Avelino de Medeiros Chaves (no centro, segurando uma revista) na Capital Federal, rodeado de amigos no dia de sua partida para o Território do Acre em outubro de 1913.
Fonte: REVISTA FON-FON. Os que Partem. Rio de Janeiro, 01 de novembro de 1913. p.30.
Acervo FBN.
Essa autopromoção era, em parte, resultado da estratégia de Chaves para atingir seus objetivos políticos. Ele financiava e mantinha boas relações com donos de jornais na Capital Federal. De acordo com a historiadora Maria Alice Rezende de Carvalho, Avelino Chaves foi um dos maiores financiadores, junto com João do Rio, da fundação do jornal A Noite, de Irineu Marinho, em 1911.224 Em 1910, já havia comprado o Le Courrier Du Brésil, principal jornal publicado em Paris com ênfase em propagandas e notícias sobre o país.225 Ele mantinha
224 CARVALHO, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho: imprensa e cidade. Rio de Janeiro: Globo Livros,
2012. p. 100.
225 Avelino de Medeiros Chaves costumava visitar a redação de grandes jornais na Capital Federal, como no caso
da revista Fon-Fon. É possível que esses jornais tivessem algum aporte financeiro de Chaves, justamente por segui-lo de perto construindo sempre uma imagem positiva, embora não tenhamos encontrado fontes que comprovassem essa ligação.
intenso contato também com políticos e oficiais do exército. Essas relações resultaram na sua nomeação como Comandante Superior da Guarda Nacional do Alto Purus e, em agosto de 1912, como membro do Clube Militar.226 Como será pontuado ao longo da tese, Chaves atuou como lobista no Congresso Nacional, entre os anos de 1909 e 1919, intervindo no Departamento do Alto Purus e no Território Federal do Acre, quando se tratava de temas de interesse pessoal, político e econômico.
O poder econômico e a relevância política de Childerico Fernandes e Avelino de Medeiros Chaves estavam diretamente ligados à sua inserção no sistema de aviamentos do rio Iaco. E o papel dos navios a vapor, ou seja, do meio de transporte de borracha e mercadorias pelo curso fluvial, também é fundamental para entender como a A. Chaves & Cia e Childerico Fernandes tornaram-se os mais importantes proprietários da região.
A historiografia frequentemente aponta para a complexidade do sistema de aviamentos e suas variantes internas. Segundo Pedro Martinello, a cadeia era constituída, em sua base, pelo seringueiro (freguês), que extraía e produzia a borracha, vendida para o seringalista (o patrão, dono do seringal). O seringalista vendia a produção do seu seringal para as casas exportadoras (aviadores) de Manaus e Belém. Por sua vez, os aviadores vendiam a produção para as casas importadoras nos EUA e Europa. Essas casas importadoras, por fim, financiavam toda a cadeia produtiva, fornecendo crédito, exportando gêneros alimentícios, utensílios e instrumentos às casas aviadoras, que repassavam as mercadorias para os seringalistas, e os seringalistas para os seringueiros.227 Entre os elos ‘seringalista’, ‘casa de exportação’ e ‘importador’, havia os intermediários ou atravessadores de primeira linha (que transportavam borracha e mercadorias entre os portos do Brasil e Europa) e os intermediários de segunda linha (que transportavam borracha e mercadorias entre os seringais e os portos de Manaus e Belém). Os intermediários eram muito criticados pelos seringalistas, por imporem preços e condições, muitas vezes abusivos, para o transporte de borracha e mercadorias.228
Roberto Santos enfatiza que esse sistema sofreu várias desarticulações e transformações, principalmente entre 1911 e 1914, o momento mais dramático de queda dos preços da borracha.229 Por sua vez, o historiador Daniel Klein, a partir de um estudo sobre a
226 O PAÍZ. Club Militar. Rio de Janeiro. 10 de agosto de 1912. p. 7. Acervo FBN.
227 MARTINELLO, Pedro. A Batalha da Borracha na Segunda Guerra Mundial. Rio Branco: EDUFAC, 2004.
p. 51.
228 Ibidem., p. 38-39.
229 SANTOS, Roberto A. de Oliveira. História Econômica da Amazônia (1820-1920). São Paulo: T.A. Queiroz,
empresa seringalista N. & Maia, que atuava no rio Acre, analisa como diferentes agentes da cadeia de aviamentos buscaram aumentar suas operações e possibilidades de ganho dentro do sistema e também lutaram para se adaptar nos tempos de crise.230 O trabalho de Klein aponta para as constantes transformações internas do sistema de aviamentos nos cursos fluviais, com falências, expansão de operações, problemas de dívidas e pagamentos entre empresas seringalistas, intermediárias e exportadoras.
Essas variantes internas e transformações na cadeia de aviamentos podem ser percebidas na ascensão de Childerico Fernandes e Avelino Chaves no rio Iaco. Ambos optaram por encomendar embarcações na Europa adaptadas às características da rede hidrográfica das bacias do Purus e Iaco, para que eles mesmos transportassem a sua produção para as casas aviadoras de Belém. Com essas embarcações eles podiam também ser os intermediários dos demais seringalistas iacoaras, aumentando seu poder econômico, expandindo sua influência política no curso fluvial e reforçando os laços de solidariedade com seus vizinhos pela via comercial.
Em fins de 1909, diante da possibilidade de queda nos preços da borracha, Chaves e Fernandes agiram rápido. Em 1910, Avelino de Medeiros Chaves investiu na construção de sua própria frota para o transporte de borracha e mercadorias, de modo a eliminar os custos com fretes. Mandou construir em estaleiros da Europa o vapor Guanabara, um luxuoso navio para os padrões da época e mais duas embarcações menores: Sena Madureira e Catiana.231 A
A. Chaves & Cia, ampliava, assim, as suas operações, transformando-se em empresa seringalista e intermediária de segunda linha. No mesmo ano, Childerico Fernandes adquiriu três grandes embarcações para o transporte de borracha: Imperador, Coronel e Yaco, também construídos em estaleiros na Europa e ostentando características comparáveis ao Guanabara de Avelino Chaves.232 Segundo Loureiro, na época, a aquisição dos navios foi localmente propagandeada por esses seringalistas como uma conquista de todos os proprietários do rio Iaco, tendo ocorrido, inclusive, um desfile das embarcações.
230 KLEIN, Daniel. A Borracha no Acre: economia, política e representações (1904-1945). 346 f. Tese
(Doutorado) – Programa de Pós Graduação em História Social (PPGHS), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/ Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. p. 99-105.
231 LOUREIRO, Antônio José Souto. O Brazil Acreano. Manaus: Gráfica Lorena, 2004. p. 94. 232 Ibidem, p. 97.