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A performance musical em nível de expertise é compreendida por estudiosos da Psicologia da Performance como a síntese de aspectos técnicos e expressivos (JUSLIN; PERSSON, 2002, p. 227; CLARKE, 2011, p. 81). Diferentes pesquisas empíricas, desenvol- vidas pela área da Psicologia da Música, têm procurado ilustrar os esforços de intérpretes quanto à elaboração de performances expressivas (entendida aqui como o planejamento dos aspectos emocionais a serem ressaltados durante uma apresentação em público). Como já mencionamos anteriormente, nos estudos realizados por Chaffin (baseados na observação do comportamento de músicos experientes) o pesquisador pôde reconhecer o emprego dos chamados "guias expressivos", isto é, o planejamento antecipado das emoções a serem transmitidas para uma platéia durante a performance musical. A pesquisa realizada com a pianista Gabriela Imreh, permitiu ao pesquisador constatar o envolvimento da pianista com tais guias, a partir do cuidado na seleção de emoções específicas, durante o processo de elaboração da performance musical (CHAFFIN, 2012, p. 197).

Tais exemplos permitem reconhecer o estudo da emoção musical e sua relação com a performance musical, como um dos tópicos de interesse de pesquisadores da Psicologia da Música (RINK, 2009, p. 72). Outro aspecto que os exemplos anteriores permitem ilustrar trata-se da preocupação de intérpretes com a comunicação emocional, durante a performance musical. Esta é definida por Juslin e Persson (2002, p. 221) como a transmissão da emoção, empreendida pelo músico instrumentista, no decorrer da performance musical. Para os autores, as habilidades expressivas representam aspectos que podem ser desenvolvidos medi- ante o emprego de algumas estratégias. Tal fato tem sido corroborado por estudiosos da Psicologia através da identificação das diferentes estratégias, empregadas por performers, a fim de facilitar a comunicação emocional com a platéia (JUSLIN; PERSSON, 2002, p. 228).

Sabendo-se que a comunicação emocional é considerada por performers um ele- mento fundamental para a performance musical (JUSLIN; PERSSON, 2002, p. 220), e que esta tem se constituído numa preocupação para diversos intérpretes (CHAFFIN, 2012, p.191), alguns estudos psicológicos têm se voltado para diferentes focos de investigação a fim de permitir a compreensão sobre o desenvolvimento das habilidades expressivas. Desse modo, podemos reconhecer nas pesquisas desenvolvidas pela área da Psicologia da Música o interesse pela identificação das estratégias mobilizadas por músicos em nível de expertise e estudantes em nível avançado. A pesquisa observacional empreendida por Van Zijl e Sloboda (2010) permitiu aos pesquisadores identificar a mobilização de estratégias por estudantes em nível avançado, voltadas para o desenvolvimento da expressividade, como a indução de emoções e a criação de metáforas98 (VAN ZIJL; SLOBODA, 2010, p. 214). Além da obser- vação de músicos experientes, alguns estudos psicológicos também têm se voltado para a observação das estratégias empregadas por professores de instrumento a fim de compreender o nível de comunicação emocional (manifestado por estudantes de instrumento) e proble- máticas relacionadas ao ensino da expressividade (JUSLIN; PERSSON, 2002, p. 228).

Embora, os exemplos anteriores permitam ilustrar o interesse de psicólogos pela compreensão do fenômeno da expressividade musical, podemos admitir que sua importância para a atividade da performance musical tem favorecido o aparecimento desta temática em

98 De acordo com Juslin e Persson (2002, p.229), o emprego de metáforas é uma das estratégias mais empre-

gadas por professores de instrumentos no que se refere ao ensino da expressividade. Segundo os autores, tal es- tratégia consiste na criação de estados emocionais mediante o emprego de palavras ou imagens.

pesquisas desenvolvidas por músicos instrumentistas99. Tal aspecto pode ser notado em relação às produções de pesquisas sobre performance pianística, desenvolvidas na linha Práticas Interpretativas. É possível reconhecer em alguns trabalhos o desenvolvimento de abordagens voltadas à interpretação musical nas quais os autores deixam transparecer o esta- belecimento de "significado emocional" à estrutura de um texto musical, ou seja, o envol- vimento dos autores com os chamados "guias expressivos". Embora, tais produções não apresentem como foco o estudo das habilidades expressivas, tais exemplos servem para ilus- trar o espaço que o tratamento dos aspectos expressivos vem ocupando em produções desen- volvidas pela área de concentração/ linha de pesquisa em Práticas Interpretativas.

O estudo da expressividade e sua relação com a atividade da performance musical apresenta-se como tema central, pouco recorrente, em pesquisas sobre performance pianística. Em relação às pesquisas relacionadas à performance pianística, podemos reconhecer um predomínio de estudos sobre as habilidades cognitivas em detrimento da abordagem sobre a expressão musical100, entendida aqui como a transmissão da emoção durante a atividade da performance musical (JUSLIN; PERSSON, 2002, p. 220). Como exemplo de pesquisa rela- cionada a este tema, encontra-se a dissertação intitulada Comunicação Estrutural e Comu-

nicação Emocional nas Variações sobre um Tema Nordestino de Almeida Prado, de Benetti

Junior (2008). Embora, a pesquisa não trate unicamente da relação entre expressão emocional e performance, a produção apresenta-se como o único trabalho voltado, fundamentalmente, para a investigação desta relação. A partir de estudos desenvolvidos por especialistas da Psicologia da Performance, a produção teve como propósito descrever o processo de elabo- ração da performance da obra citada. Com base em estudos psicológicos que tratam sobre a comunicação emocional e estrutural, conforme apresentado no livro The Science and Psy-

chology of Music Performance: creative strategies for teaching and learning (2002), a pes-

quisa emprega uma diversidade de procedimentos metodológicos. Desse modo, o autor faz uso da análise musical, técnica de entrevista e análise com base em gravações das performan-

99 Podemos reconhecer em produções desenvolvidas pela linha Práticas Interpretativas, no Brasil, pesquisas

caracterizadas pela apresentação de abordagens interpretativas nas quais os autores deixam transparecer comentários sobre aspectos expressivos relacionados ao "significado emocional", estabelecido pelos autores à estrutura de um texto musical. Produções sobre Análise Musical as quais tem empregado proposta analítica desenvolvida por Lawrence Ferrara apresentam esse tipo de abordagem caracterizada pelo estabelecimento de "significado emocional" a elementos presentes na estrutura de obras musicais. Tais aspectos podem ser veri- ficados nas dissertações Un analysis eclético de la Sonata para piano opus 55 nº 3 de Alberto Ginastera (1916-

1983) (2007), de Juan Pablo Marcó Hraste, e O primeiro movimento da Sonata II para piano solo de Bruno Kiefer: uma análise interpretativa (2007), de Liliana Michelsen de Andrade.

100 Tal afirmação, baseia-se no levantamento de estudos em performance pianística, realizado ao longo da

ces realizadas. A aproximação com procedimentos metodológicos, característicos da Psico- logia, pode ser reconhecida mediante o emprego do registro em áudio das diferentes etapas de elaboração da performance musical. De acordo com o autor, tal procedimento voltou-se para a avaliação do nível de expressividade, obtido ao final de cada etapa de estudo da obra musical. Novamente, podemos reconhecer o emprego da auto-observação em pesquisa voltada à oti- mização de habilidades, necessárias à construção da performance musical. Outro aspecto possível de ser identificado, diretamente relacionado ao referencial adotado pelo autor, é o emprego de estratégias voltadas para o desenvolvimento de performances expressivas, como a criação de metáforas (BENETTI JUNIOR, 2008, p. 31). A observação desta e das outras pes- quisas, anteriormente citadas, permite verificar a aproximação de intérpretes dos estudos psicológicos como possibilidade de otimizar as próprias habilidades musicais. Deste modo, pesquisas empíricas têm sido empregadas como subsídio à organização da prática de per- formers-pesquisadores.