Uma empresa de petróleo preocupar-se com iniciativas referentes ao seu passado já seria, por si só, algo instigante ao estudo do fenômeno de emergência da memória na contemporaneidade. A Petrobras é resultado de um longo processo de debate público sobre a presença do Estado na exploração e na produção do petróleo; sua criação se deu por meio de uma lei federal, sancionada por Getúlio Vargas em 3 de outubro de 1953, que a tornava executora do monopólio estatal do petróleo, instituído na mesma lei. A empresa, portanto, surge como instrumento do Estado na proteção de um recurso natural entendido como patrimônio da nação e, por isso, é tida como marco histórico em um processo de autonomia nacional. Um dos primeiros vídeos institucionais da empresa, Petróleo: marco da independência, data de 1955, quando a empresa tinha pouco mais de um ano de existência, e carrega, no título, esse entendimento da empresa enquanto marco histórico de independência da nação.
Contudo, essa consciência do lugar da empresa na história nem sempre serviu de base para a construção de uma narrativa de sua trajetória. Os primeiros produtos confeccionados pela empresa tendo por objeto a história, realizados entre os anos 1960 e 1970, não ofereciam uma narrativa sobre a empresa, mas tinham por meta dispor informações sobre o uso do petróleo pela humanidade, de forma a servirem como material didático para o público escolar. Assim, a companhia disseminava informação sobre o seu principal produto de exploração, ainda pouco conhecido. Em 1966, por exemplo, foi feito um desenho animado, em filme, que contava a história geológica do petróleo, desde sua formação, descoberta, exploração e usos na sociedade. Em 1975, foi feito outro desenho animado, este com um conteúdo mais relacionado não só à história do petróleo no mundo, mas também no Brasil.
Em termos de material impresso, ainda em 1979 foi publicada uma brochura intitulada Tendências mundiais da indústria do petróleo: os 26 anos de criação da Petrobras, uma tentativa de compreensão da trajetória da exploração petrolífera no
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correspondia ao segundo volume de uma série de cadernos publicados pela área de comunicação sobre temas relevantes à companhia; era destinada ao público em geral e bastava solicitá-la à empresa, por correspondência, para receber um exemplar em casa. Talvez essa tenha sido a primeira iniciativa, ainda que modesta, de divulgação de uma narrativa sobre a história da companhia. Concomitante a essa publicação, entre os anos de 1979 e 1980, por iniciativa e militância de duas profissionais do então Serviço de Comunicação Social da Petrobras (Sercom), Geny Peres e Ruth G. Malheiros, funcionou na empresa um setor dedicado ao levantamento documental e à sistematização de informações sobre a história da companhia. Em 1982, foram gravados os depoimentos de alguns ex-presidentes da Petrobras, em uma tentativa de se registrar a memória da empresa. Essa coleta de documentos e esses registros orais foram o embrião de um trabalho em prol da construção de uma narrativa sobre o passado da empresa, com clara preocupação em manter os registros necessários para futuras interpretações.
Foi definitivamente nos anos 1980 que passou a existir um movimento, no interior da empresa, a favor do registro e da divulgação da história da companhia. Em 1987, a área de exploração petrolífera da Petrobras encomendou a um grupo de historiadores um estudo sobre a história de sua atividade, trabalho executado por dois anos. A pesquisa, intitulada História da Exploração do Petróleo no Brasil - 1953-
198917, foi coordenada pelo historiador Afonso Carlos Marques dos Santos e contou com a participação das pesquisadoras Heloisa Maria Bertol Domingues e Leila Maria Correa Capella, além de outros dois auxiliares, mas o relatório final não chegou a ser publicado.18 No mesmo ano, a área de comunicação da empresa estabeleceu uma parceria com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A funcionária Geny Peres, da área de comunicação da empresa, movida por certo “medo de esquecimento”, como diria Huyssen, foi a tutora da ideia e quem conseguiu emplacar o projeto (FIGUEIREDO, 2009, p. 49). Na concepção inicial, vislumbrava-se a implantação de um programa de história oral semelhante ao existente na FGV, além da recuperação e
17 Falarei mais sobre esse trabalho no próximo capítulo, quando tratar dos projetos de livros de memória
que não chegaram à publicação.
18 Projeto História da Exploração de Petróleo no Brasil. Relatório Parcial. Rio de Janeiro, 1988. Cópia
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organização do acervo fotográfico da companhia.19 O que se conseguiu viabilizar foi um projeto de pesquisa denominado Memória do Setor Petrolífero no Brasil: a História da
Petrobras, cuja metodologia incluiu a geração de novos registros de história oral. Três
livros20 resultaram desse trabalho, em coedição da Petrobras com a Fundação Getúlio Vargas.
Nos anos 1990, essa onda da memória chegava até as atividades de comunicação das unidades da Petrobras, espalhadas em vários cantos desse país. Uma rápida passagem pelos vídeos institucionais dá um panorama do que se produzia na empresa. Em 1990, a Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, fez um vídeo sobre a trajetória da unidade industrial; no ano seguinte, foi a vez da Refinaria Gabriel Passos, em Minas Gerais, e da unidade da Bacia de Campos. As datas de aniversários se tornaram momentos para a elaboração de produtos sobre a história das unidades operacionais. A Refinaria Duque de Caxias fez um vídeo celebrativo de sua história, em 1991, e, em 1993, no aniversário de 40 anos da companhia, foi feito um vídeo institucional intitulado Petrobras: nossa história é parte de sua história, nossa imagem
é também sua imagem, título por si só instigante no estudo da construção da imagem da
empresa tendo em vista o seu passado. O Serviço de Engenharia da Petrobras (Segen) elaborou um filme sobre sua história em 1994, Segen: 22 anos de conquista, e, em 1997, fez uma série de três vídeos em comemoração aos seus 25 anos de atividade. Em 1996, foi elaborado um vídeo sobre a atividade de tecnologia da companhia e, em 1998, outro sobre a atividade de exploração petrolífera no mar, na Bacia de Campos. Esses são apenas alguns exemplos que mostram como a construção de narrativas sobre o passado encontrou eco na empresa, o que se tornou ainda mais intenso nas décadas de 2000 e 2010, quando essa produção ganhou outro vulto, ainda mais variado e quantitativamente significativo. Se, nos anos 1990, foram produzidos muitos vídeos, a partir de 2000 essa
19 Proposta de Trabalho Memória do Setor Petrolífero no Brasil: a História da Petrobras. Rio de Janeiro,
1987. Cópia consultada no acervo do Programa Memória Petrobras.
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Em outros momentos falarei de apenas dois livros sobre a história da Petrobras realizados pelo CPDOC/FGV. Isso porque o primeiro livro desse projeto, publicado em 1988 sob o título Memória da
Petrobrás: Acervo de depoimentos, não trata de uma narrativa sobre a história da companhia, mas de um
catálogo dos depoimentos coletados no projeto. O livro contém biografias de cada depoente, seguidas dos respectivos sumários e fichas técnicas das entrevistas. O CPDOC/FGV também realizou a pesquisa do livro dos 50 anos da Petrobras, não considerado aqui como uma publicação do CPDOC/FGV porque a pesquisa foi contratada indiretamente, ou seja, a Petrobras contratou o serviço de alguns comunicadores, que resolveram contratar o CPDOC/FGV para a realização da pesquisa, sendo que o livro, em sua redação e produção final, não foi realizado pelo CPDOC/FGV.
49 produção conviveu com uma considerável produção de livros e com o desenvolvimento de pesquisas históricas em unidades e áreas da companhia.
Na década de 1990 foram publicados apenas três títulos; na década de 2000 foram publicados 17 livros e, na década de 2010, nos seus apenas quatro primeiros anos, a soma já alcançou 14 títulos. Essa produção pode parecer vasta, mas é preciso aproximar-se da realidade da companhia para entender melhor sua dimensão. Do ponto de vista da sede da companhia, tendo como objeto narrativo a história da Petrobras de maneira mais global, foram publicados sete títulos. O primeiro, como já dito, foi publicado em 1979 e os dois seguintes foram aqueles feitos junto com o CPDOC/FGV. Nos aniversários de 50 e 60 anos da companhia, respectivamente em 2003 e 2013, a empresa realizou publicações comemorativas. Os dois últimos livros que faltam para fechar a conta foram produzidos junto com o Museu da Pessoa, no contexto de uma contratação que teve dois momentos. O primeiro foi a execução do Projeto Memória dos Trabalhadores da Petrobras, realizado entre 2002 e 2003, em uma parceria entre a Petrobras, o Museu da Pessoa e o Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo; o projeto culminou na constituição de um acervo de história oral, na publicação dos resultados em um site e na edição de um livro de 100 mil exemplares, entregues na residência de cada um dos empregados e aposentados da Petrobras. O projeto havia sido iniciado na área de Recursos Humanos da companhia, mas migrou para a Comunicação Institucional, quando o então líder sindical envolvido no projeto, Wilson Santarosa, se tornou gerente executivo dessa área. Assim se deu o segundo momento da parceria com o Museu da Pessoa, quando o projeto teve seu fim e foi constituído o Programa Memória Petrobras, em 2004, cuja atividade se centra na gestão, ampliação e divulgação do acervo de história oral da companhia21. O programa é abrigado na Comunicação Institucional da Petrobras e existe até hoje, embora há mais de quatro anos não conte mais com o apoio do Museu da Pessoa, sendo executado pela própria Petrobras, por uma equipe interna, o que revela a importância que a questão da memória adquiriu na companhia.
Quanto aos outros livros publicados sobre a história da Petrobras, 17 foram produzidos por unidades industriais e operacionais e 11 por áreas corporativas, ou seja,
21 A constituição do Programa Memória Petrobras foi analisada por Miriam Beatriz Collares Figueiredo,
em uma dissertação de mestrado apresentada ao CPDOC/FGV, em 2009, sob o título “Da Memória dos Trabalhadores à Memória da Petrobras: a história de um projeto”. Ver FIGUEIREDO, 2009.
50 áreas de serviços e de negócios da companhia. Pode parecer um volume muito grande, mas, quando deslumbramos essa produção na dimensão da Petrobras, percebemos que não se trata de uma política da empresa, por não atingir todas as suas unidades e áreas, mas de uma prática resultante do empenho de alguns empregados da Petrobras sensíveis à questão da memória e a seus usos, embora seja inegável, naturalmente, o apoio e o aval encontrados em suas respectivas gerências. Esses projetos nascem sempre nas áreas de comunicação da empresa, e aqui é importante ter em mente que cada unidade operacional e industrial da companhia, assim como cada área corporativa da empresa possui, entre suas áreas internas, uma destinada à comunicação. Por isso, não é estranho que uma área como, por exemplo, a de Tecnologia e Informação, consiga progredir em um projeto de publicação ou de produção de um vídeo institucional sobre sua história. A área de Tecnologia e Informação, para seguir com o exemplo, conta com um setor específico para sua atividade de comunicação, constituído por jornalistas, relações públicas e comunicadores sociais, entre outros profissionais. Os livros de memória da empresa, assim como os vídeos institucionais, sites e exposições que têm a história da companhia como objeto, nascem, portanto, geralmente, como instrumentos da atividade de comunicação. A existência desses setores pulverizados na companhia é o que, de certa maneira, pode explicar a existência de projetos igualmente descentralizados, que buscam contar a história não apenas da Petrobras como um todo, mas de uma unidade industrial ou operacional em específico, ou ainda de uma área corporativa.
Essa produção local de livros de memória, independente da sede da empresa, explica-se, em parte, pela existência dessas áreas de comunicação, mas existem outros fatores. As unidades industriais da Petrobras nasceram com uma força local grande, por isso, não à toa, as unidades, assim como o nome da empresa, tinham seus nomes constituídos por siglas, como a REVAP, para indicar “Refinaria do Vale do Paraíba”, embora o nome da unidade fosse Refinaria Henrique Lages; a RPBC, que, além de fazer referência ao nome oficial Refinaria Presidente Bernardes, tem no “C” a localidade de Cubatão (nesse caso, a unidade tem o início de sua construção anterior à criação da Petrobras). A designação REDUC também se refere à localização da refinaria, o município de Duque de Caxias, embora nesse caso o nome do duque tenha mesmo batizado a refinaria. Cito esses exemplos curiosos dos nomes apenas para marcar o forte vínculo dessas unidades às localidades em que se situam e para se ter uma ideia de que, justamente por isso, não cause estranhamento, no interior da
51 companhia, uma unidade desejar não só comemorar seu aniversário, como também publicar um livro, produzir um vídeo de memória ou, ainda, contratar uma empresa de pesquisa para um levantamento documental e a sistematização de informações sobre a história da unidade operacional ou industrial.
A disseminação de iniciativas locais de projetos de memória conta também com um incentivo que emana da sede da empresa, provocado pelo Programa Memória Petrobras. O Programa possui uma rede de cerca de 40 representantes, constituída por profissionais da área de comunicação espalhados nas diversas unidades da companhia. Em 2005, o Memória Petrobras, apoiado pelo Museu da Pessoa, realizou um curso de capacitação dos profissionais de sua rede para atuar na área de memória. Desde então, vêm sendo realizados encontros, quase que anualmente, para troca de experiências e formação, com temas que passam pela história oral, memória empresarial, divulgação da história, preservação e conservação, patrimônio, museologia etc.
Esse pequeno panorama da efervescência de projetos na companhia dá certa ideia do vulto que a questão da memória tomou na Petrobras e oferece algumas pistas daquilo sobre o que pretendo me aprofundar melhor no próximo capítulo: como esses projetos se justificam e se legitimam internamente, de onde nascem e como são encaminhados. A demanda da Petrobras por produtos de memória, ao lado do mesmo fenômeno emergente em outras empresas, contribuiu para o surgimento de um mercado de memória, constituído por empresas de comunicação e por empresas especialistas no tratamento de conteúdos históricos.
Como já tive a oportunidade de observar, esse fenômeno da emergência da memória na Petrobras se deu concomitante a muitas outras iniciativas de memória em empresas. No Brasil, já nos anos 1980, verificam-se algumas iniciativas de empresas no sentido do registro e de divulgação de suas trajetórias, motivadas, muitas vezes, por datas celebrativas, como aniversários de suas fundações. Nos anos 1990 e 2000 esse quadro se intensifica e algumas empresas de grande porte passam a contar com um centro de memória ou um centro de documentação, destinados ora exclusivamente ao público interno, ora também para o externo, sempre com o objetivo de preservar, organizar e disponibilizar à consulta documentos e informações, bem como criar novos registros, em muitos casos por meio da história oral.
Diante desses produtos da Petrobras para a divulgação de seu passado surge, porém, uma questão, que gostaria de adiantar ainda nesse capítulo: como poderíamos
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classificar esses produtos, tendo como pano de fundo a discussão sobre o campo da história pública?
Na perspectiva de Huyssen, as iniciativas de rememoração, como vimos, questionam uma fé antes inabalável no progresso e no desenvolvimento, assim como dão ancoragem a um tempo de incertezas. Elas não estão mais vinculadas à emergência de Estados nacionais como outrora, no papel de constituir e consolidar nações, mas estão, na maioria das vezes, vinculadas à ideia de democratização, de lutas pelos direitos civis e pela consolidação da cidadania em seu sentido mais amplo. Para Huyssen, o homem precisa de “rememoração produtiva”, ou seja, saber o que e como deve ser lembrado, e as mídias e a cultura de massa não são incompatíveis com essa missão.
A ideia de “rememoração produtiva”, a meu ver, está em sintonia com o que os autores da história pública almejam. Jill Liddington alerta para o caráter escorregadio do termo “história pública”, visto que atualmente seu uso abrange investidas que vão desde a história oral até a história aplicada, passando pelos estudos do patrimônio, entre outros. Sua tentativa é de especificar melhor o conceito de história pública, a fim de que não seja utilizado apenas para referendar “aquilo que nós já estávamos fazendo”, mas para anunciar uma nova prática (LIDDINGTON, 2011, p. 32). Para ela, o coração da história pública está em uma melhor definição da categoria “público” e, para isso, recorre a Jürgen Habermas, para quem a pura disseminação de conteúdos para um vasto contingente não qualifica uma dada ação como “pública”. Liddington observa que, segundo Habermas, é possível atingir muitas pessoas e não contribuir com o desenvolvimento de uma prática pública, ou seja, apenas consolidar um “público massivo de consumidores culturais” (apud. LIDDINGTON, 2011, p. 45). Liddington propõe um exercício ao contrapor o termo “história pública” ao seu antônimo “história privada” e questiona se, em muitos casos, os trabalhos encomendados a historiadores, por empresas privadas ou por famílias interessadas em disseminar sua história genealógica, não seriam, na verdade, mais iniciativas de ordem “privada” do que necessariamente “pública”. Assim, o que garante a qualidade de “público” a um trabalho que divulga conteúdos históricos, no entendimento de Liddington, seria sua atenção à recepção do que é comunicado, de forma a permitir efetivamente o “acesso público ao passado” (LIDDINGTON, 2011, p. 47).
53 Como vemos, tanto Huyssen quanto Liddington estão preocupados com a maneira como o passado emerge na atualidade. Existe, todavia, uma diferença muito tênue entre ambos, mas que, a meu ver, deve ser evidenciada. No meu entendimento, a ideia de rememoração de Huyssen está mais ligada ao campo da memória, às leituras que nós fazemos do passado e ao significado que atribuímos a ele, bem como ao impacto que tal posicionamento exerce na nossa concepção de futuro, enquanto a história pública busca estar mais vinculada ao campo da história, mais próxima da educação histórica, da transmissão ou adequação às interpretações em voga na academia. Contudo, independente dos objetivos daqueles que trabalham na confecção de produtos de comunicação cujo tema é o passado – divulgar conhecimento histórico ou dar significados à história –, o produto surge sempre como resposta a uma demanda por memória, num contexto complexo, como vimos nas leituras de Hartog e Huyssen. Um livro sobre algum tema da história, escrito para o grande público e comercializado como best-seller exerce, entre outras possíveis funções, um papel enquanto partícipe na construção da memória social. As narrativas históricas, quando inseridas no mercado da memória, distanciam-se de sua função acadêmica e passam a desempenhar uma função no âmbito das identidades e do imaginário coletivo e, por isso, parece-me justa a preocupação dos autores da história pública com as formas comunicacionais. Liddington afirma que “o passado popular [aquele remetido ao grande público] é apresentado como se estivesse logo ali, dobrando-se a esquina, a um mero estalar de dedos” (LIDDINGTON, 2011, p.32-33), o que poderia gerar anacronismos e uso indevido da história. Na mesma linha, Albieri observa que os produtos de educação histórica geralmente são entendidos como meios de divulgação de um conhecimento histórico “objetivo, cumulativo, que possa ser controlado e possuído por alguém”, como se existisse um conhecimento guardião de uma “verdade objetiva e inequívoca” (ALBIERI, 2011, p. 22). Para Albieri, costuma-se negligenciar alguns cuidados, o que pode gerar confusão e comprometer o entendimento do grande público. (ALBIERI, 2011, p.22)
Por isso, Albieri defende a participação do historiador na elaboração dos trabalhos de fundo histórico. No seu entendimento, pelo fato de o conhecimento