Nos primeiros esboços do que viria a ser conhecido como o ME Goldinger (1996; 1998), Johnson (1997), e Johnson e Mullennix (1997) propuseram que as representações mentais são extremamente detalhadas, e que os falantes podem aprender implicitamente a variação fonética associada a diferentes segmentos e mesmo palavras individuais. O armazenamento do detalhe fonético na representação mental era decorrente da frequência de ocorrência de tais eventos, ideia importante na FU.
Os estudos de Goldinger (1996; 1998) envolveram a memória episódica e seu papel na representação linguística. O objetivo era questionar a normalização linguística, associada à não utilização do detalhe fonético na representação mental. Após diversos experimentos envolvendo o reconhecimento de estímulos linguísticos, o autor concluiu que itens apresentados com a mesma voz eram melhor reconhecidos do que itens apresentados com vozes diferentes. A memória episódica, que permitiu o armazenamento de informação detalhada, também aplicou-se ao conhecimento linguístico.
Visando uma melhor compreensão do ME, Johnson e Mullennix (1997) expuseram didaticamente seus preceitos fundamentais. Para os autores, as representações mentais eram complexas, por incorporarem o detalhe fonético previsível, com mapeamento simples. O ME surgiu em oposição ao modelo fonológico tradicional, cujos preceitos defendiam um mapeamento complexo, através da aplicação de regras, e uma representação mental simples.
Nos modelos fonológicos tradicionais o fenômeno de palatalização das oclusivas alveolares era visto como processo derivado da aplicação de regras fonológicas, em que as oclusivas alveolares /t, d/ passaram a ser realizadas como [tʃ, dʒ] diante da vogal /i/ e
variantes. No ME a palatalização foi considerada presente na representação mental, já que compreendia os aspectos previsíveis e o detalhe fonético dos itens lexicais.
Johnson (1997) explicou que um exemplar pode ser considerado uma associação entre propriedades auditivas e um conjunto de rótulos categóricos associados às características pessoais dos falantes, como sexo, idade, região, entre outros. O armazenamento do detalhe fonético das realizações sonoras permitiu ao ME lidar satisfatoriamente com o problema da variação sociolinguística, como apontado por Pierrehumbert (2003, 2006), Johnson (2006), e Faulkes e Docherty (2006). A utilização do ME contribuiu significativamente na realização deste estudo, ao lidarmos com a variação no PB.
Os trabalhos de Pierrehumbert (1999, 2001, 2002a, 2002b, 2003, 2006) contribuíram com o desenvolvimento do ME. Pierrehumbert (2001) sugeriu que os exemplares eram armazenados na forma de conjuntos ou nuvens, cujas propriedades estavam mais ou menos próximas de um dado exemplar prototípico, em um mapa cognitivo. Podemos compreender o mapa como um conceito similar ao espaço fase dos SACs. Para visualizar o conceito de nuvem de exemplares, Pierrehumbert (2002b, 2003) recorreu à clássica figura de distribuição de F1-F2 do estudo de Peterson e Barney (1952). A Figura 5 mostrou que, apesar de as realizações vocálicas do inglês concentrarem-se em regiões acústicas específicas, um grande número de exemplares afastados do protótipo foram observados.
Bybee (2010) exemplificou o conceito de proximidade a um protótipo ao discutir a categoria de pássaro. O exemplar prototípico era um animal voador pequeno, como um
Figura 5 - Plot vocálico de 10 vogais do inglês norte-americano.
pardal. No entanto, outros exemplares mais distantes do prototípico faziam parte da nuvem, uma vez que galinhas, emas e pinguins eram parte da mesma categoria.
No ME proposto por Pierrehumbert (2001), no momento em que um exemplar linguístico era percebido, era também automaticamente classificado, dadas as suas características físicas juntamente a outros exemplares já armazenados. Ao produzir um exemplar linguístico, o ME preconizou a seleção aleatória de um exemplar na nuvem. As características articulatórias do exemplar seriam realizadas pelo aparelho fonador. Na produção, o fator de seleção aleatória dos exemplares foi importante por explicar a variabilidade nas línguas naturais (JOHNSON, 2007).
O ME proposto por Pierrehumbert (2002b) envolveu ainda o caráter probabilístico das representações linguísticas. A autora apontou que as representações em nível fonético exploram apenas uma área do espaço fonético disponível, corroborando a visão probabilística de maior utilização de certas configurações fonéticas, peculiares a cada língua.
No que tange às formas das palavras e da vizinhança lexical, a autora advogou a favor do caráter probabilístico da aquisição do detalhe fonético e do armazenamento em rede. O detalhe fonético seria adquirido de forma gradual, associado diretamente à maior ou menor recorrência dos padrões. De forma semelhante, a organização em rede do sistema implicou no reconhecimento mais eficiente de palavras frequentes com vizinhos lexicais infrequentes. Inversamente, palavras infrequentes com vizinhos lexicais mais frequentes determinam um reconhecimento tardio. A influência do efeito de frequência lexical confirmou o caráter probabilístico também no nível linguístico.
Quanto à questão probabilística no nível da palavra, Pierrehumbert (2002b) indicou a importância da frequência das subpartes que compõem uma palavra. Semelhantemente, a frequência de tipo foi importante para a compreensão dos efeitos de produtividade. Certo número de ocorrências de palavras com um tipo linguístico específico era necessário para a produtividade, confirmando o caráter probabilístico da linguagem. O Quadro 1 apresentou as características do ME em oposição à proposta tradicional.
Quadro 1 - Comparação entre a proposta tradicional e o modelo de exemplares.
Proposta tradicional Modelo de exemplares
Representação mental minimalista Representação mental detalhada Separação entre fonética e fonologia Inter-relação entre fonética e fonologia Visão da fonologia como uma gramática
formal, com a utilização de abstração
Efeitos de frequência armazenados na memória de longa duração Julgamento fonotático categórico Efeitos gradientes nos julgamentos
fonotáticos
Léxico separado da gramática fonológica Palavras como lócusde categorização Fonte: Guimarães (2004, p. 40).
Lembramos que as características anteriores eram caras à FU, o que explicou a associação de ambos os modelos sob a alcunha de teorias fonológicas multirrepresentacionais. A junção de ambos os modelos com a teoria dos SACs constituiu um arcabouço teórico pertinente à consecução desta pesquisa, devido ao caráter variável da palatalização nas línguas envolvidas.
De modo semelhante ao que ocorreu com a FU, o ME (PIERREHUMBERT, 2001) apresenta uma literatura focada em língua materna. Esperamos que esta pesquisa tenha ajudado a expandir os modelos de análise fonológica em questão para o estudo de línguas estrangeiras, enriquecendo a literatura com dados acerca da interação entre os sistemas fonológicos do PB e do ILE.
Encerramos a seção de discussão que envolveu as características principais do referencial teórico: a teoria dos SACs, a FU e o ME. Na seção a seguir, iniciamos discussão sobre o fenômeno da palatalização das oclusivas alveolares no PB.