O rio Teles Pires, seus afluentes e as formações de solo, relevo e vegetação que compõem parte do cenário da Amazônia meridional são para os Kaiabi agentes ambientais de crucial importância na elaboração e afirmação de sua territorialidade. O ordenamento do dia a dia vivido no Teles Pires, expressa conceitos de tempo e espaço reconhecíveis somente através do relacionamento entre as condições que o ambiente oferece aos Kaiabi e a forma como eles se apropriam dessas condições. A partir das recíprocas interações entre pessoas e ambiente, os ritmos da vida diária dos Kaiabi encontram um tipo particular de ressonância capaz de envolver os participantes numa
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relação que não pode ser adequadamente compreendida partindo das dualidades convencionais natureza e cultura.
As informações apresentadas no capítulo em que tratamos das cosmografias, dos modos de orientação espacial dos Kaiabi e do relacionamento com o ambiente do Teles Pires, anteriormente ao contato mais intenso, terão uma importância em termos contextuais para a análise que estamos desenvolvendo no presente capítulo. Não pelo fato de que suas relações com o ambiente não estivessem fundadas em emoções ou que não fossem capazes de estabelecer uma base social e ecológica a partir da perspectiva unificadora entre mente-corpo ou natureza-cultura que estamos buscando aqui. Principalmente porque o único viés perceptivo que possuíamos para explicar essas relações estava fundamentado na cosmologia e na cultura (building perspective), que para os propósitos daquele capítulo, acredito terem desempenhado bem o seu papel. Logo, as descrições das diversas sobreposições de cosmografias que se impuseram sobre o território habitado pelos Kaiabi no século passado, com sucessivas mudanças em seus hábitos territoriais, servirá mais como um importante aporte diacrônico, para realizarmos agora uma análise sincrônica da situação vivenciada pelos Kaiabi no Baixo Teles Pires. Nesse momento queremos evidenciar que somente o rio Teles Pires (e nenhum outro rio) possui a capacidade de operar como eixo de identificação ou embodiement dos Kaiabi com os ritmos da vida/natureza. Considerando nossa intenção de conferir à etnografia um propósito em si mesma, esse capítulo não faria sentido desconectado das sensações e impressões que o próprio antropólogo pôde compartilhar com seus interlocutores, no momento em que a pesquisa estava sendo realizada. Será, portanto, buscando uma aproximação ambientalmente situada com o dia a dia vivido pelos Kaiabi que pretendo encontrar um caminho produtivo para acessar informações pertinentes a respeito de suas relações de dwelling atuais com o Teles Pires.
Informações ecológicas
Para iniciar essa aproximação, me parece razoável, familiarizar o leitor com algumas categorias básicas utilizadas pelos próprios Kaiabi na classificação e disposição prática do ambiente. Para os Kaiabi, o tempo surge em primeira instância pela dinâmica do ciclo da água e do ciclo das roças, fortemente marcados pelo ritmo das estações. A manifestação visual da duração e intensidade dos períodos de inundação é o fator
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primário utilizado para marcar o início de uma estação e o término de outra. Isto se evidencia pelo discernimento dos dois principais micro-ambientes yapopet (floresta inundável na época das chuvas) e ka’areté (floresta de terra firme que nunca inunda). O micro-ambiente com vegetação mais baixa que cobre as praias e ilhas (ypo’o) também recebe um estatuto diferenciado, consideravelmente sujeito às influências fluviais, podendo apresentar caráter efêmero, surgindo ou desaparecendo com o passar das estações. Outras duas configurações que caracterizam marcadamente o visual paisagístico no Teles Pires são nomeados de ywytyt e ywytyti’í, sendo o primeiro relacionado aos morros e o segundo aos morros menores. A importância da influência das relações fluviais na diferenciação dos sub-ambientes pode ser identificada pelo termo “y”, que pode querer dizer tanto água, como rio, de uma maneira geral nas línguas tupi-guarani (Tibiriçá, 1984).
A dimensão espacial também reconhece de modo relevante a influência da água, expressa através do grau de hidromorfismo presente em diversificados setores ambientais. Por exemplo, a identificação dos ka’apapawet (mato na beiras das lagoas) e yatarãn (planícies pantanosas, constantemente alagadas, no interior das florestas de terra firme). Em alguns casos, “y” vem acompanhado de um prefixo ou sufixo, quando está fazendo referência a uma característica hidromórfica mais específica. Da mesma forma, as transições entre sub-ambientes reguladas pelo nível da água e ambientes de terra seca são explicitamente reconhecidas. Os Kaiabi chamam de ywyantã ao ponto máximo onde a água alcança, quando se iniciam as terras mais altas, onde ficam os animais como anta, paca e tatu. O termo ywit se refere à orla ou linha que estabelece o limite entre o yapopet e o ka’areté; também para fazer referência à margem de um rio.
Os Kaiabi também possuem a capacidade de identificar um conjunto diversificado de variações ambientais que condicionam a existência ou predominância de recursos particulares. Nos locais onde ocorre maior expressão da planície fluvial de pequenos e médios igarapés no interior da floresta (yatarãn), a condição de permanente umidade propicia a ocorrência do açaí, buriti, patauá, entre outras espécies. É no yatarãn que os Kaiabi saem em expedições mais curtas em busca de caça, coleta de plantas úteis, em especial a fibra do arumã rugoso empregada na confecção de peneiras, um de seus artefatos com grande significado mítico e importância na afirmação étnica.
Sob o viés da composição estrutural do ambiente em que vivem, os Kaiabi mencionam o ka’areté (mato alto) como uma floresta de terra firme, mais densa,
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aparentemente sem intervenção antrópica, composta de árvores maiores, em contraposição ao jusing (mato branco), que se configura como uma vegetação arbustiva baixa, com muito capim e ao jun, em que o campo limpo, a vegetação rasteira e afloramentos rochosos predominam. O kuiauram se refere a um tipo de “mata suja”, normalmente presente na beira dos rios, com predominância de cipós e que não tem utilidade. Seguindo as informações prestadas pelos mais velhos, o ka’areté é o tipo de vegetação preferida pelos Kaiabi, quer dizer “mato puro” ou “mato verdadeiro” no idioma Kaiabi, com predominância da terra vermelha (ywypiran), muito utilizado em atividades de caça, coleta e extrativismo. Geralmente escolhem esse tipo de micro- ambiente para abrirem suas aldeias, tanto pelo aspecto de segurança na estação chuvosa, como pela proximidade que apresentam com áreas de capoeira.
No interior dos micro-ambientes descritos acima existe ainda outra maneira de classificar ambientes menores, que vão além da identificação de unidades ambientais mais amplas (como o ka’areté ou yapopet), enfatizando os agrupamentos populacionais de determinadas espécies de grupos vegetais ou ilhas de recursos. Tais agrupamentos também constituem unidades ambientais diferenciadas pelos Kaiabi. Com exceção dos castanhais, os principais agrupamentos vegetais identificados nesse contexto normalmente estão relacionados às palmeiras que fornecem materiais diversificados para uso diário e produção de artesanato. Os principais são: buritizal (myrysityp), tucunzal (tukumanyp), inajazal (inatatyp), patauzal (pinowatyp), pacoval (banana brava – pacova), entre outros.
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Antes de transposição do Sete Quedas, as longas jornadas empreendidas pelos Kaiabi tinham, entre outros efeitos, a constituição através das caminhadas narradas, de seu território de influência. Nos limites circunscritos ao household (wyri) era de se esperar que as relações fossem estabelecidas entre consangüíneos e à medida que se afastavam, predominavam as relações de afinidade. Fora dos círculos de segurança, era possível encontrar seres não humanos ou humanos de outras etnias que poderiam colocar em risco a humanidade dos Kaiabi. Com já indicado, principalmente em razão da sedentararização das aldeias, boa parte dessas relações foram remodeladas, abandonadas ou substituídas por outros tipos de práticas, associadas às novas condições
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apresentadas pelo contexto ecológico e social mais recente do Teles Pires nos últimos anos. Como nosso foco está voltado para a situação presente, destacarei principalmente alguns elementos externos mais recentes que influenciam o relacionamento territorial dos Kaiabi.
Atualmente os Kaiabi enfrentam uma dinâmica territorial consideravelmente distinta daquela do início do século passado. Possuem, a seu favor, desde 2002, juntamente com índios Apiaká e Munduruku, uma portaria declaratória do Ministério da Justiça, concedendo-lhes os direitos de usufruir de mais 1 milhão hectares, contudo, sua experiência territorial encontra-se restrita a não mais 117 mil hectares em função dos inúmeros invasores não índios que estão dentro da reserva. O receio atual dos Kaiabi ao extrapolarem certos limites não é mais de encontrarem seres não humanos ou de serem mortos por outros índios, mas de serem alvejados por pistoleiros ou de receberem ameaças de morte por estarem entrando em áreas de “propriedade privada”. Faço este adendo apenas para evidenciar que as relações de mobilidade que os Kaiabi vivenciavam no passado, hoje estão circunscritas ao estatuto territorial das Terras Indígenas, regido pela FUNAI, com todas as contradições inerentes à política de terras do governo brasileiro. Esse fato ainda não inviabiliza que os Kaiabi tenham condições de exercer sua habitação de forma a estabelecerem uma relação de proximidade e identificação com o Teles Pires. Contudo, com o passar dos anos, os Kaiabi vêm exercendo um controle cada vez mais limitado sobre sua área. A esse respeito, devo chamar a atenção para a política indigenista do governo brasileiro, que está majoritariamente voltada para os processos de demarcação das Terras Indígenas e muito pouco realiza em termos de proporcionar a proteção dos índios, a conservação das áreas de floresta, o reconhecimento de suas especificidades no trato com a terra e a garantia do uso irrestrito da área sobre a qual detêm direitos legítimos de usufruto. Sobre as invasões e os conflitos socioambientais entrarei com mais profundidade no capítulo final.
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Até os dias atuais, as ligações que os Kaiabi estabelecem com o ambiente mais amplo do Teles Pires, ainda tem nas caminhadas56 um elemento de suma importância
nos movimentos da vida social. A partir das caminhadas e do relacionamento com as dinâmicas temporais do ambiente, bem como das condições de vida que ele oferece aos Kaiabi (affordances), é possível reconhecer como as linhas deixadas pelos habitantes antigos e atuais contribuem para a afirmação do Teles Pires como o território Kaiabi. Entendo, pois, que o estudo da paisagem como um registro duradouro das jornadas, utilizando a noção de taskscape, fornecerá elementos relevantes para realizarmos uma história espacial do Teles Pires, reconhecendo suas formas particulares de delimitação de lugares com qualidades heterogêneas. Assim, devemos tratar a paisagem menos como um objeto externo à nossa percepção e mais como um processo vivo que molda as pessoas, mas também é moldado por elas. Ingold faz referência às paisagens representativas encontradas em muitas obras de arte que comumente reforçam as noções de um observador distante de uma realidade inerte e exterior. A fim de superar essa idéia, sugere o conceito de taskscape como um ambiente povoado de seres, que são eles próprios agentes e que reciprocamente agem e reagem em seu próprio processo de dwelling, existindo, sobretudo, na interatividade (2000: 199).
Ingold, em sua proposta de se opor aos modelos duais e separatistas da ecologia humana, estabelece diversos tipos de paralelos antagônicos a fim de que o entendimento do leitor possa surgir pela via que lhe é mais familiar, como por exemplo: globes e spheres; landscape e taskscape; building e dwelling. Seguindo nosso interesse em estabelecer uma aproximação ambientalmente situada por oposição às abordagens de ordem mais utilitárias do território, a relação que Ingold traça entre wayfinding e navigation, será de grande valor para reforçar teoricamente nossa descrição. O autor argumenta que ao invés de se orientarem por mapas, os nativos, no sentido estrito do termo, originários de uma determinada terra, se utilizam de outro tipo de sistemas. Ingold não aceita a premissa de um espaço (abstrato e genérico) que antecede um lugar (concreto e habitado), como defende Tuan (1977), mas afirma que os “lugares” não têm localização específica, mas histórias – conectadas com as práticas diárias de caminhadas e linhas traçadas pelos caminhantes. Ingold assevera que, a navegação é estranha às práticas de wayfinding assim como a cartografia (mapmaking) é estranha as práticas de
56 Quando digo caminhadas estou fazendo referência a todos os tipos de movimentos cadenciados e regulares que os Kaiabi realizam em seu território, em especial as idas e vindas de voadeira e canoa pelos rios e igarapés.
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mapping (Ingold, 2000: 236). Entendo que nesse sentido o wayfinding está relacionado às práticas intuitivas diárias de caminhada, elaboradas a partir de sendas percorridas por antepassados, em que encontramos os caminhos sentindo e ajustando nossos movimentos em função tanto das histórias, como pelos sinais que recebemos do ambiente. A navegação consistiria numa orientação a partir de algum tipo de elemento orientador externo aos aspectos mais sutis do ambiente (um mapa cartográfico, por exemplo), que nos proporciona as direções ligando pontos ao longo do caminho. O que Ingold chama de mapping, está relacionado à capacidade que todos os seres possuem de produzir algum tipo de sistema de orientação baseado nas ferramentas e recursos de que dispõem. E por fim, mapmaking diz respeito à capacidade de produzir mapas em alguma superfície, representando caminhos e direções através perfis pictóricos. Seguindo, portanto, as relações de contrastes, entre o mundo apreendido nas relações de engajamento, por oposição ao sujeito distanciado do mundo, poderíamos dizer que wayfinding está para navigation, assim como mapping está para mapmaking.
No caso dos Kaiabi do Baixo Teles Pires, reconhecemos que é em função dos itinerários narrados de seus habitantes, que os lugares ganham existência num outro plano diferente do espaço geográfico convencional, mas em nós ou amarrações que se constituem numa matriz de movimentos, similares à tessitura de uma cestaria. É esta rede de movimentos entre lugares que Ingold chama de “região” (: 227). É exatamente o conhecimento da região e com ele a habilidade de situar sua posição atual dentro de jornadas históricas previamente realizadas – jornadas para, a partir de e em volta de lugares – que temos a distinção fundamental entre um countryman e um estranho Assim, cada lugar não é um local no espaço, mas uma posição num caminho de movimento numa das matrizes de caminhos que configuram uma região como um todo, relacionada às jornadas de seus habitantes de um lugar a outro ao longo de suas caminhadas vivendo suas vidas.
Narrativas constituindo regiões
A “narrativa fundadora” que fornece as bases para os relacionamentos dos Kaiabi com o Baixo Teles Pires ainda é em grande medida a história contada pelo cacique Atú, que abrange a chegada de seu pai Manekú e seus companheiros, com a transposição e “conquista” do Sete Quedas, a convivência com os seringueiros e a
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posterior resistência dramática à transferência para o Parque do Xingu. Embora Atú não seja o mais velho vivendo no Teles Pires e não tenha passado diretamente por todas essas situações, o cacique apresenta capacidades de memória e oralidade impressionantes. Gesticulando, produzindo expressões faciais diversas, alterando o tom de voz e dando o tempo necessário para o ouvinte conectar as informações, Atú é capaz de reproduzir inúmeras vezes os episódios narrados por seu pai, sem praticamente alterar uma vírgula, inserindo sua platéia numa atmosfera muito próxima daquela que os Kaiabi antigos deveriam ter experimentado no passado. Foi, inclusive, ouvindo suas histórias que me despertou o interesse em trabalhar o tema de territorialidade com os Kaiabi. Atú comenta que nunca se interessou por essas coisas de fazer peneira, cestos, artesanato, mas gostava muito de perguntar a seus pais sobre as histórias mais antigas e os nomes dos lugares. Dessa forma, quando eu indagava as pessoas a respeito de seu conhecimento sobre a região, sempre faziam menção aos lugares e às histórias narradas por Atú.
Os Kaiabi, assim que passaram a habitar definitivamente o Baixo Teles Pires, para trabalharem como seringueiros, automaticamente começaram a aplicar seu padrão de ocupação territorial a esse ambiente, que antes era utilizado somente como local de perambulação. Foi então seguindo como de costume o eixo orientador do Teles Pires, conferindo nomes aos lugares e cursos d’água, caminhando e contando histórias, que o Baixo Teles Pires, claramente reconhecido como extensão do ambiente anteriormente habitado pelos Kaiabi, foi aos poucos se constituindo como um ambiente familiar. Quando era jovem, Atú andava freqüentemente com seu pai, auxiliando no trabalho da seringa. Foi durante essas andanças – através do processo de educação da atenção – que passou a conhecer não somente os nomes e histórias de cada um dos lugares, mas os caminhos e emoções que fluíam entre eles, que são até hoje capazes de conferir o senso de pertencimento e unidade à região do Baixo Teles Pires.
Aí quando eu cresci nessa região só tinha mato, mato mesmo, não tinha nada de fazenda, nem avião. Antes dos Villas-Boas juntar os índios nos andamos por isso aí tudo. Andamos pra banda de Sinop, lá tem muita cachoeira, eu sei o nome das cachoeiras tudo, lá tem a cachoeira do gavião (kuanunpap), cachoeira do makuapa’iam onde tinha aldeia que morava o Sikito com a família. O nome indígena atual é y’aciman, que é quando a pessoa que roda e balança muito. Tem a cachoeira do machadinho, porque acharam uma pedrinha daquele machadinho de índio no fundo, tem a cachoeira y’tufuku, que
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a gente chama de cachoeira comprida, que é a última do Teles Pires, quando a gente passava três dias dentro d’água puxando a canoa. Tem a cachoeira do gavião e por aí vai. Você sabe, índio como é que é, é porque tinha aquele gavião, mergulhão que ficava lá no fundo. É assim que o índio vai dando nome pras coisas. Os índios vai colocando os nomes depois daquilo que viram, ou alguma coisa que aconteceu por lá. A gente coloca o nome do rio é por causa das coisas que tem. Aqui em baixo, depois do uruwoe’o, quando eles vararam diz que acharam capivara, acharam que era “onça do fundo” e os índios ficaram reparando as capivaras na praia. Diz que levantou um e caiu dentro da água, caiu mais um e os índios ficaram cochichando com medo e colocaram o nome de diauar’y (onça d’água – animal espiritual). Fica aí pra cima, acima de Alta Floresta. A onça d’água diz que é diferente das outras onças, é tipo de bicho, diz que é mais venenoso, eu nunca vi não. Aquele rio y’patewo’i, que nós chama, um riozinho antes de chegar naquela ponte que vai pra Alta Floresta tem esse nome porque a beira dele é muito cerrado.
Assim, até os dias atuais, esses lugares fundados em histórias antigas propiciam os alicerces necessários para ordenamento dos movimentos que os Kaiabi estabelecem no Teles Pires. Certamente outros lugares vêm sendo constituídos, através de experiências mais recentes, novas histórias vem sendo contadas, possibilitando aos Kaiabi uma mescla entre elementos do presente e do passado, na composição de uma teia de pertencimentos formada a partir das antigas trilhas caminhadas por seus antepassados. Sobre como os lugares adquirem significância na vida das pessoas Ingold afirma que:
“A place owes its character to the experiences it affords to those who spend time there – to the sights, sounds and indeed smells that constitute its specific ambience. It is from this relational context of people’s engagement with the world, in business of dwelling that each place draws its unique significance” (2000 – grifo meu).
É precisamente reconhecendo como os Kaiabi passam o tempo nos lugares e narram essas experiências, produzindo linhas, que se estabelecem as relações de dwelling com certa porção do ambiente do Baixo Teles Pires. Digo certa porção, pois o estatuto de Terra Indígena imposto pela FUNAI certamente não se sobrepõe com exatidão ao território que os Kaiabi atualmente estabelecem relações de ordem mais prática e afetiva. Com isso não quero dizer que os Kaiabi não usufruem de outras partes do território diante do qual possuem direitos legais. Muito menos estou questionando a
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legitimidade do relatório antropólogo elaborado por Rodrigues (1994) identificando a