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2.4.1 Abordagem Oralista
O Oralismo, ou abordagem de ensino oralista, tem por objetivo a integração do surdo na comunidade de ouvintes, proporcionando-lhe condições para que ele possa se desenvolver por meio da língua oral. A oralidade é o objetivo principal dessa abordagem, estando acima inclusive da escolarização e das relações pessoais.
Conforme ponderou Goldfeld (2002, p. 93):
O oralismo percebe a surdez como deficiência que deve ser minimizada pela estimulação auditiva. Essa estimulação possibilitaria a aprendizagem da língua portuguesa e levaria a criança surda a integrar-se na comunidade ouvinte e desenvolver uma personalidade como a de um ouvinte.
Desse modo, compreendemos que o oralismo tenta realizar uma reabilitação do surdo, na intenção de torná-lo normal, negando assim, sua condição de surdo.
Segundo essa abordagem, o surdo deve se submeter a um processo de reabilitação o mais cedo possível, com o objetivo de aproveitar os resíduos auditivos possuídos por esses indivíduos, uma vez que os defensores do oralismo sentem receio de que o surdo possa utilizar a língua de sinais. Para os defensores dessa metodologia, a língua de sinais não é uma língua e, além disso, eles acreditam que a língua de sinais pode prejudicar o aprendizado da língua oral.
Conforme pudemos observar na história da educação dos surdos, a língua oral vislumbrada na abordagem oralista, não consegue abarcar as necessidades dos surdos, visto que a partir do momento em que a língua de sinais passa a ser reconhecida e utilizada pelos surdos, estes conseguem maior desenvolvimento intelectual.
A nosso ver, o problema dessa abordagem de ensino consiste no conceito produzido de modo simplista da linguagem. Para esta abordagem, a língua possui apenas a função comunicativa e isso não é garantia do desenvolvimento pleno do surdo e muito menos da sua integração com os ouvintes, pois o domínio da língua oral não permite que o surdo se equipare com o ouvinte.
A esse respeito, Goldfeld (2002, p. 94) afirma que:
Além das dificuldades linguísticas propriamente ditas, sem a internalização de um língua natural, a criança surda apresenta também inúmeras dificuldades cognitivas, como na evolução da atenção involuntária, para a atenção voluntária no desenvolvimento da memória mediada, da abstração, dedução e outras funções mentais superiores.
Desse modo, entendemos que os processos cognitivos determinados pela linguagem não são considerados pelos oralistas, pois, para esta abordagem, apenas o canal oral auditivo possui eficácia para a transmissão de conteúdos. Sendo assim, haveria surdos com dificuldades cognitivas e sociais, pois a língua oral possui poucos resultados em relação à linguagem e cognição, não oferecendo o suporte necessário para o desenvolvimento de suas habilidades e competências cognitivas.
2.4.2 A Comunicação Total
A Comunicação Total é uma abordagem de ensino que surgiu na década de 80, após a decadência do oralismo. É uma abordagem que não se preocupa com o uso exclusivo da língua oral, mas “acredita que os aspectos cognitivos, emocionais e sociais não devem ser deixados de lado” (GOLDFELD, 2002, p. 38). Por isso, se opõe ao oralismo na medida em que, de acordo com os adeptos da Comunicação Total, o desenvolvimento do surdo não é garantido apenas pelo aprendizado da língua oral.
Para esta abordagem,
o surdo não é visto apenas como um portador de uma patologia, de uma ordem médica, que deveria ser eliminada, mas sim como uma pessoa, e a surdez é vista como “uma marca que repercute mas relações sociais e no desenvolvimento afetivo e cognitivo dessa pessoa. (CICCONE, 1990, apud, GOLDFELD, 2002, p. 38-39).
Portanto, na expectativa de atingir seus objetivos, a Comunicação Total defende o uso de qualquer recurso linguístico, seja a língua de sinais, seja a língua oral, ou outros códigos manuais criados para esse fim, de modo a considerar os aspectos sociais, emocionais e cognitivos do surdo.
A nosso ver, a Comunicação Total, embora tenha representado um eficácia maior em relação ao oralismo, uma vez que ampliou a visão do surdo e da surdez, não logrou êxito, por não priorizar nenhum tipo de língua.
Assim, acreditamos que o desenvolvimento cognitivo do surdo foi prejudicado pela Comunicação Total. Nesse sentido, coadunamos a ideia de Goldfeld (2002, p. 102) quando afirma que “as línguas possuem diversas características importantes que as diferenciam de outros códigos, e sua internalização é essencial para o desenvolvimento cognitivo”. Dentre outras características das línguas é possível destacar: a arbitrariedade do signo, a dupla articulação e produto cultural.
Desse modo, a partir do momento em que a Comunicação Total deixa de levar em consideração a relevância da aquisição de uma língua pelo surdo, essas características não são consideradas. Goldfeld (2002) afirma ainda que com a falta desses elementos viabilizados pela aquisição de uma língua dificulta ao surdo praticar uma comunicação complexa e, além disso, não serve de instrumento do pensamento e de internalização de uma cultura, aspectos determinantes para a formação subjetiva do surdo.
Nessa perspectiva, acreditamos que a Comunicação Total teve sua relevância na educação dos surdos, embora, assim como o oralismo, não logrou êxito, pois teve suas limitações. Sendo assim, surge concomitamente à Comunicação total a abordagem bilíngue, a qual passaremos a discutir a seguir.
2.4.3 O Bilinguismo
Como sugere o próprio nome, o bilinguismo parte do pressuposto de que o surdo deva ser bilíngue, isto é, que ele tenha a língua de sinais como língua materna, porque a língua de sinais é considerada a língua natural dos surdos. Em contrapartida, a língua oral, no nosso caso a Língua Portuguesa, nessa perspectiva é a segunda língua do surdo.
Desse modo, compreendemos que o bilinguísmo é uma abordagem que considera o surdo de um modo bastante diferente das outras abordagens, visto que
nesse contexto o surdo deve aceitar sua condição de surdez e não precisa imitar ou tentar ser igual aos ouvintes.
Conforme já mencionado, o bilinguismo surgiu concomitantemente com a Comunicação Total, na década de 80. Essas abordagens se diferenciam muito, pois, enquanto na Comunicação Total não se valorizava a aquisição de nenhuma língua e o surdo se valia de qualquer instrumento linguístico para se comunicar, no bilinguismo o surdo utiliza a língua de sinais para se interagir e a Língua Portuguesa para registrar essa comunicação.
Dessa forma, compreendemos que o bilinguismo propõe uma nova discussão na área da surdez, na medida em que ele defende a primazia da língua de sinais sobre a Língua Portuguesa. E um dos argumentos sustentados pelos autores adeptos dessa abordagem de ensino é o de que “há um período crucial para aquisição da linguagem” (SANTANA, 2007, p. 166). Nesse sentido, é necessário que o surdo aprenda a língua de sinais o quanto antes.
No entanto, conforme pondera Fernandes (2008, p. 32), “as propostas bilíngues estão estruturadas muito mais no sentido de garantir que o ensino de português mantenha-se como a língua de acesso ao conhecimento”. Nesse sentido, entendemos que a língua de sinais parece estar sendo reconhecida, mas, por outro lado, é apenas coadjuvante no processo de ensino e aprendizagem, conforme pondera Fernandes (2008), enquanto o português mantém-se como a língua que tem o papel mais importante na educação dos surdos.
Sendo assim, acreditamos que a cognição dos surdos possa ser prejudicada, pois os estudos sobre a educação desses indivíduos estabelecem que a língua de sinais é aquela que promove, com mais facilidade, o desenvolvimento cognitivo do surdo. Talvez por isso, Goldfeld (2002, p. 114) afirmou que “a melhor solução encontrada até o momento para a educação de crianças surdas é o bilinguismo”.
Entretanto, é preciso levar em consideração que, para assegurar um melhor desenvolvimento cognitivo e linguístico dos surdos, é preciso que os surdos tenham convivência com a comunidade que domina a língua de sinais. O que, na maioria das vezes, não acontece, pois os filhos de pais ouvintes, em sua maioria, não possuem essa convivência com a língua de sinais em casa.
Na escola, embora denominada “escola inclusiva” de modalidade regular, mesmo trabalhando na perspectiva da abordagem bilíngue, o aluno surdo comunica- se apenas com o intérprete, visto que o professor e colegas de sala não são usuários da língua de sinais.
Sendo assim, entendemos que o surdo não possui convivência com seus pares nem em casa nem na escola, sendo obrigado a utilizar a língua majoritária: a Língua Portuguesa. Por isso, é comum ouvirmos dizer que o bilingusimo é uma utilização camuflada do oralismo, visto que o surdo recebe educação de acordo com as concepções dos ouvintes.
Isso posto, passaremos à discussão da segunda parte do nosso capítulo, levando em conta os apontamentos produzidos por Milner (1983) acerca dos os atos de nomeação.