Os noticiários que serão apresentados no decorrer do estudo serão analisados, observando o desempenho discursivo efetuado pela programação da Rádio Difusora, bem como por entidades que utilizavam a rádio local para expandir idéias calcadas na transformação técnica do meio rural. Com relação à análise destas fontes, alguns autores desenvolveram um estudo referente à concretização da pesquisa dita acadêmica. Com a pesquisa, a fonte jornalística pode ser descrita pela aproximação que realiza entre seu discurso e as práticas concretas presentes nas relações sociais que orientam a sociedade. Sendo assim, “os meios de comunicação de massa representam importante agência de desenvolvimento, de vez que introduzem padrões de comportamento, desenvolvem motivações e criam expectativas ideais de atuação e modos de vida” (VIEIRA, 1978, p. 43).
A perspectiva de inserção de programações jornalísticas provenientes da Secretaria da Agricultura do Estado do Paraná, com informações direcionadas aos agricultores e pecuaristas, é um exemplo da força de atuação dos meios de comunicação junto aos agricultores de Marechal Cândido Rondon. O programa acontecia às 6:40 horas da manhã, sendo que 10 minutos dele eram destinados à divulgação de notícias, elaboradas pela Secretaria da Agricultura do Estado.
SECRETARIA DA AGRICULTURA DIVULGA PROGRAMA POR ESTA EMISSORA: A Secretaria da Agricultura do Estado do Paraná localizou no estado as emissoras com maior audiência e, pelas quais, deverão ser apresentados programas especiais feitos direto ao agricultor ou ao pecuarista [...]. Sempre no horário das 6:30 da manhã até as 6:40 [...]. Desde já nosso convite para sintonizarem o programa que terá o título ‘Atualidades – SEAG’ (RADIO DIFUSORA FRENTE AMPLA DE NOTÍCIAS, v. 29, 25.08.76 a 21.10.76).
É bem verdade que a chamada “cultura de massa” deva ser definida como uma das conseqüências do progresso intensificado pelos avanços da ciência e da tecnologia que, de diversos modos, influem na melhoria do nível de vida de considerável parcela da comunidade humana. A consolidação dos meios de comunicação de massa é uma das conseqüências desse processo, com os defeitos e as qualidades que lhe são inerentes. Contudo, é preciso observar as particularidades destes discursos, uma vez que “a comunicação é transformada em instrumento dos governantes para atingir objetivos predeterminados, é submetida a pressões de todos os tipos e tem sua função dirigida pelo poder” (CAPARELLI, 1980, p. 77). Além disso, é preciso abrir espaço para as vozes ou para o confronto analítico, o que representa também, entender o contexto histórico que engloba o processo de instalação “local” de um agente de comunicação.
As concessões, então, são ditadas por apadrinhamentos políticos ou por simples desdobramento do poder econômico: os detentores do poder político são os
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Ant onio Thom a z Júniormesmos que detêm o poder econômico e a radiodifusão, na sua condição de novo setor para aplicação de capitais; muda de mãos apenas teoricamente: são concessões públicas a privados, por privados que manobram a coisa pública (CAPARELLI, 1980, p. 79).
Neste jogo de interesses, é necessário salientar a importância assumida pelo rádio como meio de comunicação de massa que assinala sua presença no campo, pois, no período que envolve o estudo aqui proposto (1966-1980), o veículo encarregado da disseminação de informações era ele. Este contexto é problematizado por Celsina Alves Favorito (1989) — em sua Dissertação de Mestrado em Comunicação Social intitulada “Deus no céu e o Rádio na Terra ...” — na qual desenvolveu um estudo sobre o rádio e as mulheres rurais do município de Pitanga. Neste estudo, a autora afirma “ser o rádio um meio de comunicação de massa fundamental no campo porque ocupa um espaço importante onde, não raro, é o veículo solitário informador e formador da opinião pública” (FAVORITO, 1989, p. 2). Por outro lado, para Sérgio Caparelli, os meios de comunicação são definidos enquanto “indústria de consciência. Os governos deles se apoderaram cada vez com maior freqüência, a fim de manipular a opinião pública” (CAPARELLI, 1980, p. 80).
Como pode ser identificado acima, alguns autores estudam o papel do rádio como agente comunicador e observam o caráter ideológico existente entre a mensagem jornalística e os receptores. Os marcos destas análises contemplam os grupos de maior poder que procuram criar e/ou recriar formas diversas de “modelos culturais”. Com relação a este estudo, pode-se sinalizar para a idéia de que com essa atitude, tais grupos pretendem que certos traços culturais e cotidianos sejam remodelados, que as atividades diárias, o lazer e o trabalho estejam essencialmente vinculados a padrões técnicos e que estes sejam compartilhados em conjunto. Para tanto, os discursos sugerem padrões de comportamento, seja para as atividades de lazer, seja para os produtos e insumos consumidos e cultivados pelos agricultores.
O rádio deve ser transformado de aparelho de distribuição em aparelho de comunicação. A radiodifusão poderia ser o mais gigantesco meio de comunicação imaginável na vida pública, um imenso sistema de canalização. Assim seria, caso não fosse, não apenas capaz de emitir, mas igualmente de receber. Em outras palavras: se conseguisse que o ouvinte não só escutasse, mas também falasse, que não fosse isolado, mas em relação (BRECHT, 1977 apud CAPARELLI, 1980, p. 73).
Este anseio de Bertold Brecht, expresso em meados do século XX, parece ter sido ouvido pelos dirigentes de emissoras de rádio. Assim, a ampliação da comunicação entre ouvintes e emissora ocorreu, inicialmente, através do envio de cartas. Posteriormente, os ouvintes passaram a fazer esta comunicação via telefone. Com tal estratégia, o rádio aumentou seu poder de intermediação, abrindo um espaço maior para as comunidades, seja através das cartas ou do telefone, fazendo com que os agricultores participassem da programação de forma mais ativa.
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Ant onio Thom a z JúniorAo longo do processo de transformações, “o rádio revelou-se desde logo como um intermediário entre as idéias, valores, crenças e interesses dos grupos no poder e a população” (CAPARELLI, 1980, p. 82). Outro ponto que merece destaque, é a necessidade do comunicador em se adaptar às exigências estabelecidas pelas relações de poder mais amplas, que debilitam seu senso crítico através do controle dos textos que vão ao ar, tendo em vista interesses políticos, socioculturais e econômicos, assumidos pela emissora de rádio.
Sabemos que nem sempre o efeito corresponde ao propósito do comunicador, em razão de condicionamentos socioculturais, psicológicos, mecânicos e circunstanciais a que a mensagem está exposta desde sua elaboração na fonte até o momento em que, no destino, se produz o estímulo ativador da reação. (BELTRÃO; QUIRINO, 1986, p. 137-138).
A presença marcante e precisa de traços ideológicos4 é construída, paulatinamente, a partir da comunicação destinada à população rural. Para ampliação de seu campo de atuação, o ingrediente utilizado é a aliança entre informação e diversão, e o resultado final em muitos casos, pode estar na transformação sociocultural:
[...] informar — transmitir elementos (dados) para o conhecimento do indivíduo ou da massa; persuadir — fornecer argumentos capazes de modificar a opinião e a conduta de pessoas e grupos; e divertir — proporcionar recursos de entretenimento ao homem, para subtraí-lo das pressões do meio e do cotidiano (BELTRÃO; QUIRINO, 1986, p. 140).
No contexto da região Oeste do Paraná, em especial do município de Marechal Cândido Rondon, conclui-se que “[...] os meios de comunicação de massa se encarregaram de difundir novos hábitos de consumo que levaram à comercialização de mercadorias cada vez em maior número” (GONÇALVES, 1984, p. 36). Para entender melhor o vínculo sócio-político dos agentes envolvidos na direção das emissoras de rádio, apresenta-se um fragmento que evidencia os laços destes com os poderes público e privado:
VIAGEM DE NOSSO DIRETOR
Viajou hoje com destino à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro o nosso diretor Sr. Arlindo Alberto Lamb, ficando desta maneira a direção e supervisão da emissora ao cargo do Sr. Antonio Maximiliano Ceretta. O Sr. Arlindo estará reunido com altas autoridades do Banco do Brasil para tratar do assunto de um grande financiamento para a Cirosa, para a compra de toda uma safra de soja pela região, para funcionamento da indústria (RADIO DIFUSORA, v. 4, 12.03.68 a 29.05.68).
O destaque para a viagem ao Rio de Janeiro do diretor da rádio, revela a atuação dos representantes da emissora junto a instituições bancárias, intercedendo a favor de grupos, no que se refere a financiamentos para o melhor desempenho da indústria na compra da safra de soja. A partir destas relações é possível identificar os elementos que interferem na dinâmica das transmissões levadas ao ar pela emissora, afetando, de forma expressiva, as mensagens direcionadas aos agricultores.
4 Tratando destes traços, Antônio Fausto Neto explora o fato no contexto discursivo, vinculando-o ao poder: “Estamos querendo dizer que quando a deontologia jornalística afirma que o dito é o fato, isso se constitui muito mais numa espécie de efeito ideológico, resultado do trabalho de um certo poder (comunicação de massa)” (FAUSTO NETO, 1991, p. 29). Para maiores detalhes, Cf.: FAUSTO NETO, Antônio. Mortes em derrapagem : os casos Corona e Cazuza no discurso da comunicação de massa. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1991.
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Ant onio Thom a z JúniorAdemais, pode-se visualizar a forte presença da empresa Rádio Difusora na região no programa em comemoração ao seus 13 anos de existência. Neste programa, a emissora procura atrelar seu crescimento ao desenvolvimento da região, o que reforça o sentimento de progresso vivido pelos munícipes.
13 ANOS DEPOIS
O dia de hoje marca a passagem do 13 anos de trabalho desta empresa em prol da radiodifusão no Paraná, voltada para a região. Inicialmente era um serviço mais local referindo-se àquilo que Marechal Cândido Rondon era e representava na época. O crescimento se deu, junto com o desenvolvimento da região. Ainda uma criança, somos sabedores daquilo que representa esta região no contexto estadual, por isso queremos partilhar juntos com todos os momentos vividos pelo povo da produtiva região oeste do Paraná (RADIO DIFUSORA FRENTE AMPLA DE NOTÍCIAS, v. 57, 01.11.79 a 12.12.79).