• No results found

Graves in the archaeological landscape

Chapter 7 The past in the past

7.2 Graves in the archaeological landscape

Nos anos 50 Roussado Pinto estará presente em quase todos os projectos de jornalismo infanto-juvenil. A excepção será o “ Cavaleiro Andante”. Após a sua decisiva intervenção na reformulação do “Mundo de Aventuras” abandonará com Vítor Péon a Agência Portuguesa de Revistas e lançará dois jornais “ Titã” e “ Flecha” ambos produtos da mesma casa editora a “ Fomento de Publicações” . Mais tarde regressará com “ Valente”. Só na aparência todos estes projectos são similares. “Titã” e “Flecha”, como se fossem pai e filho, nascem em 1954 e morrem em 1955 com pouco mais de uma semana de intervalo e têm conteúdos muito similares . Já “ Valente” surgiu no fim de 1956 e terminou dezasseis semanas depois a 27 de Março de 1957 e traduziu-se na primeira e assumida recriação do defunto “ Mosquito”.

Valerá a pena, ainda que de forma sucinta, dar nota do conteúdo dos semanários. Isso permitirá verificar que a publicação buscou em outros universos de " histórias em quadrados", que não as “ aventuras americanas” alicerçar a natureza do seu projecto editorial. Isso não seria certamente por acaso. Quando Roussado Pinto abandona o “ Mundo de Aventuras” em meados de 1954 fazia-se sentir um activo policiamento das estruturas censórias infanto-juvenis . Roussado Pinto não o podia ignorar , não só por o ter vivenciado como sobretudo por ter sido o responsável editorial que havia reforçado essa coloração “ americana” na revista. O que parece assente é a tentativa de liderar um projecto que se acomodasse às orientações moralizadoras da CLEM. Quanto isso temos poucas dúvidas já que será o inicial director da revista José da Costa Pessoa ( Vinhais) , logo substituído por Roussado Pinto, mas certamente articulado com este, a anunciar na sua carta de intenções junto da Censura, a aposta nas "histórias" europeias onde havia " censura católica"478. A referência à "censura católica" não poderia deixar de ser entendida como uma espécie de argumento de autoridade para tentar obter livre trânsito por parte dos censores.

Na realidade a “Titã” e a “Flecha” foram buscar à Grã-Bretanha- e ironicamente a uma publicação cristã mas não católica- boa parte dos seus " comics" a que somaram autores espanhóis, italianos e da escola franco-belga.

478

Vide PT/ANTT Secretariado Nacional de Informação/ Arquivo da Direcção dos Serviços de Censura Cx. 546 Processo nº 795 “ Titã” Carta da Fomento de Publicações Lda assinada por José da Costa Pessoa ( Vinhais) dirigida ao presidente da CLEPM datada de 19 de Outubro de 1954.

A publicação caracterizou-se , na sua primeira fase, pelo aspecto gráfico . Quer a dimensão da revista, quer sobretudo a qualidade da impressão e da reprodução da capa, contra-capa e páginas interiores conferiam-lhe um especial atrativo. O sucesso estava ligado à técnica de impressão , a rotogravura479 que permitia " a reprodução de meios tons e séries aguareladas " com muito qualidade480. Vítor Péon, que teve participação activíssima nas ilustrações e no grafismo da revista , recorda cerca de 20 anos depois : " Ainda me lembro do processo da côr que era dada pelo pintor e bom amigo Fortunato Anjos.(...) ( A Fomento Publicações) foi uma firma criada par criar trabalho para uma rotativa de quatro cores que a Neogravura tinha comprado no estrangeiro." 481

Um dos esteios da BD importada, foi justamente a britânica "Eagle"482. Os avanços nas tecnologias de impressão conferiram à "Eagle", que foi uma revista precursora no campo da banda desenhada, um extraordinário sucesso. A sua primeira série publicou-se entre 1950 e 1969. A iniciativa da revista deveu-se a Marcus Morris um clérigo da Igreja anglicana da cidade de Lancashire, que transformou a revista da paróquia , com a ajuda do desenhador Frank Hampton, numa histórica publicação de banda desenhada. O seu propósito visava claramente divulgar um código de valores morais de inspiração cristã entre os jovens britânicos . Ainda que tais valores tivessem que recorrer ao contexto aventureiro das batalhas espaciais e dos conflitos entre índios e "cow-boys". O primeiro número vendeu quase um milhão de exemplares. A sua personagem de referência acabou por ser o piloto "Dan Dare" uma espécie de astronauta de ficção científica em luta contra o " terrível Mekon". Depois temos os autores italianos e os espanhóis. A totalidade dos autores italianos publicado na revista eram colaboradores do semanário "Il Vitorioso". Entre 1937 e 1966 por iniciativa da "Azione Catolica" e com o propósito de conferir aos jovens italianos uma visão da vida e da sociedade impregnada da valores católicos veio a ser publicada a revista "Il Vitorioso". Transformou-se num grande sucesso, chegando a vender cerca de 200.000 exemplares por semana, se bem que beneficiando da ampla rede de distribuição da Igreja Católica. Temos por seguro que os responsáveis da "Titã"

479

A rotogravura é uma técnica de impressão cujo nome deriva da forma cilíndrica das rotativas que permitem a aplicação de tinta de forma uniforme nos suportes impressos. Se bem que se trate de um processo relativamente mais dispendioso que o mais moderno "offset" permite uma gama de tonalidades( a preto e branco e a cores ) mais rica e com mais qualidade. As cores parecem aguareladas o que potenciou o efeito estético das criações do principal ilustrador das capas que foi Vítor Péon.

480

Cfr. António Amaral, "Titã, Flecha e os demais"História da BD Publicada em Portugal , 2ª parte, Edições Época de Ouro, Vila Real de Santo António, 1996, p. 18

481

Cfr. Jornal do Cuto, nº35, Ano 1 ( 1/3/1972) p. 23

482

Vide Ricardo Leite Pinto, “ Titã , Uma aventura gráfica singular”. Boletim do Clube Português de Banda Desenhada, nº 143 , Fevereiro, 2017, p.12

adquiriram vários trabalhos ao " Il Vitorioso" e não apenas séries em banda desenhada. O exemplo mais interessante é a reportagem ilustrada sobre as " novas e modernas soluções de salvamento de náufragos em alto mar" que foi reproduzida no nº 22 da revista portuguesa e que inclusive constitui a sua capa, com desenho de Corrado Caesar483. E finalmente o "Titã"e “Flecha” apostaram na divulgação da banda desenhada franco- belga publicada no semanário belga " Journal de TinTin". São os casos de " L´Extraordinaire Odyssé de Corentin Faldoe" de Paul Cuvelier, "Le Secret de Mahukitah" e “ Le triangle Blue “ de Albert Weinberg e "Le Secret du Espadon" de E.P. Jacobs, “ Clorophile contre les rats noirs” de Macherot , “ L´Énigmatique Monsieur Bareli” de Bob de Moor. Para além de E.P. Jacobs, que haveria de figurar ao lado de Hergé entre os grandes criadores da história da BD mundial o caso de Paul Cuvelier não deixa de ser significativo por poder considerar-se um desenhador de excepção, mas que acabou por deixar uma obra pouco divulgada entre nós. Mérito para Roussado Pinto por o ter introduzido aos jovens leitores portugueses. Infelizmente em completo anonimato . Na verdade as aventuras de Corentin transformam-se em "Aventuras de Grifo" e a série, ao contrário da sua publicação originária na revista belga, não identifica a sua autoria. Mas não é essa a única peculiaridade da versão estreada entre nós.

Ao lermos com 60 anos de distância esta criação de Paul Cuvelier , depois de a termos lido na sua versão original na revista “ Tintin” e mais tarde em álbum, são desde logo identificáveis várias diferenças quer puramente gráficas, quer na sequência narrativa quer nas traduções dos textos( no caso dos “balões”). A hipótese de poder tratar-se de intervenções auto-censórias não poderia à partida ser excluída. Na realidade teremos oportunidade de constatar bom número de tais tropelias no capítulo 7. Contudo não será esse o caso. Em rigor as intervenções lesivas do trabalho original eram comuns à época, não apenas por preocupações moralizadoras, mas por comezinhas questões de economia no papel, ritmo das histórias ou aparente adaptação às características dos jovens portugueses. O tema decorre naturalmente da deslegitimação em que a BD e os seus criadores se viam envolvidos nas décadas em referência. O simples facto da maioria das “histórias em quadrinhos”não se apresentarem sequer com identificação da autoria remete- nos para a pré-história dos direitos de autor em Portugal . Só muito mais tarde tais

483

Vide Il Vitorioso, Ano 18 Nº50 de 12 de Dezembro de 1954. Corrado Caesar foi um desenhador alemão que se radicou em Itália nos anos 30 tendo colaborado com o " Il Vitorioso" após a II Guerra Mundial . Entre nós e para além do "Titã" foi também publicado pelo " Cavaleiro Andante". Vide Leonardo Sá e António Dias de Deus , Cavaleiro Andante,[...] p. 73 .

preocupações, associadas aliás à remuneração dos criadores e em geral ao seu estatuto profissional merecerão a devida atenção.

Nesta linha de desrespeito do direito de autor encontramos traduções484 .

Na prancha nº 3, vinheta nº 6 , por exemplo , quando o cozinheiro do brigue no qual Corentin inadvertidamente embarca exclama " Foi de cuistot ,un petit coup de vin ne fait jamais de mal" , a liberdade criativa do tradutor coloca-o a dizer : " Por minha fé! Estou a suar como um camelo fora do deserto! Um copo de vinho não fará mal ao meu estômago!".

As soluções gráficas nem sempre respeitam o original. Não falamos , é claro, da compressão das pranchas quando a revista passou do formato grande para um formato mais reduzido . A configuração original mantém-se , ou seja 3 linhas horizontais que acomodam entre 6 a 12 vinhetas por prancha , mas a sua proporção reduz-se em quase 50% perdendo-se boa parte do impacto visual do desenho de Cuvelier. Falamos sim do desaparecimento de alguns desenhos .Logo na prancha inaugural as três primeiras casas desaparecem e são substituídas por um título em grandes dimensões " As extraordinárias aventuras de Grifo" e por uma caixa de texto compacto onde se pretende explicar as origens do herói. Tudo textos que não existem no original.

A "Fomento de Publicações" terá acabado nas seguintes condições ,na versão de Vítor Péon: " ( A Fomento Publicações) foi uma firma criada para dar trabalho para um rotativa de quatro cores que Neogravura tinha comprado no estrangeiro. Essa rotativa acabou por ser cedida a outra firma e Neogravura só viria a recebê-la muitos anos depois. Então a Fomento acabou porque não justificava que estivesse a alimentar a concorrência, já que os trabalhos tinham de ser dados a fazer a outras oficinas"485

484

Vide João Paiva Boléo, " Uma tira exemplar de Steve Canyon ou de como se "traduz" banda desenhada". Aventura Gráfica, nº 17, 2ª série, Suplemento do "Jornal de Arganil" , nº 3625, 28/5/1998, pp. I e IV, que analisa uma tira de Steve Canyon de Milton Caniff publicada originariamente no "Mundo de Aventuras" nº 42 de 1/6/1950 , comparando-a , no que diz respeito à tradução do conteúdo dos balões , com o original e uma versão francesa , concluindo que " Quanto à "tradução " portuguesa no Mundo de Aventuras... é outra história com os mesmos desenhos e revela uma postura muito generalizada( com diferentes gradações e excepções) nas nossas publicações de BD, em que a preocupação de distrair não implicava qualquer respeito pelo autor , censurando e "adaptando" segundo preconceitos morais e ideológicos primários que até ignoravam os valores subjacentes a muitas das histórias publicadas"

485

O fim da publicação , ainda que fundamentalmente tenha sido motivado pela redução das vendas, também não terá sido alheia à “ quebra de compromissos na entrega de uma rotativa que baixaria os elevados custos de produção com que a revista se debatia"486 . A verdade é que a Fomento de Publicações , que se havia lançado em força no mercado editorial-uma das suas mais simbólicas colecções foi a “ Mosaico”, livros de “ bolso “ baratos, de reduzido formato e de Autores prestigiados – acabaria por soçobrar pouco tempo depois.

Menos de um ano após estes insucessos, Roussado Pinto , de novo com Vítor Péon , desta feita como director artístico, regressou ao jornalismo infanto-juvenil com “ Valente” um jornalinho de 8 páginas ao preço de 1$00. As suas características não iludiam ninguém : “ O Valente imitava sem complexos o Mosquito da 1ªsérie , desde o formato, o número de páginas, as novelas de aventuras, as rubricas –como o correio , os passatempos, os concursos- até a própria qualidade do papel , que dir-se-ia proveniente da mesma fábrica”487

. E na verdade, parte significativa dos conteúdos traduziram-se na reedição de alguns dos grandes êxitos do Mosquito dos anos 30 e 40 : “ Capitão Bill, Grumete Bell e Cozinheiro Ball” de Roy Wilson, “Serafim e Malacueco” de Percy Cocking e “ Pelo Mundo fora” de Walter Booth. Ou seja após uma investida, sem sucesso , na BD italiana, inglesa e franco-belga Roussado Pinto tentou um regresso ao paradigma de referência do jornalismo infanto-juvenil português mas com uma década pelo menos de atraso. Mas a verdade é que no segundo quinquénio dos anos 50 apenas dois modelos de " histórias em quadrinhos" e por arrastamento de jornalismo infantil se mantinham em competição : os " comics " americanos e a escola franco-belga. Uma delas impor-se-á, ao longo dos anos 60 nos gostos dos jovens portugueses. Mas o que falta saber é se nesse percurso e sobretudo na linha de chegada, a influência da estratégia censória infanto-juvenil iniciada nos anos 50 não terá sido relevante. Numa sociedade livre e democrática a resposta dependeria do funcionamento do mercado no qual , naturalmente, os padrões culturais do gosto e do consumo ditariam as suas leis. Mas não numa sociedade civil vigiada pelo poder político de cariz autoritário em que os gostos e as preferências dos jovens estavam não só policiados como sujeitos a uma campanha moralizadora . Supomos estar em condições de responder a essa pergunta no fim dos dois capítulos subsequentes.

486

Vide José Pires, " O Génio dentro da Garrafa, Roussado Pinto" História da BD Publicada em Portugal,2ª parte [...] p. 14.

487

Vide Jorge Magalhães, “ Valente” , Sousa Santos, coord. História da BD Publicada em Portugal,2ª parte [...]p. 21

4.7. Os anos 60 : “Foguetão”, “Zorro”, a consolidação da escola “franco-belga” e o surgimento dos álbuns

Os anos 60, sobretudo o seu primeiro quinquénio, registaram mudanças significativas nas práticas sociais e nos hábitos de consumo do lazer entre os jovens. Uma das razões prende-se seguramente com novas ocupações dos tempos livres , onde o fenómeno televisivo vai conquistando cada vez mais espaço. Mas outras particularidades especificamente ligadas ao mercado das “histórias em quadrinhos” ocorrem: “ Perdera-se o prazer da leitura páginas a página, semana após semana e perdera-se também irremediavelmente o hábito de ler histórias extensas, fossem ou não desenhadas 488” escreve Jorge Magalhães. Os aparecimentos dos álbuns cartonados com histórias completas como resposta aos novos hábitos de consumo dos jovens marcam o mercado editorial, o que dará o tom para os anos 60 . Em matéria de publicações periódicas “ reinou uma certa desolação”489

é a constatação mais lida entre quem tem investigado este período do jornalismo infantil.

Assim pode dizer-se que os anos 60 são marcados por duas tendências fundamentais : a consolidação da banda desenhada franco-belga e a prevalência do meio e formato do “ álbum” para a divulgação das “histórias em quadrinhos”. Se a primeira não teria em teoria reflexos directos no mercado editorial das publicações periódicas já a segunda revelou-se decisiva nesse aspecto. Ou seja os meios clássicos de divulgação da BD pela via de jornais e revistas infantis e juvenis entraram em declínio490. Contudo a prevalência da BD franco- belga também não deixou de ter reflexos no mercado editorial e no reduzido universo de criadores portugueses. Por um lado, com a excepção das publicações da Agência

488

Vide Jorge Magalhães, “ O Império da Editorial Agência Portuguesa de Revistas”. Sousa Santos, coord. História da BD publicada em Portugal, 1ª parte[...]p. 39

489

Vide Jorge Magalhães, “ O Império da Editorial Agência Portuguesa de Revistas”. Sousa Santos, coord. História da BD publicada em Portugal, 1ª parte[...]p. 41

490

Portuguesa de Revistas que continuaram a abastecer-se nos mercados norte-americanos e inglês , mas com cada vez menor capacidade de atração junto do público juvenil e da fugaz tentativa revivalista do “Mosquito” por parte de José Ruy que veremos adiante, todas as outras , muito rarefeitas e de curto fôlego , como era o caso das edições da ENP, como o “Foguetão” ou “Zorro”, publicaram histórias basicamente franco-belgas. Essa tendência terá o seu desenlace natural em Junho de 1968 quando a referência jornalística e gráfica da escola franco-belga aterra entre nós com a versão portuguesa de “Tintin” . Esta publicação, que escapará por razões cronológicas ao nosso radar, e que foi orientada fundamentalmente por Dinis Machado e por Vasco Granja, atravessou o marcelismo em velocidade de cruzeiro terminando já depois do 25 de Abril em 1982. O acervo da revista reunia o essencial da escola franco-belga ( Hergé, Jacobs, Hermman, Mézieres, Giraud, Martin, Morris, Uderzo, Gosciny e tantos outros) , constituindo-se mesmo num caso de estudo ao reunir material proveniente das três revistas francófonas de referência “ Tintin”, “ Spirou” e “ Pilote”. Como escreve Carlos Pessoa “ à incontestável qualidade gráfica da revista e dos seus conteúdos pode contrapor-se uma responsabilidade muito directa na conformação de um gosto e de uma sensibilidade do público português às criações franco- belgas em detrimento de outras escolas e correntes”491

. Isso significou, por um lado uma ausência quase total de colaborações portuguesas, nos projectos editoriais lançados nos anos 60. O “ Foguetão” não tinha colaboração alguma nacional e o seu sucessor “ Zorro” contemplou apenas histórias de José Garçês , Fernando Bento e José Pires. Até mesmo as publicações de referência da MP como era o caso da revista “O Camarada”, na sua 2ª série , que procurava ser fiel ao ditame de só publicar material nacional , acabou convertida às preferências franco-belgas enquanto que o seu sucedâneo em 1968 a “Pisca- Pisca” acentuou ainda mais essa tendência.

Muitas dessas tendências surgem logo no início da década. É o caso do “ Foguetão” editada pela ENP, um dos grupos editoriais que nunca deixou de apostar no público- infanto –juvenil , quer pela criação de revistas quer pela dinamização de suplementos semanais ao “Diário de Notícias” como foi o caso da “ Nau Catrineta” , sob a batuta de Simões Muller , iniciada em 1963 e que se prolongou para lá do 25 de Abril.

Aliás deve recordar-se aqui o que já fizemos notar no capítulo 2 , a emergência nos anos 60 de suplementos infanto-juvenis( ou em qualquer caso a presença significativa de BD nas suas páginas) em praticamente todos os jornais diários, uns dando continuidade a

491

projectos mais antigos outros criando-os de raiz : “Pim Pam Pum” com “ O Século” “ Quadradinhos” com “A Capital” “ A Mosca” com o Diário de Lisboa.

A revista Foguetão , sub-intitulada " Semanário Juvenil para o ano 2000" iniciou a sua publicação a 4 de Maio de 1958 e terminou no nº 13 a 27 de Julho do mesmo ano. Foi seu director Adolfo Simões Muller, que fazendo justiça ao lema da renovação da imprensa infanto-juvenil em ciclos de 10 anos, preparou propósito o sucedâneo do “ Cavaleiro Andante” da mesma empresa editorial .

O interesse deste projecto jornalístico não decorre da sua circulação , que foi reduzida e da sua duração que foi meteórica, em sintonia aliás , com o tom espacial do título escolhido. A sua relevância decorre para nós de ser revelador da manifesta desadequação entre o projecto editorial e o público alvo. Acresce que ao ter à sua frente uma das referências do jornalismo infantil merece ser convocado para esta narrativa.

Como dissemos já Adolfo Simões Muller viria a fazer parte da CELIJ entre 1950 e 1952, a primeira e provisória estrutura de censura infanto-juvenil . Ora como antigo membro da CELIJ cuidou de dar a conhecer à CLEM, sucessora da primeira, dos aspectos essenciais do novo projecto com vista a “ obter o mais cedo possível o valioso parecer de V.Exa e da Ex.mas Comissão a que preside a fim de me orientar com a sua crítica os seus conselhos e as suas sugestões na elaboração dos futuros números”492. Na carta salienta o “ caracter acentuadamente formativo” do jornal, de tal modo que o aspecto recreativo, ou seja as “ histórias em quadrinhos” “ não é mais do que um pretexto para interessar o leitor levando- o à leitura de outras págimas de carácter acentuadamente formativo”. Visava além disso “ acompanhar e solucionar os problemas da juventude propondo-lhes caminhos de honra, da