O conteúdo estratégico que ganhou o desenvolvimento para a consolidação do modelo ocidental de racionalidade e modernidade permite a compreensão que sua formulação ocorreu em gabinete de intelectuais e gestores e somente apresentado ao público em seu formato final (NUSTAD, 2007, p. 40). Isso justifica o caráter colonizador, formatador, homogeneizador de tal perspectiva em diferentes dimensões: sociais, econômica, política e cultural.
Com a influência de Foucault, a partir da década de 1970, iniciam-se as críticas ao desenvolvimento19. É também na mesma década que Edward Said (1978) produz suas análises sobre o orientalismo. As reflexões de Foucault conduzem a uma reflexão que mostram que as verdades universalmente atribuíveis ao sujeito nos termos do conhecimento científico são, em
19Foucault traça um fio condutor, que é a problemática da verdade. Com isso Foucault debruça-se para
compreender o discurso que funciona entre diferentes práticas como justificação racional de verdade, e assim atingir o status de verdadeiro. Na Arqueologia do saber, o autor investiga o jogo de regras estabelecido entre as práticas discursivas de uma época; na genealogia, como aqueles jogos atuam ao modo de legitimação para estratégias e táticas de poder presentes nas diferentes práticas sociais; na genealogia da ética, como eles funcionam na condição de auxiliadores nos diversos processos de subjetivação que se desdobram das práticas de si.
última instância, efeitos de verdade produzidos por mecanismos estratégicos de poder presente nas práticas sociais. Sendo assim, o discurso é investido historicamente de um conteúdo verdadeiro, já que cumpre com uma funcionalidade específica de produzir efeitos de poder instituído por regras para o governo de pessoas, dividindo-as, examinando-as, adestrando-as, sujeitando-as.
Foucault influencia, com sua produção teórica, principalmente os atores oriundos do Terceiro mundo, que passam a criticar o desenvolvimento como resposta a questões atuais, e buscando focar em análises voltadas a compreender a dinâmica, a especificidade de cada realidade.
Para Conrad e Randeira (2002, p. 22) a obra Orientalismo do crítico literário, palestino, Edward Said, de 1978, é considerada o “manifesto de fundação” das formulações pós-desenvolvimento. Tal afirmativa não é à toa, já que tal elaboração se constitui um esforço particular de percepção a partir da relação binária Ocidente e Oriente. É um dos principais teóricos a sofrer influência das formulações de Foucault ele constrói uma análise voltada a questionar a perspectiva de desenvolvimento traçada no Ocidente e imposta aos países do Oriente, do Terceiro mundo e da periferia. Na perspectiva de autor, a cultura dominante do ocidente se apodera do oriente, desfigurando e assimilando um imaginário próprio, ou seja, um conjunto de conhecimentos relativos ao espaço da cultura islâmica, expressa nas línguas árabe, persa e turca, ou ainda, é a maneira de os Ocidentais pensarem e estudarem o Oriente, com base em seus proprios valores.
Para Goldman (2011, p. 3), na perspectiva analítica de Said, “o Orientalismo é visto como uma totalidade que se transforma em um ‘discurso’, caracterizado por uma sistematicidade expressiva, revelada por uma leitura de textos representativos”. Essa relação analisada por Said (1995, p. 65) precisa ser compreendida a partir da relação colonizado e colonizador, em um contexto de embate imperial, presente desde princípio, pois, segundo o autor:
[...] se desde o princípio reconhecemos as histórias profundamente complexas e entrelaçadas das experiências específicas, mas mesmo assim interligadas e sobrepostas – das mulheres, dos Ocidentais, dos negros, dos Estados e culturas nacionais – não há nenhuma razão intelectual particular para conceder um estatuto ideal e essencialmente separado a cada uma delas. Mas seria desejável preservar o que há de único em cada qual, enquanto preservarmos também algum sentido da comunidade humana e as disputas efetivas que contribuem para sua formação, e na qual todas participam.
Said (2005, p. 86) faz uma avaliação do sistema mundial, imperial, considerando a história, a geografia, que colaboram para produzir um “império mundial” sobre o comando da Europa, sendo assim:
Os discursos universalizantes da Europa e Estados Unidos modernos, sem nenhuma exceção significativa, pressupõem o silêncio, voluntário ou não, do mundo não europeu. Há incorporação; há inclusão; há domínio direto; há coerção. Mas muito raramente admite-se que o povo colonizado deve ser ouvido e suas ideias conhecidas.
Para Said (2005, p. 40), “[...] a prática, a teoria e as atitudes de um centro metropolitano dominante governando um território distante; o ‘colonialismo’, quase sempre uma consequência do imperialismo, é a implantação de colônias em territórios distantes”. A compreensão da lógica imperial, do colonialismo constitui um fato importante para o pensamento pós-desenvolvimentista.
A crítica ao desenvolvimento, com o passar dos anos, ganha mais adeptos. Na década de 1990 a desconstrução da ideia hegemônica de desenvolvimento ganha dois novos trabalhos, Ferguson (1990) e de Anturo Escobar (1995), com forte enraizamento na antropologia econômica e fortemente influenciados pelas ideias de Foucault acerca da “colonização da realidade”20. A produção dos autores propõe a desconstrução do discurso
‘indústria do desenvolvimento’. Para eles, os projetos de desenvolvimento são propagadores do desejo de crescimento industrial e econômico, da maneira como o mesmo é definido pelo capitalismo ocidental. Sendo assim, o discurso do desenvolvimento funciona como um instrumento de dominação ligado à expansão do capitalismo moderno.
A leitura produzida por Ferguson (1990) e Escobar (1995) traz para o centro do debate a superação da vontade de buscar os limites e falhas presente no desenvolvimento, além disso, os autores não buscam traçar receitas e nem procedimentos para que os países do “terceiro mundo” ou “subdesenvolvido” possam atingir a chamada modernização. Segundo Costa (2006, p. 117), a crítica ao desenvolvimento agrupou um conjunto de intelectuais e ativistas do terceiro mundo, principalmente nas décadas de 1980 e 1990, “qualificados como intelectuais da diáspora negra ou migrante”, que passaram a realizar uma leitura engajada considerando o lugar da resistência e hegemonização ocidental21. Essa perspectiva teve a
20 Concepção que tem a intenção de mostrar como certas representações do mundo se tornam
dominantes e modelam a maneira pela qual a realidade é levada em conta e imaginada.
21 Uma das explicações das origens das críticas pós-colonial é a ascensão de um corpo intelectual do
Terceiro mundo nas academias da Europa e dos Estados Unidos. A partir da década de 1980, como o palestino Edward Said, e dos indianos Homi Bhabha e Gayatri Spivak, reconhecido
crítica literária como pioneira e depois se expandiu para outras disciplinas como a antropologia, sociologia economia entre outras.
O centro da reflexão dos autores é evidenciar os resultados do desenvolvimento como instrumento de expansão e consolidação do capitalismo ocidental. Para Ferguson, a noção de desenvolvimento imposto aos países do “terceiro mundo” tem como propósito funcionar como uma máquina antipolítica, acrítica, voltada a perpetuar os interesses de exploração e de sujeição dos países centrais. Sendo assim, os projetos de orientação dos organismos e agências multilaterais ocorrem como pressuposto para a consolidação de uma sociedade acomodada, apática e submissa aos grandes problemas de desigualdade e conflitos locais. As abordagens de Ferguson buscam mostrar que os projetos exógenos, formulados por tecnocratas das instituições como o Banco Mundial, ONU, BIRD e outros, são voltados a criar alianças capazes de operar junto aos países do terceiro mundo a partir de um diagnóstico da “falta” existente, ou o que limita ou dificulta os caminhos do desenvolvimento segundo o modelo ocidental, e assim corrigir as falhas existentes.
A perspectiva do pós-desenvolvimento de Escobar e Ferguson lança no debate teórico condições para uma análise ampliada, capaz de observar o diferente, para além da moldura do pensamento hegemônico, trazendo para o debate aspectos antes esquecidos nas leituras econômicas como “as relações de parentesco, o sistema de reciprocidade, a instituição do dom e do contra-dom, a propriedade coletiva da terra ou as relações com o mundo da natureza e dos ancestrais” (PERROT, 2008, p. 228). Com isso, a leitura de Escobar e Ferguson supera a hegemônica concepção presente no desenvolvimento que tem os países do terceiro mundo, como sociedades com debilidades, recheadas de falhas e que vivem em constante situação de “falta” e carência, fazendo que essas sociedades sejam vistas como inadequada e fracassadas na consolidação do desenvolvimento ocidental. Nessa abordagem esses países “periféricos”, do “terceiro mundo” precisam sempre recorrer ao centro capitalista e obter “ajuda” ou precisam da intervenção de ente externo para criar as condições subjetivas ou objetivas para superar tal condição de “atraso”.
Na perspectiva de Ferguson (1990, p. XV), o “desenvolvimento” como problemática dominante na modernidade precisa ser analisado na prática, e seus impactos sociais verdadeiros. Para o autor, na literatura crítica sobre o desenvolvimento é preciso buscar não somente problematizar o desenvolvimento enquanto discurso ideológico e sim refletir o internacionalmente, nas décadas de 1980-90, enquanto autores pós-coloniais. Esses autores, que como elemento central em suas análises “desconstrução” da polaridade West/Rest, constitui o termo comum que une os diferentes autores identificados com o marco pós-colonial (COSTA, 2006, p. 120).
aspecto “real” dos seus conteúdos expressados pelo mesmo22 (FERGUSON, 1990, p. XV).
Com forte influência de Foucault, Ferguson busca transpor a relação “verdades” e “falsidades” e compreende as consequências da discursividade do desenvolvimento em uma realidade social, cultural e política.
Ferguson (1990, p. XIV-XV), para atingir seu objetivo, analisa a representação institucionalizada de um país africano, Lesotho23. Formulado por agências internacionais de “desenvolvimento”, o presente projeto de “desenvolvimento rural” foi realizado no sul da África, na região de Thaba-Tseka em Lesotho, ao longo do período de 1975-198424. Para o autor, as formulações de determinadas ideias, construídas em lugares distantes e aplicada em uma região com características específicas, contribuíram para mudanças sociais, já que:
[...] instituições do ‘desenvolvimento’ geram sua própria forma de discurso, e este discurso constrói simultaneamente Lesotho como um tipo particular de objeto de saber, e cria uma estrutura de saber em torno deste objeto. Intervenções são assim formuladas com base nesta estrutura de saber, que, enquanto ‘falham’ em seus próprios termos, geram também, efeitos, que incluem a expansão da burocracia estatal, lado a lado, com a projeção de uma representação da economia e da vida social (de Lesotho) que nega suas dimensões políticas... a resposta curta para a pergunta sobre o que o ‘apparatus’ do ‘desenvolvimento’ faz em Leshoto.
A síntese dos efeitos observados por Ferguson é expresso no próprio titulo atribuindo ao seu livro “uma máquina antipolítica, despolitiza tudo aquilo que ele toca [...] ao mesmo tempo em que, quase de maneira despercebida, realiza a operação política de expandir a burocracia do poder estatal” (FERGUSON, 1990, p. XIV-XV).
O trabalho de Ferguson, The Anti-Politics Machine (1990) no âmbito da antropologia política, foi realizado em países em desenvolvimento e em países não europeus, e em especial
22 A leitura de Ferguson (1990) mostra que estratégias construídas a partir de um determinado discurso
passam a integrar o dia a dia de atores, ganham objetividade e são aceitas como imutáveis. Essas produzem artefatos que criam um consenso social, produzindo ações novas e desprezando antigas, construídas a partir de outros discursos e práticas. Nesse caminho o discurso do desenvolvimento passa a ser aceito e transformado em algo com ampla credibilidade.
23 “Lesoto (oficialmente Reino do Lesoto; em inglês Kingdom of Lesotho) é um pequeno país da
África Austral, encravado no interior da África do Sul. Um enclave incrustado na África do Sul, montanhoso e sem saída para o mar, o país é o antigo reino da Basutolândia, um dos países etnicamente mais homogêneos da África: 99% de sua população é da etnia basoto. O país vive da agricultura e criação de ovelhas na cordilheira do Drakensberg, que domina a maior parte do território e atingem mais de 3 mil metros de altitude. É bastante dependente da África do Sul; o dinheiro enviado por seus cidadãos empregados nas minas e fábricas sul-africanas representa 26% do PIB.” (Cf. dados do Wikipédia, enciclopédia on line. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lesoto. Acesso em: 27 mai 2014).
24 O projeto foi desenhado e implementado pelo Banco Mundial em parceria com a Canadian
no continente africano. Nesse trabalho, o autor analisa programas, iniciativas governamentais e projetos implementados, pelo fato de salientarem as fragilidades dessas mesmas iniciativas, os insucessos face aos objetivos propostos e, por fim, os resultados que, embora não esperados, se revelaram frutuosos.
Para Ferguson (2011, p. 176), o desafio em pesquisar, o programa e projetos desenvolvidos por agências multilaterais não estavam funcionando como era esperado. Sendo assim, era preciso Lesotho seguir as seguintes perguntas: “se os projetos estão fracassando, por que isso está ocorrendo? Qual é o diagnóstico? Ou, então, se precisam ser melhorados, como? Não pareceram perguntas muito interessantes em Lesotho, porque lá era óbvio que estavam fracassando”; sendo assim, “era mais óbvio que eles iriam fracassar e que estavam organizados de forma que não poderiam nem mesmo existir. Já era claro para mim que eles não estavam fazendo nada, que estavam ocupando aquele lugar por outras razões e produzindo efeitos sociais, o que era muito importante”.
Ferguson (2011), com base nas análises do programa e projetos desenvolvidos de fora, em países africanos, e outros enquadrados como países do terceiro mundo, subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, considera esses projetos importantes, por entender as suas reais finalidades, o que ele chama de agnosticismo antropológico,
Porque simplesmente fazer uma cerimônia para trazer chuva não diz nada, não tem efeito social e não produz certas consequências sociais, mas é a chave para entender e desenvolver o que está acontecendo e o que é importante. E então encontrei um tipo de agnosticismo antropológico, que chamo de ser muito crente, ter muita fé, em projetos desenvolvimentistas.
Estudo realizado por Ferguson demonstra relevante a teoria e empiricamente na medida em que, independentemente de ser realizado em o Lesotho, possibilita pensar em projetos que são influenciados, financiados ou apoiados por modelos e entidades externas. Os estudos de Ferguson mostram que projetos de desenvolvimento no Lesotho, durante a década de 1980, apontam para outro tipo de perigo, o de institucionalizar ideias feitas sobre países e populações, as quais têm um impacto nas suas vidas. O autor visa analisar a ligação entre o discurso desenvolvimentista e o trabalho de campo das instituições internacionais ligadas ao desenvolvimento, tendo por base o Relatório do Banco Mundial sobre o Lesotho, de 1975. Ferguson constata que grande parte destes projetos oferece uma resposta técnica para o que não é intrinsecamente um problema técnico25.
25 Para atingir tal objetivo, Ferguson interpretou os relatórios produzidos pelo Banco Mundial e
A análise de Ferguson busca o significado real dos projetos de “desenvolvimento rural”, em Lesotho ou em outro país, que mesmo não alcançado seus objetivos, continuam sendo desenvolvidos sempre no mesmo modelo. Segundo o Antropólogo, esses projetos geram realizações não previstas inicialmente, como processos sociais que contribuem para mudanças políticas, capazes de produzir controle social, numa dinâmica onde “as técnicas são muito relacionadas ao exercício de poder no processo de aquisição de conhecimento” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 75-76).
Na perspectiva de Ferguson, a ideia de projeto dos organismos multilaterais está relacionada à ideia de desenvolvimento, e reforça a hegemonia, a rejeição da tradição, a crença no progresso. Sendo assim, a trajetória do desenvolvimento muitas vezes articulado com a noção de modernidade, consiste em questionar “todos os modos convencionais de fazer as coisas, substituindo autoridades por seu próprio arbítrio, baseada na ciência, [...]. A modernidade começa a conquistar o mundo em nome da razão” (LYON, 1998, p. 37).
Sendo assim, para Ferguson (1990, p. 55), é mais proveitosa uma análise consequente do desenvolvimento, que foca, ao invés de objetivos formulados e não atingidos, na análise no que o projeto produz e que não estava previsto. Em sua análise, o autor mostra como a discursividade do “desenvolvimento” opera a partir de uma série de regras de formação que determina a maneira como um conhecimento é formulado de certo objeto. Isso mostra que distorções presentes nos relatórios não são casuais e sim parte de uma estratégia de apparatus do “desenvolvimento”, capaz de construir um perfil de Lesotho de forma que corresponda um “Less Developmented Country” (LDC), que é pressuposto fundamental para a “intervenção” de organizações como o Banco Mundial. Acerca da peculiar representação de Lesotho (1990, p.55):
[...] como a qual que emerge no relatório do Banco Mundial não deve ser entendido como a simples produção de erros. Existem, de fato, equívocos no relatório como foi revisto, e existem tais formas de erros em outros relatórios desse tipo. Mas, estes erros são sempre de um tipo particular, e eles quase que invariavelmente tendem para direções previsíveis. As estatísticas estão erradas, mas sempre erradas da mesma maneira.
Para Ferguson, há uma disposição do Banco Mundial em construir uma imagem de Lesotho. Essa imagem consiste em descrever o país como um “Less Developmented Country”, uma “economia nacional dependente”. Sendo que para isso, o relatório conclusão com base no seu próprio conhecimento e trabalhos acadêmicos, o que lhe permite argumentar, que a maneira como o Banco Mundial faz a avaliação de Lesotho, pode ser um modelo de como a “indústria do desenvolvimento” faz para impor seus apartos da discursividade do desenvolvimento, como define um “problema” e sua solução correspondente.
desconsidera os aspectos sociais e político do país, história local capaz de explicar a peculiaridade do país. A descrição da população é feita de forma uniforme, como se fosse formado “igualitária de camponeses ou pequenos fazendeiros”. Segundo o autor, o relatório traduz que os principais problemas do “desenvolvimento” podem ser resolvidos com uma “boa governança”.
O Estado é tratado, como um órgão para aplicar “programas de desenvolvimento”, é um que tem políticas (policies), mas que não tem política (politics). Nessa visão, presente no relatório do Banco Mundial, os conflitos históricos entre classes e políticas são ignorados. Na verdade, as agências multilaterais como o Banco Mundial, busca em seus projetos de ajuda, construir um problema capaz de ser resolvido com “intervenções técnicas” “politicamente neutras” e principalmente esses problemas não pode ser consequência de transformações estruturais e políticas, já que “as agências do desenvolvimento não funcionam para dar apoio às transformações políticas ou lutas revolucionárias” (FERGUSON, 1990, p. 69).
Portanto, os relatórios do Banco Mundial precisam apresentar um Lesotho a partir de uma análise apolítica, com necessidades de receber intervenções tecnicistas e projetos como o de desenvolvimento rurais, que mesmo que não alcance os objetivos de criar serviços como estradas, postos de saúde, posto policial, correio etc., antes inexistentes. Com isso, o aparato estatal amplia sua área de alcance, principalmente onde a sua atuação era muito pouca antes do projeto, o que significa expandir a burocracia estatal, segundo Ferguson. Esses são os “efeitos colaterais” ou “efeitos instrumentais” dos “projetos de desenvolvimento”, ou seja, os “serviços” gerados de maneira não prevista servem, na realidade, à expansão do exercício do poder estatal.
Com isso, conclui o autor dizendo que o “projeto de desenvolvimento rural”, na região de Thaba-Tseka gerou condições instrumentais para a ação do poder estatal, aumentando o seu controle social, mesmo que essa não fosse sua finalidade. Isso, segundo Ferguson (1990, p. 256), mostra que um projeto que teoricamente é “apolítico, no final contribui para um processo político, como a expansão da burocracia estatal ou o exercício de poder de uma minoria”. É por esse motivo que mesmo que os projetos fracassem várias vezes em seu planejamento inicial, os mesmos continuam sendo implementados em diversos territórios, países e regiões do mundo.
A formulação de Ferguson é reforçada por Bhabha (1998, p. 111), para quem o colonizador busca sempre justificar suas ações e projetos como forma de atender “uma população de tipos degenerados com base na origem racial de modo a justificar a conquista e
estabelecer sistemas de administração e instrução”. Sendo assim, as ações de organizações multilaterais reforçam uma perspectiva colonialista que,
[...] deforma as relações intersubjetivas do reconhecimento mútuo, de maneira que os grupos implicados são pensados igualmente num esquema comportamental quase neurótico: enquanto os colonizadores só podem elaborar com cinismo ou com agressão intensificada o desprezo que sentem por si mesmos, já que degradam sistematicamente o nativo, os colonizados somente são capazes de suportar as ofensas diárias através da cisão de seu comportamento nas duas partes constituídas por uma transgressão ritual e uma superadaptação habitual (HONNETH, 2003, p. 248).
As análises das ações desenvolvidas por organizações multilaterais, com base num