DEVELOPMENT OF CAD-BASED 3D DRAWING AS A BASIC RESOURCE FOR DIGITAL RECONSTRUCTION OF BAM’S CITADEL
5. APPLICATIONS AND PROPOSED IMPLEMENTATION
governamentalidade e a mercadoria. “A antropologia do conhecimento local” serve como uma taquigrafia para o que está faltando dessas análises, embora valiosa e necessária.
Portanto, o regime da natureza permite uma compreensão de aspectos essenciais que não são observados no enquadramento do sistema capitalista, da modernidade e ocidental.
3.4 O regime de tecnonatureza e tecnociência
O regime de tecnonatureza enquadra-se no domínio da artificialidade com acelerado crescimento na atualidade, que tem como principal mediador a tecnociência. Para Escobar (2005, p. 43):
Com a tecnociência contemporânea (do DNA recombinante em diante), o modelo moderno de relação entre o social e o natural está novamente sem resolução. Mais do que nunca o natural é visto como um produto do social. A crença que está se estabelecendo é que a biologia está sob controle e, como acrescenta Strathern, “a biologia sob controle não é mais ‘natureza’” (1992b, p. 35). A natureza desaparece e se torna o resultado de constante reinvenção (HARAWAY, 1991). Os desenvolvimentos depois do DNA recombinante têm reforçado esta crença, incluindo: os desenvolvimentos da reação em cadeia de polimerase (RABINOW, 1996), o projeto do genoma humano, os modelos biológicos, as nanotecnologias, clonagem, alimentos transgênicos etc. Esta possibilidade está presente desde o descobrimento das primeiras macromoléculas (certamente, o DNA), mas obteve um salto qualitativo com os desenvolvimentos contemporâneos em biologia molecular.
Tendo com referência Strathern (1992), Escobar (2005, p. 44) afirma que o “tratamento das novas biotecnologias pelo público indica que está se tornando culturalmente possível jogar com combinações sem precedentes do orgânico e do artificial”. Ainda, segundo Escobar Escobar (2005, p. 44), “com a tecnonatureza nós entramos em uma era de puro antiessencialismo (embora novos essencialismos sejam introduzidos em outros domínios)”. Isso, para o autor, significa que “tecnonaturezas e naturezas orgânicas” convergem a esse antiessencialismo na medida em que ambas são irrevogavelmente locais e particulares (embora haja pressões sobre a tecnonatureza para desenvolver aplicações universais, em especial no campo médico).
Além disso, a natureza passa a ter uma nova demarcação. Isso também é uma reinvenção da natureza, como também a habilidade da tecnonatureza para criar uma alteridade biológica. A natureza capitalista introduziu a natureza na igualdade e a natureza orgânica
era/é sempre predicada nas formas localizadas, a tecnonatureza faz proliferar a alteridade. A “diversidade” um conceito-chave tanto em biologia como em antropologia – assume novos significados Escobar (2005, p. 44).
Com a tecnonatureza, surgem perguntas: como ficam a natureza e o capitalismo em tal contexto? Tais respostas somente podem ser encontradas nas novas tecnociências. Para Kroker e Weinstein (1994), existe uma forte virtualidade, o fim da natureza; já segundo Heller (1998), a lógica dominante conduzindo esta transformação é a da recombinação de corpo, natureza, mercadoria e cultura recombinantes (HELLER, 1998).
Segundo Silva (1991, p. 22), “o capital tem no progresso técnico, que nada mais é do que uma das facetas do seu próprio desenvolvimento, a chave de subordinação da terra e, por extensão, da própria natureza”. Tal afirmação faz o autor concluir que “o sentido do progresso técnico na agricultura tem sido justamente o de superar as limitações que o capital encontra para o seu desenvolvimento de modo que as únicas barreiras que lhe restem sejam aquelas colocadas pela própria produção capitalista” (SILVA, 1991, p. 28).
Para Escobar (2005, p. 44), isto inaugura um período de “pós-capitalismo que marca o eclipse do orgânico e o triunfo de uma classe virtual totalmente comprometida com a lógica informacional da natureza/cultura recombinante”. Assim, “sob a ilusão da interatividade, a classe virtual estará livre para desenhar corpos cibernéticos e desaparecer na pura virtualidade, segundo Kroker e Weinstein (1994. p. 44 )”.
Em relação à tecnologia, para Escobar (2005, p. 44) ela produz uma erosão do valor “do aqui e agora em favor de outro lugar comunicativo que não tem nada a ver com a presença e os lugares concretos”. Segundo o autor, “as tecnologias de tempo real marcam o declínio do lugar, do território e do corpo em favor de um cidadão terminal, a deslocalização global da atividade humana, e a desvalorização do tempo local”.
Os avanços progressivos do tecnocientífico com a genética visa responder uma demanda econômica do setor industrial. Essa nova face da ciência e biotecnologia contemporâneas abrem novas perspectivas no campo da ética e de formação de novos mercados. Para Bachelard apud OST (1995, p. 72), na atualidade, estamos mais próximos de uma “ciência de efeitos” do que de uma “ciência dos fatos”.
No caminho da ciência com o avanço para a manipulação da natureza, Álvaro Zerda-
Sarmiento e Clemente Forero-Pineda (2002, p. 123) expõem a questão da proteção das “realizações de uma comunidade autóctone suscetíveis de serem comercializadas, quer se
trate de uma inovação no material genético, de um saber biológico ou tecnológico, da arte, ou de qualquer outro domínio que seja uma novidade fora desta comunidade”.
O aspecto relacionado à utilização dos recursos naturais constitui um dos principais problemas a ser refletido na atualidade, como expõe Ramos (1981, p. 190):
A produção de bens e serviços deveria ser promovida mediante o máximo uso de recursos renováveis e o mínimo uso razoável dos não-renováveis. A escassez dos recursos não-renováveis não é de natureza temporária e tratar sua utilização e alocação em termos de mecanismos de mercado, isto é, como se devessem ser apreçados de acordo com a lei clássica da oferta e da procura, é uma ilustração da regra utilitário-hedonista do après moi le déluge. Na realidade, qualquer parcela de recurso não-renovável usada no processo de produção estará acabada para sempre, fato que diz alguma coisa sobre o caráter exauridor dos macrossistemas contemporâneos. [...] Se a utilização desses materiais continuar nas proporções atuais, logo a humanidade estará privada de seu uso. Em consequência dos padrões de produção e consumo que prevalecem, o mundo contemporâneo vê-se diante de uma taxa sem precedentes de absoluta escassez ecológica, cujo aumento exponencial poderá acelerar o colapso termodinâmico do planeta, que, efetivamente, é afinal inevitável, num determinado ponto do tempo. O paradigma paraeconômico leva em consideração não apenas a termodinâmica da produção, mas também seus aspectos externos sociais e ecológicos.
No âmbito da tecnologia, a unicidade do tempo substitui a unicidade do lugar, assinalando uma nova forma de poluição caracterizada pelo deslocamento da extensão e da duração. Sendo assim, caímos em “uma divisão entre atividade e interatividade, presença e telepresença, existência e tele-existência” (VIRILIO, 1997, p. 44). Neste caso, segundo Escobar (1998), a resolução desta divisão precisa de uma política cultural sem precedentes, unindo organicidade, virtualidade e a defesa transformativa do lugar e da identidade. Acerca desse processo, podemos compreender tanto a formação do sujeito de direito de Touraine (1992), como a identidade de projeto de Castells (1999). O fato é que essas comunidades encontram na identidade de resistência seus principais argumentos e um ponto de partida para o processo de formação de uma identidade coletiva.
Na leitura de Escobar (2005, p. 46), as virtualidades criam oportunidades para o surgimento da criação de subjetividade e práticas ecológicas. O autor também cita Guattari (1995) para dizer que enquanto “as novas tecnologias hoje estão reforçando os aspectos mais retrógrados da valorização capitalista, elas também esboçam outras formas e modalidades de ser”. Para Guatarri (1995, p. 91), “O mundo contemporâneo – amarrado a seus impasses ecológicos, demográficos e urbanos é incapaz de absorver, em um modo que seja compatível com os interesses da humanidade, as extraordinárias mutações tecnocientíficas que o abalam. Está preso em uma competição vertiginosa em direção à ruína ou à renovação radical”. Para Castro (1999, p. 34), “a valorização da biodiversidade desafia o avanço tecnológico para orientar pesquisas e aplicações sobre materiais e produtos estratégicos fundamentais para
alimentar novos ciclos industriais”. Segundo da Costa e Richetti (2010, p. 274), a mercantilização da cultura e da natureza na atualidade foram transformadas em “capital simbólico”, o que é
[...] um dos maiores indicadores de acumulação de capital da nossa época. Pensar nisso em atividades desenvolvidas na Amazônia tem um peso significativo. Não porque seja a Amazônia mais importante do que outras regiões brasileiras ou outras localidades do mundo, porque cada localidade pensada para si mesma não possui parâmetro de comparação; mas porque no imaginário mundial existe uma produção social desta região que já é, e talvez seja mais ainda num futuro próximo, capaz de exercer grande influência na acumulação de capital.
Um ambiente tecnológico tem possibilitado surgir uma rede, envolvendo grupos e comunidades ao redor do mundo. As tecnologias possibilitam as condições para a construção de novas localizações e forças a partir das diferenças. Os movimentos sociais têm aproveitado tais condições e constituído redes que já podem ser vistas originando formas não insignificantes de “globalidade”. Para Escobar (2005, p. 47), “quanto mais os grupos sociais aprendem a desnaturalizar construções dadas de identidade (gênero, sexualidade, etnia), mais abertas são as novas configurações relacionais conectadas com a viabilidade de redes”. Para o autor, “as possibilidades criadas com as novas tecnologias são mais promissoras quando pensadas em conjunto com a defesa do lugar e de práticas ecológicas, culturais e sociais baseadas no lugar. Redes alternativas unindo humanos e não humanos poderiam ser vistas também sob essa ótica”. Para Monteiro (2010, p. 239), é essencial a construção de um paradigma com a “capacidade de articular o conhecimento tácito das populações tradicionais com o conhecimento formalizado e com inovações”.
Para a ecologia política, uma definição para a tecnonatureza enfatiza as configurações bioculturais que estão surgindo e aquelas que são possíveis, de acordo com as particularidades de atores, tecnologias e práticas. Um aspecto presente para a ecologia política é estudar os arranjos bioculturais atuais e a potência relacionada à tecnociência, ao longo dos eixos de organicidade-artificialidade e realidade-virtualidade, em que se poderia:
[...] examinar os discursos e práticas da vida e a extensão em que eles conduzem a novas naturezas, relações sociais e práticas. É importante que as etnografias da tecnonatureza não se foquem somente em contextos da elite ou em seu impacto em comunidades não elite. Elas deveriam explorar também os recursos materiais e culturais localmente constituídos que as comunidades marginalizadas são capazes de mobilizar para sua adaptação ou hibridização na produção de suas identidades e estratégias políticas (ESCOBAR, 2005, p. 48).
Portanto, com a ecologia política, busca-se compreender o conjunto dos fatores, e não somente uma parte. Tal perspectiva é essencial para a formulação de estratégias coletivas que podem fundamentar a ação política de comunidades marginalizadas pela lógica capitalista e ocidental.