Chapter 4 Migration and ethnicity
4.3 Scandinavian material culture in graves – ethnic display?
Entre os estudiosos do fenómeno da banda desenhada em Portugal há unanimidade quanto ao facto de “ O Mosquito” ( 1936-1953)439
constituir o paradigma do periódico infanto- juvenil entre nós . A. Dias de Deus fala do “ alfa e ómega do jornalismo infantil português”440 e Carlos Pessoa alude a “ referência eterna”441. A revista passou por vários ciclos e formatos e chegou a editar-se duas vezes por semana ,à quarta e ao sábado, entre 1942 e 1948. É inegável que do ponto de vista das audiências e da sua circulação terá sido dos casos mais bem sucedidos entre nós. Mas já quando se trata de encontrar uma justificação para tal circunstância, para além de meras considerações afectivas de quem cresceu a ler o jornalinho, as opiniões dividem-se. Há quem coloque o acento tónico nas séries inglesas com textos didascálicos como ” Pelo Mundo Fora” de Walter Booth, ” Serafim e Malacueco” de Percy Cocking ou “ Através do continente negro” de Colin Merritt, entre outras, que foram presença constantes nos primeiros anos, há quem realce a presença dos autores espanhóis como Jesus Blasco, Cabrero Arnal ou Arturo Moreno, há quem refira as construções de armar de António Velez ( comboios, aviões,casas. etc) , há quem não esqueça as novelas de grande qualidade literária de Raul Correia, José Padinha ou Orlando Marques e há quem finalmente realce a estreia daqueles que, na altura em princípio de carreira , se afirmaram pela valia dos seus desenhos e argumentos como Eduardo Teixeira Coelho , José Garcez, Jayme Cortez ou José Ruy. Mas talvez que a
439
A história de " O Mosquito" acompanhada de estudos da autoria de Leonardo de Sá, António Dias de Deus, Jorge Magalhães e A.J. Ferreira com índices, depoimentos memorialistas e reprodução de várias aventuras pode ver-se nos álbuns Sousa Santos, coord. O Mosquito, Aventuras e Curiosidades, Costa da Caparica, edições "Época de Ouro", 1997 e Sousa Santos, coord. , O Mosquito, 60º Aniversário, Costa da Caparica, Edições Época de Oiro, 1996. A eles se deve boa parte da recuperação da memória histórica associada ao referido jornal.
440
Vide A. Dias de Deus “ O Mosquito” . Sousa Santos, coord. História da BD publicada em Portugal[...]p. 10
441
razão possa estar um pouco em todos esses factores sem excluir nenhum e sobretudo na capacidade humana e profissional de dois dos mais geniais jornalistas infanto-juvenis portugueses , Cardoso Lopes e Raul Correia, para agregando tudo isso construírem um produto único e adequado ao público infanto-juvenil da época. Raul Correia atento aos aspectos literários e culturais do projecto e Cardoso Lopes, também criador de BD e com a rica experiência trazida de anteriores jornais infantis, formaram uma dupla criativa e empresarial de sucesso.
Mas a este último, se deve talvez a parte mais relevante da criação da revista infantil portuguesa por excelência “ O Mosquito” mas também, ironicamente, o seu fim.
António Cardoso Lopes, mais conhecido pelos leitores de " O Mosquito" e mesmo entre os amigos por Tiotónio ( nome com que assinava as suas criações ) foi uma figura única na Banda Desenhada portuguesa. Estreou-se no ABCzinho nos anos 20442 mas foi em " O Mosquito" que com Raul Correia , a partir de 1936 , formou uma dupla de sucesso. " Homem de grande engenho e iniciativa, bom desenhador humorístico e bom técnico de impressão em litografia e “offset"443 a ele se deve grande parte do êxito comercial e de conteúdo dessa publicação que ainda hoje é sinónimo de Banda Desenhada ( ou histórias em quadradinhos) em Portugal.
Mas talvez quem melhor nos possa dar o retrato de Cardoso Lopes e Raul Correia seja o desenhador e argumentista José Ruy Pinto que ingressou na equipa de “ O Mosquito” em 1947 para desenhar e litografar as cores da revista e que conviveu de perto com todos os que colaboravam no projecto e bem assim com os muitos que circulavam na redação instalada na Travessa de São Pedro no centro desse bairro de jornais e jornalistas que foi o Bairro Alto444.
Recorda ele : " o Tiotónio transmitia um fluído que nos fazia sentir bem, termos confiança, eram os seus modos delicados e a determinação do seu olhar inteligente"445. A restante parte do sucesso é devida a Raul Correia " um poeta extraordinário(...) homem fino, culto e que sabia escrever bem em português"446 que não terá sido menos importante em todos os 17 anos de vida da revista.
442
Vide Leonardo de Sá " Presença Portuguesa n´O Mosquito" O Mosquito uma máquina de fazer histórias, Catálogo da Exposição, Centro Nacional de Banda Desenhada e de Imagem, Amadora, 2006, p. 21 e Leonardo de Sá e António Dias de Deus " Cardoso Lopes, António" Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon Em Portugal. Edições Época de Ouro, Amadora , 1999, p. 33
443
Vide Raul Correia, " Sobem do fundo da memória, lentos...de como nasceu e viveu " O Mosquito", Manuel Caldas Apresenta O Mosquito de como nasceu e viveu, Porto Edições Emecê, 1993. p. 31
444
Vide Paulo Martins , O Bairro dos Jornais, As histórias que marcaram o Bairro Alto e os seus jornais, Lisboa, Quertzal, 2018, p.295
445
Cardoso Lopes não tendo educação formal em artes gráficas terá sido encorajado pelo pai a desenhar regularmente tendo como referência " Raphael Bordallo Pinheiro, cujo Zé Povinho daria o arquétipo para os personagens saloias de aventuras picarescas criados pelo jovem artista"447 . Desde cedo começou a colaborar em jornais infantis, como foi o caso de uma história aos quadradinhos publicada em 1924 no ABC-zinho com apenas 16 anos. Seguiram-se depois colaborações , quer como desenhador quer como argumentista no " PimPam-Pum" suplemento infantil do jornal O Século, no suplemento infantil " O Bébé" do jornal " A semana Ilustrada" até assumir a co-direçção das duas séries do " Tic- Tac" em 1931-1932. No fim dos anos 20 e princípios dos anos 30 o jornais infanto-juvenis eram realizados essencialmente por autores nacionais e Cardoso Lopes teve nesse contexto a oportunidade e a sabedoria de " inventar uma pequena mas colorida galeria de personagens sobretudo através de muitos pacóvios provincianos cujas aventuras descreveu e ilustrou como a Estrudes do Altinho que depois se tornou noiva do Manuel Grilinho grande amigo de Zé Pacóvio- todos exemplos modelares da proverbial esperteza saloia"448. Por seu lado a revista "Tic-Tac", sob o impulso de Cardoso Lopes foi a primeira publicação entre nós a apresentar autores estrangeiros de permeio com nacionais. Mas mais relevante do que isso " foi também a primeira a fazer activamente a sua promoção através da organização de festas, emissões de TSF, etc. " 449 . No "Tic-Tac" Cardoso Lopes conhecerá Raul Correia que colaborava com novelas para a publicação. Dessa ligação nasceria uma amizade e uma parceria que dois anos depois , em 1936 , estaria na origem do " Mosquito" " a mais importante revista de quadradinhos portuguesa"450. A breve experiência acumulada e a capacidade de reinvenção à frente do novo jornal infanto-juvenil , com uma " engenhosa mistura de autores nacionais e estrangeiros"451 teve sucesso , a tal ponto que três anos depois os dois sócios investiram na compra de uma moderna máquina "offset", única à época em Portugal que imprimia sete mil exemplares por hora. E o sucesso da iniciativa permitiu a criação das " Edições O Mosquito" que daí em diante multiplicou as iniciativas editorais algumas delas também pioneiras como a edição de álbuns de BD em capa cartonada.
446
Vide José Ruy " Tiotónio, Meu Amigo" . História da BD publicada em Portugal ( Sousa Santos, org. ), 1ª parte, , Lisboa, Época de Oiro, 1995, p. 47
447
Vide Leonardo de Sá, Tiotónio uma vida aos quadradinhos, Lisboa, Bonecos Rebeldes, 2008 p. 7
448
Vide Leonardo de Sá, Tiotónio [...]p. 9
449
Vide Leonardo de Sá, Tiotónio [...]p. 19
450
Vide Leonardo de Sá, Tiotónio [...] p. 19
451
Cardoso Lopes a partir de 1939-40 terá abandonado a sua actividade como criador de BD para se dedicar à produção editorial e à administração das Edições "O Mosquito". E aí se manteve até 1948 em conjunto com Raul Correia até que ambos decidiram terminar a parceria acordando que " Raul Correia continuaria O Mosquito propriamente dito noutras paragens enquanto Cardoso Lopes guardava o nome das “Edições O Mosquito”, as instalações e as máquinas da Travessa de São Pedro, que pouco aproveitou"452. Ou seja , durante 12 anos , Cardoso Lopes e Raul Correia , marcaram o mercado nacional das publicações infanto-juvenis praticamente sem concorrentes.
Analisados hoje os velhos exemplares da revista é possível constatar a estreia de vários jovens talentos nacionais como Vítor Péon, Jaime Cortez, Servais Trigo, José Ruy , José Garçês, António Velez, Orlando Marques ou Roussado Pinto em equilíbrio com " comics" ingleses , sobretudo, e algumas importações espanholas. Se adicionarmos a isso as construções de armar , os suplementos " para meninas" , os anuários, os romances em fascículos e toda a estratégia de divulgação que vinha do "Tic-Tac" encontra-se em parte explicada a razão do sucesso. Mais difícil é explicar as razões do insucesso que levou a que a revista após a separação dos dois fundadores entrasse em declínio até acabar em 1953 .
Se compararmos o famoso insecto com os conteúdos e sobretudo a dinâmica gráfica dos seus concorrentes no fim dos anos 40 como por exemplo o " Mundo de Aventuras" talvez se entenda a sensível mudança que entre nós se operava no mercado das " histórias em quadrinhos" . Lidos hoje em roteiro comparado parecem dois mundos diferentes : a "ordem",a " tranquilidade", " a inocência" que dimanam das páginas do "Mosquito" não se encontram no " Mundo de Aventuras". Neste tudo é sensação, movimento, ruído e confusão. Os temas e sobretudo as técnicas gráficas são profundamente diversas. As legendas didascálias em mais de 50% das BDs de "O Mosquito" são substituídos por balões com textos mínimos e frequentes onomatopeias no " Mundo de Aventuras". Ora esta mudança se sugestionou o público infanto-juvenil não deixou de assustar o poder político.
É possível que os fundadores do Mosquito tivessem consciência das mudanças que se aproximavam. Mas certamente não poderiam antecipar a situação em que ambos se viram colocados pela convergência quase simultânea de dois factores : a emergência dos " comics " americanos trazidos pela Agência Portuguesa de Revistas e reação do Estado
452
Novo a essa realidade, para a qual as estruturas censórias não estavam preparadas . Isso explica o destino dos dois mais acérrimos defensores do velho e tradicional jornalismo infanto-juvenil, Raul Correia e Cardoso Lopes, que acabaram prematuramente sacrificados, embora por razões distintas, por quem tinhas poucas razões para deles desconfiar. Antecipando um pouco o que a seguir se retomará quer Raul Correia quer Cardoso Lopes sempre se afirmaram convictos adversários das “ aventuras americanas” que invadiam o país e que o “ Mundo de Aventuras” personificará. Raul Correia dirá : “Estamos convencidos de que as narrativas baseadas em jornais americanos – ou se o preferires os jornais baseados em narrativas americanas- não são aconselháveis... nem uma escolha muito cuidadosa. As histórias género super homens parecem-nos uma ofensa à inteligência de quem as lê “453
E Cardoso Lopes , no mesmo registo do seu ex-sócio, criticará a “publicação entre nós sem mais análise de material condenável feito para um púbico cuja mentalidade é absolutamente diferente da nossa ou onde os editores sem escrúpulos em plena liberdade procuram apenas um êxito fácil com a publicação de histórias onde se busca por todos os meios prender o público , sem curar da forma como esse objectivo é conseguido. Onde este caso se verifica é com o material de origem norte- americana(...) “ . Ora por aqui se vê em que posição exacta se encontravam Raul Correia e Cardoso Lopes no momento em que nasce a discussão acerca da estratégia moralizadora anti-americana que mobilizará o Estado Novo no início da década de 50. O que terá mudado para que a posição de um e outro se alterasse sensivelmente no seu relacionamento com o Estado Novo ?
Para responder importa regressar à dissolução da parceria entre Raul Correia e Cardoso Lopes e ver o que ocorreu depois. Quer do lado de Cardoso Lopes quer, no capítulo 7, do lado de Raul Correia.
Como vimos, após mais de 10 anos de boa convivência e de sucesso editorial e de público, a dupla Raul Correia e Cardoso Lopes dissolveu-se. Dessa dissolução saiu ainda uma tentativa de reinventar o “ Mosquito” , uma espécie de émulo intitulado “ O Gafanhoto”. Sem sucesso . E ao insucesso deste seguiu-se o exílio voluntário de Cardoso Lopes no Brasil . Do seu rasto brasileiro , durante muito tempo um verdadeiro mistério, tratou Leonardo de Sá de o esclarecer454. Sobre o caso “ Gafanhoto” não sendo hoje
453
Vide O Mosquito, nº 1124, 1/4/1950
454
conhecidos os seus contornos455 parece contudo ter ficado a memória de um acto persecutório levado a cabo pela Censura contra Cardoso Lopes motivado por razões políticas456. Um caso em que o subjectivismo da memória pode não ajudar à investigação histórica, ou mesmo ser por esta contrariada. Um tema que recuperaremos no capítulo 6 a propósito do filosófo e também censor Edmundo Curvelo. Mas não parece que tal memória possa prevalecer , pelo menos nos seus fundamentos mais imediatos.