Vasileios Mavroeidis 1 , Joe Brule 2
IV.2 Open Command and Control - OpenC2
IV.2.7 OpenC2 Function-relevant Profiles
Entendida como o principal veículo de interação social, a linguagem possibilita a construção da identidade cultural pela mediação dos signos. Os sistemas “sígnicos”, dentre eles o desenho, acessam o universo culturalmente
organizado, construindo a natureza psíquica do sujeito e mobilizando a estrutura de suas funções mentais. A interação pode ser compreendida como ação compartilhada, recíproca. Para Molon (2009), tal interação pressupõe a presença do outro, do múltiplo, com o qual se estabelecem relações que interferem diretamente na constituição do sujeito. Essas relações podem ser também contraditórias e abrangem uma grande possibilidade de objetivações, dado seu caráter dialético.
Por meio da interação, segundo Vygotsky (1991a), as funções mentais, que inicialmente ocorrem em nível “interpsíquico”, entre pessoas, passam para o nível “intrapsíquico”. Elas são internalizadas pelo sujeito. “Chamamos de internalização a reconstrução interna de uma operação externa.” (Ibidem, p.63)
A esse respeito Molon (2009, p.98) complementa: “A dimensão intrapsicológica acontece a partir da conversão de signo interpsicológico em signo intrapsicológico, acontece pela mediação dos signos.” A produção cultural se constrói nessa perspectiva, a intervenção do outro é parte fundamental do processo de significação e, por consequência, do desenvolvimento social, cultural e artístico.
No processo de interação é necessário considerar a dimensão espacial e temporal dos sujeitos. Para Silva (2002, p.27): “A linguagem liberta o homem de seu campo perceptual imediato, movimentando-o dialeticamente entre o passado e o futuro, permitindo um agora entremeado por esses tempos.” Os signos, enquanto elementos de representação agem como construtores de uma realidade, a partir desse movimento dialético.
Bakhtin (2006) aborda a estreita relação entre o signo e a ideologia, na qual a significação está pautada em uma construção ideológica, bem como toda a estrutura da linguagem, que é elaborada e transformada a partir das relações estabelecidas no convívio social. De acordo com Bakhtin (op. cit., p.34):
Os signos só emergem, decididamente, do processo de interação entre uma consciência individual e uma outra. E a própria consciência individual está repleta de signos. A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, consequentemente, somente no processo de interação social.
Portanto, as interações sociais estão diretamente ligadas à base biológica humana que, segundo a psicologia histórico-cultural, estão em constante
desenvolvimento, considerando que a cultura e o homem constituem-se reciprocamente. Ainda, conforme Vygotsky (Ibidem, p.33),
Desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social, e sendo dirigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança.
A afirmação do autor reforça a importância do trabalho de mediação do adulto e da consciência e planejamento sobre as interações estabelecidas com o ambiente. A partir da perspectiva de Vygotsky, Molon (2009, p.102) afirma que: “A mediação é a própria relação.” A constituição do sujeito depende da intensidade e da qualidade das relações que são estabelecidas. Molon (Idem) continua:
A mediação pelos signos, as diferentes formas de semiotização, possibilita e sustenta a relação social, pois é um processo de significação que permite a comunicação entre as pessoas e a passagem da totalidade a partes e vice-versa.
O espaço cotidiano da criança, seja ele domiciliar ou escolar, é o principal referencial de significações das ações, expressões e comportamentos, que constituirão suas linguagens e sua identidade por meio das mediações que ocorrem de diversas formas. Vygotsky (1991a, p.33) afirma:
O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social.
Molon (Ibidem, p.46), ao analisar as questões da subjetividade na obra de Vygotsky, afirma que o sujeito e a subjetividade “[...] são constituídos e constituintes na e pela relação social que acontece na e pela linguagem.” Assim, o conhecimento e a internalização do saber são construídos na interação que evidencia as subjetividades dos sujeitos envolvidos.
A concepção da constituição do sujeito em uma dimensão semiótica não ignora a individualidade nem a singularidade, mas atribui novos significados, quais sejam a individualidade como um processo e socialmente construída, a singularidade como uma conjugação que envolve elementos de convergência e divergência, semelhanças e diferenças, aproximação e afastamento em relação ao outro, e o sujeito como uma composição não harmônica dessas tensões e sínteses.
As tensões e desajustes podem tornar-se a mola propulsora dos processos de criação, uma vez que é da natureza humana a necessidade de equilíbrio no meio em que vive, assim como, dialeticamente, a inadaptação; as quais mobilizam o sujeito, por meio de interações, a imaginar. Para Ostrower (1983, p.32): “[...] o imaginar seria um pensar específico sobre um fazer concreto.”
Vigogtski (2003) afirma que a imaginação depende também de conhecimentos técnicos, da tradição e de modelos de criação, além do meio ambiente que influenciam diretamente na atividade criadora. Vygotsky (1991a) ainda ressalta que as interações favorecem a fala interior e o comportamento voluntário da criança, portanto, torna ágil o processo imaginativo.
Ostrower (1983, p.43), ao abordar sobre a produção cultural afirma:
Toda atividade humana está inserida em uma realidade social, cujas carências e cujos recursos materiais e espirituais constituem o contexto de vida para o indivíduo. São esses aspectos, transformados em valores culturais, que solicitam o indivíduo e o motivam para agir. Sua ação se circunscreve dentro dos possíveis objetivos de sua época.
A produção artística põe em relação o produtor e o observador (fruidor) por meio de sua linguagem, constituindo, de acordo com Da Ros (2007), uma interlocução subjetiva, porém no âmbito social. Para a autora (2007, p.91) “[...] o encontro de um eu com um outro, na e pela obra de arte, permite que um e outro se firmem como sujeitos particulares, sujeitos de sentidos diversos.”
Segundo Freitas (2006, p.1086): “O outro está em nós, uma vez que a identidade se edifica e se configura em interação social.” A fala da autora leva à reflexão sobre a importância do espaço de subjetividade na interação com o outro, porque esse outro pode se apresentar como o mistério, o desconhecido, que será revelado por meio de aspectos subjetivos de sua forma de ser e de estar no mundo.
Um dos modos de acessar esse universo particular de cada sujeito é pelas leituras de mundo que se faz na relação com o outro e com sua produção. Ao
considerar a produção artística, Tassinari (2001, p.143) afirma: “Se mudanças no conceito de obra de arte andam juntas com mudanças nos esquemas espaciais genéricos, também a relação do espectador com as obras se modifica.”
Reconhecer as singularidades significa também ampliar as interações e as possibilidades de leitura que estas oferecem. Segundo Pillar (2003, p.13): “Desse modo, o observável tem sempre a marca do conhecimento, da imaginação de quem observa, ou seja, depende das coordenações do sujeito, das estruturas mentais que ele possui no momento, as quais podem modificar os dados.”
Ao abordar mais especificamente a produção gráfica infantil, o processo interativo é favorecido pela interlocução entre leitor e produtor. A organização do pensamento se dá tanto em nível verbal pela narrativa e pela representação, como também pelos meios não verbais que podem ser reconhecidos pelo leitor atento. Ferreira (1998, p.16) explica:
O desenho, como uma forma de interação, requer o estabelecimento de complexas estratégias interativas entre leitor e autor para o processo de interpretação. Tais estratégias implicam conhecimento do leitor sobre a criança: constituição de seu conhecimento, de sua imaginação, de sua memória, de sua percepção, de sua realidade social e cultural.
Essa citação reforça a interação como condição de crescimento cultural. Segundo Derdyk (1989, p.52): “O desenho é a memória visível do acontecido: fotografia mental, emocional e psíquica.” Esta colocação da autora propõe pensar na importância do processo de produção gráfica, e nas intervenções pedagógicas que ocorrem nesse processo. A autora (Idem) continua:
O desenho constitui para a criança uma atividade total, englobando o conjunto de suas potencialidades e necessidades. Ao desenhar, a criança expressa a maneira pela qual se sente existir. O desenvolvimento do potencial criativo na criança, seja qual for o tipo de atividade em que ela se expresse, é essencial ao seu ciclo inato de crescimento. Similarmente, as condições para o seu pleno crescimento (emocional, psíquico, físico, cognitivo) não podem ser estáticas.
A imagem gráfica pode ser entendida como um projeto, um vir a ser da arte. Também se entende a imagem como o resultado de um processo de apreensão e de construção de saberes estéticos, inter-relacionados aos valores perceptivos,
emocionais, sensíveis e culturais que constituem o sujeito. Sob esta perspectiva, esses valores estão em permanente movimento, refazendo-se a cada nova interação.