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3. RESULTS

3.5 Symptoms (IBS-SSS)

3.5.3 Severity of IBS

O trabalho da linguista Jacqueline Authier Revuz filia-se ao campo da enunciação, de tal modo que ela promove, em seus trabalhos, uma visada neo- estruturalista da linguagem. Por assim dizer, a referida autora parte de uma concepção de língua fortemente marcada por uma heterogeneidade, de modo a dimensionar a exterioridade linguística, sem, contudo, deixar diluir aí a ordem própria da língua.

Portanto, levando em consideração que a teoria da enunciação delineada por Authier-Revuz é marcada por uma heterogeneidade teórica, percebemos que o chamamento a exteriores teóricos se mostra bastante relevante para o objetivo a que se propõe a linguísta em questão, qual seja: mostrar a heterogeneidade que funda e que marca o processo enunciativo. Para tanto, ela articula teórico epistemologicamente alguns conceitos referentes aos trabalhos de Saussure (1916), de Benveniste (1969,1970) de Freud (1964,1965) de Lacan (1964,1965), de Bakhtin (1981) e do próprio Pêcheux (1975,1983).

Sendo assim, ilustraremos, brevemente, a partir deste ponto, os possíveis pontos de articulações dos trabalhos de Authier-Revuz (1998,2004) com os de Saussure (1916) e os de Benveniste (1969,1970). E, posteriormente, os pontos de

sua aproximação com o trabalho de Michel Pêcheux (1983). Isso porque, interessar- nos-á neste trabalho pensar na heterogeneidade radical que afeta o sujeito ao dizer, o que acaba por deflagrar, via sequencialidade linguística, os sentidos constitutivos ao sujeito do dizer. É a isso que nos remeteremos no nosso trabalho de análise.

No que se refere à aproximação de Authier-Revuz (1981) às considerações conceituais dos trabalhos desenvolvidos por Bakhtin e pela Psicanálise freudo- lacaniana, ressaltamos que adiaremos nossa discussão a esse respeito para o momento em que formos tratar da heterogeneidade constitutiva, uma vez que é ali que se configura esta articulação teórica.

Antes, porém, de destacar os pontos de articulação entre os trabalhos de Authier-Revuz, desenvolvidos a partir dos trabalhos de Saussure (1916) e de Benveniste (1969,1970), é pertinente enfatizar que o trabalho da autora privilegiou os estudos sobre a questão da metaenunciação, via, por exemplo, o fato linguístico da modalidade autonímica. Em outras palavras, trata-se de analisar as voltas que o sujeito produz na “sua enunciação”, marcando essas voltas linguisticamente por meio de comentários, de ressalvas, de atenuações, sobre o que diz.

Essas voltas do sujeito, no ato enunciativo, receberam tratamento conceitual pela linguista em questão a partir dos fenômenos das não coincidências do dizer e das modalizações autonímicas, os quais serão abordados em seções específicas mais adiante.

De Saussure (1916), Authier-Revuz (1998) mobiliza a questão de a língua possuir uma ordem própria, a qual pode ser enfocada, nos termos saussureanos, via a relação associativa e a relação sintagmática.

Vejamos, a seguir, a leitura produzida por Leite (2010) acerca da ordem própria da língua:

[...] essa ordem própria da língua, conforme teorizações constantes do Curso de Linguística Geral - CLG -, de Ferdinad Saussure,está balizada por mecanismos básicos de funcionamento, sendo-os reconhecidos diante dos fenômenos da relação associativa e da relação sintagmática. Notamos que o primeiro fenômeno está assentado na possibilidade de substituição (via “oposição mental dupla” (SAUSSURE, 1916, p.152) dos elementos da cadeia significante, enquanto o segundo fenômeno está embasado na dependência que as unidades de língua mantêm com outras unidades que as rediam “na cadeia falada, seja das partes sucessivas de que elas próprias se compõem” (SAUSSURE, 1916, p. 148). Esses fenômenos mantêm entre si uma relação muito íntima. O CLG foi editado, em 1916, por

ministrados por Ferdinand Saussure nos anos de 1907 (1º Curso de Linguística Geral), de 1908-1909 (2º Curso de Línguística Geral) e de 1910- 1911 (3º Curso de Linguística Geral) (LEITE, 2010. p.129, grifos do autor).

Conforme ressaltou Teixeira (2005), Authier-Revuz (1998) considera que a língua possui um funcionamento em que exteriores são passíveis de serem inscritos, pois “a língua é o lugar em que a exterioridade deixa seu traço” (TEIXEIRA, 2005, p. 20. Grifos da autora).

Desse modo, é possível destacar que, segundo propôs Teixeira (2005), Authier-Revuz (1998), ao se filiar aos trabalhos de Saussure, abre vias para análise de fenômenos linguageiros desvinculados de “categorias psicológicas ou interativas (do tipo “distância”, “estratégias de desdobramentos do enunciador, etc.)”. É o caso, por exemplo, das modalizações autonímicas, conforme discutiremos mais adiante.

A partir dos trabalhos de Benveniste (1969,1970), Authier-Revuz empreendeu a própria condição epistemologica de se teorizar sobre a língua perpassando as questões da Enunciação e do discurso. Mais: para ela, as teorizações produzidas por Benveniste abriram possibilidades de “se transitar com Saussure, da língua à enunciação e ao discurso”. (TEIXEIRA, 2005, p.133). Portanto, a aproximação teórica dela com os trabalhos de Benveniste permitiu que ela produzisse consequências para a perspectiva de que a língua é marcada pela propriedade reflexiva. Por essa via conceitual, percebemos que Authier-Revuz mobilizou a ideia da reflexividade da língua para abordar linguisticamente os fenômenos da metaenunciação, via a questão das modalidades autonímicas.

No que concerne aos trabalhos de Pêcheux (1975,1983), notamos que a aproximação de Authier-Revuz (2004) frente às elaborações desse autor, se estabeleceu a partir da leitura que ela produziu sobre o conceito de interdiscurso, o qual já foi anteriormente discutido. Cabe aqui ressaltar que a relação teórica de Authier-Revuz com os trabalhos de Pêcheux se acentuou a partir das re- significações que o próprio Pêcheux construiu face à leitura que ele produziu acerca da categoria lacaniana de Real. Portanto, é pertinente ressaltar que o conceito de interdiscurso, operacionalizado nos trabalhos de Authier-Revuz (2004), se pauta na perspectiva de que o sentido não é nem homogêneo nem transparente.

Por sua vez, é possível destacar que as teorizações de Authier-Revuz (2004) sobre a questão da heterogeneidade (trabalhadas por ela a partir do linguístico) também se mostraram muito relevantes para o próprio percurso de re-significações empreendido por Pêcheux.

A esse respeito, coadunamos a ideia de Teixeira (2005), quando essa autora afirmou que as elaborações conceituais de Authier-Revuz acerca da heterogeneidade produziam, de certo modo, uma sensível repercussão no texto “Análise de discurso: Três Épocas”, embora os trabalhos de Authier-Revuz (1982) não fossem mencionados.

Ainda de acordo com o construto teórico de Teixeira (2005), cabe destacar que as elaborações de Pêcheux (1969,1975) sobre o discurso foram questionadas por Authier-Revuz, visto que a autora assumiu uma posição conceitual contrária às elaborações pecheutianas da primeira e da segunda fase de sua teorização, as quais estavam comprometidas com a perspectiva da homogeneização do discurso e do sujeito – implicado aí o prisma da transparência da linguagem.

Na terceira fase da Análise de Discurso, observamos que a noção de sujeito é tomada por Pêcheux a partir do modo como a Psicanálise freudo-lacaniana concebe o sujeito pela via dos registros do Imaginário, do Simbólico e do Real. Sendo assim, Pêcheux (1983), segundo Teixeira (2005), redimensionou o lugar atribuído ao fio do discurso, de forma a dar consequência para o ponto de vista de que a enunciação é sempre singular, e que aí sentidos outros são passíveis de serem inscritos. Portanto, afirmar que o sujeito é constituído a partir dos três registros significa pensar em um sujeito faltante, desejante, destituído de ter a consciência plena do que diz.

Prosseguindo as nossas considerações acerca da aproximação teórica entre Pêcheux (1983) e Authier-Revuz (2004), ao citar Maldidier (1990), Teixeira (2005) afirmou que há uma colaboração mútua entre Pêcheux (1983) e Authier-Revuz (2004), pois, a partir do construto sobre os as heterogeneidades (AUTHIER, 1982/2004), Pêcheux (1983) produziu uma reformulação acerca do modo como abordar a sequencialidade linguística, de modo a vislumbrar as marcas da ruptura como possibilidade de manifestação da presença do Outro no discurso.

Da parte das elaborações de Authier-Revuz, conforme mencionamos anteriormente, é possível ressaltar que a concepção pecheutiana de interdiscurso,

se mostrou profícua para a teorização de que o sujeito é sempre afetado por um “exterior” constitutivo que acaba por ser constitutivo ao próprio sujeito.

Dessa forma, Authier-Revuz (1982/2004) nos mostra linguisticamente a própria possibilidade de, em termos discursivos, o não um (ir)romper no fio do discurso, deflagrando a ideia de que há uma não coincidência do dizer. Isto é, o sujeito ao retomar o fio discursivo para recobrir o próprio fio, acirra a questão da heterogeneidade do dizer.

Desse modo, notamos que a referência de Pêcheux (1983) ao pensamento de Authier-Revuz (1982/2004) implica levar em consideração o campo heterogêneo em que se encontram a língua e os seus exteriores. Sendo assim, entendemos que embasados nas considerações de Flores e Teixeira (2005), dadas as implicações da questão da heterogeneidade, a compreensão acerca do sentido desvincula-o do domínio homogêneo, de modo a considerá-lo a partir de um campo duplamente marcado pelo não um, naquilo que a heterogeneidade teórica lhe permite analisar.

Sob esse enfoque, percebemos que a inscrição de não um no próprio fio discursivo segundo as teorizações de Flores e Teixeira (2005), nos permite “considerar a reflexividade opacificante da modalidade autonímica tanto no plano da língua sob o ângulo da linearidade do dizer, como no plano do discurso sob o ângulo do que ela diz ao sujeito do discurso” (FLORES , TEIXEIRA, 2005, p.74).

Neste ponto, destacamos que as formas de manifestação das heterogeneidades enunciativas das modalidades autonímicas e das não coincidências do dizer serão fundamentais para nosso trabalho de análise. Mais: interessar-nos-á aqui pensar (e analisar) os possíveis efeitos de sentido que a irrupção dessas formas produz no próprio fio do dizer.

Dessa forma, com base na materialidade linguística sob um viés discursivo é que poderemos analisar em termos discursivos, as rupturas, as falhas que se presentificam via fio discursivo. Isto é, enfocando as voltas que os informantes da nossa pesquisa produzem na sua enunciação na tentativa de tamponar, de explicar o que diz. Vislumbraremos na análise o modo como eles promovem a negociação com o não um e com a presença do outro em sua enunciação. Por isso, o trabalho com as heterogeneidades enunciativas, com as modalizações autonímicas e com as não coincidências do dizer, nos permitirá compreender que as marcas do não um se

inscrevem a partir da própria constituição do sujeito e do sentido, sempre constituídos e marcados pela heterogeneidade.

Na seção a seguir, trataremos das heterogeneidades enunciativas: mostrada e constitutiva, as quais foram posteriormente trabalhadas por Authier-Revuz (1998) via a perspectiva das não concidências do dizer.