Nas palavras de Frederico Pieper Pires, "segundo Heidegger, de Platão a Nietzsche todos os pensadores podem ser enquadrados no que ele chama de pensamento metafísico, cuja característica mais marcante é assumir o ser como presença indefectível".143 Não somente é uma característica sua assumir o ser como fundamento último, como este é também seu objeto maior. Segundo Baleeiro144, a metafísica remete à obra de Aristóteles, onde ele a caracteriza como a ciência que se ocupa do ser em sua totalidade.
A modernidade, como época das certezas bem fundadas em virtude das novas luzes trazidas pela razão científica, compartilha desse fundamento. Westhelle sumariza a maneira como a modernidade construiu sua lógica racional, com as seguintes palavras:
Ela justifica, por exemplo a democracia na ideia de igualdade, a igualdade na ideia de liberdade, a liberdade na ideia de felicidade, a felicidade na ideia de providência, a providência na ideia de Deus, a ideia de Deus na ideia do Ser, a ideia do Ser na ideia do sujeito, a ideia do sujeito na certeza de existência, e, finalmente, a ideia da existência na própria autoconsciência (cogito, ergo sum).145
Em toda a história da filosofia, a ideia de Deus sempre serviu de base e horizonte, se constituindo um ponto fixo e de referência ao mundo. A lógica exige a conclusão de que, se a ideia de Deus como fundamento vier a ser removida, todo o sistema de pensamento metafísico
142 Nome dado possivelmente por Andrônico de Rodes a um conjunto de obras posteriores às que tratavam da
física (metà tà physiká: os livros posteriores à física).
143
PIRES, F. P. A vocação niilista da hermenêutica: Gianni Vattimo e a religião. In: MARASCHIN, J.; PIRES, F. P. (orgs.). Teologia e pós-modernidade: ensaios de teologia e filosofia da religião, p. 95.
144 BALEEIRO, C. A. S. O retorno da religião na época da superação da metafísica: religião e secularização no
pensamento de G. Vattimo, p. 19.
145
WESTHELLE, V. Traumas e opções: teologia e a crise da modernidade. In: MARASCHIN, J.; PIRES, F. P. (orgs.). Teologia e pós-modernidade: ensaios de teologia e filosofia da religião, p. 14.
60 estará comprometido. É o que Pires retrata ao dizer que, "com a morte de Deus, Nietzsche
anuncia o fim de um princípio único capaz de organizar as múltiplas interpretações”. E,
logicamente, “se não há mais um centro organizador das interpretações, elas estão liberadas
para se multiplicarem por quantas forem as vozes num mundo plural”, o que significaria o fim
das verdades absolutas e totalizantes, dando lugar a muitas verdades sempre fragmentadas,
“sempre mantendo relações umas com as outras, mas sem lugares „devidos‟ ou sem um fim
(telos) previamente determinado".146
O que parece claro, é que morte de Deus e fim da metafísica estão necessariamente ligados. É exatamente isto que Gianni Vattimo, um dos mais importantes intérpretes de
Nietzsche e Heidegger defende. Para o referido autor, “o evento do „fim da metafísica‟ tem, no pensamento de Heidegger, o mesmo sentido da morte de Deus”.147
Assim, a superação da metafísica é também a superação do próprio Deus metafísico. No entanto, mais uma vez é
necessário dizer que é somente “o Deus moral que é „überwunden‟, superado, colocado de lado”.148
Neste sentido a morte de Deus não está relacionada a uma morte religiosa, mas, sim, a uma morte filosófica. É o Deus/fundamento filosófico que morre e não o Deus da devoção
religiosa. Neste sentido, “a morte de Deus não implica na destruição da fé neotestamentária nem da experiência religiosa”, e sim do uso que se fez da ideia de Deus como fundamento e
verdade última.149 Segundo Wilmar Luiz Barth, a secularização não pretende “eliminar Deus
e a religião”, mas confiná-lo em “seu novo espaço dentro do novo horizonte de compreensão.
Na visão e compreensão do homem moderno, o centro do universo passa a ser ele mesmo.
Deus e o mundo passam para um segundo e terceiro plano”.150
A razão por que a metafísica deveria ser superada, é que “para o metafísico a verdade
é universal, nunca uma verdade, que pode se dar como não-verdade em outra cultura ou
época”.151
E, como ruíram os fundamentos, não há base para uma única verdade em todo
146 PIRES, F. P. A vocação niilista da hermenêutica: Gianni Vattimo e a religião. In: MARASCHIN, J.; PIRES,
F. P. (orgs.). Teologia e pós-modernidade: ensaios de teologia e filosofia da religião, p. 193.
147 VATTIMO, G. Depois da cristandade: por um cristianismo não religioso, p. 22. 148 Ibidem.
149 BALEEIRO, C. A. S. O retorno da religião na época da superação da metafísica: religião e secularização no
pensamento de G. Vattimo, p. 26.
150 BARTH, W. L. O homem pós-moderno, religião e ética, p. 98. 151 BALEEIRO, C. A. S. Op. Cit. p. 37.
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tempo e lugar. Para Vattimo, o niilismo é a nossa salvação. Niilismo entendido como “aquela
situação em que, como na revolução copernicana, 'o homem rola do centro para um X'. Para Nietzsche, isso significa que niilismo é a situação em que o homem reconhece explicitamente
a ausência de fundamento como constitutiva de sua condição”.152
Esta é uma condição de perda de centro, condição que segundo Vattimo abre novas possibilidades para o pensamento. Como possibilidade em uma realidade onde já não há fundamentos sólidos, que viu o fim das
metanarrativas, Vattimo propõe a viabilidade de um “pensamento fraco”.
Vattimo insinua que foi a necessidade de absolutizar Deus, manifestada pelos crentes, que acabou por levá-lo à morte. Morte que acabou também por decretar o fim da própria modernidade. Neste sentido, é bastante esclarecedor o seguinte excerto de sua obra:
[...] Deus 'morre', vitimado pela religiosidade, pela vontade de verdade que seus fiéis sempre cultivaram e que agora os leva a reconhecer ele próprio como um erro de que agora podem dispensar-se. É com essa conclusão niilista que se sai de fato da modernidade, segundo Nietzsche. Pois a noção de verdade não mais subsiste e o fundamento não mais funciona, dado que não há fundamento algum para crer no fundamento, isto é, no fato de que o pensamento dava 'fundar': não se sairá da modernidade mediante uma superação crítica, que seria um passo ainda de todo interno à própria modernidade. Fica claro, assim, que se deve buscar um caminho diferente. É esse momento que se pode chamar de nascimento da pós-modernidade em filosofia, um acontecimento cujos significados e cujas consequências, assim como os da morte de Deus anunciada no aforismo 125 de Gaia ciência, ainda não acabamos de medir.153