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No detalhe, a tríplice fronteira entre o Brasil, Bolívia e Peru, antes da assinatura do Tratado de Ayacucho. Na região onde hoje é conhecida como Acre há um espaço em branco pelo

desconhecimento total da área na ocasião.

44 Ver: BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Barão de Rothschild e a Questão do Acre. Rev. Bras. Polít. Int., Rio

de Janeiro, v. 43, n. 2, p. 150-169, 2000.

45 Sobre as relações entre o Brasil e o Peru, no século XIX e XX ver: CUETO, Marcos; LERNER, Adrián.

Indiferencias, tensiones y hechizos: médio siglo de relaciones diplomáticas entre Perú y Brasil, 1889-1945. Lima: Embajada de Brasil em Perú, IEP, 2012. p. 51.

Fonte: SOCIETY FOR THE DIFFUSION OF USEFUL KNOWLEDGE. Bolívia and Peru with Part

of Brazil by J. & C. Walker (1842?). London: Chapman & Hall, 1844. p. 151. Disponível em

<http://www.davidrumsey.com/> Acesso em 15 de dezembro de 2015

Os bolivianos, no entanto, não migraram para as Tierras non Descubiertas e não foram incentivados pelo Estado. Sua população vivia nos altiplanos e o governo em La Paz tinha outras prioridades. A Bolívia foi sacudida por guerras e instabilidades políticas desde a sua independência em 1825. Vários presidentes governaram o país em poucos anos, até o presidente Andrés Santa Cruz unificar Bolívia e Peru, em uma confederação apoiada por elites peruanas do sul, transferindo a capital para Lima em 1836. A decisão desagradou os bolivianos e também as autoridades do Chile e da Argentina, levando a um conflito armado de amplitude regional que duraria até 1839, ano da dissolução da confederação.46 Posteriormente a Bolívia continuaria sendo acossada nas fronteiras: perderia Puna de Atacama para a Argentina e a saída para o mar, anexada pelo Chile em 1884, após a Guerra do Pacífico (1879-1883). Segundo Cristián Vera, em 1898 o governo peruano propôs formalmente ao Chile e Argentina a invasão e divisão da Bolívia entre os três países, enquanto observadores, a serviço dos EUA na região, davam como certo o futuro desaparecimento do país.47

Ainda assim, mesmo sem incentivos estatais e com as graves instabilidades políticas, o rio Beni começou a ser ocupado a partir das décadas de 1840 e 1850, por comerciantes interessados na extração da borracha. Em resposta à exploração da parte baixa do Beni, o governo boliviano criou o Departamento do Beni em 1842, visando a incentivar a navegação nesse rio. Era questão de tempo para que os bolivianos chegassem à confluência do rio Beni com o Amaru-mayú.48

Amaru-mayú (rio serpente, para os Incas) foi alvo de inúmeras controvérsias ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII sobre seu nome e curso. Foi o padre Julian Bovo de Revello, em missão patrocinada pelo governo de Cuzco, no Peru, quem propôs o nome “Madre de Dios” para o Amaru-mayú, após suas expedições de reconhecimento terem fracassado. Somente entre 1860 e 1861, a dramática expedição de D. Faustino Maldonado, um empresário

46 WASSERMAN, Claudia. A Formação do Estado Nacional na América Latina: As Emancipações Políticas e o

Intricado Ordenamento dos Novos Países. In: WASSERMAN, Claudia (org.). História da América Latina: Cinco Séculos. 3 ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003. p. 177-214.

47Ver: VERA, Cristián Garay. El Acre y los “Assuntos Del Pacífico”: Bolívia, Brasil, Chile e Estados Unidos,

1898-1909. História, Santiago, v. 42, n. 2, p. 341-369, jul.-dec. 2008.

48 BRANCO, José Moreira Brandão Castello. Caminhos do Acre. Revista do Instituto Histórico e Geográfico

que vivia em Cuzco, conseguiu explorar todo o rio Madre de Dios, constatando que ele desaguava no Beni e fazia parte da bacia do rio Madeira. Longe de significar o início da navegação e exploração do rio Madre de Dios, a expedição de Maldonado lançou luz sobre a impossibilidade imputada ao rio pela dificuldade da ocupação boliviana e peruana de suas margens naquele momento. D. Faustino Maldonado morreu vítima dos trechos encachoeirados dos rios Madre de Dios e Madeira, junto com metade de sua expedição.49

Somente com a fundação do entreposto comercial de Cachuela Esperanza em 1882, pela firma Suarez Hermanos, na confluência dos rios Beni e Madre de Dios, houve renovação do ímpeto da iniciativa privada na exploração e estabelecimento de seringais nesses rios, culminando com a penetração do baixo e alto rio Tahuamano (rebatizado de rio Órton) e Manupiri.50 Esses rios fazem parte da bacia do rio Madeira e, por essa razão, havia dificuldade de penetração boliviana nas Tierras non Descubiertas. Isso porque os principais rios a cortar a região incógnita, como seriam constatados por expedições vindas do lado brasileiro da fronteira, faziam parte das bacias hidrográficas do Purus e Juruá, a exemplo do próprio rio Acre, fato desconhecido dos bolivianos até então.51 Na última década do século XIX, ainda havia dúvidas sobre uma possível ligação do rio Madre de Dios com o Purus.52 Somente em 1895 o seringalista Miguel Rocca, em associação com a Suarez Hermanos, chegou ao igarapé Bahia, no alto rio Acre, via rios Órton e Abunã, fundando um seringal. Nesse momento, o alto e baixo Acre já eram largamente dominados por seringalistas brasileiros, e o rio Abunã, via de chegada dos bolivianos, já era famoso pela resistência indígena e pela onipresença de doenças como a malária.53

Na última década do século XIX, os rios Beni, Madre de Dios e afluentes eram pertencentes, de fato, a três empresas: The Orton Rubber Company (do seringalista Vacca Diez em sociedade com investidores britânicos), Suarez Hermanos (dos irmãos Francisco, Nicolás, Pedro, Rômulo e Gregório Suarez, com filiais no exterior, e em Belém do Pará,

49 Ibidem, p217-218.

50 TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre. V. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.

112.

51 Em 28 de junho de 1886 o ministro boliviano D. Juan Francisco Velarde, em conferência na Sociedade de

Geografia do Rio de Janeiro, imaginava as Tierras non Descubiertas cortadas pelos rios Órton e Abunã. Ele desconhecia, e provavelmente grande parte da sua platéia também, incluindo o próprio imperador D. Pedro II, a existência de seringalistas brasileiros explorando seringais na região e por essa razão, considerava que a área estava deserta e em breve seria pioneiramente explorada por seringueiros bolivianos. Ver: TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre. V. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 126-127.

52 Mais tarde, seria reconhecida que a controvérsia sobre a ligação entre o Purus e o rio Madre de Dios se dava

pela proximidade física das nascentes de ambos os rios na área do divortium aquarum. Ver: BRANCO. Caminhos do Acre.op. cit., p.219.

dedicadas à exportação de borracha) e a de Nicanor Gonzalo Salvatierra, ‘senhor’ de todo o baixo Madre de Dios. O Estado boliviano só chegou ao Madre de Dios em 1893, quando uma repartição pública para coleta de impostos foi instalada nesse rio.54 Porém, ainda estava longe do horizonte dos políticos de La Paz instalar qualquer órgão público nos rios Abunã e Aquiry (Acre).