3.3 Simulation
3.3.4 Input patterns
Para compreender a trajetória desta Escola Itinerante, é necessário voltar al- guns anos atrás para conhecer a realidade onde surgiu; ou seja, recuperar a história do Acampamento Quilombo dos Palmares que, como sugere o nome, viveu uma trajetória de resistência e luta.
Esta história inicia no ano de 2003, diante de expectativas criadas com o Governo Lula, quando militantes do MST começam a realizar intensivo “trabalho de base” no estado do Paraná. Na região Noroeste este trabalho para reunir famílias dispostas a fazer a “luta pela terra” também é realizado.
O Acampamento Quilombo dos Palmares é resultado de outros cinco acam-
pamentos provisórios, que são formados na área de atuação da Brigada21 Iraci Sa-
lete Strozak, ou melhor, várias localidades em torno dos municípios de Paranacity e Colorado. Sendo que o maior dos acampamentos foi formado na beira da rodovia (PR 463) que liga as duas cidades. E neste local começa a ser realizado um trabalho
18 A polícia veio sob ordem da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Paraná, com a qual mili- tantes do MST fizeram contato por telefone.
19 A experiência desta escola também é contada neste caderno.
20 A escolha do nome nos remete a recuperar a historia e trajetória desta Escola iniciada no ano de 2004.
21 O termo refere-se à “Brigada de 500 famílias Sem Terra”, ou seja, espaço geográfico que reúne – em acampamentos e assentamentos – cerca de 500 famílias organizadas do MST. As brigadas são uma instância no organograma do MST, o estado do Paraná é dividido em varias brigadas e todas têm uma área de atuação. Cada uma recebe um nome de um/a mártir da luta dos trabalhadores.
com as crianças chamado de Formação Político – Pedagógica, coordenado pelo setor de educação.
Esses acampamentos já estavam recebendo famílias da região a aproxima- damente oito meses quando, em agosto de 2003, se reuniram e ocuparam a Fazenda Santa Terezinha, localizada no município de Jardim Olinda, na divisa com o mu- nicípio de Paranapoema. No primeiro momento, cerca de 400 famílias compõe o Acampamento Quilombo dos Palmares.
A necessidade de escola no acampamento
O trabalho de Formação Político-Pedagógica continua sendo realizado com as crianças, visto que muitas delas vinham de realidades diversas e com muitas di- ficuldades de aprendizagem. Desde o início, as crianças freqüentavam a escola na cidade em um período do dia, e noutro tinham no acampamento o reforço escolar (língua portuguesa e matemática) e atividades recreativas; também havia local para a educação infantil. Todo este trabalho era interno, ou melhor, conduzido pelo setor de educação do acampamento.
Embora realizasse todas estas atividades, o objetivo principal da forma- ção político-pedagógica era de fomentar a discussão, junto às famílias acampadas, sobre a possibilidade de ter uma escola naquele espaço que atendesse a realidade daquelas crianças, uma escola no campo.
Foi neste contexto que a Escola Itinerante Che Guevara inicia suas ativida- des em fevereiro de 2004, com cerca de 140 educandos e um coletivo pedagógico com dez educadores do próprio acampamento. Atendendo desde a Educação Infan- til até o segundo ano do segundo ciclo, este primeiro momento foi marcado pela expectativa e entusiasmo dos pais e comunidade, que com seu trabalho construíram as primeiras estruturas da escola. As salas foram levantadas – utilizando bambus, tijolos (encontrados no local) e lona – debaixo da cobertura de um barracão da fazenda Santa Terezinha.
O acampamento continua a receber famílias nos primeiros meses da
ocupação22 e chega a quase oitocentas famílias durante o ano de 2004. Neste
ano, a Escola Itinerante ultrapassa o número de 230 educandos23; todavia se
contarmos os estudantes da EJA (Educação de Jovens e Adultos), que freqüen- tavam as aulas no período da noite, este número passa de 300. Assim, a escola
22 Caso de cerca de duzentas famílias que vieram de um acampamento no município de Peabiru – PR.
23 Porém nem todos eram matriculados devido às dificuldades inerentes das famílias que vem para o acampamento e do lugar de origem destas, dentre as principais dificuldades cita-se a documentação insuficien- te ou inexistente.
vai para o acampamento não só para atender as necessidades das crianças sem terra, mas também para todas as famílias (jovens, adultos) com necessidade da educação escolar.
Um acampamento com esta dimensão causou um impacto na região, pois, desde a ocupação significou grande força política e uma ameaça a alguns interesses contrários à luta pela terra, principalmente do agronegócio da cana-de-açúcar. A demanda por serviços públicos nos municípios aumentou significativamente; fo- ram vários os conflitos e reivindicações em relação a este fator; as principais delas no âmbito da saúde e da educação.
Um fato que nos chama atenção e que fortaleceu nova luta pela Escola
Itinerante, foi que antes desta ter sido organizada no acampamento, os repre-
sentantes municipais diziam não ter condições de atender a tantas crianças, e em muitos casos colocavam empecilhos ao ingresso das mesmas na escola da rede municipal. Porém, depois que a Escola Itinerante começa a funcionar esse quadro muda, estas escolas passaram a disputar as crianças e para isso se utili- zavam de várias artimanhas como oferecer uma bolsa com materiais escolares às crianças do acampamento que estivessem estudando nas escolas municipais na cidade.
Considerando que neste momento a escola contribuía para manter o acam- pamento unificado e organizado, pode-se chegar a conclusões sobre a atuação do município. Pois, se antes diziam não ter estruturas para atender as crianças, por que no momento em que é organizada uma escola no acampamento, as escolas da rede municipal tornam-se “convidativas”?