A pesquisa observacional é um método fundamental para o campo de atuação dos psicólogos, e pode favorecer a realização de inferências sobre o comportamento de pessoas. Em Psicologia, o método se caracteriza pela descrição e interpretação de comportamentos de maneira sistemática e com base em registros cuidadosos (SHAUGHNESSY et al., 2012, p. 106; DALLOS, 2010, p. 152). A observação é considerada tanto um método independente quanto um procedimento que pode estar atrelado a outros métodos de pesquisa. Esta carac- terística permite reconhecer sua presença nas abordagens quantitativas e qualitativas. Tal aspecto foi tratado por Freire (2010, p. 28) em seu estudo sobre os principais métodos de pesquisa empregados pela área musical. A pesquisadora reconhece a diferença de propósitos quanto ao emprego da observação nos diferentes tipos de abordagem, em Música. A partir de uma aproximação de tais propósitos é possível ilustrar, brevemente, características relacio- nadas ao emprego do método da observação em estudos desenvolvidos pela disciplina Psi- cologia da Performance.
O primeiro aspecto tratado pela autora refere-se ao emprego da observação pelas abordagens quantitativas. Com base em Freire (2010, p. 29), pode-se afirmar que a obser- vação em tais abordagens realiza-se a partir de propósitos pré-definidos, procedimentos sis- temáticos, geralmente, direcionados para uma possível generalização dos resultados. A cha- mada "descrição neutra" apresenta-se como característica da observação nas abordagens quantitativas, que podem ser compreendidas pelo distanciamento do observador em relação ao objeto em estudo, ou seja, sem a interferência da ideologia do pesquisador e dos participantes de um estudo (FREIRE, 2010, p. 29). Tais aspectos podem ser reconhecidos nos estudos ex- perimentais caracterizados pelo emprego de diferentes procedimentos de controle a fim de possibilitar a observação da relação entre as variáveis (DALLOS, 2010, p. 139). Trata-se, por- tanto, de uma observação realizada com base no emprego de procedimentos sistemáticos com propósito de garantir a precisão dos resultados e evitar distorções de análise e interpretação (RICHARDSON, 2012, p. 70). O emprego da observação nas abordagens quantitativas pode ser identificado nos primeiros estudos sobre aspectos da performance musical, desenvolvidos por Seashore (1967). Pode-se reconhecer em suas pesquisas o emprego de equipamentos voltados ao registro e a posterior medição dos parâmetros intensidade e duração. Em uma de suas pesquisas, a observação de tais parâmetros permitiu verificar o tratamento conferido por pianistas aos diferentes aspectos interpretativos, tais como a execução de dinâmicas, a acentu-
ação, o emprego da agógica, a pedalização, a qualidade sonora e a sincronização, durante a execução de acordes (SEASHORE, 1967, p. 239).
Enquanto a observação sistemática voltada à medição e generalização dos resul- tados, tem caracterizado boa parte das pesquisas relacionadas às abordagens quantitativas, Freire (2010, p. 29) destaca a diferença de objetivos deste método nas abordagens qualita- tivas. Em tais abordagens, a observação volta-se à interpretação de fenômenos de maneira mais aberta em relação a uma possível interferência da visão ideológica do pesquisador. A interpretação de fenômenos pode ser considerada uma possível visão e não a única conclusão "verdadeira", mesmo que baseada em informações quantitativas e objetivas sobre um de- terminado fenômeno (FREIRE, 2010, p. 29). Desse modo, nas abordagens qualitativas, o pes- quisador interessa-se pelo emprego da observação com o propósito de investigar um deter- minado processo a partir do contexto em que ocorre. Trata-se de uma observação baseada, principalmente, na análise de dados verbais e imagens.
Com base nos propósitos da pesquisa observacional em abordagens qualitativas, podemos reconhecer o interesse pela investigação de habilidades musicais a partir da obser- vação de dados verbais e imagens emitidas por performers, sobretudo em estudos, desenvol- vidos pela disciplina Psicologia da Performance. A pesquisa observacional com base no regis- tro da imagem dos movimentos corporais de músicos instrumentistas, durante a performance musical, aparece como possibilidade de pesquisa adotada em estudos desenvolvidos por Davidson (2007). Em uma de suas pesquisas, Davidson investiga a sequência de movimentos corporais realizados por pianista profissional, durante performance de obra, composta por Beethoven. A atenção da pesquisadora volta-se à compreensão do fenômeno da expressivi- dade e sua manifestação nos gestos corporais empregados por um pianista. A observação do registro dos movimentos corporais favoreceu a classificação e a mensuração dos diferentes tipos de movimentos, empregados em diferentes situações de performance88. Dessa maneira, os resultados da pesquisa empreendida por Davidson permitiram a identificação da recor- rência de movimentos em situações envolvendo a ausência e a presença da expressividade, durante a performance musical (DAVIDSON, 2007, p. 394).
O interesse pela compreensão do desenvolvimento de habilidades musicais tem promovido a realização de pesquisas observacionais a partir do contexto no qual ocorre o processo de construção de uma performance musical. Trata-se de uma aproximação das pes-
88 A autora emprega o sistema notacional criado por Laban para a classificação dos diferentes tipos de movimen-
quisas do ambiente habitual de ocorrência do fenômeno em estudo, característica presente nas abordagens qualitativas (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 47). Tal propósito aparece em dife- rentes estudos desenvolvidos por Roger Chaffin (2012), psicólogo e pesquisador que vem empregando a pesquisa observacional a fim de verificar as estratégias de memorização e recuperação da memória musical por músicos expertises. Em um de seus estudos, Chaffin observa o registro em vídeo das sessões de estudo da pianista Gabriela Imreh com propósito de identificar suas estratégias de memorização. Tal observação permitiu ao pesquisador reconhecer o emprego realizado pela pianista dos chamados "guias de execução" e a utilização de seu conhecimento sobre a estrutura formal de uma composição na organização das sessões de estudo (CHAFFIN, 2012, p. 217). Semelhantemente ao estudo de Davidson, o pesquisador emprega a combinação entre as abordagens qualitativa e quantitativa, sendo a última direcionada à quantificação dos diferentes guias empregados pela pianista, durante as sessões de estudo (CHAFFIN, 2012, p. 206).
Além da pesquisa com foco no comportamento de músicos, em nível de expertise, a pesquisa observacional pode também voltar-se para a investigação das estratégias empregadas por professores de instrumento musical. Conforme visto no início deste capítulo, dentre os tópicos de interesse dos estudiosos da Psicologia da Música encontram-se os aspectos psicológicos relacionados às atividades de ensino-aprendizagem de habilidades musicais (DEUTSCH, 2001, p. 527). O emprego da pesquisa observacional como possibilidade de in- vestigar a interação entre professores de instrumento e estudantes aparece como modalidade de pesquisa adotada por Karlsson e Juslin (2008). De acordo com Hallan, a investigação da interação entre professores de instrumento e estudantes de música representa uma possibilidade, ainda pouco explorada, nos estudos psicológicos (HALLAN apud KARLS- SON; JUSLIN, 2008, p. 310). A partir das gravações das aulas de diferentes instrumentos musicais e da análise de conteúdo dos diálogos entre professores e alunos, Karlsson e Juslin puderam reconhecer o nível de atenção dado pelos professores quanto à abordagem da expressividade durante as aulas de instrumento musical. Dessa maneira, a observação dos registros verbais favoreceu a identificação das principais estratégias e dinâmicas empregadas pelo grupo durante as aulas. Novamente, pode-se reconhecer neste estudo o emprego com- plementar entre a abordagem qualitativa e quantitativa. Com base na transcrição dos relatos das aulas registradas em vídeo, os pesquisadores puderam quantificar as estratégias e expres- sões emitidas pelos docentes, um procedimento típico da análise de conteúdo (BARDIN, 2011, p. 24). A partir dos registros realizados pelos pesquisadores, pôde-se observar nas aulas de instrumento uma certa ênfase na abordagem de aspectos técnicos, em detrimento dos
aspectos expressivos, bem como o emprego de afirmações vagas realizadas por professores de instrumento, como possibilidade de desenvolvimento das habilidades expressivas (KARLS- SON; JUSLIN, 2008, p. 328).
Com base nas pesquisas aqui consideradas podemos reconhecer a presença de aspec- tos metodológicos bastante frequentes em pesquisas observacionais, desenvolvidas pela dis- ciplina Psicologia da Performance.
O primeiro aspecto refere-se ao interesse dos pesquisadores pelo emprego da abor- dagem qualitativa nos estudos psicológicos, em Música. De acordo com Williamon e Thomp- son (2004), o interesse por esta perspectiva de pesquisa tem acompanhado o desenvolvimento de estudos sobre Psicologia da Música nas últimas décadas. Trata-se de uma abordagem que tem vindo ao encontro das necessidades da área como possibilidade de investigação de as- pectos não mensuráveis, favorecendo o conhecimento sobre as experiências subjetivas do performer, assim como sua interferência no comportamento musical (WILLIAMON; THOM- PSON, 2004, p. 19). Estudos baseados em relatos de performers têm favorecido o reconhe- cimento de aspectos relacionados ao desenvolvimento de habilidades e dificuldades enfren- tadas por performers, tanto em relação ao processo de construção quanto ao momento de uma performance musical. Os exemplos das pesquisas desenvolvidas por Karlsson e Juslin (2008), e Chaffin (2012), ilustram o potencial da observação dos relatos para a identificação das estratégias e dificuldades enfrentadas por performers.
O segundo aspecto possível de ser identificado nas pesquisas consideradas ante- riormente, refere-se ao interesse pelo desenvolvimento de estudos de caso. Tanto Davidson (2007, p. 395) quanto Karlsson e Juslin (2008, p. 330), destacam em suas pesquisas a limita- ção de seus estudos para uma generalização dos resultados. Entretanto, os autores defendem a necessidade e realização de estudos posteriores como possibilidade futura de comparação entre os resultados de diferentes estudos de caso. Embora, a realização de estudos de caso possa apresentar, inicialmente, uma limitação quanto à validade externa de seus resultados, deve-se reconhecer o aproveitamento de tais estudos em bibliografias e produção de pesquisas desenvolvidas pela disciplina Psicologia da Performance. Tal aspecto será tratado na aborda- gem sobre os principais referenciais teóricos que têm subsidiado parte das pesquisas sobre performance pianística, desenvolvidas em Práticas Interpretativas.