasil ou a Assembléia de Deus. Todavia o legado histórico de significativas alterações deu-se por meio de espaços pentecostais como os criados na Igreja do Evangelho Quadrangular com o pastor Raymond Boatright, que tocava guitarra elétrica em seus cultos (Júlio Rosa, 1978:19), ou como o programa de televisão exibido na Rede Manchete pelo pastor e deputado estadual pelo PTB de São Paulo, Daniel Martins, nos anos de 1990 (Mariano, 1999:209). Nascia o movimento gospel: uma revolução dentro da história comportamental das denominações.
O “crente” neopentecostal aderiu ao mundo, à cultura, à moda, à mídia. O neopentecostalismo surge como crítica ao legalismo puritano e ao estereótipo. Deseja uma membresia que viva a “normalidade” da fé, e não o que Edir Macedo chama de “vestes de santo”. Edir Macedo chega a dizer em entrevista à Revista
Veja de 11 de Novembro de 1990:
“Temos poucas relações porque os outros pentecostais se voltam demais para o fanatismo, misturam fé com costumes. Ora, uma coisa nada tem a ver com outra. Os pentecostais tradicionais, por exemplo, fundamentam-se
em doutrinas baseadas nos costumes da época de Jesus. Nós, ao contrário, não vetamos nada. Na Igreja Universal é proibido proibir. A pessoa é livre para fazer o que bem entende. (...) A pessoa é livre para beber, fumar, para fazer o que bem entende. Nossa obrigação é ensinar-lhe a Bíblia e mostrar- lhe que tem que tomar, por conta própria, a decisão de não fazer isto ou aquilo”.
Uma indústria nascera para aplacar a sede do novo “crente”, agora denominado “evangélico”: a indústria gospel que incluía desde a musicalidade em ritmos antes abominados como o rock, o rap e o funk até produtos de beleza e roupas. O neopentecostalismo tornou-se o lugar de reunião de novas tribos com encontros
dance e até carnaval.
A maneira de ser neopentecostal, sua ontologia, enfrentou mutações decorrentes do tempo apresentando uma religião inserida no mundo por intermédio do mundo. O neopentecostalismo não somente cresce, como torna-se cada vez mais um mecanismo de inserção da religião e do “sagrado” na Sociedade. Tem-se um modo de se fazer cultura gerida no indivíduo religioso e nas identidades provenientes desta nova hermenêutica do sujeito, ampliadas e tornadas modernas. Todavia a concepção de modernidade dentro do espectro político e da inserção deste sujeito religioso neopentecostal neste meio é a condição de possibilidade para o nascimento de uma Bancada comprometida com esta ontologia neopentecostal e com seus valores.
O simbólico religioso e a formação do grupo político surgido no neopentecostalismo irmanam-se a um emaranhado anteriormente já instituído, enquanto Instituição Imaginária. Defendemos que toda esta construção, até agora vislumbrada, metastaseou-se com a maneira de fazer política já engendrada no campo brasileiro, criando uma figura central nesta análise: o pastor político, nascido virtualmente da matriz religiosa moderna e do coronel político tanto combatido, mas ao mesmo tempo ainda tão presente.
Os próximos capítulos, já de uso da figura neopentecostal, figurarão no entorno teórico que sustenta tal hipótese; na identidade do coronel, desde o seu surgimento, até suas posturas mais modernas, o que permitiu a junção de valores com o político neopentecostal-“evangélico”; em uma breve História das Bancadas Evangélicas Brasileiras a partir do estudo realizado por Paul Freston; e em como a História Social das Relações Políticas percebe este grupo no Estado do Espírito Santo, um dos maiores na incidência deste grupo.