No detalhe, os rios Beni e Abunã como afluentes do rio Madeira.
Fonte: STANFORD, Edward. Colombia, Ecuador and Peru, also Panamá. In: STANFORD,
EDWARDS. London Atlas Series. London: Stanford’s Geographical Establishment, 1922. Disponível em http://www.davidrumsey.com/ Acesso em: 15 de dezembro de 2015
As margens dos rios Beni, Madre de Dios, Orton e afluentes eram abundantes em
Hevea brasiliensis, principal árvore da qual era extraída a borracha para suprir o mercado internacional. Mas eram péssimos aliados dos seringalistas bolivianos no que tange à comunicação com os rios pertencentes às Tierras non Descubiertas. De maneira complexa, levavam a um rio problemático para qualquer forasteiro humano que se considerava ‘civilizado’: o Abunã. O Abunã, em sua parte baixa, media em torno de 100 metros de largura
e era somente navegável em 500, dos seus 800 km de extensão entre os meses de novembro e abril, período das cheias, desaguando no rio Madeira.55 Era abundante em Hevea de boa qualidade, mas era fartamente habitado pelos povos indígenas Tahuamano, Pacauara e Cacharari. Os Pacauara, índios considerados antropófagos pelos colonizadores, exerciam vigorosa resistência à penetração de brasileiros e bolivianos.56 Para piorar, as margens do Abunã ofereceram condições favoráveis para a propagação da malária, que chegou à região no trânsito de brasileiros infectados pelo Plasmodium falciparum, tornando esse rio célebre pela devastação causada pelas febres.57 A resistência indígena e a malária dificultaram o trânsito e estabelecimento dos bolivianos (e também dos brasileiros). Essas condições consolidaram o isolamento do sistema hidrográfico Beni-Madre de Dios em relação ao sistema Acre-Purus.
Por outro lado, os brasileiros vindos do Pará e Amazonas tinham nos rios do extremo oeste das bacias do Purus e Juruá importantes aliados na locomoção para aquela área. Ambas as bacias eram as maiores formadoras dos rios Solimões e Amazonas. Em 1905, o general Belarmino Mendonça, membro da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Juruá, estimou que esse rio, por exemplo, possuía, ao todo, cerca de 3.283 km de extensão. O baixo Juruá (da foz até a confluência com o rio Tarauacá) tinha cerca de 1.697 km de extensão, e sua largura entre as margens variava entre 352 metros (na foz) e 150 metros (no Tarauacá) e sua profundidade oscilava entre 20 a 12 metros no mês de maio, ou seja, no período de vazante. O médio Juruá ia até a confluência com o rio Breu (já nas Tierras non
Descubiertas), tendo 1.277,5 quilômetros de extensão e largura que variava entre 310 e 90 metros.58 Esses dados apontam que o Juruá era navegável até a foz do rio Breu por vapores de grande e médio porte nos períodos de cheia.
55 BRANCO. Caminhos do Acre. op. cit.,p. 95.
56 Os Tahuamano viviam no alto Abunã, os Pacauara dominavam o baixo Abunã e os Cacharari viviam entre o
Abunã e o Iquiri. Além dessas nações, havia também um grupo Canamari, no alto Abunã, e Arara, também no alto Abunã. A maioria desses povos desapareceu por força das doenças ou do confronto com os bolivianos e brasileiros. Ver: PICCOLI, Jaco Cesar. Sociedades Tribais e a Expansão da Economia da Borracha na Área
Juruá-Purus. 530 f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1993. p. 73-123. Além da resistência indígena, das dificuldades de navegação e dos surtos de malária, o Abunã tornou-se refúgio de assassinos e criminosos entre 1900 e 1910, cujos codinomes “Casca Grossa”, “Onça Preta”, “Cascavel”, “Terto” e outros, tornaram-se célebres, retardando o estabelecimento de seringais nessa região até meados da década de 1910. Ver: BRANCO. Caminhos do Acre.op. cit.,p. 100-101.
57 Ibidem.
58 MENDONÇA, Gen. Belarmino. Reconhecimento do Rio Juruá (1905). Rio Branco/ Belo Horizonte:
A demanda na Europa e EUA por borracha era uma realidade no início do século XIX, embora em quantidades pequenas. Objetos manufaturados como apagadores, botas e outros eram responsáveis pela importação de borracha dos rios da bacia amazônica que, em 1827, chegava a 31 toneladas.59 Mas o seu uso na indústria foi crescentemente ampliado após 1839, com o aperfeiçoamento do processo de vulcanização por Charles Goodyear, tornando a borracha resistente às variações de temperatura, podendo, assim, ser empregada na produção de telhas, correias, rodas, mangueiras, e, em conjunto com o ferro e aço, para a fabricação de máquinas industriais, composições ferroviárias e etc.60 É nesse momento que a atenção da Inglaterra e de outros países europeus, além dos EUA, aumentou consideravelmente em relação ao rio Amazonas que era o único caminho que levava à Hevea naquele período. Abrir o rio Amazonas à livre navegação significava integrar ao mercado internacional os seus gigantescos afluentes: Xingu, Tapajós, Solimões (com a bacia do Ucayali, no Peru), Negro, Purus, Juruá e Madeira (juntamente com o complexo Beni - Madre de Dios, na Bolívia), detentores únicos, até aquele momento, das árvores que jorravam a seringa de melhor qualidade.
A pressão dos EUA pela abertura da navegação do rio Amazonas e ameaça de uso da força surpreendeu o governo imperial brasileiro, já que a região não era, até aquele momento, prioridade da Corte. A fundação da Província Autônoma do Alto Amazonas em 1852, reafirmando a soberania brasileira levaria à intensificação das tensões. Contudo, sem chances de conseguir manter por muito tempo, o efetivo monopólio da navegação fluvial, o Império finalmente abriu o Amazonas à livre navegação em 1866.61
A abertura do rio Amazonas e o boom da economia da borracha levaram diversos aventureiros financiados pelo capital privado, de empresas de importação e exportação em Belém, a explorar e estabelecer propriedades seringalistas nos principais afluentes na bacia. Essas firmas, em sua maioria, eram de propriedade de brasileiros e portugueses, cuja fonte de renda estava no sistema de exportação da borracha e importação de suprimento para os seringais (incluindo armas, alimentos em conserva, e toda a sorte de equipamentos destinados aos seringueiros).62 A expansão dos seringais era fundamental para o aumento dos lucros e,
59 WEINSTEIN, Bárbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência, 1950-1920. São Paulo: Edusp,
1993. p. 23.
60 Ibidem.; DEAN, Warren. A Luta pela Borracha no Brasil: Um Estudo de História Ecológica. São Paulo:
Novel, 1989. p. 32.
61 MACHADO, Lia Osório. O Controle Intermitente do Território Amazônico. Revista Território. Rio de
Janeiro, v. 1, n. 2, p. 19-32, jul.-dez. 1997.
por essa razão, quem tivesse disposição e homens, para adentrar os rios e estabelecer propriedades, recebia patrocínio.
A grande seca na região Nordeste do Brasil entre 1877 e 1879 foi fundamental no processo de invasão dos rios Purus e Juruá. A enorme quantidade de flagelados, que a seca produziu, facilitou a mobilização de mão-de-obra tanto para as iniciativas de abertura de novos seringais, quanto para suprir de trabalhadores esses mesmos seringais, expandindo o sistema que ficou conhecido como aviamento.63 As casas de importação no exterior davam crédito adiantado para as casas exportadoras de Belém e Manaus, que, por sua vez, supriam os seringais no interior. Os seringalistas ou patrões concediam a crédito tudo o que o seringueiro precisava para trabalhar. A dívida do seringueiro para com o seu patrão seria paga em borracha produzida. Por sua vez, o patrão pagava as casas exportadoras também com borracha e assim por diante. Estima-se que mais 25 mil pessoas migraram para o interior do Amazonas durante o período da grande estiagem. Até 1903, ano da anexação das Tierras non
Descubiertas ao Brasil, estimava-se que cerca de 70 mil brasileiros viviam nessa área.64
Os incentivos das casas de exportação em Belém do Pará promoveram a ocupação e fundação de seringais nos rios Purus e Juruá, na segunda metade do século XIX. A ocupação foi mais intensa do que ocorreu no Beni e Madre de Dios. Em 1883, só o Purus, sem contar os seus afluentes, contava com 400 seringais, além do núcleo urbano de Lábrea.65 Entretanto, havia firmas e seringalistas que dominavam enormes cursos fluviais e áreas, ou eram donos de seringais em todo ou quase todo o curso de um determinado rio, como no Juruena, afluente do rio Madeira, de propriedade da firma Asensi & Co..66
O Purus já era alvo de exploração de regatões ou coletores de drogas do sertão desde o século XVIII, e também de expedições de reconhecimento enviadas pela Província do Amazonas. Mas foi a chegada do maranhense Antônio Rodrigues Pereira Labre em 1871 que
63 O sistema de aviamento permeava toda a cadeia produtiva da borracha. Estima-se que as transações envolviam
dinheiro apenas entre as casas exportadoras e importadoras, sendo que todas as relações comerciais que ocorriam nos seringais não envolviam papel moeda, apenas borracha. No Alto Juruá, por exemplo, Glimedes do Rego Barros, filho do Capitão Francisco Siqueira do Rego Barros, prefeito desse Departamento entre 1912 e 1915, observou que moedas como libras esterlinas e outras, eram desprezadas na região, sendo usadas para confecção de jóias, pulseiras, broches, fivelas, argolas e outros. Ver: BARROS, Glimedes Rego. A presença do capitão
Rego Barros no Alto Juruá (1912-1915). Brasília: Senado Federal, 1982.
64 RANZI, Cleusa Maria Damo. Raízes do Acre. 3 ed. Rio Branco: EDUFAC, 2008. p. 39. 65 BRANCO. Caminhos do Acre. op. cit.,p. 121.
66 Ver: VITAL, André V. Comissão Rondon, Política e Saúde na Amazônia: A Trajetória de Joaquim Augusto
Tanajura no Alto Madeira (1909-1919). 156 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS), Casa de Oswaldo Cruz/ FIOCRUZ, Rio de Janeiro, 2011. p. 62-63.
fomentou o início da migração efetiva no rio Purus em decorrência da economia da borracha. Tenente-coronel da Guarda Nacional, Labre chegou no Pará em 1869, onde conheceu o português Elias José Nunes da Silva, o Visconde de Santo Elias, dono de uma casa exportadora. Com visão empreendedora, Labre demonstrou interesse em explorar seringais no Purus e ganhou patrocínio de Santo Elias para a sua primeira viagem de reconhecimento do rio naquele mesmo ano. Retornou em 1871, já com pessoas dispostas a trabalhar na extração, e com mercadorias para fixar residência, fundando na foz do rio Ituxi o povoado de São Luiz de Lábrea.67 Lábrea floresceu como entreposto comercial e foi transformada em município em 07 de março de 1886.
O coronel Labre realizou viagens de exploração dos afluentes do alto Purus e incentivou a ida de outros exploradores que desejavam fundar seringais. Chegou a proferir palestras na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, mostrando os resultados de sua expedição de reconhecimento dos afluentes do Purus, buscando uma saída fluvial para o Beni e Madre de Dios, na Bolívia.68 Essa expedição foi vencida pelo rio Abunã e os povos indígenas de suas margens que impediram a conclusão dos trabalhos.69 Antônio Labre publicou também um livro, o Rio Purus: Notícia (1872), no qual analisa o regime de cheias e vazantes do Purus, o clima, os povos indígenas, as riquezas minerais vistas no rio Acre e a atividade extrativista.70
Na década de 1890, já havia seringais brasileiros estabelecidos nos rios Iaco e Acre, que, em tese, estavam em área boliviana segundo o Tratado de Ayacucho. O governo do Amazonas cobrava impostos da borracha vinda desses cursos fluviais. O coronel Antônio Labre, inclusive, propôs na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro a construção de uma ampla rede de estradas a ligar os rios Purus, Madeira, Beni, Madre de Dios, Abunã e Órton, passando por dentro do território boliviano.71 O objetivo declarado era fomentar relação comercial entre o Departamento do Beni e o Amazonas para a importação de gado, demonstrando também conhecimento das dificuldades de comunicação do rio Madre de Dios com o Purus e Juruá.72 Era também um plano alternativo à construção da ferrovia Madeira-
67 BRANCO, José Moreira Brandão Castello. Descobrimento das Terras da Região Acreana. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1960. p. 44-45.
68 BRANCO. Caminhos do Acre.op. cit.,p. 115.
69 BRANCO.Descobrimento das Terras da Região Acreana.op. cit., p.46.
70 LABRE, Antônio Rodrigues Pereira. Rio Purus: Notícia. Maranhão: Typ do Paíz/ Imp. M.R.V. Pires, 1872. 71 Ver: PEREIRA, Sergio Nunes. Navegação Fluvial e Vias Auxiliares: Uma Controvérsia Geográfica no Brasil
no Final do Século XIX. Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina, São Paulo, p. 11.640-11.664, 2005.
Mamoré, que tinha potencial de desviar a produção de borracha do sistema Beni para Belém do Pará, sem passar por Manaus.
O geógrafo Sergio Nunes Pereira observa a transgressão operada por Labre e pelo engenheiro Alexandre Haag, comissionado pelo estado do Amazonas. Ambos estudaram e propuseram um projeto que, na prática, violava a soberania boliviana. De acordo com Pereira, o plano de construção das estradas era parte de uma estratégia do governo amazonense para canalizar o escoamento da produção de borracha dos rios Beni e Madre de Dios, via rio Purus, para a cidade de Manaus.73 Assim, os governos do Amazonas e Pará lutavam por expandir sua influência comercial em área boliviana, de acordo com os conhecimentos que tinham sobre a hidrografia da região.
Leandro Tocantins aponta que as elites políticas do estado do Amazonas tinham amplo conhecimento dos caminhos fluviais e da migração de brasileiros para as Tierras non
Descubiertas no final do século XIX. Desde a década de 1850 o governo amazonense enviava expedições de reconhecimento aos altos rios Purus e Juruá, inicialmente para descobrir rotas para o rio Madeira e para o Beni e Madre de Dios. Foi o caso das expedições de João Rodrigues Cametá, no Purus (1852), e Romão José de Oliveira, no Juruá (1852), Manoel Urbano da Encarnação, no Purus (1861), João Martins da Silva Coutinho, também no Purus (1862), João da Cunha Corrêa, no Juruá (1854), todas visando à futura exploração das chamadas “drogas do sertão”.74
73 Ibidem.