Vasileios Mavroeidis 1 , Siri Bromander 2
I.3 Taxonomies and Sharing Standards
I.3.3 Sharing Standards
gogo Francês, educador popular e um dos grandes responsáveis pela reforma pe- dagógica de sua época. Nascido em 15 de outubro de 1896, em Gars, ao sul da França, na região de Provença, em uma família numerosa (oito filhos). Inicia sua carreira como docente em 1920. Critica o engessamento da escola tradicional isola- da em si mesma, divorciada da natureza e da realidade, que ensina uma moral ver- bal sem qualquer influência no comportamento das crianças, que visa apenas con-
solidar as práticas “escolásticas”11 de obediência passiva e de instrução dogmática. Propõe então uma pedagogia centrada na criança, na busca curiosa, na livre ex- pressão, no trabalho coletivo e cooperativo.
Para tornar a escola esse espaço vivo, condizente com seu pensamento, cria meios de sintonizá-la com o mundo e com a vida. Torna a sala de aula um ambiente prazeroso, de descoberta onde os conteúdos estão vinculados ao real, são significa- tivos. Para isso introduz o uso funcional da escrita explorando diferentes gêneros, através da tipografia na escola, do jornal escolar e trocas interescolares, dos fichá- rios, da biblioteca de consulta, de material científico etc.
Figura 12: Estudante usando a imprensa escolar de Freinet.
Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/50/Imprimerie_Freinet_4.jpg - Aces- sado julho 2008.
2.1.1 Uma experiência de vida
Os pressupostos de Freinet partem da observação do real, das experiências e das necessidades mais banais e simples da vida, pelas quais todos os seres vivos passam. Atesta que nenhuma aquisição, seja ela manual, intelectual, social ou mo- ral, surge espontaneamente em virtude de um dom ou de uma faculdade surpreen- dentemente monopolizados pela espécie humana. E acrescenta que:
Todas as conquistas humanas, o domínio da expressão pelo desenho, co-
11 Escolástica (ou Escolasticismo) é uma linha dentro da filosofia medieval, de acentos notadamente cristãos, surgida da necessidade de responder às exigências da fé, ensinada pela Igreja, considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade. Por assim dizer, responsável pela unidade de toda a Europa, que comungava da mesma fé. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Escol%C3%A1stica) Acessado em fevereiro 2008.
mo o domínio da expressão pela palavra, se realiza segundo o processo da tentativa experimental. Todas as conquistas do homem – todas as conquis- tas do ser vivo – resultam da experiência vital e ambiental posta ao serviço da superior e geral necessidade que ele tem de crescer, de vencer os obs- táculos que perturbam essa evolução, de afirmar a personalidade, de subir o mais alto possível e de perpetuar-se na carne e nas obras. (Freinet, 1977 p.35/B)
Essa ação impulsiva e universal, chamada de “processo de tentativa experi- mental”, é a pedra angular dos pressupostos Freinetianos. A “permeabilidade à ex- periência”, elemento principal de distinção dessa teoria é por ele comparado ao pro- cesso de escoamento da água sobre o solo,“a gota que cai no solo virgem corre ao acaso pelos sulcos e pelos declives. Mas, à força de cair no mesmo ponto ou de cor- rer no mesmo sentido, forma-se buracos, sulcos que dali em diante atraem a água que naturalmente passará a correr por sulcos cavados pela experiência” (Freinet, 1977 p.15 A). Nesse processo distingue o solo com maior ou menor capacidade de captação e escoamento, ou seja, maior ou menor permeabilidade.
Figura 13: Irrigação por sulcos
Fonte: casa.hsw.uol.com.br/irrigacao1.htm – Acessado julho 2008
Segundo Freinet (1977), é esse emaranhado de possibilidades, de fracassos e de êxitos, do fluxo que corre ou contorna os obstáculos, que cava e aprofunda as linhas favoráveis, torna-se “Técnica de Vida” que ainda não estão cavados definiti- vamente na mente da criança na primeira infância, possibilitando ainda a correção do fluxo.
gundo princípios diferentes, a partir de suas experiências de vida, e que não se inti- midam de lançar-se aos vocábulos difíceis, se eles se integrarem na construção ati- va do seu comportamento efetivo. Não partem necessariamente do elemento sim- ples, mas, pelo contrário, abordam ao mesmo tempo o complexo vivo da palavra e da frase. “A criança não espera que seu utensílio esteja forjado para dele se servir. Serve-se dele à medida que o vai forjando e aperfeiçoa-o enquanto se serve dele” (Freinet, 1977 p.58 A). E é nesse sentido a crítica mais acirrada de Freinet contra as práticas mecanicistas da escola tradicional que se atualizam hoje, apesar das inú- meras mudanças ocorridas. Ainda se ensina o aluno a decifrar palavras que não se traduzem em pensamento, tornando a leitura e a compreensão dois momentos dis- tintos da mesma operação.
“Este divórcio entre a mecânica e o pensamento corre o risco, pelo contrá- rio, de ser definitivo. Está na origem de uma nova forma de analfabetismo12, para o qual ainda não se criou a denominação apropriada: as crianças, os adolescentes e os homens que são afetados por ele sabem decifrar, mas nada compreendem do que lêem” (Freinet, 1977 p.55- A).
A pedagogia de Freinet se fundamenta em quatro eixos: a cooperação (para construir o conhecimento comunitariamente), a comunicação (para formalizá-lo, transmiti-lo e divulga-lo), a documentação, com o chamado livro da vida (para regis- tro diário dos fatos históricos) e a afetividade (como vínculo entre as pessoas e delas com o conhecimento).
Figura 14: Diagrama dos eixos da Pedagogia de Freinet.
Fonte: Formulação da autora com base em Nova Escola (2008).
12 Na atualidade denomina-se esse fato de “analfabetismo funcional”.
PEDAGOGIA FREINET
A aprendizagem através da experiência instrumentaliza o educando, e se ela for positiva servirá de alavanca para novas tentativas, porém, ressalta Freinet (1977), que ninguém avança sozinho, precisa da cooperação do professor, precisa apreender a aprender. E é também essa bandeira: “aprender a aprender” que se- gundo Weisz (2006) está reaparecendo no cenário educacional pelo entendimento que se tem hoje sobre o que a escola deve ensinar. Obviamente essa retomada vem reformulada, e antes visto como “um desenvolvimento geral da lógica do aprendiz, hoje sabemos que há um desenvolvimento da lógica, sim, mas que apenas isso não garante essa capacidade.” (Weisz 2006 p.35)
Para aprender a aprender o aprendiz precisa dominar conhecimentos de di- ferentes naturezas, como as linguagens, por exemplo. Precisa ter flexibili- dade e capacidade de se lançar com autonomia nos desafios da construção do conhecimento. Há todo um saber necessário para poder aprender a a- prender. Isso só se torna possível para quem já aprendeu muito sobre muita coisa. Alguém pode aprender por si mesmo quando já sabe o suficiente pa- ra, primeiro, reconhecer o que merece ser aprendido, depois construir estra- tégias, a partir do que já sabe, para alcançar novos conhecimentos. (Weisz, 2006 p.35)
Percebe-se assim, que o fundamental é desenvolver a capacidade de estabe- lecer relações inteligentes entre os dados, as informações e os conhecimentos já construídos. Reforça-se assim a necessidade do uso do desenho infantil no início da alfabetização, como conhecimento já construído, que fará ponte e dará suporte as novas aquisições.
2.1.2 O desenho e a escrita
“Ascenderá naturalmente dos rabiscos ao desenho, depois à imitação dos sinais, de palavras e de letras, à utilização destas palavras e dos sinais para desenvolver, em planos sempre mais complexos, a experiência tentada, que aperfeiçoara a sua expressão, tornará mais sutis as relações com o meio, até alcançar o exaltante domínio da língua escrita com fins de poder, que é a razão de ser”. (Freinet, 1977 p.75 -A)
Nesse sentido, Freinet (1977) ressalta que o desenho e a escrita são gerados ambos, nos primeiros movimentos repetitivos da criança, gerados quem sabe ao a- caso, para identificar o material a ela oferecido, criando dessa forma os primeiros grafismos. Gradualmente esses primeiros gestos se particularizam, se personalizam e acabam por bifurcar-se em suas especialidades, criando áreas distintas que conti- nuam a comunicar por meio de símbolos, mas agora não mais os mesmos. Antes da cisão entre desenho e escrita, por volta dos quatro anos de idade, a criança se en-
contra dividida entre ambos os grafismos; desenha e escreve, “como se pronuncias- se a mesma palavra de duas formas diferentes num meio familiar bilíngüe”. (Freinet, 1977 p.50-B).
O êxito alcançado pelo desenho é nessa idade tão completo, tão profundo e tão subjetivo, que a criança o conserva durante largo tempo como o seu principal meio de ação e de expressão, reconhecendo à expressão escrita um caráter meramente acessório ou completar. (Freinet, 1977 p.50-B)
Assim sendo logo ao adentrar a escola uma transformação radical das nor- mas de aprendizagem ocorre, “tudo o que até então fora essencial para a constru-
ção da vida torna-se bruscamente secundário e clandestino. (grifo meu) Uma verda- deira confusão vem perturbar e desequilibrar o comportamento da criança, incapaci- tada para coadunar os dados da inteligência escolar com as exigências da própria vida.” (Freinet, 1977 p.25 B). E assim a criança deixa de identificar-se com esse mundo novo e o “único recurso que lhe resta para não se afundar consiste em ma-
caquear as idéias e os gestos alheios”. (Grifo meu) (Freinet, 1977 p.26 B)
O que era um sonho pouco a pouco se transforma em pesadelo, e a união en- tre técnica e a vida se quebra. “Desorientados, os alunos sentem-se perdidos e de- sanimados. Perdem a vontade de procurar e de criar. A curiosidade embota-se e vai- se extinguindo progressivamente”13 e o brilho que trazia no início de sua trajetória arrefece.
Freinet (1977) afirma que, através das Técnicas de expressão livre, em virtu- de de sua poderosa motivação e de uma pedagogia centrada no trabalho integrado na comunidade social viva, o encanto pelo desenho se reestabelece, retorna ao seu lugar natural, “pelas satisfações profundas que nos traz, pelas alegrias que nos pro- porciona e pela possibilidade permanente que nos oferece de exprimir de uma forma sutil e espantosa toda a humanidade fervilhante e misteriosa de que a infância conti- nua a ser repositório”(Freinet, 1977 p.29-B).
Como pode se perceber, o desenho é fonte de prazer, “a criança, desenha para se divertir. O desenho é para ela um jogo como quaisquer outros que se inter- calam entre eles”. (Luquet, 1927 p.15)