Chapter 6 Religion
6.2 Paganism in northern Scotland
A " Agência Portuguesa de Revistas " foi fundada em 1948 por Mário de Aguiar e António Joaquim Dias que formaram a sociedade Aguiar & Dias Lda que cedo se transformou num império editorial de grandes dimensões460. Nos anos 60 e início dos anos 70 do sec.XX quando a Agência vivia o seu apogeu editava cerca de 50 títulos diferentes cuja tiragem total alcançava um milhão de exemplares mensais461 ! O sucesso das publicações deveu-se a um misto de capacidade de inovação, de aposta na qualidade gráfica e numa verdadeira revolução na distribuição que conseguiu cerca de 2000 pontos de venda no país. Ao contrário de outras publicações as da APR ultrapassam o limitado circuito das livrarias e vendiam-se nas tabacarias, bancas, capelistas e até pelos ardinas... Os sucessos das vendas do " Mundo de Aventuras", por exemplo, que chegou a tiragens de 35.000 exemplares semanais não pode explicar-se sem esta rede de distribuição única no país .
Como escreve João Manuel Mimoso “ a história das suas primeiras décadas de existência da Agência(...) é um extraordinário exemplo de sucesso à americana em terras portuguesas em que se misturou a capacidade de inovação, a orientação para o mercado, uma certa
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Neste como em muitos outros casos estão por realizar os trabalhos de investigação que permitam dar a conhecer a vida e a obra dos empresários portugueses da cultura popular . Um caso similar ao da dupla Mário de Aguiar e António Dias foi o de Cino Del Duca em França a que aludimos no capítulo 3. Vide Isabelle Antonutti, Cino del Duca , De Tarzan à Nous Deux, itinéraire d´un patron de presse[...]
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O mais completo e documentado ensaio sobre a Agência Portuguesa de Revistas é de João Manuel Mimoso intitulado a "Agência Portuguesa de Revistas "disponível em http://www.historia.com.pt/APR/APRindex.htm. ( consultado em 22/6/2018) Ver também Jorge Magalhães " O Império Editorial da Agência Portuguesa de Revistas" in História da BD publicada em Portugal, 1ª parte [...] pp.30-43.
visão da qualidade, a aceitação do risco e a capacidade de vencer crises através de soluções de recurso”462
.
Dos dois sócios fundadores da Agência Mário de Aguiar assumia as funções de director editorial enquanto que António Dias ficou encarregado da parte administrativa. O primeiro foi decisivo ao rodear-se de colaboradores que ajudaram a pôr de pé o projecto e que mais tarde se revelaram decisivos para o seu sucesso: José de Oliveira Cosme, Roussado Pinto, Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, José Baptista, José Antunes e outros. A APR começou por actuar no campo para onde tinha sido criada : a distribuição de publicações nacionais e estrangeiras. A ela continuaria ligada mas o certo é que nos primeiros tempos tal actividade não terá corrido da melhor forma. No campo da BD os títulos que poderiam ter maior adesão popular em função da língua seriam as traduções brasileiras de “ comics” americanos mas estavam aparentemente sob outras representações. A revista da MP “ Camarada” que se havia estreado em 1947 , foi objecto de contrato de distribuição com a APR , contrato esse que terá cessado no início de 1949. Assim, não restou grande alternativa, no campo das publicações infanto-juvenis e por forma a sustentar a principal razão de ser da APR que não avançar com um projecto próprio. No dia 18 de Agosto de 1949 sairia o nº1 de “ O Mundo de Aventuras” em grande formato (41x29 cm) , oferecendo 12 páginas com oito histórias em continuação , com capa e contracapa a cores por 1$50463. As histórias eram escolhidas entre as que se publicavam com mais sucesso nos Estados Unidos e no mundo inteiro através das representações que as vendiam , sendo que a sua apresentação aos leitores portugueses se fazia com intervalos curtos da sua publicação original nos EUA. De uma assentada numa única publicação e sem intervalos 464surgem aos olhos dos jovens portugueses aventuras
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Vide http://www.historia.com.pt/APR/APRindex.htm. ( consultado em 22/6/2018)
463 Recorda Roussado Pinto : " ( O Mundo de Aventuras ) foi iniciado segundo uma ideia de Júlio Dias
da Silva ( ...) o qual sendo grande apaixonado pela Banda Desenhada propôs ao Mário de Aguiar seu grande amigo e Joaquim Dias (...) o lançamento de tal tipo de publicação. Mário de Aguiar e Joaquim Dias haviam formado recentemente a Agência Portuguesa de Revistas para a distribuição da revista " Mãos de Fada" que era propriedade do primeiro. Júlio Dias da Silva sem experiência começou o jornal com as histórias tal como as recebeu da América, isto é, iniciando-as , na sua maioria a meio do episódio em curso. Desta maneira o Mundo de Aventuras deve ter sido o único jornal no mundo cujo nº1 incluía histórias já começadas..." vide " O " Mundo de Aventuras" e as suas quatro fases" Jornal do Cuto, Ano 2, nº 72, , 18/11/1972, p. 22.
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O única excepção seria uma BD portuguesa “ A História Maravilhosa de João dos Mares “ cuja original foi encomendado ao atelier gráfico de José David onde trabalhava Carlos Alberto Santos, que já havia colaborado com o “ Camarada”- vide Jorge Magalhães” Camarada uma revista portuguesa”, Sousa Santos, coord. História da BD publicada em Portugal, 2ª parte [...]p. 58- , e que se revelaria posteriormente um prolífico e conceituado autor de capas e colecções de cromos .vide Jorge Magalhães " O Império Editorial da Agência Portuguesa de Revistas" in História da BD publicada em Portugal, 1ª parte [...] p. 31
de Rip Kirby, Brick Bradford, Barmey Baxter, Jonhy Hazard, Flash Gordon, entre muitos e desenhadores como Alex Raymond, Milton Caniff, Frank Robbins ou Mac Raboy. E na realidade “ era tão grande o contraste entre o figurino do novo jornal e o dos seus congéneres- representados pelo “ Mosquito”, “ Diabrete” “ Lusitas” “ Camarada” ou “Gafanhoto”- que os jovens receberam-no com natural curiosidade”465
. O projecto foi antecedido por uma campanha publicitária que justamente anunciava um projecto diferente dos demais : “ a primeira e única revista juvenil portuguesa em moldes essencialmente americanos com as mais modernas e trepidantes aventuras , de palpitante interesse e dinamismo, escritas e desenhadas pelos nomes mais famosos da literatura do género no novo continente”. Na realidade “ O Mundo de Aventuras” dos primeiros números não tinha sequer a tradicional apresentação ou sequer espaço para contos , cartas de leitores ou outras rubricas. Apenas bandas desenhadas em série umas atrás das outras. Alguns dos clássicos americanos já haviam sido publicados em Portugal – "Principe Valente", "Tommy o rapaz do circo" e "Little Annie Rosie" no “ Mosquito” "Cora" no “ Gafanhoto” "Jim das Selvas" no "Mickey" em 1936 , "Lone Ranger", "Agente Secreto X- 9", "Brick Bradford" ou o "Fantasma" no “ Pirilau” e Tarzan, desenhado por Bruce Hogarth, no “ Diabrete” em 1942. Não era, portanto, virgem o contacto do público infanto-juvenil português com os “ comics” norte-americanos. A novidade era sobretudo a apresentação gráfica e a linguagem visual e narrativa, tão próxima do cinema, que de forma impressiva em formato gigante e a cores ilustraria nos anos 50 o “ esplendor da Banda Desenhada” entre nós. Na sua primeira fase “ O Mundo de Aventuras” teve como director Mário de Aguiar até ao nº20. Contudo necessitou recorrer a José de Oliveira Cosme, com larga experiência no campo do jornalismo infanto-juvenil desde o tempo do “Senhor Doutor” para assumir a direcção da publicação. Oliveira Cosme não era na altura um desconhecido entre o público infanto-juvenil . Pelo contrário as charlas radiofónicas do Menino Tonecas e as múltiplas colaborações literárias tinham-lhe dado merecido prestígio e reconhecimento popular . Mas era sobretudo , e esse aspecto pesou seguramente na decisão de Mário de Aguiar em o convidar, um fiel adepto do regime salazarista. Esta decisão não deixaria de revelar-se rica em consequências para o futuro de boa parte das iniciativas editorais da AGP. Voltaremos ao tema com abundância de pormenores no capítulo 6.
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Vide Jorge Magalhães " O Império Editorial da Agência Portuguesa de Revistas" in História da BD publicada em Portugal, 1ª parte [...]p. 30
Curiosamente o prematuro fim do “ Mundo de Aventuras” esteve em cima da mesa e não foi evitado como resultado da assinalada troca de directores. Ao invés , a revista teria claudicado ainda no seu primeiro ano de vida, mesmo com troca de directores , se não se tivesse levado a sério uma questão aparentemente prosaica que era a da dimensão/ portabilidade das publicações infanto-juvenis . Como Adolfo Simões Muller o comprovará dez anos depois com a falência do seu “ Foguetão”, quanto maior a dimensão do periódico menor o sucesso entre o público infanto-juvenil . O mesmo terá acontecido com o inovador jornal da Agência. A portabilidade do formato foi seguramente posta em causa pelos jovens que nele viram um incómodo para o transporte, a leitura, a troca dos exemplares do jornal e mesmo, não é de excluir , para o fazerem sumir dos olhos de professores e pais.
A partir do nº47 de 6/7/1950 o MA impresso em “offset” na Bertrand & Irmãos reduziu o seu formato para uma escala similar à do “Mosquito “aumentando contudo para 16 as suas páginas ( mais 4 que a anterior ) das quais quatro impressas a uma cor , assim se permitindo poupar 25 % do papel e no total reduzir custos. A essa novidade acrescentaram-se as ofertas de separatas de ídolos do cinema , do desporto e da canção. O verdadeiro responsável por esta revolução foi Roussado Pinto466 que entretanto, com a experiência do “ Mosquito”, “Papagaio” e “Faísca” chega ao Mundo de Aventuras , na companhia de Vítor Péon “ pleno de ideias e de entusiasmo(...) transformou o Mundo de Aventuras por completo desde o cabeçalho à paginação geral, introduzindo-lhe inúmeras inovações...”467. Acresce que os anos seguintes as “ aventuras americanas” se
multiplicaram com a sua chegada . Foram os casos de “Mandrake”, “ Cisco Kid”, "Tim Tyler", "Big Ben Bolt" "Princípie Valente", "Fantasma", "Popeye", "Dick Tracy", "Red Canyon", "Rusty Riley", "Superman", "Hopalong Cassidy" ou "Roy Rogers". Muitas destas personagens , assumiram de um dia para o outro patronímico português, como veremos. Mas isso não impediu a multiplicação dos leitores. O sucesso do “Mundo de Aventuras “ permitiu diversificar a produção no campo das publicações periódicas infanto-juvenis ( e também em outras áreas onde o sucesso foi ainda mais significativo
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“Aqui Roussado Pinto demonstra uma espantosa pujança desdobrando-se em múltiplas personalidades , a mais notável das quais a de Edgar Caygill famoso novelista americano especializado em temas africanos e de mistério, contratado especialmente pelo Mundo de Aventuras. E em colaboração com Péon cria então aquele que foi seguramente o mais famoso “westerner” de todos os tempos da BD portuguesa.Tomahawk Tom “ , vide José Pires , “ O Génio dentro da Garrafa, Roussado Pinto” História da BD publicada em Portugal, 2ª parte [...]p. 13
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Vide Jorge Magalhães " O Império Editorial da Agência Portuguesa de Revistas" in História da BD publicada em Portugal, 1ª parte [...]p. 32
com a “ Crónica Feminina” “ Plateia” “ Colecção Cinema” “ Mamãs e Bébés” “ TV Magazine”,” “Detective”, Búfalo” “ FBI” etc.) com o surgimento de jornais em formato reduzido e com histórias completas como a “Colecção Condor”, “ Colecção Audácia” , “ Colecção Condor Popular” "Colecção Tigre” ou “Colecção Grilo”. Todos estes títulos inspiraram-se nos “ petit formats” que justamente no início dos anos 50 se multiplicarão em França e que não deixarão de ser policiados pela CSC francesa, como vimos. As publicações tinham como ponto comum assumirem um formato reduzido, em alguns casos de “ bolso”( 17x12cm). Algumas assumiam sob forma de fascículos a publicação de histórias em continuação enquanto outras publicavam apenas narrativas completas. De uma maneira geral a redução dos custos na produção destes títulos permitiu preços de capa únicos : por exemplo, $20 na “Colecção Grilo” por comparação com os 1$50 do MA. Do ponto de vista dos seus conteúdos não será desajustado dizer que replicam, com algumas excepções, os heróis, argumentistas e desenhadores de “ O Mundo de Aventuras”, ou seja, publicam maioritariamente “ aventuras americanas”468
. Quase todas estas publicações acabaram por ter um fim prematuro ( em rigor a única que viverá até aos anos 70 será a “ Condor Popular” ) por razões que se prendem com a intervenção da censura infanto-juvenil .E nunca ficaremos a saber se a essas razões se somaram ou não outras de natureza comercial.
O sucesso das actividades da APR motivou , em 1954, a mudança da empresa de um modesto andar na Rua do Arsenal na Baixa lisboeta para um pavilhão industrial de grandes dimensões contruído de raiz no Bairro de Campo de Ourique também em Lisboa, onde funcionaria até encerrar as suas actividades no fim dos anos 80 do sec. XX. Contudo a mudança de instalações coincidiu com a saída de Roussado Pinto e Vítor Péon que ingressaram na Fomento de Publicações para publicarem no fim do Verão desse mesmo ano de 1954 dois títulos competidores do MA, as revistas “ Titã” e " Flecha", ambas de curta existência.
Mas por esta época o sobressalto causado pelas “ histórias americanas” já havia motivado uma reacção do Estado Novo . Em meados dos anos 50 a estratégia censória infanto- juvenil caminhava em velocidade de cruzeiro e vivia o seu período mais activo. As publicações infanto-juvenis da APR serão as mais policiadas e aquelas que mais sofrerão como decorrência dessa actuação. José Oliveira Cosme terá certamente atenuado alguns dos efeitos mais deletérios da Censura , mas não evitou, antes terá contribuído, pela via
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Vide Jorge Magalhães, “ O Império editorial da Agência Portuguesa de Revistas” , Sousa Santos, coord. História da BD publicada em Portugal[...]p. 35
da auto-censura ,para desmandos significativos em muitos originais e desta forma para que a publicação de que era director fosse perdendo as características iniciais. O certo é que a pubicação se manterá até ao nº 511 de 25/6/1959 no registo de histórias em continuação para , a partir daí e até ao seu fim já em 1987 , se transformar , com periodicidades, dimensões, preços, características e audiências muito variadas , num colecionável de histórias completas469