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Chapter 5 Gender display

5.2 Male and female migrants

Na história da BD em Portugal cabe à revista " O Gafanhoto" (1948-1949) algum protagonismo : ter sido uma publicação integralmente apreendida ( ou quase) . Não foi a única publicação apreendida, note-se. Como veremos adiante alguns dos números de títulos editados pela “ Agência Portuguesa de Revistas” também sofreram semelhante tratamento. Os fautores da apreensão foram a Direcção dos Serviços de Censura e a PIDE, mas a verdade é que não há a aparência da menor coloração política nos episódios que se sucederam . Tudo teve que ver com a exigência legal da " prova suficiente dos meios financeiros da respectiva empresa". Ou seja, entendia-se na letra da lei, que tal prova não estaria feita se a " empresa por meio de depósito, fiança ou aval bancário não preste a garantia suficiente dos salários e ordenados ou correspondentes despesas de colaboração, composição, revisão e impressão durante o prazo de seis meses" . Cardoso Lopes não terá cumprido a referida exigência legal. E foi isso e não qualquer animosidade

455 Vide Ricardo Leite Pinto “ A atribulada história de “ O Gafanhoto”

http://malomil.blogspot.com/2016/01/a-atribulada-historia-de-o-gafanhoto.html ( consultado a 14/8/2018). Sobre o tema as fontes podem consultar-se em PT/ANTT. Secretariado Nacional de Informação/Arquivo da Direcção dos Serviços de Censura. Cx. 700 . Proc. nº 665 e PT/ANTT. Secretariado Nacional de Informação/Arquivo da Direcção dos Serviços de Censura. Cx. 700 . Proc. nº 664 .

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Nesse sentido Leonardo de Sá levanta a hipótese de na apreensão do “ Gafanhoto” poder existir uma razão política " ... porque a revista portuguesa ousava publicar os quadradinhos oriundos do semanário Vaillant , editado pelo Partido Comunista françês..." vide Leonardo de Sá, Tiotónio , uma vida aos quadradinhos[...] p. 27 .É um facto que o jornal publicava autores franceses com histórias divulgadas no “ Vaillant”, jornal, que em Junho de 1945 daria continuidade ao clandestino ( durante a II Guerra Mundial) “ Le Jeune Patriote” das Juventudes Republicanas , e que poderia ser considerado próximo do Partido Comunista francês , vide Patrick Gaumer” Vaillant” . Dictionnaire Mondiale de la BD [...]p.883

política que determinou a apreensão das revistas um pouco por todo o País. Das razões( ou da falta delas) de Cardoso Lopes e dos argumentos da Censura pensamos ter feito alguma luz na investigação já referida457 . Por ora o que releva é que quando, numa última tentativa, Cardoso Lopes tenta legalizar a revista recebe da Censura a seguinte resposta : " indeferido tanto mais que não é de interesse publicações infantis com a orientação que de um modo geral lhes têm sido dadas"458. De imediato elabora uma extensa carta onde vem defender-se da insinuação de que as suas orientações em sede de literatura infanto- juvenil não seriam , aos olhos do regime, adequadas. Reflecte ainda sobre o panorama da imprensa infantil em Portugal e no mundo introduzindo o tema dos " comics" norte- americanos . E conclui solicitando o fim da suspensão do jornal e a venda dos números apreendidos.

Por essa razão e porque é um dos raros textos que se lhe conhece onde essa temática é aflorada, vale a pena reproduzir alguns extractos :

" Há mais de 20 anos que o signatário tem dedicado especial cuidado aos assuntos que se relacionam com a literatura infantil ( jornais e livros). A criação das Edições O Mosquito e o jornal infantil que lhe deu nome são obra sua. Embora sem directrizes definidas superiormente, sempre encarou esse género de actvidade como extremamente delicado, sobretudo pelos inconvenientes que uma má orientação podem trazer ao público a que se destina. Também não lhe passou despercebida como não podia deixar de ser a evolução constante das preferências desse público. Não se pode sob pena de fracasso cotejar a mentalidade das crianças de hoje até mesmo com as da geração passada. A dificuldade da selecção de assuntos - para o caso dos jornais-reside sobretudo na publicação entre nós sem mais análise de material condenável feito para um púbico cuja mentalidade é absolutamente diferente da nossa ou onde os editores sem escrúpulos em plena liberdade procuram apenas um êxito fácil com a publicação de histórias onde se busca por todos os meios prender o público , sem curar da forma como esse objectivo é conseguido. Onde este caso se verifica é com o material de origem norte-americana que os brasileiros copiam servilmente. E são às centenas os

457 Vide Ricardo Leite Pinto “ A atribulada história de “ O Gafanhoto”

http://malomil.blogspot.com/2016/01/a-atribulada-historia-de-o-gafanhoto.html ( consultado a 14/8/2018).

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Vide despacho manuscrito do Director dos Serviços de Censura , sem data, aposto na carta de António Cardoso Lopes referida na nota anterior. PT/ANTT. Secretariado Nacional de Informação/Arquivo da Direcção dos Serviços de Censura. Cx. 700 . Proc. nº 665

jornais brasileiros que invadem o nosso mercado escritos num português absurdo inteiramente constituídos por esse material . Melhor do que nós poderão V.Exas a perniciosa influencia desse género de literatura que de infantil apenas tem o título. De uma maneira geral tem o signatário dado preferência nas suas edições aos assuntos de origem latina ( espanhóis, italianos e franceses) por serem os que melhor correspondem á índole do nosso público . Já em vários países tem sido levantada uma intensa campanha contra determinados géneros de histórias. Recentemente em França foi proibida a publicação de certos jornais de características vincadamente políticas. Por outro lado, também se procurou evitar a invasão de material americano original ou traduzido. Para contrapor a essa influência são dadas todas as facilidades oficiais ás publicações nacionais criando por concorrência um autentico dique a essa influência. Isto se verifica não só no campo jornalístico como no cinematográfico e em todos aqueles que têm contacto com o público"459 .

Este texto não deixa de ser surpreendente. Revela uma particular sensibilidade de Cardoso Lopes para as mudanças que no mundo estavam a ocorrer, e que estudámos no capítulo anterior , quer quanto à literatura infanto-juvenil quer quanto à mentalidade dos jovens. E uma profissão de fé no jornalismo infanto-juvenil clássico desconfiado da invasão dos "comics" americanos.

E a verdade é que por esta ocasião o panorama da literatura infanto-juvenil em Portugal estava a mudar de forma acelerada e nele , de forma ainda mais impressiva , a atitude do Estado Novo perante essa realidade. Alguns meses depois destes eventos, em fins de 1950, haveriam de ser publicadas as " Instruções sobre Literatura Infantil " e criada a primeira Comissão que verdadeiramente introduziu no regime salazarista uma censura especializada : a Comissão Especial para a Literatura Infantil e Juvenil . Não admira pois o despacho de Armando Larcher sobre esta última tentativa de Tiotónio : " Deverá aguardar a publicação do diploma relativo aos jornais infantis e deve esclarecer- se os motivos determinantes da apreensão do Gafanhoto".

Não deixa de ser interessante notar neste episódio uma extraordinária coincidência : ter sido uma das referências da imprensa infanto-juvenil portuguesa , Cardoso Lopes, a assistir aos primeiros passos da especialização censória infanto-juvenil entre nós. E se ,

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Vide carta de António Cardoso Lopes ao Director dos Serviços de Censura de 27/2/1950. PT/ANTT. Secretariado Nacional de Informação/Arquivo da Direcção dos Serviços de Censura.. Cx. 700 . Proc. nº 665

como antecipámos, não parece que o móbil político tenha estado na origem da apreensão da revista não é menos verdade que tudo ocorre num preciso momento em que em Portugal se punha de pé o momento moralizador infanto-juvenil . Daí que Cardoso Lopes não tenha tido a oportunidade por ele exigida para colocar o seu “insecto” de novo a voar. E se a sorte de Cardoso Lopes ficou assim selada não muito diversa foi a de Raul Correia, confrontado com a primeira vaga censória infanto-juvenil.

4.4. A Agência Portuguesa de Revistas , as “ aventuras americanas” e o papel de