Laboratory of Photogrammetry, National Technical University of Athens, Greece
2. INITIALIZATION OF ICP PROCESS ICP compares two point clouds and continuously transforms
A construção da hegemonia Ocidental exige que ocorra em muitas sociedades a prevalência da relação de poder. Sendo que a utilização do poder ser compreendida a partir da projeção realizada pelas técnicas ocidental e capitalista sobre a sociedade, grupos ou comunidade. Taussig (1993, p. 94), acerca da projeção, diz que “não é a selva, mas os sentimentos que os colonizadores nela projetam que são decisivos para encher seus corações de selvageria”.
Tal projeção encontra-se alimentada em publicações dos relatos presentes na literatura escrita e informativa acerca da situação e domínio colonial nos países centrais e nos próprios países que viveram sobre o regime colonial, no caso a Colômbia. Para Castro-Gómez (2005, p. 81), eles utilizaram a “palavra escrita para construir leis e identidades nacionais, planejar programas modernizadores, organizar a compreensão do mundo em termos de inclusões e exclusões”. Sendo assim, a projeção do colonizador era fundamental para consolidar uma concepção própria em um lugar distante.
Na perspectiva de compreender a política das representações políticas, Taussig (1993) descreve a atrocidade aos indígenas da região de Putumayo, na Amazônia, sudoeste colombiano, por funcionários de companhia de comércio inglesa ― a Peruvian Rubber Company26 uma borracha, no início dos anos de 190027.
26 Segundo Oliveira (2009, p. 117) a Peruvian Rubber Company, foi constituída para fins políticos,
“com a aparência de uma companhia de comércio inglesa ― a Peruvian Rubber Company, ela surgirá em substituição a “Casa Arana”, pertencente aos peruanos Julio Cesar Arana, seu irmão e seus cunhados, nada mais sendo, em verdade, que o mesmo estabelecimento, com outro nome e uma falsa nacionalidade, expressão do poder dos seus proprietários, que haviam chegado à região do Putumayo, em terras então colombianas, em 1903, a fim de ali atuarem na extração e comercialização da borracha, utilizando a população indígena que ali vivia, como mão de obra, dela se valendo, praticamente, na condição de escravos.
27 No início do ano de 1900, a região do Putumayo foi cenário da morte de aproximadamente 40 mil
indígenas. Suas mortes foram atrozes e cruéis: ― ensopando-se os seus cabelos com querosene, sendo eles, a seguir, queimados vivos; havendo sido antes torturados, até se encasularem como vermes; e, além disso, também estuprados; contando-se entre essas vítimas, velhos, mulheres e crianças; todas essas mortes brutais, havendo sido da responsabilidade do cauchero Julio Cesar Arana.
Para Quijano (1999, p. 99-109), a espoliação colonial constrói sua legitimidade na medida em que cria “diferenças incomensuráveis entre o colonizador e o colonizado” . Sendo assim, as noções de “índio”, “selva”, “cultura” e tanto outros irão operar como um dispositivo taxonômico capaz de produzir identidades opostas. Com isso, o colonizado será o outro alvo do poder disciplinador por parte do colonizador. As narrativas, discursos e produção literária transformaram o “colonizado” no detento da maldade, da barbárie e da incontinência, e o colonizador no arauto da bondade, da civilização e da racionalidade.
Faulhaber (2005, p. 10) diz a projeção dos colonizadores alimentaram os relatos produzidos da violência aos indígenas, mesmo nos jornais colombianos e britânicos da época, onde se encontram versões que visam garantir o predomínio das construções do colonizador, contraponto qualquer interesse ou abordagem que possam apresentar os aspectos relacionados aos interesses e defesa do olhar do colonizado. Para a autora, os argumentos “registrados na polêmica sobre essas fronteiras expressam discursos valorativos acerca do etnocídio, relativos a processos de colonização e nacionalização pelos diferentes Estados Nacionais nascentes, dos territórios indígenas”. “A trajetória da colônia criou o espaço da morte que em sociedades coloniais ganham significado e da consciência, sobretudo em sociedades onde a tortura é endêmica e onde a cultura do terror floresce” (TAUSSIG, 1993, p. 26).
Na mesma base, explorar os índios igualava-se, segundo Taussig (1993, p. 43), ao da exploração dos recursos naturais. Nessa lógica, recursos naturais e indígenas ganham a conotação de coisas, em que o conquistador tem o direito de usufruir. Sendo assim, quando “branco chegar a uma das grandes casas comunitárias” que moram mais de “cem índios, o primeiro também a impingir-lhes bens de consumo, clamou por seus ‘direitos de conquista’. Em troca, os índios pagaram com borracha. [...] Não entendo o poder que os comerciantes exerciam sobre os índios”.
No campo das estratégias de dominação, as práticas de atração incluíam a oferta de bens de consumo e a dependência do conquistador. Para Taussig (1993, p. 26-27), essa construção da colônia pelo colonizador, e o estabelecimento da hegemonia leva o autor a pensar a partir do papel do “terror”:
[...] na criação da realidade colonial que ocorreu no Novo Mundo permanecerá tema de imensa curiosidade e estudo – aquele Novo Mundo onde os irracionales índios e africanos se tornaram obedientes à razão de um pequeno número de cristãos brancos. Quaisquer que sejam as conclusões a que cheguemos sobre como essa hegemonia foi tão rapidamente efetuada, seria insensatez de nossa parte fazer vista grossa ao papel do terror. Com isto quero dizer que devemos pensar através do terror, o que, além de ser um estado fisiológico, é também um estado social, cujos traços especiais
permitem que ele sirva como o mediador par excellence da hegemonia colonial: o espaço da morte onde o índio, o africano e o branco deram à luz a um Novo Mundo.
O modelo ocidental, os padrões colonialistas dentro da abordagem do pós- desenvolvimento se atualizam, principalmente em relação aos povos indígenas. Tal perspectiva está presente no ideal de civilização, produto do modelo europeu a ser aplicado na colônia, onde a integração dos povos indígenas e de seus territórios às normas deste modelo é imprescindível. Sendo assim, para alcançar este desígnio totalitário, submeteram os povos indígenas às regras do centro capitalista e ocidental.
Na abordagem de Spivak (2010, p. 67), “no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar”. Sendo assim, na busca de certa inserção e superação da condição de subalternidade, como também, a participação na cultura do colonizador, o colonizado torna-se imitador, produzindo e reproduzindo imagens de si mesmo baseando-se nos valores culturais e sociais da cultura dominante. E “a mímica surge como objeto de representação de uma diferença que é ela mesma um processo de recusa. A mímica é assim o signo de uma articulação dupla, uma estratégia complexa de reforma, regulação e disciplina que se ‘apropria’ do Outro ao vislumbrar o poder” (BHABHA, 1998, p. 130).
Um dos exemplos de imposição do colonizador ao colonizado ocorre, segundo Bhabha (1998, p. 158), com a tradução da Bíblia para a língua nativa, recepcionada pelos nativos como um benefício dos colonizadores para os colonizados, de forma que o mesmo pudesse assim compreender. No entanto, “a Bíblia traduzida para o hindu, propagada por catequistas holandeses ou nativos, é ainda o livro Inglês”.
O método de ensino da língua, com expressões fácies e memorização para os colonizados, constitui um instrumento de dominação capaz, muitas vezes, de produzir inconscientemente ações contra sua própria crença. Assim, o colonizado passar a ter uma presença parcial, ou “o menos que um e duplo”, pois ao mesmo tempo em que esse Outro não mais se identifica com sua própria. Sendo assim, o “nativo preso nas cadeias do controle colonialista, chega ser uma "pseudopetrificação" que o incita e excita ainda mais, tornando assim, ansiosa eambivalente a fronteira entre colônia e nativo” (BHABHA, 1998, p. 168).
A forma de dominação do colonizador e a imposição de seus elementos culturais fazem com que os colonizados se constituam seres indeterminados, e essa é a representação da identidade do Outro por meio da mímica. Na verdade, o colonizador não permite que o Outro seja como ele, fazendo que o mesmo acredite que sua cultura não tem valor e para ser colonizado pelo Ocidental, no caso o europeu e o norte-americano.
Bhabha (1998, p. 135) diz que a mímica revela o Outro do “entre-lugar”, aquele diferente do seu objeto de imitação e marcado por uma identidade parcial, e “como lembra Lacan, a mímica é como a camuflagem, não uma harmonização ou repressão da diferença, mas uma forma de semelhança que difere da presença e a defende, expondo-a, em parte metonimicamente”.
Um aspecto importante na reflexão do pós-desenvolvimento é compreender que existe uma dupla relação, ou seja, o colonizado não é passivo. Ele desenvolve estratégias e meios de burlar parcialmente a dominação, adquirindo o que é necessário para a realização de alguma projeção própria aos seus interesses.