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4.3 Economic analysis

5.3.2 Scenario 2

Secularização é um termo eminentemente polissêmico. Entendida e teorizada com especificidades variadas pelos diversos autores, guarda relação direta com a religião, modificando-a e determinando sua relação com a sociedade. É consenso entre os sociólogos

115 GREUEL, S. Religião e religiosidade na pós-modernidade, p. 9. 116

Ibidem, p. 10.

117CRESPI, F. A experiência religiosa na pós-modernidade, p. 11. 118 GELLNER, E. Pós-modernismo e religião, p. 12.

53 da religião que ela é eminente filha da modernidade. Stefano Martelli é da opinião de que modernização é sinônimo de secularização. Referindo-se ao debate estabelecido entre os anos 60 e 70 sobre a secularização, aponta como sendo o entendimento de muitos teóricos, que a crise da religião era irreversível, fruto do triunfo da racionalidade. A secularização, como

consequência da racionalidade, comportava como parte do mesmo fenômeno “a

marginalização social da Religião e a dessacralização, isto é, o eclipse ou, até mesmo, o

desaparecimento do sagrado”.119

Jean-Paul Willaime120, em entrevista concedida à revista eletrônica IHU On-Line, na mesma linha de entendimento, afirma que “diante de uma modernidade triunfante conduzida pelas ideologias do progresso, pode-se pensar que quanto

mais a modernidade avançava, mais o religioso recuava”.121

Quanto à origem do termo, Morin esclarece que seu uso na filosofia e na teologia é

recente. “Essa palavra pertenceu outrora ao campo jurídico e designava a passagem de um religioso para a vida leiga ou a transferência de um bem da Igreja para o Estado”.122

Neste sentido pertencia ao Direito Canônico. Em seguida, passou a retratar a relação da Igreja com o Estado laico. Stefano Martelli se refere ao sentido do termo, adquirido tardiamente na modernidade, como designando os processos de laicização e autonomia em relação à esfera religiosa, surgidas no Ocidente, depois da dissolução do feudalismo.123

A secularização, sob o ponto de vista institucional, diz respeito às relações Igrejas/Estado, mais amplamente, as relações entre as Igrejas e as instituições públicas. O aspecto mais importante é a separação Igreja/Estado, ou seja, a autonomia respectiva do político e do religioso e tudo no que ela implica (neutralidade do Estado, implicando o tratamento igual das pessoas, sejam quais forem as suas opções religiosas ou filosóficas, liberdade de consciência e de religião, incluindo a liberdade de não se ter religião).124

119 MARTELLI, S. A religião na sociedade pós-moderna: entre secularização e dessecularização, p. 271. 120

O professor Jean-Paul Willaime é diretor de estudos da seção de Ciências Religiosas na École Pratique des Hautes Études, na França. Estuda o mundo sociológico protestante contemporâneo na sua diversidade, os cristãos ecumênicos, a evolução das religiões e o religioso nas sociedades ocidentais.

121 WILLAIME, Jean-Paul. O cristianismo na ultramodernidade, p. 7. 122

MORIN, D. Para falar de Deus, apud: LAIN, V. Nova consciência: a autonomia religiosa pós-moderna, p. 57.

123 MARTELLI, S. Op. Cit. p. 275. 124 WILLAIME, Jean-Paul. Op. Cit. p. 8.

54 Apropriada pela filosofia, a secularização é elevada a uma categoria hermenêutica da modernidade, que entroniza o homem como sujeito no lugar de Deus. Para a sociologia, ela atua nos processos de modernização e tecnologização determinando uma ruptura, removendo a religião como fundamento da sociedade e formadora de sentidos, relegando-a à inutilidade. A teologia vai interpretá-la como a condição de ausência de Deus e da manifestação do sagrado.125

A secularização entra no interesse dos estudos da religião pelo fato de ela transcender o âmbito social e invadir várias instâncias da existência humana, esvaziando seus conteúdos.

Franz Konig afirma que “a secularização é mais do que um processo socioestrutural”.126

Ele

justifica a afirmação explicando que “ela afeta a totalidade da vida e da ideação”. Sua ação abrangente “pode ser observada no declínio dos conteúdos religiosos na arte, na filosofia, na

literatura e, sobretudo, na ascensão da ciência, como uma perspectiva autônoma e

inteiramente secular, do mundo”.127

A ação secularizante na religião pode ser observada em dois planos: de um lado atinge a religião enquanto instituição; de outro, a religião na dimensão pessoal e individual. No dizer

de José Bittencourt, “a secularização, além de ensejar a dissolução das religiões tradicionais,

contribui para o isolamento, fragmentação e mesmo o esvaziamento dos ideários religiosos

constitucionalizados”.128

Peter Berger entende que “o pluralismo moderno leva a um enorme relativismo dos sistemas de valores e interpretações. Em outras palavras: os antigos sistemas

de valores e de interpretação são „descanonizados‟.”129

Portella registra este processo com

palavras fortes: “A modernidade é corrosiva quanto à autoridade religiosa tradicional. A

dúvida metódica e seu filho dileto, o ceticismo, minam as fontes tradicionais da autoridade

religiosa”.130

Afirma-se que o pluralismo, como subproduto da secularização, é responsável pela perda da plausibilidade da instituição religiosa.

125

LAIN, V. Nova consciência: a autonomia religiosa pós-moderna, p. 59.

126 KONIG, F. Léxico das religiões, p. 536. 127 Loc. Cit.

128 BITTENCOURT FILHO, J. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social, p. 29.

129 BERGER, P; LUCKMANN, T. Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem

moderno, apud: LAIN, V. Nova consciência: a autonomia religiosa pós-moderna, p. 70.

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A secularização é a perda da plausibilidade da Religião institucional pela visão do mundo pessoal. Na sociedade moderna, que é pluralista, a definição da realidade dada pelo sacred cosmos (cosmo sagrado) não é mais perceptível pela totalidade da população. Para Berger, a secularização está em estreita relação com o processo de

„pluralização‟ de escolhas, isto é, com a oferta diversificada de modos de vida,

tornada possível pela multiplicidade de instituições, cada qual com finalidades diferentes e normas específicas, que caracteriza a sociedade moderna.131

Berger assevera que não é só a instituição que é afetada pelo pluralismo de ofertas religiosas, mas também os indivíduos o são. A multiplicidade de escolhas causa a desorientação, não somente do indivíduo, mas também de grupos inteiros, e a desorientação

do indivíduo se transformou em elemento de crítica da sociedade e da cultura. “Categorias como „alienação‟ e „anomia‟ são propostas para caracterizar a dificuldade das pessoas de

encontrar um caminho no mundo moderno.”132

Já se mencionou a polissemia do termo, o que indica não haver unanimidade quanto ao tipo de secularização de que se fala. Enest Gelner refere-se nestes termos sobre o “pluralismo de secularizações” concebidas pelos diversos autores: "As divergências quanto à extensão, homogeneidade ou irreversibilidade desta tendência são legítimas, sendo certo que a secularização assume, de fato, muitas formas variadas. Em geral, porém, parece-me razoável referir que ela é uma realidade.”133 O próprio Gelner lembra que o Islão é uma exceção, e falar de secularização em seu meio seria completamente falso, já que continua tão religioso como sempre foi.134

Num balanço dos aspectos positivos e negativos da secularização, é possível encontrar

diferentes entendimentos, de acordo com a perspectiva ideológica. Berger ressalta que “em círculos anticlericais e „progressistas‟, tem significado a libertação do homem moderno da

tutela da religião, ao passo que, em círculos ligados às Igrejas tradicionais, tem sido

combatido como „descristianização‟, „paganização‟ e equivalentes".135

Willaime defende que

131 MARTELLI, S. A religião na sociedade pós-moderna: entre secularização e dessecularização, p. 292. 132 Loc. Cit.

133

Loc. Cit.

134 Loc. Cit.

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a secularização é um bem precioso, pois a autonomia entre religião e política é uma regra fundamental na democracia. Pela autonomia, a política protege a sociedade das tentações teocráticas das religiões, sua propensão a querer construir a cidade de Deus sobre a terra, regendo as sociedades e as consciências segundo seus princípios. Pela autonomia, o religioso protege igualmente o político contra suas tentações absolutistas e o risco do totalitarismo. A tensão entre religião e política é fecunda, pois é benéfica tanto para o religioso quanto para o político.136

No entanto, as opiniões quanto à secularização estão longe de serem unânimes. Enquanto alguns autores entendem que ela é responsável pela decadência da importância da religião, outros entendem que ela a beneficia, entendendo que o distanciamento do poder temporal é um ganho que compensa e abre possibilidades novas para que se articule, visando tornar-se plausível para os novos tempos e homens.