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Sensors manufactured in low-resistivity processes

1.2 Types of silicon detectors

1.2.2 Sensors manufactured in low-resistivity processes

Um movimento social como o MST, que se propõe a transformar a sociedade e construir o socialismo, precisa elaborar formas de educação que ajudem a alcançar seus objetivos. Não será com uma escola autoritária e esvaziada de conteúdos amplos e profundos que o MST chegará lá. Não é possível compreender a educação e a escola fora do contexto que as demanda (Figueira, 1985). A educação é um processo complexo e não homogêneo, resultante das estruturas e práticas sociais, também contraditórias, que tem por objetivo formar o homem para determinada forma de vida social. Como afirmou Mészáros “nenhuma sociedade pode perdurar sem seu sistema próprio de educação” (2006, p. 263). De modo que as formas e os objetivos educacionais de qualquer sociedade se encontram sempre em relação íntima com seu modo de vida, e, portanto, com suas relações de produção e de trabalho. O capitalismo, como apontou Mészáros (2005), constitui uma estrutura de internalização dos valores e aprendizados necessários à esta sociedade, da qual a escola é apenas uma parte.

O MST, ao organizar os Sem Terra para lutar por terra, moradia, trabalho, assistência técnica, também está educando quem dele participa. Estes, em luta, aprendem muitas coisas: que não dá pra ficar

parado esperando as soluções, as imensas contradições e o antagonismo desta sociedade, que para os pobres e trabalhadores apenas a organização e luta traz conquistas efetivas. Aprendem que o capitalismo está impossibilitado de oferecer condições dignas de vida para todos. Aprendem que precisam construir outra forma de vida social, que só poderá sair das mãos dos oprimidos. Ainda que isso não seja fácil nem rápido. Estes aprendizados são obtidos na luta, na organização coletiva, no aprofundamento teórico, que somente uma organização que luta para mudar o mundo pode oferecer.

A escola está, de uma forma ou de outra, presente desde o início do MST. Seja decorrente de uma necessidade objetiva (escola para as crianças em idade própria) ou por motivos de formação política, a escola se tornou um espaço que deve contribuir com o MST em seus objetivos. Ela é incorporada no MST como um espaço que deve auxiliar na formação almejada. Se é curioso um movimento de camponeses, agricultores, tomar a escola como uma bandeira, é algo “normal” e necessário, como apontamos acima, que um movimento com uma perspectiva social distinta, constitua formas educacionais próprias. À medida que o MST foi crescendo, ampliando, incorporando novas bandeiras, alterando as formas de luta e seu público, a escola tem sido repensada e articulada com cada um desses momentos.

Vemos assim que: 1) o MST não é, em primeiro plano, um movimento por educação, mas por Reforma Agrária e transformação social; 2) em sua luta e organização, ele torna-se profundamente educativo, como demonstrou Caldart em Pedagogia do Movimento Sem Terra (Expressão Popular, 2004); 3) a escola é uma parte deste processo educacional, com funções específicas, mas nunca resumindo a educação à ela e nem a educação política, da luta, pode ser restrita à escola.

Considerando-se o conjunto da produção do MST sobre educação e escola, podemos sintetizar os objetivos/pilares da escola no MST em três: “o trabalho agropecuário, o conhecimento científico da realidade e o amor pela luta” (Boletim de Educação n.1, MST, 1992, p. 2). Podem existir diversas variações destes objetivos, a definição de objetivos pontuais, a acentuação de um deles, mas, como dissemos, em

síntese, considerando-se o conjunto da proposta, eles podem ser desta forma resumidos. Há ainda

dois detalhes. Veja que o texto é escrito em 1992, assim, alguns termos podem ter sido mais ou menos substituídos, mas seu conteúdo permanece. Por exemplo, “amor pela luta”, talvez hoje, se denomine mais como formação de militantes (que por definição devem ter amor à luta). A segunda questão é que o texto refere-se aos “três pilares das escolas de assentamento”. Em minha opinião, como depois desenvolveremos melhor, tais pilares cabem perfeitamente às escolas de acampamento e à Escola Itinerante, o que muda são as condições concretas, não os objetivos fundamentais. Vejamos rapidamente cada um deles, buscando uma atualização de seu conteúdo.

Em relação à formação para o trabalho do campo, entendemos como fundamental que a escola conheça e problematize as formas existentes de produção, desde as artesanais e manuais até as mais complexas e de ponta. É preciso analisar o sentido em que elas se colocam e sob o que se sustentam, avançando no sentido de dominar a tecnologia e a ciência embutidas nos processos produtivos, seja para incorporá-las ou rejeitá-las. É necessário estar atento às formas novas de produção que vão surgindo como a cooperação e a agroecologia, estudando-as em suas várias dimensões: econômicas, sociais, técnicas e científicas. A escola, queira ou não, formará para algum padrão produtivo. O que o MST propõe é que ela auxilie na superação da forma de produção capitalista e artesanal, rumo à produção e socialização coletiva

da riqueza. Isso não é fácil, nem cabe unicamente ao MST e nem à escola, mas estes não são isentos de uma contribuição nesta direção. Entendemos que a escola auxilia neste processo quando problematiza e conhece em profundidade os processos produtivos nos seus diversos aspectos, quando busca a superação da divisão entre trabalho manual e intelectual e evita a inferiorização do trabalho do campo. Também se pode questionar até que ponto o trabalho do campo é essencialmente diferente do da cidade, ao que a literatura crítica indica, crescentemente aproximativos, preservando, entretanto, algumas diferenças. Em nosso ponto de vista, a escola não pode ater-se estritamente à formação para o trabalho no campo. De outro lado, se ela for às bases desta forma de trabalho, verá que ela guarda muitas relações com o trabalho urbano e industrial. A formação para o trabalho é um tema muito complexo que precisa ser aprofundado em nossos estudos, pois, se entendemos que a forma como produzimos nossa existência é que nos educa, torna-se fundamental que a humanidade crie novas bases produtivas para nos educarmos de um jeito inteiramente novo. A escola pode ajudar nisso.

Vemos então a importância do conhecimento científico, o segundo pilar da escola do MST. A ciência ou o conteúdo na escola não são vistos como fins em si mesmos, que devam entrar desconectados da realidade, fragmentados e “puros”. Eles são instrumentos imprescindíveis na compreensão e transformação da realidade. Ou seja, o ensino deve “partir da prática e levar ao conhecimento científico da realidade”. Não estamos de forma nenhuma ignorando ou desprezando os conteúdos, a teoria, a ciência. Muito pelo contrário, estamos colocando os conteúdos no seu verdadeiro lugar como instrumentos para a construção do conhecimento da realidade e não como fins em si mesmos” (MST, 2005, p. 61). Vemos então que a ciência é indispensável para o estudo da realidade e para a atuação nela. A ação só poderá ser revolucionária se capta corretamente a realidade. A ciência, o conhecimento por si mesmo, não muda o mundo, é preciso ação, mas esta, isenta de conhecimento profundo e amplo, é menos eficaz. Por exemplo, quando organizamos uma ocupação ou uma atividade no acampamento, elas dão melhores resultados quando nós consideramos bem a situação, não é verdade? O conhecimento elaborado e científico na escola do Movimento não pode colocar-se desvinculado da formação para o trabalho e a transformação social que busca o MST. Não se trata, entretanto, de uma ligação imediatista e superficial destes vínculos, porque a complexidade do trabalho e da luta por transformação social exige conhecimentos amplos e elaborados, e cuja relação muitas vezes não é tão direta e explícita.

Por fim, o amor à luta ou a formação de militantes. Este pilar deixa muito claro que a intenção do MST é buscar a transformação social. É educar para a ação revolucionária e para as diversas dimensões que ela exige. Vimos que os dois itens acima, a formação para o trabalho e o conhecimento científico, já apontam nesta direção. Os três pilares estão, então, profundamente interligados. Poderíamos dizer que um bom militante no MST é aquele que conhece os desafios do trabalho no campo, busca compreender a realidade de modo profundo e possui valores e ações coerentes com o projeto do Movimento. Educar para a transformação social significa que a formação para o trabalho não é o trabalho no capitalismo, mas a busca por superá-lo; conhecer cientificamente a realidade coloca-se como auxiliar para poder mudá-la. Então, é educar também para a ação, mas não qualquer ação, mas para uma planejada, coletiva, coerente e fundamentada. Esta dimensão, a da formação de militantes, chama atenção para a formação de novos valores como a cooperação, a solidariedade, o altruísmo, a autonomia. Atenta que as pessoas são uma totalidade

e a escola deve formá-las como seres integrais, daí os “tempos educativos” elaborados na proposta do Movimento. O capitalismo acentua o trabalhador braçal, manual, diminuindo nossa capacidade de pensar; a escola tradicional acentua nossa formação cognitiva - mas de forma tão mecânica e fragmentada que não significa deixar-nos mais inteligentes. Ela nos enche de “conteúdos”, mas não quer dizer que aumente nossa compreensão de mundo. No MST e nas experiências socialistas, a escola deve nos formar como totalidade de múltiplas dimensões: cognitiva, afetiva, artística, física, social, ética. Entretanto, para ligar com o que dissemos acima e evitar um problema frequente, é preciso dizer que estas dimensões não devem ser trabalhadas na escola de qualquer jeito, não no senso comum. Pode até partir dele, mas alcançando a cultura elaborada, o conhecimento erudito, clássico. Newton Duarte (2007) indica que a escola deve ir do cotidiano ao não cotidiano, isto é, avançar do senso comum em direção ao pensamento elaborado, filosófico, científico, artístico... Aí então, efetivamente formará para a arte (e não sua banalização), a ética (e não o moralismo), a afetividade (e não o romantismo)...

Como temos apontado, a escola sozinha não conseguirá formar seres integrais numa sociedade que fragmenta, seres éticos e coerentes numa sociedade que se pauta na exploração e degenera as pessoas. A formação de seres humanos completamente novos não é possível no capitalismo. É preciso que saibamos disso para não cairmos em desânimo. Entretanto, dizer isso não quer dizer que qualquer ação é inválida, ao contrário, se não agirmos agora para a construção da nova sociedade e de novas mulheres e homens, eles nunca chegarão. É nossa ação, dentro dos limites possíveis do hoje, com clareza do horizonte que almejamos, que pode construir outro futuro. Não ao otimismo ingênuo nem ao pessimismo imobilista. A articulação dos três pilares indicados pelo Movimento pode ser um bom exercício.

Há diversas outras questões importantes na proposta de educação do MST que não foram aqui abordadas. Como elas se encontram mais desenvolvidas nos Cadernos e Boletins da Educação, esperamos que elas não sejam desconsideradas. Apenas para mencionar algumas, indicamos a gestão da escola, a auto-organização dos estudantes, o planejamento, a avaliação, a relação educador-educando, os tempos educativos, a formação dos educadores, entre outras, como questões importantes de serem estudadas e exercitadas na prática, buscando a construção de uma escola inteiramente nova e comprometida com a emancipação da classe trabalhadora.