Nesta seção, apresentamos algumas informações pertinentes ao material de análise da pesquisa, dado o papel dos instrumentos coleta utilizados no âmbito deste trabalho. A partir destes instrumentos, desdobramos a composição do seguinte material: transcrições das aulas, transcrições das entrevistas e anotações de campo. Cumpre antecipar que as anotações de campo serão mobilizadas, quando pertinente e se necessário, na medida em que for relevante a apresentação de um ou de outro aspecto significativo para as discussões consideradas.
Desse modo, passemos à descrição da composição de cada material mencionado anteriormente:
1) das transcrições das entrevistas: este material de análise refere-se às entrevistas que realizamos com os alunos surdos, com os intérpretes e com os professores de Língua Portuguesa das respectivas séries mencionadas anteriormente. Vale ressaltar que, para realizarmos as entrevistas, elaboramos previamente um roteiro, uma vez que tínhamos a pretensão de conduzir a direcionalidade das questões que seriam extremamente relevantes para o trabalho e que precisavam ser investigadas. Portanto, tendo em vista a necessidade de entrevistarmos cada grupo específico, foi preciso elaborar perguntas de natureza diferenciadas.
Cumpre aqui destacar que, embora partíssemos de um roteiro pré-elaborado, houve momentos, nas entrevistas, em que a emergência de outras perguntas se fizeram necessárias para que o objetivo da entrevista fosse estabelecido. Isto é, em alguns momentos elaboramos outras perguntas para completar a resposta pretendida e em outros as perguntas foram reelaboradas, uma vez que os participantes da pesquisa não respondiam ao que lhes fora perguntado.
Nessa perspectiva, pautamo-nos em um roteiro de pesquisa que pudesse nos orientar quando do momento de obter informações que fossem relevantes aos nossos objetivos, à nossa pergunta de pesquisa, bem como à nossa hipótese de trabalho.
Nesse sentido, em virtude do distanciamento da nossa pergunta de pesquisa e da hipótese, julgamos necessário redizê-las neste momento: nossa questão de pesquisa consiste em investigarmos como o surdo se constitui ou é constituído como aluno na sala de aula de Língua Portuguesa. Para tanto, aventamos a hipótese de que os alunos surdos da escola pesquisada parecem sofrer efeitos discursivos de rarefação subjetiva, de modo a não promover uma relação entre eles e o conhecimento; neste caso com a Língua Portuguesa. Em decorrência disso, essa rarefação subjetiva poderia inibir a subjetivação do surdo como aluno, contrariando o processo dito inclusivo.
2) das transcrições das aulas: este material de análise se compôs a partir das aulas de Língua Portuguesa, observadas e gravadas em vídeo, na primeira e terceira séries do ensino médio. Essas aulas dizem respeito aos seguintes eixos: literatura, gramática e produção de texto. Assim, houve uma prevalência, na primeira série, de conteúdos referentes à gramática e, na terceira série, de conteúdos referentes à literatura.
A escolha das aulas da disciplina de Língua Portuguesa como momento para coletarmos o material de pesquisa se prendeu a alguns pontos: por ali parece haver um acirramento da relação Libras-Língua Portuguesa, dado o papel do intérprete ao tentar mediar, via Libras, o acesso ao conhecimento produzido em Língua Portuguesa, o que, na verdade, refere-se à tensão acentuada entre a (im)possibilidade de recobrimento da Língua Portuguesa pela Libras; e porque ali poderia se deflagrar, talvez com mais ênfase, a emergência de um ou de outro aspecto subjetivo que aponte para o modo de relação entre sujeito e língua. Com isso, em tese, poderia haver a emergência de certos aspectos subjetivos, os quais estariam intimamente relacionados com o ponto subjetivado na língua pelo sujeito - implicada ali uma relação de constituição.
Isso posto, de agora em diante passamos a explicitar o modo como articulamos a natureza e a estruturação dos roteiros das entrevistas. Vale ressaltar que os roteiros das entrevistas foram colocados antes da nossa reflexão sobre a natureza e os objetivos das referidas perguntas para facilitar a localização das mesmas.
O roteiro da entrevista elaborado para os intérpretes foi estruturado da seguinte maneira:
Quadro 1: Roteiro das entrevistas aplicadas aos intérpretes
1) Como, quando e por quê você aprendeu Libras? 2) Há quanto tempo você é interprete de Libras?
3) O que você pensa sobre a inclusão de alunos surdos conforme prevê as leis e documentos oficiais, ou seja, que a educação desses alunos ocorra em sala de aula regular onde o conhecimento é mediado pelo professor e pelo intérprete?
4) Mas você acha que a inclusão ta acontecendo de acordo com o que a lei prevê, os documentos?
5) Você consegue interpretar fluentemente os conteúdos disciplinares em Libras? Quanto você acha que consegue interpretar do que é dito pelo professor?
6) Em sua opinião, o que dificulta a interpretação na sala de aula e por quê?
7) Como é sua relação com o surdo? Ele colabora no processo de ensino e aprendizagem? Ele cumpre sua função de aluno?
8) Quanto ao professor regente, como é o trabalho e a relação entre vocês? Há troca de experiências, planejamento em conjunto das aulas? Explique?
9) Qual é o nível de aprendizagem do aluno surdo na sala de aula de Português? Em porcentagem. Quanto você acha que o aluno consegue aprender do que é ensinado pelo professor e intermediado pelo intérprete? Quais são as causas e as conseqüências desse nível de aprendizagem?
10) Na sala de aula, há espaço cedido pelo professor para que o aluno surdo manifeste sua opinião, suas dúvidas, suas queixas?
11) Quanto ao professor e ao aluno surdo, como eles se relacionam: O professor sabe Libras? Como eles se comunicam?
12) Como é a interação entre os alunos ouvintes e o aluno surdo? Há laços de afetividade entre eles?
Fonte: a autora
Vale ressaltar que as perguntas 1, 2, 5 e 6 dizem respeito à relação dos intérpretes com a Libras. Aqui pretendíamos investigar o motivo que levou o intérprete a aprender Libras, o tempo de interpretação do intérprete e a fluência na interpretação em Libras.
Com o objetivo de conhecermos a opinião dos intérpretes em relação ao processo de inclusão na escola regular, isto é, ao modo como a inclusão tem sido efetivada na escola regular, elaboramos as questões de número 3 e 4.
Dando sequência à nossa reflexão, as questões 7 e 8 e 12 referem-se ao relacionamento dos intérpretes com os alunos surdos, com os professores e com os alunos ouvintes. A nosso ver, é relevante para o presente trabalho entender como os participantes da pesquisa se relacionavam, pois é a partir dessa relação em sala de aula que parece estabelecer a oportunidade de relação do aluno surdo com o conhecimento.
Prosseguindo, as questões 9, 10 e 11 dizem respeito à relação do aluno surdo com o conhecimento. A partir dessas questões, vislumbramos conhecer qual a imagem que os intérpretes produziam a respeito do aluno, bem como acerca da questão da aprendizagem, o espaço cedido em sala para que o aluno surdo manifeste suas dificuldades, o nível de aprendizagem e as consequências que esse nível de aprendizagem podia acarretar ao aluno surdo.
O roteiro de perguntas elaborado para os alunos surdos se estruturou desta maneira:
Quadro 2: Roteiro das entrevistas aplicadas aos alunos surdos
1) Você gosta da escola onde está estudando? Por quê 2) Você sabe Libras?
3) Você acha importante saber Libras? Por quê?
4) Como é seu relacionamento com os seus colegas ouvintes, com seu professor de Língua Portuguesa e com seu intérprete?
5) Seu professor de Língua Portuguesa olha para você, te faz perguntas quando está explicando a matéria? Comente.
6) Você acha difícil ou fácil aprender Português? Por quê?
7) Você acha que o professor deveria ficar mais tempo te explicando a matéria pelo fato de você ser surdo? Por quê?
8) Você compreende o que os livros utilizados na aula de Português dizem? Você consegue ler sem a ajuda do intérprete?
9) Qual a sua maior dificuldade na aula de Português? Por que você acha que é essa dificuldade? Por que você acha que é mais difícil?
10) Você acha que os materiais utilizados na aula ajudam você aprender com mais facilidade os conteúdos? Os materiais usados: livros, cartazes, uma música, ajudam você
aprender com mais facilidade?
11) Seu professor de Português sabe Libras? Você acha que saber Libras ajuda o professor ensinar o surdo? Por quê?
12) Como é o seu intérprete? Bom? Ruim? Sabe Libras bem? 13) O que você entende por escola inclusiva?
14) Você acha que a escola inclusiva ajuda o surdo aprender mai, ou menos? Por quê? 15) Como é a aula no dia em que o intérprete falta? Como é que é?
16) Como deveria ser a escola em sua opinião, para que os alunos aprendessem de verdade?
Fonte: a autora
A questão 1 foi elaborada com o propósito de podermos conhecer qual era a relação do aluno surdo com a escola regular inclusiva. Já as questões 2 e 3 nos oportunizaram saber qual a relação que o aluno surdo mantinha com a Libras, visto que o conhecimento em sala de aula é mediado por meio dessa língua. Portanto, saber se o aluno domina a Líbras é uma questão relevante em nosso trabalho.
Na intenção de conhecermos a forma de relacionamento estabelecida entre os alunos surdos/professoras/intérpretes/e alunos ouvintes, elaboramos a questão de número 4. Conforme já mencionamos anteriormente, é importante para nosso trabalho conhecermos o modo de relacionamento que se dá entre os participantes envolvidos no processo de inclusão. Cumpre aqui ressaltar que, dado o nosso interesse em analisar, em termos discursivos, a rede de relação subjetiva que se estabelece entre professoras/aluno surdos/intérpretes, há algumas perguntas comuns nos três roteiros de entrevistas.
As questões 5 e 7 dizem respeito ao modo de endereçamento das professoras ao aluno surdo e ainda à relação que este aluno possui com a Língua
Portuguesa. Essas questões, a nosso ver, nos propiciaram investigar qual era a posição discursiva assumida pelas professoras frente à educação desses alunos.
Com o objetivo de investigarmos a relação que o aluno surdo estabelecia com a Língua Portuguesa, elaboramos as questões de número 6 e 9, o que foi muito relevante para nosso trabalho, visto que é a partir dessa relação que o aluno se constituirá ou não na sala de aula via mediação pela Libras e pela interpretação para a Língua Portuguesa.
As questões 8 e 10 se referem aos recursos utilizados pelas professoras nas aulas de Língua Portuguesa. Aqui, pretendíamos investigar o nível de satisfação do aluno surdo em relação à utilização desses recursos e ainda: se ele tinha noção de quais recursos poderiam facilitar sua aprendizagem.
A questão de número 11 concerne à relação das professoras com a Libras. Assim, ansiávamos saber, a partir dessa pergunta, qual era a relação das professoras de Língua Portuguesa com a Libras e se, caso as professoras soubessem Libras, isso facilitaria a aprendizagem do aluno.
Interessados em saber da concepção que o aluno surdo produziu a respeito do intérprete, elaboramos as questões de número 12 e 15. Desse modo, propusemo-nos a investigar qual era a imagem que o aluno surdo produziu a respeito do intérprete: se ele era bom, se dominava Libras, enfim, se ele era um colaborador no processo de ensino e aprendizagem do aluno surdo na aula de Língua Portuguesa, e quais as consequências da ausência desse colaborador para as aulas de Língua Portuguesa.
As questões 13, 14 e 16 foram norteadas a partir da tentativa de compreender a concepção que o aluno surdo construiu sobre a escola inclusiva, pois percebemos ser importante saber se o aluno surdo conhece o processo de inclusão no qual ele está inserido.
Para finalizar a composição dos roteiros de entrevistas, a seguir textualizaremos o modo como se configurou o roteiro destinado aos professores.
1) Você recebeu alguma orientação, alguma capacitação para atender as especificidades que a educação dos alunos requer?
2) Você conhece e domina a língua de sinais? Como se dá a comunicação entre você e seu aluno surdo na sala de aula?
3) Na sua prática diária, como você trabalha na sala de aula, onde há alunos ouvintes e surdos, você utiliza algum recurso específico na disciplina em que leciona? Faz alguma adaptação de conteúdos, considerando as necessidades do aluno surdo? 4) No momento da explicação do conteúdo, como é a participação do aluno surdo na
aula?
5) O que é inclusão para você?
6) Nessa escola, há sala de recursos? Ou, o aluno, ele vem no contra-turno? Ele recebe aulas que não estejam no horário normal de estudo dele?
7) Qual sua maior dificuldade ao trabalhar com alunos surdos? Você acha que eles têm necessidade de mais explicação, quando está explicando o conteúdo, é... devido à surdez?
8) Você acha possível que os alunos surdos aprendam em salas inclusivas conforme prevê as políticas da inclusão? Por quê?
9) Em sua opinião, qual seria a melhor maneira de proporcionar aprendizagem de qualidade aos alunos com surdez?
10) Você percebe que o aluno surdo colabora no processo de ensino e aprendizagem? De que forma?
11) Que conhecimentos o professor deve ter para poder ensinar aos alunos com surdez? 12) Você considera a Libras como um fator importante para o ensino e aprendizagem
dos alunos surdos?
13) Que tipo de avaliação você utiliza com o aluno surdo? Qual o nível de
aproveitamento desse aluno? A que você atribui esse nível de aproveitamento escolar?
14) Como é o relacionamento entre você, os alunos ouvintes e o aluno surdo? Há interação entre eles, alunos ouvintes e aluno surdo?
do aluno surdo? Ele é capacitado? Exerce bem sua função? Domina a Libras? 16) Que sugestões você daria para as escolas no que diz respeito à educação de
surdos? Que metas elas teriam que estar traçando para estar proporcionando uma melhor educação para esses alunos?
Fonte: a autora
A primeira e segunda perguntas deste roteiro de entrevista nos proporcionaram uma reflexão sobre a formação e a capacitação desses profissionais, pois tínhamos o interesse em conhecer a natureza de formação a que as professoras haviam se submetido para trabalhar com o aluno surdo. Já a questão de número 3 diz respeito ao fato de investigarmos quais os recursos eram utilizados pelas professoras para trabalhar com o aluno surdo, pois tínhamos o interesse em saber se as referidas professoras conheciam as necessidades específicas deste aluno.
As questões 4, e 10 concernem à participação do aluno surdo no processo de ensino e aprendizagem, uma vez que pretendíamos saber o seu nível de interesse e a sua colaboração na sala de aula, abordando ainda qual era a imagem que as professoras tinham do aluno surdo.
Na expectativa de conhecer se o aluno surdo recebia tratamento diferenciado em outro turno ou em uma sala de recursos específicos devido à sua condição de surdo, elaboramos a questão número 6.
A partir da questão de número 5, tivemos a oportunidade de conhecer como as professoras em questão concebiam a inclusão, pois, a nosso ver, para lidar com os alunos ditos “especiais”, é relevante que o profissional que lida com essa questão conheça o mínimo que seja da proposta que veicula essa inclusão.
A questão 7 nos propiciou investigar qual era a maior dificuldade dessasg professoras em questão ao trabalhar com alunos surdos. Tínhamos a pretensão de, com essa pergunta, conhecer as dificuldades encontradas pelas professoras para desenvolver seu trabalho com esse tipo de aluno
Na questão 8, perguntamos se as professoras achavam possível haver aprendizagem por parte do aluno surdo em uma escola regular. Aqui, gostaríamos de saber o grau de confiabilidade atribuído pelas professoras à escola regular inclusiva, e ainda perguntamos, a partir da questão 9, a opinião que elas têm quanto ao melhor espaço para promover a aprendizagem ao aluno surdo.
Por meio da questão 11, buscamos entender a natureza dos conhecimentos específicos que as professoras devem ter para ensinar o aluno surdo. Nesse sentido, elaboramos a questão 12 no intuito de verificar se as professoras tinham conhecimento acerca da perspectiva de que a Libras é um fator relevante para ensinar o surdo.
A questão 13 diz respeito aos modos de avaliação produzidos pelas professoras frente à necessidade pedagógica de submeter o aluno surdo à avaliação. Tínhamos o propósito de saber se esse aluno recebia tratamento diferenciado nesse quesito, dadas as suas especificidades.
A questão 14 se refere à relação de endereçamento estabelecida entre professoras/alunos ouvintes/aluno surdos, de modo que queríamos entender se a questão linguística (hiância entre Libras e Língua Portuguesa) imprimia alguma especificidade nessa relação.
A questão 15 nos permitiu apreender o modo como as professoras veem a relevância do intérprete na sala de aula. Desse modo, compreendermos qual o papel que as professoras atribuíam ao intérprete e se este estava capacitado para a função que lhe cabia. E, concluindo nossa reflexão, a última pergunta deste roteiro de entrevista visava saber se a professora conhecia algumas metas que a escola poderia traçar para poder melhor atender os alunos surdos.
Isso posto, passaremos agora à seleção das sequências discursivas a serem analisadas no próximo capítulo