Os serviços domésticos, mesmo em boas condições não poupam o corpo, pela própria natureza das atividades, que sempre demandam algum tipo de esforço físico para a sua realização. São as mãos que se articulam para cozinhar, para passar, para lavar; é a coluna que é demandada para abaixar e levantar dando conta das tarefas de varrer, aspirar, esfregar; é o corpo estendido para lavar até o último azulejo e alcançar a parte externa das vidraças; é a postura em pé durante toda a jornada; é a força física necessária para arrastar os móveis e tirar a poeira dos cantos mais escondidos da casa.
Como foi visto na primeira parte deste capítulo, o tamanho da residência, o número de pessoas, os hábitos da família são variáveis que interferem na quantidade de trabalho e no ritmo que é necessário imprimir para dar conta dos serviços. Por sua vez, a quantidade de serviço e o ritmo necessário para fazê-lo durante a jornada podem exceder a capacidade do trabalhador, comprometendo a sua saúde. O excesso de trabalho tem impacto sobre o corpo porque é este que é colocado a serviço das pessoas da casa. É o corpo que está em movimento ou em determinadas posições durante toda a jornada. Por essa razão, as queixas de sofrimento físico são freqüentes entre as domésticas: dores nos pulsos, dores nos braços, dores nas costas, tontura, fraqueza.
Muitas das empregadas domésticas entrevistadas adquiriram esses problemas, trabalhando como diaristas antes de atuarem como empregadas domésticas. Para o corpo, o trabalho como diarista pode ser mais comprometedor que o da empregada doméstica mensalista. No caso das diaristas, a concentração do esforço em algumas partes do corpo pela repetição dos movimentos, como no caso das passadeiras, ou o esforço físico excessivo, como acontece com as faxineiras, é responsável pelos danos físicos. Entre as entrevistadas, as que já foram passadeiras trazem principalmente nos braços e nas pernas a conseqüência de fazer o mesmo serviço todos os dias em diferentes residências.
...trabalhado direto em pé, começava a sentir dor nas pernas, ficava com pés no chão, não conseguia ficar de sandália, de pés no chão também doía (A.).
Mas não apenas as que foram diaristas trazem problemas de trabalhos anteriores. Também as que trabalharam como empregadas domésticas, onde a quantidade de trabalho era excessiva, o serviço pesado e o ritmo acelerado, trazem essa mesma herança no corpo. As conseqüências dos trabalhos anteriores são sentidas no trabalho atual, prejudicando, inclusive, sua execução. As dores nos pulsos incomodam, dificultando a realização das atividades, mesmo quando o trabalho já não é mais excessivamente exigente. É o que Laurel e Noriega (1989, p. 115) chamam de desgaste do trabalhador, que é a “perda de capacidade efetiva e/ou potencial, biológica e psíquica” como decorrência da “interação dinâmica das cargas de trabalho”. Nesse caso houve, seguramente, perda de capacidade por parte do trabalhador que, como conseqüência de trabalhos anteriores, não consegue mais realizar os mesmos movimentos que antes eram feitos sem dificuldade.
Mesmo quando as exigências não são excessivas, existem conseqüências físicas da realização dos serviços domésticos, porque é um serviço feito com o corpo. A posição em pé e a movimentação são constantes, mesmo quando os serviços são bem distribuídos.
Cansada cansada...que fica tudo isso aqui doendo né? Você tá com rodo, com o cabo da vassoura aí....fica tudo doendo (P.).
Embora os serviços sejam feitos com o corpo, implicando sempre em um custo físico, não significa que esse custo esteja sempre além do que o corpo é capaz de absorver sem ir à falência. Em outras palavras, é sempre um serviço realizado com o corpo, mas não é sempre um serviço pesado. É considerado um serviço pesado dependendo da quantidade de serviço e do ritmo em que é realizado:
Eu saia de lá toda estressada, porque cansa muito, tem que subir escada, porque você nunca fica só embaixo, subi e descê, subi e descê. Muito pesado, no parque O. Lá no lago sul, todas são pesadas... (F.).
Mas a casa era enorme, eu acho assim...você acordar às seis horas, você parar lá pra cinco e meia (...) Quando chega o fim do dia seu corpo só pede pra você ficar deitada...só deitada (P.).
Porque eu ando morta, com dor nas cadeiras, to toda quebrada, meus braços tão tudo quebrado, de tanto eu correr para dar conta de comida, sabe, de roupa, lavar, passar, numa casa dessa e ainda cuidar de menino. Eu sei que não sou uma experta, mas se tem que ver o quanto que eu faço aqui. Eu não dou conta, eu sei que eu sozinha eu não vou dar conta, não adianta eu me matar aqui porque quem ta adoecendo sou eu (A.).
Embora o corpo seja local privilegiado para sentir os efeitos do exercício dos serviços domésticos, não são apenas as conseqüências físicas que resultam da quantidade de serviço e do ritmo. Há também um efeito emocional que tem origem nessa situação:
Tinha que dar conta, dava uma angústia tão grande, cansaço de tanto correr (...) Pra poder dar conta do serviço se tem que correr mesmo (...) ...corria, corria, corria e não terminava lá em cima, descia fazer almoço, corria, lavando roupa, estendendo roupa, fazendo comida e tinha que dar banho no menino e dar comida para ir para a escola... (A.).
A necessidade de dar conta da quantidade de serviço no tempo previsto é sentida como uma pressão, inclusive pela responsabilidade que está implicada nessa situação. É a responsabilidade pelo funcionamento da casa que está em jogo. Existem serviços que precisam estar prontos no horário, para atender às necessidades das pessoas e é preciso coordenar o tempo. A princípio não há nenhum problema, mas quando a demanda é muito grande, o risco de não dar conta pode está sempre presente, provocando mal-estar. Isso acontece quando se espera que o empregado dê conta dos serviços, independente do tamanho e do movimento da casa, dentro da mesma jornada de trabalho, sob pena de ser considerado incompetente, caso não consiga atender à demanda.
Mesmo que os salários variem de acordo com o volume de trabalho na residência, a questão não se resolve financeiramente, sobretudo, quando a quantidade de trabalho e o ritmo resultam em efeitos físicos ou emocionais. Os salários mais altos, embora sejam aceitos como pagamento para a sobrecarga, deixam de ser considerados compensação suficiente quando sinais de adoecimento são percebidos e atribuídos a essa sobrecarga. Com o tempo na profissão, as empregadas domésticas podem, podem recusar o trabalho nessas casas onde a demanda é excessiva, mesmo que os salários sejam melhores.
Um último ponto a ser considerado é que aos efeitos dos serviços domésticos remunerados somam-se fatores externos ao emprego que também contribuem para a sobrecarga das empregadas domésticas e que não podem ser desconsiderados. Entre eles se destaca a dupla jornada. É o mesmo corpo que é colocado em movimento nos serviços domésticos remunerados que também executa as atividades na própria residência para atender às necessidades da própria família. Pode haver, inclusive, uma contaminação entre as duas esferas, a da vida pessoal e a do trabalho, sendo que o cansaço das demandas de uma esfera interferem na disposição para atender às demandas da outra:
É corrido assim porque, como a gente tem casa, chega do serviço correndo, tem que fazer janta de casa, tem que brincar um pouquinho com ele, que ele gosta de brincar, a gente vai dormir ás vezes dez horas, onze horas. (F.). As possibilidades de descanso ficam comprometidas, da mesma maneira que acontece em outros trabalhos como decorrência da dupla jornada. A diferença nos serviços domésticos é que na própria casa têm que ser repetidos os mesmos serviços que foram realizados ao longo da jornada de trabalho. A dupla jornada significa mais um turno da mesma atividade. Embora a prática possa até ajudar em termos de agilidade e competência, não contribui em termos de motivação.
Chego, faz tudo aqui de novo, é isso que eu acho cansado, a mesma coisa, eu fala assim: já não agüento mais essa vida, tem que mudar. Quando eu to, logo eu tava aqui brigando, eu não agüento a vida: lavo lavo todo dia, ai chego, ainda to lavando esse horário (F.).
Ter outras pessoas para ajudar em casa diminui muito a sobrecarga total de serviço que pesa sobre essas mulheres, porque a dupla jornada compromete o tempo de repouso. Quem não tem ajuda para os próprios serviços precisa do final de semana e das noites para fazer os seus serviços. Algumas entrevistas feitas nas residências no domingo de manhã mostraram essa realidade de convivência constante com os serviços domésticos. Domingo pela manhã é tempo de cuidar da própria casa, de lavar roupa, de preparar o almoço, de cuidar dos seus filhos. A necessidade de fazer o próprio serviço antes de sair para o trabalho também aparece nas entrevistas. As que moram muito longe do trabalho, como a N. e não tem ajuda, têm que levantar muito cedo para tomar providências para a manutenção da própria casa e deixar comida pronta para os filhos, antes de chegar ao trabalho.
Além disso, há ainda as dificuldades de transporte e as horas de deslocamento, que também contam como fator de desgaste, podendo comprometer a saúde do trabalhador.
...chego em casa cansada, é desgastante, você pega ônibus, às vezes o ônibus dá problema, às vezes você uma hora na parada, aí você chega no trabalho você já está estressada, aí você chega, aí você tem que respirar, e fazer o seu trabalho, aí você faz aquele dia, você fala: nossa, graças a Deus, chegou quatro horas, eu vou pra casa... (M.).
...nossa luta é essa, enfrentar fila de ônibus, enfrentamos o ônibus às vezes chovendo no frio, ônibus quebra, passage cara, e assim a gente somo, a, a dificuldade que eu tenho assim é essa né? Em si, porque lá no meu trabalho é ótimo (N.).
Quando se somam as dificuldades provenientes das condições de vida – dupla jornada, transporte – às do emprego a sobrecarga pode atingir níveis extremos e provocar inclusive o adoecimento. Esse adoecimento não é apenas físico, mas também se manifesta como preocupação, ‘estresse’, angústia, pela necessidade de estar o tempo todo em atividade e cuidando do tempo e do ritmo para conseguir dar conta de todas as suas incumbências ao longo do dia, as da casa onde trabalham e as da própria casa. A maior parte das empregadas domésticas entrevistadas, mesmo as que atualmente estão em situações mais confortáveis já passaram por situações desse tipo. Para enfrentar as exigências do trabalho, sobretudo quando a quantidade de serviço é grande, podem ser desenvolvidas estratégias para otimizar o uso do tempo, amenizando o impacto do trabalho sobre o corpo. Essas estratégias dependem, no entanto, das possibilidades de autonomia e controle sobre o trabalho para serem colocadas em ação, então será esse o próximo tópico a ser abordado nesse estudo.