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Fonte: O ALTO PURUS. Farmácia Matos. Sena Madureira, 29 de março de 1914. Acervo

FBN.

As farmácias no Território do Acre aparentemente eram a ponta extrema de múltiplas cadeias de aviamento de remédios produzidos em outros estados do Brasil e no exterior. Algumas delas tinham o monopólio da venda de alguns produtos, fruto de parcerias comerciais e, mesmo familiares, com outros laboratórios. Por exemplo, a Farmácia Matos tinha o monopólio da venda do “Elixir de Velame, Carobá, Manacá” e do “Peitoral Matos”, indicados no tratamento da sífilis, de doenças decorrentes da “impureza do sangue” e cura da tosse. Esses remédios eram produzidos na farmácia de Joaquim de Alencar Matos, no Ceará, e distribuídos no Purus por intermédio do seu parente Rui de Alencar Matos.465 Já a Farmácia Brasil vendia, com exclusividade, o “Bálsamo Filantropo”, remédio vendido no laboratório do farmacêutico Sebastião de Freitas, no Ceará. Tratava-se de um anti-inflamatório e calmante indicado no combate a malária, cólica intestinal, vômitos, palpitação do coração e supressões do fluxo menstrual.466 Um exemplo das redes comerciais das empresas farmacêuticas no Purus pode ser encontrado no caso da Farmácia Tote, de Lábrea, cidade amazonense mais próxima de Sena Madureira. A José Tote & Cia, segundo um anúncio no jornal Correio do

Purus, tinha contrato de fornecimento junto aos laboratórios Silva Gomes & Cia, do Rio de Janeiro, Baruel & Cia, de São Paulo, Drogaria América, da Bahia e com farmácias de

465 O ALTO PURUS. Elixir de Velame, Carobá e Manacá. Sena Madureira, 17 de outubro de 1915. p. 1.Acervo

FBN.

Manaus e Belém.467 Cada farmácia possuía suas redes comerciais de aviamento, aparentemente interferindo no sortimento de produtos à venda.

Assim, a relação entre médicos e farmacêuticos no Território do Acre obedecia a uma lógica similar à da cadeia de aviamentos, na qual o clínico era o freguês e o farmacêutico o patrão e aviador. A melhor opção de aviamento, de remédios e produtos para uso no dia-a-dia de trabalho do médico, era junto às próprias farmácias do Território do Acre, que não eram muitas. Desse modo, não havia espaço para que os médicos controlassem os farmacêuticos, já que o sistema econômico da borracha colocava as farmácias em posição bastante confortável, com a primazia no fornecimento de remédios e produtos destinados à saúde nos departamentos.

No Departamento do Alto Purus, todos os donos de farmácia eram apoiadores dos seringalistas do rio Iaco. Rui de Alencar Matos, dono da Farmácia Matos, era mais do que apoiador: era membro do Partido Progressista, filho do advogado e coronel José de Alencar Matos e um dos líderes da Revolta Autonomista de 1912. Segundo percebe-se nos anúncios dos jornais O Alto Purus, Brazil Acreano e Estado do Acre, para um médico trabalhar em uma das farmácias de Sena Madureira, era preciso também ser um apoiador do grupo iacoara, ou, no máximo, alguém que conquistou certa neutralidade, como foi o caso de Carlos da Costa Ribeiro.

Havia entre as farmácias uma forte disputa por consumidores. Por essa razão, as últimas páginas dos jornais do Território do Acre exibiam propagandas chamativas com nomes criativos de remédios contra a malária, por exemplo, de modo a interessar o consumidor. Na Farmácia Popular, vendia-se o “Mata Maleita”468 e as “acreditadas” “Pílulas Divinas Contra Febres e Sezões”.469 Em todas elas vendiam-se as “Pílulas Maravilhosas contra Sezões”. Muitos desses remédios não faziam o efeito desejado. Em seu livro de memórias, Esperidião de Queiroz Lima menciona que um dos seus pacientes adquiriu o costume de colecionar receitas e vidros de remédios utilizados contra a sua doença, que, enfim, nunca era curada.470 Já a revista O Alho, de Cruzeiro do Sul, tinha uma visão crítica das farmácias. Esse humorístico chamava os farmacêuticos de “vendedores de aguinha”,

467 O CORREIO DO PURUS. Farmácia Tote. Lábrea, 28 de novembro de 1907. p. 4.Acervo FBN. 468 BRAZIL ACREANO. Farmácia Popular. Sena Madureira, 18 de setembro de 1910. p. 3. Acervo FBN. 469 O ALTO PURUS. Farmácia Amorim. Sena Madureira, 15 de julho de 1917. p. 8.Acervo FBN. 470 LIMA. 11 anos na Amazônia. op. cit, p. 57.

ressaltando que o poder de uma farmácia estava diretamente ligado ao tamanho do igarapé de seu proprietário.471

Por fim, em Sena Madureira havia, como já dissemos, o Hospital de Caridade 22 de Maio, outro espaço onde os médicos atuavam. Inicialmente o hospital foi fundado com recursos vindos dos seringalistas do rio Iaco e do rio Caeté, sendo uma ação conjunta dos dois grupos políticos que atuavam no Departamento do Alto Purus.472 Laudelino Benigno chegou a ser o provedor do hospital, mas, em 1910, frente ao aprofundamento das tensões entre as elites do rio Iaco e do Caeté, Benigno abandonou a provedoria deixando os pacientes com fome e sede.473 A partir de então, as elites do rio Iaco e o Partido Progressista tomaram para si a assistência à saúde dos indigentes, que passou a ser um símbolo do poder iacoara em Sena Madureira. Assim, como os seringalistas iacoaras eram os provedores do hospital de caridade, os médicos cirurgiões eram, de algum modo, ligados ao Partido Progressista. Um médico contrário às elites do rio Iaco, ou com ligações políticas com a J. Gadelha & Irmãos, não teria a mínima chance de atuar na assistência pública. Samuel Libânio e Carlos da Costa Ribeiro foram os únicos médicos “neutros” nas disputas políticas locais que conseguiram chegar aos postos de cirurgião e diretor no Hospital 22 de Maio.

Os médicos viam sua autoridade limitada no Território do Acre, e principalmente no Departamento do Alto Purus, devido à profunda inserção deles no sistema econômico da borracha e no incentivo da oligarquia do Iaco à saúde pública. Entretanto, as mesmas circunstâncias econômicas e políticas que os limitavam eram as que geravam renda. O médico não tinha margem para escolha. No Departamento do Alto Purus, as mesmas forças que limitavam a autoridade dos médicos, possibilitavam e financiavam as estruturas onde eles poderiam atuar.

Cabe, no entanto, ressaltar que, no caso do Departamento do Alto Purus, os seringalistas do Iaco estavam menos preocupados com a saúde da população do que com o impacto político de uma estrutura sanitária, que, embora incipiente, estava à frente do que existia nos departamentos vizinhos. O objetivo final dos seringalistas do rio Iaco e do Partido Progressista era criar uma imagem de cidade saneada para Sena Madureira. Quando os seringalistas do rio Caeté se deram conta desse processo, abandonaram completamente o

471 O ALHO. Frases Características. Cruzeiro do Sul, 14 de junho de 1908. p. 2.Acervo FBN.; O ALHO. Dizem

por aí, mas é falso. Cruzeiro do Sul, 01 de agosto de 1908. p. 3. Acervo FBN.

472 LIBANIO. & LIBANIO.Cândido. Directoria de Hygiene. op. cit,p. 53.

financiamento do Hospital de Caridade e atuaram contra o crescimento urbano de Sena Madureira, e contra a assistência a saúde, iniciativa que teve seu ápice na gestão Araripe em 1912. A finalidade da estrutura de saúde e assistência criada pela oligarquia fluvial do Iaco era completamente política e estava ligada à guerra entre os senhores dos rios.

3. 2 – O controle sobre os corpos (de água): saúde e ciclo hidrológico em Sena Madureira

3.2.1- A drenagem das águas pluviais no espaço urbano de Sena Madureira

A malária era a doença que acometia o maior número de pessoas no Território do Acre, em 1904, e continuou sendo a principal endemia da região nos anos seguintes. O médico Esperidião de Queiroz Lima, em seu livro de memórias, chegou a elencar, como fator negativo, o fato de sua atuação como clínico no Acre ter sido “trabalhosa e rotineira” pela onipresença da malária.474 Na cidade de Sena Madureira não era diferente. Em 1907, a malária emergia como a doença mais frequente entre os pacientes atendidos pelo médico Samuel Libânio nos seus primeiros meses de trabalho na capital do Purus. Dos treze óbitos na cidade em 1907, cinco eram decorrentes da malária, e Libânio relatou o predomínio de formas “perniciosas” e “crônicas” da doença entre os habitantes.475

Por essa razão, as primeiras medidas de saneamento da cidade tiveram como meta principal a diminuição dos casos dessa doença, o que teve amplo apoio do então prefeito Cândido José Mariano. Para Samuel Libânio os meios mais eficazes para fazer diminuir os casos da doença seriam a distribuição gratuita de sais de quinina “puros” e promover a supressão das águas estagnadas de qualquer tipo.476 A Diretoria de Higiene procurou realizar, quando possível, a distribuição do quinina, mas a maior parte dos esforços da prefeitura foram dedicados a combater a população de vetores por meio da extinção de águas paradas, a partir de obras de drenagem urbana. Nesse processo a floresta foi vista pelos médicos da Diretoria

474 LIMA. 11 anos na Amazônia.op. cit,p. 166-167. 475 LIBANIO. & LIBANIO. Directoria de Hygiene. op. cit, p. 49. 476 Ibidem, p. 49.

como um aliado importante na reprodução do mosquito Anopheles, já que as sombras que projetavam impediam a rápida evaporação das águas das chuvas pela incidência direta do sol.