1. INTRODUCTION
1.1 Coeliac disease
1.1.4 Signs and symptoms
Ao enfocar a temática da surdez, Fernandes (1990) privilegiou os aspectos linguísticos e cognitivos para fundamentar o papel relevante que a linguagem pode exercer no desenvolvimento de possíveis habilidades do surdo, assim como as consequências que a ausência da linguagem pode acarretar ao surdo.
Podemos perceber, ao aludir sobre essa temática, que conceituá-la não é uma tarefa fácil, visto que ela é constituída por várias representações, as quais sofreram mudanças e se modificaram no transcurso na história. Entre elas estão as transformações de concepções sobre o sujeito surdo, aludido como deficiente e, atualmente, como diferente, as descrições em torno da sua língua, as definições sobre as políticas educacionais, etc. Desse modo, a concepção de surdez está vinculada à representação que se tem de tal temática.
Por muito tempo, a surdez foi concebida a partir do modelo clínico, ou seja, foi vista como deficiência e, portanto, necessitando de medicalização, de tratamento, visando à normalidade do surdo. Para esse tipo de concepção, a surdez é definida a partir do déficit auditivo e da classificação do grau de surdez em leve, moderado e profundo.
Atualmente, o conceito de surdez é visto a partir da concepção sócioantropológica, já que, a partir dessa concepção, a surdez é vista como “uma experiência visual, ou seja, como uma maneira singular de construir a realidade histórica, política e social, como uma forma distinta de conceber (de “VER”) o mundo” (QUADROS, 2003, p. 8).
A esse respeito, compreendemos que Fernandes (1990, p. 14), dada a época de sua pesquisa, ao conceber “a surdez como um tipo de deficiência grave”, de
modo a interferir no comportamento do homem e afetar suas faculdades cognitivas, ainda possuía a concepção de surdez vinculada ao modelo clínico-terapêutico. Isto é, a concepção de surdez ali ainda estava vinculada à representação da surdez como deficiência, considerada uma patologia que precisava ser tratada. Desse modo, a surdez era vista como um problema para o surdo, portanto o surdo precisava ser reabilitado para uma possível aproximação da normalidade.
Conforme vimos discutindo em nosso trabalho, as concepções sobre o surdo e a surdez sofreram mudanças no decorrer da história da educação desse indivíduo. Nesse sentido, a concepção de surdez vinculada a essa temática atualmente não é mais a de deficiente, dado o reconhecimento da língua de sinais como sendo a primeira língua dos surdos e da emergência de uma abordagem de ensino que viesse ao encontro das necessidades dos surdos: o bilinguísmo.
A partir do bilinguismo, os surdos parecem ser vistos como indivíduos diferentes, já que, para esta abordagem de ensino, os surdos são indivíduos que possuem especificidades singulares e especificidades que os caracterizam como indivíduos diferentes. O conceito de diferença ao qual nos referimos é aquele teorizado por Skliar (2005), pois o referido autor a concebe não como um espaço retórico, mas como uma diferença que possui significação política de modo a ser construída histórica e socialmente.
A surdez, segundo Skliar (2005) é uma diferença na medida em que é efeito de conflitos sociais, ancorada em práticas de significação e de representações compartilhadas entre os surdos.
Sendo assim, entendemos que o autor compreende a surdez a partir do seu reconhecimento linguístico e cultural, de modo que o surdo não deva ser visto a partir de sua condição biológica, mas a partir de sua condição humana. Logo, o surdo é diferente porque possui outra língua e outra cultura, e não pelo fato de não ouvir.
Isso posto, teceremos agora algumas discussões no que diz respeito aos graus da perda auditiva e aos tipos de surdez. Ressaltamos que tal discussão está embasada mais no caráter de informar e situar o aspecto biológico da surdez, do que classificar tais aspectos como fatores determinantes para que o surdo se constitua sujeito no espaço de sala de aula. Mesmo porque, alguns autores
acreditam que o grau da perda auditiva não deve ser considerado uma variável interveniente nas possibilidades de sucesso escolar dos surdos.
A esse respeito, Botelho (2005, p. 13) ressaltou que “quando se concebe a surdez como uma experiência visual, a classificação das perdas auditivas segundo o grau não é fator determinante dos resultados”. Nesse sentido, a nosso ver, a autora não considera a relevância dos graus da perda auditiva na construção da linguagem do surdo, visto que há surdos com perdas auditivas leves que possuem as mesmas dificuldades que os surdos com perdas auditivas profundas.
Sendo assim, para a referida autora, o grau da perda auditiva não deve ser considerado um aspecto relevante na educação dos surdos e as pessoas que dão relevância aos graus da perda auditiva são adeptos aos modelos clínicos para os surdos.
Ressaltamos, portanto, que não temos o propósito neste trabalho de discutir a relevância ou não dos graus da perda auditiva, mas sim de corroborar e discutir com mais detalhes essa questão. Nossa intenção com a descrição de tal aspecto, conforme já mencionamos, é a de informar o aspecto biológico da surdez, o qual passará a ser descrito neste momento com base nos estudos de Fernandes (1990).
Cabe-nos ressaltar que são inúmeros os fatores pelos quais o indivíduo pode tornar-se surdo, podendo ocasionar uma perda auditiva classificada conforme o grau de comprometimento quanto à intensidade de som que o indivíduo consegue ouvir, a saber: perda auditiva leve, perda auditiva moderada, perda auditiva moderadamente severa, perda auditiva severa e perda auditiva profunda.
Os graus de perda auditiva são medidos em decibéis, doravante (dB), e são classificados conforme Fernandes (1990) da seguinte forma:
a) os indivíduos normais possuem desempenho de 10 a 26 dB;
b) os indivíduos com perda auditiva leve possuem desempenho de 26 a 40
dB;
c) os indivíduos com perda auditiva moderada possuem desempenho de
41 a 55 dB;
d) os indivíduos com perda auditiva moderadamente severa possuem
e) os indivíduos com perda auditiva severa possuem desempenho de 71 a
90 dB;
f) e por fim, os indivíduos com perda auditiva profunda possuem
desempenho acima de 90 dB.
Notamos, portanto, que quanto maior o número de decibéis necessários para que se possa ouvir, maior será a perda auditiva.
A respeito dos tipos de surdez, há ainda dois tipos, a saber: surdez congênita e surdez adquirida. Para descrever os tipos de surdez, baseamo-nos especificamente nas ponderações de Fernandes (1990).
A surdez congênita refere-se a fatores de origem hereditária, como síndromes ou fator familiar, e a fatores não hereditários adquiridos por meio de alterações endócrinas, bacterianas, drogas, medicamentos (anestesias prolongadas), a rubéola materna (meio mais comum e de maior ocorrência durante a gestação) e, ainda, por meio de viroses.
A surdez adquirida, segundo Fernandes (1990), pode ser adquirida por insuficiência de oxigenação cerebral, por problemas durante o parto, por infecções, por febres eruptivas, por viroses, por meningite, por sífilis congênita, por traumatismo craniano e por intoxicação com medicamentos.
Desse modo, compreendemos que a questão da surdez é heterogênea em seus modos de manifestação. Portanto, ao discutir esse tema, é preciso levar em consideração o tipo de surdez e a idade que o indivíduo foi acometido por ela. Isto é, é necessário levar em consideração se a surdez foi congênita ou adquirida antes do desenvolvimento da linguagem e da fala, ou se a surdez foi adquirida após aquisição da linguagem e da fala, pois estes fatores correspondem a aspectos relevantes para o desenvolvimento do surdo.
Cabe-nos aqui destacar que nossa pesquisa refere-se a aspectos relacionados aos surdos com surdez profunda, no qual um surdo adquiriu a surdez após algum tempo e o outro é surdo congênito, sendo ambos filhos de pais ouvintes. A nosso ver, estes aspetos biológicos revelam uma realidade mais problemática nos aspectos linguísticos e cognitivos do surdo, aspectos estes que serão discutidos na seção a seguir.