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Uma das contribuições mais importantes da psicodinâmica do trabalho foi chamar atenção para o recurso às defesas como medida para evitar o sofrimento e garantir a saúde diante das dificuldades postas pelo trabalho. A idéia é de que o sofrimento provocado pelo trabalho pode demandar o recurso a processos defensivos, sobretudo quando outras estratégias estão bloqueadas. Esses processos defensivos permitem evitar o sofrimento e suportar uma situação que de outra forma seria insuportável.

A idéia de processo defensivo na situação de trabalho apresentada pela psicodinâmica do trabalho remonta à concepção de defesa psíquica desenvolvida pela psicanálise, mesmo que não se trate do mesmo processo, tal como Dejours (1992, 1994) faz questão de enfatizar. Isso porque, na sua origem psicanalítica, a idéia de defesa está associada à de conflito psíquico e é para colocar fim a esse tipo de conflito que os mecanismos de defesa entram em cena. Os conflitos de que trata a psicanálise são principalmente aqueles provocados por impulsos sexuais proibidos que, por essa razão, provocam sofrimento que pode ser amenizado por mecanismos de defesa também psíquicos

(Freud, 1968). Considerando apenas esse tipo de conflito a idéia de processos defensivos para amenizar sofrimento provocado por situações de trabalho ficariam comprometida.No entanto, a própria Ana Freud (1968) em seu estudo sobre os mecanismos de defesa psíquicos chama atenção sobre a atuação de processos defensivos em qualquer situação que envolva afetos penosos como é o caso da ansiedade, do medo e da angústia. Também Laplanche e Pontalis (1992) lembram que as defesas podem incidir em tudo que pode suscitar o desenvolvimento de angústia - emoções, situações de perigo, exigências do superego – e não apenas em reivindicações pulsionais. Como o trabalho pode expor a riscos e provocar ansiedade e angústia, pode também demandar o recurso a mecanismos defensivos.

Os mecanismos de defesa descritos por Freud e outros psicanalistas funcionam como um recurso individual, para se proteger do sofrimento negando, distorcendo, projetando, omitindo, invertendo, deslocando (Laplanche e Pontalis,1992). O que Dejours (1992) fez a partir da Psicodinâmica do Trabalho foi mostrar a presença de processos defensivos no contexto de trabalho para enfrentar o tipo de sofrimento que tem origem nessa situação. Os processos defensivos podem ser necessários a partir de situações de trabalho quando um impasse faz exigências contraditórias, provocando conflito e sofrimento e não permitindo outro tipo de solução.

Embora os mecanismos de defesa individuais estejam à disposição do sujeito como recurso para enfrentar situações de sofrimento provocadas pelo trabalho, o mais original da contribuição da psicodinâmica do trabalho acerca das defesas não diz respeito ao uso desses mecanismos. O mais original dessa contribuição vem da identificação de processos específicos das situações de trabalho que ficaram conhecidos como estratégias coletivas de defesa e ideologia defensiva.

As estratégias coletivas de defesa podem ser atos, operações e comportamentos, realizados com a função de negar ou de recusar simbolicamente a realidade que provoca sofrimento e que, por alguma razão, não pode ser alterada. Essas estratégias podem envolver o silêncio a respeito de um impasse impossível de solucionar, a recusa em usar um equipamento de segurança para negar o perigo, o excesso de dedicação a um trabalho penoso. Dejours (1992) identifica também a ideologia defensiva, como uma construção coletiva com o propósito de defesa, mascarando, distorcendo ou ocultando algum tipo de sofrimento provocado pelo trabalho. A ideologia defensiva envolve idéias, opiniões, crenças e representações que vão sendo construídas sobre o trabalho e o contexto em que ele é realizado. Essas idéias circulam entre os trabalhadores presentes e é transmitida aos trabalhadores futuros impedindo a explicitação do que está sendo negado.

Dejours e Abdoucheli (1994) consideram que tanto as estratégias de defesa quanto a ideologia defensiva lutam contra um sofrimento provocado pela organização do trabalho, na tentativa de garantir o equilíbrio psíquico dos trabalhadores, quando estes são confrontados com as dificuldades de um trabalho penoso ou perigoso. Tanto as estratégias coletivas de defesa quanto a ideologia defensiva tem a função de proteger o trabalhador do sofrimento que seria conseqüente dos impasses postos pelo trabalho, mas nem um e nem outro interferem diretamente na realidade, sendo seu efeito apenas psíquico.

A negação é apontada como o principal mecanismo presente nesses processos defensivos no trabalho. Para conviver com o sofrimento a solução é decretar que ele não existe, negando situações perigosas, coercitivas ou penosas. O perigo é tornado invisível para que o medo também o seja. A defesa nesse caso é contra o afeto, mas a medida defensiva visa a mudança da percepção da realidade que provoca o afeto desagradável (Seligman-Silva (1995).

Dejours (1999) aponta como uma das conseqüências dessa negação do real a interpretação de fracassos como resultado da incompetência, da falta de seriedade, do desleixo, da falta de preparo, da má vontade, da incapacidade ou do erro humanos, quando não necessariamente o são. Os próprios trabalhadores podem se tornar cúmplices da negação dos problemas que tem origem na organização do trabalho tais como: tempo insuficiente para fazer o trabalho bem feito, a impossibilidade de cumprir as normas de segurança, a impossibilidade de prever conseqüências, a falta de equipamentos adequados. A responsabilização exclusiva dos trabalhadores pelo fracasso no desempenho pode levar à dissimulação das dificuldades impostas pela tarefa, omissão das falhas e encobrimento de acidentes. É nesse sentido que a mentira é explicada como uma prática discursiva que pode ocupar o lugar deixado vago pelo silêncio dos trabalhadores sobre as dificuldades e impasses do trabalho.

Escondendo a realidade que causa sofrimento, as estratégias de defesa e a ideologia defensiva podem garantir a continuidade do trabalho e até mesmo preservar a saúde do trabalhador. O sofrimento pode ser razoavelmente bem controlado pelas estratégias defensivas de modo que não se transforme em patologia: neuroses, psicoses, depressão (Dejours, 1992). O valor funcional dessas estratégias está em neutralizar o medo para que as tarefas possam continuar sendo realizadas, apesar do risco e do perigo. O problema é que as estratégias de defesa e a ideologia defensiva permitem um equilíbrio e uma estabilidade que garantem a convivência pacífica ou passiva com os problemas impedindo a revisão e a mudança. Isso porque as estratégias de defesa operam modificações na percepção que o trabalhador tem da realidade que os faz sofrer, porém sem alterar a realidade, uma vez que se trata de uma operação mental, como diz Dejours e Abdoucheli (1994). Diante de problemas concretos o efeito acaba sendo apenas de esconder o problema, diminuindo o

sofrimento, mas perpetuando situações que precisariam de outras providências. Como conseqüência de sua eficácia em relação ao equilíbrio mental, as estratégias defensivas contribuem para a tolerância a uma organização do trabalho que vai contra os desejos, necessidades e a saúde do trabalhador e opõem-se a uma evolução que poderia levar a uma estabilidade da organização em um nível mais adequado (Dejours, 1992). Por essa razão, Karam (2003, p. 189) considera que o sistema defensivo é eficaz porque protege os indivíduos que fazem parte do coletivo, mas não é eficiente, pois “o custo da contenção da experiência individual de sofrimento é muito alto”. Essa autora fala nesse esforço para manter a distância entre o prescrito e o real em silêncio como um esforço de resignação, submissão e humilhação que envolve um custo pelo investimento de energia psíquica, destinado a construir um sistema defensivo capaz de dar conta da sobrevivência, evitando a descompensação psíquica.

A análise das defesas é considerada do ponto de vista de metodológico como condição essencial para ter acesso ao sofrimento que o trabalho provoca, uma vez que o sofrimento é negado, distorcido, camuflado, justamente pelo efeito dos processos defensivos que são colocados em funcionamento para tornar situação suportável. Da clínica psicanalítica Dejours (1992) traz o cuidado de não ouvir a queixa como o problema, por causa dos processos defensivos, e de trabalhar essa queixa para chegar ao sofrimento do trabalhador.

Os conceitos da psicodinâmica do trabalho sobre sofrimento e defesa e também sobre prazer no trabalho interessam especialmente para o estudo do serviço doméstico remunerado, justamente pela perspectiva de análise sobre as experiências subjetivas do trabalhador que eles permitem, embora não se ignore que existem críticas a essa concepção (Lima, M, 2003; Codo, 2004).

CAPÍTULO 3