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Chapter 6 Religion

6.3 Pagan-Christian relations

O " Cavaleiro Andante" veio à luz no dia 5 de Janeiro de 1952 e insere-se numa linha editorial com antecedentes. Sucede praticamente sem interrupções ao " Diabrete" e dá continuidade às publicações juvenis do " Diário de Notícias" que são propriedade , como o jornal, da Empresa Nacional de Publicidade. O director será aliás o mesmo, Adolfo Simões Muller, como vimos, uma personalidade ligada aos meios católicos , que havia sido antes da sua passagem pelo " Diabrete ", editor e director do jornal infantil "O Papagaio" uma publicação detida pela "A Renascença" ( mais tarde Rádio) muito próxima da Igreja Católica. Simões Muller foi além disso um prolífico e multipremiado escritor de literatura infantil da qual se destaca a colecção, pela lembrança que deixou ,“ Gente grande para gente pequena” em cujos livros são retratadas personalidades nacionais e internacionais de renome ,ilustradas por desenhadores portugueses como Fernando Bento, Vítor Péon, José Ruy ou Júlio Resende, entre outros. Como jornalista infanto- juvenil é reconhecido por ter introduzido em Portugal “ o que de melhor se publicava na altura na Europa e no que dizia respeito principalmente à escola franco-belga e italiana, com actualidade notável pois os trabalhos dos desenhadores destas escolas e de outros países como a Espanha, eram publicados cá , ou quase simultaneamente ou com pouco atraso aquando da sua publicação nos países de origem(...)”470

469

Vide Carlos Bandeiras Pinheiro, Mundo de Aventuras, Bibliografia ilustrada das Bandas Desenhadas de Autores Portugueses(1949-1987)[...]p.31 e ss.

470

Quando o "Cavaleiro Andante" surge o "Mundo de Aventuras" estava já nas bancas há 3 anos , com todo o alarme provocado nas hostes governamentais como acabámos de ver . A " Empresa Nacional de Publicidade reunia as condições para apresentar um competidor forte , sendo certo que o ciclo de "O Mosquito" se aproximava do fim. No fundo tratava-se de actualizar " O Diabrete" sendo certo que tinha já " o director adequado, perfeitamente integrado no clima de hostilidade contra os " comics" americanos e à sua violência desmedida"471

Ora, das histórias surgidas no Cavaleiro Andante , para a fase em estudo, todas elas " colhidas nas melhores fontes católicas ( belgas, francesas e italianas)"472 destacam-se as aventuras de Tintin, em continuação do ciclo do " Papagaio" e do " Diabrete" o aparecimento dos heróis de E.P. Jacobs " Blake e Mortimer" naquela que muitos consideram a sua obra mais importante " O Mistério da Grande Pirâmide" e ainda muitos outros autores belgas ou franceses como François Craenhals, Bob de Mooor , Jean Graton, Tibet ou Morris todos eles saídos dessa extraordinária oficina de sonhos que foi a revista TinTin ( com edições na Bélgica e em França).

Mas surgem também desenhadores italianos provenientes da também muito católica revista juvenil "Il Vitorioso", que como veremos constituirá fonte importante para as independentes " Titã " e " Flecha" e , muito pontualmente, criadores americanos. Estes, contudo, limitados aos relatos históricos , como foi o caso de Kreigh Collins que surge nas páginas do " Cavaleiro Andante" com a história " Pela Cruz e pela Espada" 473.

Dos autores portugueses colaboraram na revista, entre outros, Fernando Bento, José Garçês, José Ruy, José Manuel Soares e Artur Correia, em registos invariavelmente históricos ou excepcionalmente humorísticos ( como aconteceu com Artur Correia e os seus "contos" cómicos).

Contudo era manifesto que a muita pretendida colaboração portuguesa escasseava. Se nos argumentos as dificuldades não seriam inultrapassáveis já no desenho, pelas suas especificidades técnicas os requisitos eram mais complexos e não abundavam desenhadores portugueses e ainda menos os que dominassem a técnica da banda

desenhada. A tal ponto que o Director do “ Cavaleiro Andante” teve que vir

publicamente alertar para tal circunstância. No nº2 do Cavaleiro Andante474 em nota intitulada " Aos jovens artistas portugueses" dava-se conta de que o projecto teria de

471

Vide Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Cavaleiro Andante[...], p. 5 .

472

Vide Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Cavaleiro Andante[...] p. 6.

473

" Muito censurada" informam Leonardo de Sá e António Dias de Deus,Cavaleiro Andante [...]p 6.

474

envolver um número significativo de artistas portugueses de molde a " se não a totalidade das páginas desenhadas e dos restantes desenhos- o que seria o ideal- pelo menos uma razoável percentagem" pudessem resultar de produção nacional. A verdade é que o resultado , queixava-se o Director, havia sido desanimador : " além das páginas admiráveis desse grande artista que é Fernando Bento, apenas podemos contar por enquanto com as contruções desenhadas por Velez e com os trabalhos de António Silva,

um jovem de reais qualidades..." Chega mesmo a referir ter Stuart Carvalhais475

prometido a sua colaboração , que por razões de saúde não tinha ainda sido possível e que se traduziria no renascimento do Quim e Manecas que " fez as nossas delícias há trinta anos". É claro que este proclamado regresso nunca se concretizará se bem que Stuart tenha ainda por alguns anos continuado a desenhar e até a recriar o Quim e o Manecas mas não nas páginas do Cavaleiro Andante . Ora de tudo resultava o constrangimento de recorrer " à colaboração estrangeira, adquirindo o exclusivo para o nosso país dos melhores trabalhos de desenhadores espanhóis, franceses, belgas, italianos . holandeses e ingleses". Note-se a expressa omissão de qualquer desenhador norte-americano ! E explicava: " Houve como se vê o cuidado de optar pela colaboração latina ou pelo menos europeia, para que os argumentos e das histórias e as ilustrações estivessem mais de acordo com a nossa maneira de ser, do que a maioria dos magníficos " copyrights" que nos vêm do outro lado do Atlântico"476. O que Adolfo Simões Muller não dizia é que por esta altura fazia parte da Comissão Especial para a Literatura Infantil e Juvenil criada justamente para , entre outras missões, evitar que os “ copyrights” do outro lado do Atlântico cá chegassem. É necessário contextualizar esta intervenção, aparentemente desgarrada, de Adolfo Simões Muller. Mas ela é bem reveladora da persistência dos seus pontos de vista, não só nas orientações gerais que entendia imprimir ao jornalismo infanto-juvenil e que vinham do tempo do “Papagaio” e do “ Diabrete” como nas suas reservas à ideia de que os jornais infantis deveriam ter colaboração essencialmente portuguesa. Quanto a este aspecto Muller falava na qualidade de membro da CELIJ, na qual havia sido empossado

em Dezembro de 1950 e com a particular autoridade de ter criticado , nesse ponto477, as

475

Assinalando as descontinuidades políticas de Stuart Carvalhais no campo da caricatura vide António Ventura, O Imaginário Seareiro, Ilustradores e Ilustrações da Revista Seara Nova (1921-1927), Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989. pp. 91-92

476

Vide “ Cavaleiro Andante” nº 2, 12/1/1952 p. 3

477 Vide Alguns Comentários a propósito das “instruções” da Direcção dos Serviços de Censura acerca

da edição e circulação das publicações de literatura infantil”, Adolfo Simões Muller, Director do “ Diabrete”, 18/9/1950 , pp. 4 e 5 . Biblioteca Municipal de Abrantes António Boto, Espólio Edmundo Curvelo, Caixa 12, Pasta C 1201

“Instruções para a Literatura Infantil” divulgadas também nesse ano de 1950 . Fê-lo , como seria normal à época, de forma reservada, em carta dirigida ao Director dos Serviços de Censura. A verdade é que se o “ constrangimento de recorrer à colaboração estrangeira” era ditado pela rarefação de criadores portugueses, faria sentido que se definissem metas ( 75% de colaboração nacional) inatingíveis? Era a pergunta que deixava.

Mas neste particular não existia ( nem nunca existiu) qualquer rivalidade entre o “ Cavaleiro Andante” e “ O Mundo de Aventuras” . Ambas deram à produção nacional espaço irrisório . E desse espaço o que é possível dizer é que enquanto Fernando Bento marcou o “ Cavaleiro Andante”, Vítor Péon significou o mesmo para “ O Mundo de Aventuras”, até 1954, assim como, na década de 40 Eduardo Teixeira Coelho assumiria idêntico estatuto em “ O Mosquito”.

O " Cavaleiro Andante" foi das publicações portugueses para o público infanto juvenil mais marcantes e com longevidade apreciável, acabando em 1960 e dando lugar a outras segundo a convicção de Simões Muller de que o prazo de vida médio destas publicações era de dez anos. Terminada o prazo de validade de um dos jornais logo outra se preparava sempre economicamente sustentado pela ENP .A seguir ao " Cavaleiro Andante" surgiu o efémero " Foguetão" e acabado este foi lançado o " Zorro".

A revista manteve no essencial as mesmas características de dimensão, grafismo - impressa a cores na capa e contra-capa o recheio a preto e branco e bicromia e conteúdo. E até na fixação das aventuras de "TinTin" na última página.

Mas o que deve ser valorizado para o contexto deste trabalho tem que ver com os conteúdos da publicação. Ela marca o início da divulgação de forma sistemática e alargada das personagens publicadas no " TinTin " belga , ou seja das BDs da escola da " linha clara" cujos enredos, discursos, temas e preocupações imanentes pareciam , à medida que se foram impondo, passar melhor pelo crivo das estruturas censórias infanto-juvenis .