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Para a comparabilidade correta do bem-estar entre os domicílios, é importante não incluir no consumo agregado o valor de aquisição com despesas irregulares em itens duráveis, mas pode-se incluir uma medida do valor dos serviços que estes bens proporcionam às famílias. Compras de consumo duráveis são gastos tipicamente grandes que ocorrem muito raramente. De acordo com publicação do World Bank (2006), um clássico exemplo é a compra de um carro ou moto. Um domicílio particular, provavelmente, irá comprar um carro apenas uma vez a cada número de anos. O período recordatório para o inventário de bens duráveis é de 12 meses, sendo assim, haverá certo número de domicílios na base de dados que, de fato, relatarão a compra de um carro. No entanto, outras famílias no conjunto de dados já possuirão um carro, o qual foi comprado em algum período anterior, e, assim, informarão despesa zero em um carro. A atribuição de um valor de zero para o consumo de domicílios que tem seu próprio carro, mas não compraram um carro no período recordatório específico, irá subavaliar o bem-estar, porque eles estarão de fato consumindo os serviços de um carro, embora tenham reportado consumo zero naquele período de referência. Por outro lado, ao se atribuir o valor de compra do carro para os domicílios que realizaram a compra de um carro durante o período de referência, exagera-se seu bem-estar, pois o domicílio não estará consumindo todos os serviços prestados por um carro neste período de referência de um ano. Os serviços de um carro vão ser consumidos durante um período de vários anos. Assim, não

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Todos os procedimentos para agregação de itens alimentícios e não alimentícios encontram-se detalhadamente descritos no Anexo 2 deste capítulo.

21 se deve simplesmente adicionar gastos durante o período de referência diretamente ao agregado de consumo O correto é, a partir de bens de consumo, adicionar um fluxo de consumo ao agregado de consumo, o qual é imputado a partir da informação disponível sobre idade, propriedade e valor de reposição dos bens de consumo duráveis.

Quintães et al. (2006) apresentaram argumentos semelhantes à publicação do World Bank (2006). Para os autores, a inclusão dos itens de bens duráveis está associada a uma questão básica: se as compras dos bens duráveis são ou não gastos tipicamente grandes e/ou ocasionais. Por exemplo, uma família provavelmente compra uma geladeira somente uma vez em certo número de anos. Outras famílias, na verdade, podem já possuir uma geladeira, mas adquirida fora do período de referência da pesquisa, assim declararam gasto zero com aquisição da geladeira. Neste caso, este item seria considerado ocasional e deveria ser retirado do consumo agregado, facilitando a comparação entre as famílias.

Deaton e Zaidi (2002) fornecem uma boa discussão sobre os métodos disponíveis. Segundo estes autores, do ponto de vista de bem-estar doméstico, em vez de usar as despesas de compra de bens duráveis durante o período recordatário, uma medida adequada do consumo de bens duráveis é o valor dos serviços que a família recebe de todos os bens duráveis na sua posse durante um período de tempo relevante. Os autores argumentam que sempre que os dados sobre o estoque total de bens duráveis em propriedade dos domicílios são bons e disponíveis, recomenda-se, portanto, a incorporação no agregado de consumo global de uma medida do fluxo de serviços resultantes para a família do consumo desses bens.

Na POF, apesar de haver uma seção sobre o inventário dos bens duráveis para os domicílios para um longo período, o questionário não inclui informações sobre o valor (o valor de compra original ou valor de reposição atual), as quais possibilitam o cálculo do fluxo de serviços dos bens duráveis. Desde que a seção da POF que lida com bens duráveis não fornece todas as informações necessárias para calcular “o valor de serviço” dos bens duráveis, Quintães et al. (2006), World Bank (2006) e Deaton e Zaidi (2002) decidiram não incluir bens duráveis no cálculo do agregado de consumo.

Entretanto, Figueiredo et al. (2007) consideram algumas questões importantes: se é melhor excluir os bens duráveis do agregado de consumo ou se é melhor estimar os custos de seu uso com alguns pressupostos mais ou menos arbitrários, mas razoáveis. Estes autores defendem que a presença ou ausência de bens duráveis pode indicar diferenças importantes no bem-estar das famílias. Bens de consumo duráveis são frequentemente apontados como um importante componente da riqueza das famílias. Isto é especialmente verdadeiro para itens como geladeira, carro, fogão, ou máquina de lavar. Assim, um método que tenta captar o

22 valor destes serviços, mesmo tendo que estabelecer alguns pressupostos na computação do fluxo de serviços para os bens incluídos no inventário, ainda é melhor do que ignorar essas mercadorias completamente.

Assim, para computar o fluxo de serviços ( ) em bens de consumo duráveis, utiliza- se a metodologia dada por Deaton e Zaidi (2002):

= − + 1 Em que,

é o valor do bem durável i; − é a taxa real de juros;

é a taxa de depreciação para os bens duráveis (Tabela 3A do anexo);

Dada a falta de informação relatada para o valor corrente dos bens duráveis no inventário, utiliza-se o valor dos bens novos comprados durante o período de referência para determinar o valor corrente no ano de referência, aplicando-se a taxa de depreciação6.

= 1 − − + (2)

Assim, o valor corrente dos bens duráveis i é dado por 1 − , em que é o valor original do bem e é o número de anos desde que o bem foi adquirido. Desde que a taxa de juros flutua amplamente, assumiu-se que a taxa de juros real é constante sobre o tempo e igual 5%. A depreciação é fixa em 10%. é o preço de compra ou o valor inicial, que é dado pela média do preço de itens na mesma categoria, comprados novos com dinheiro ou crédito, conforme registrado nas diferentes seções da pesquisa.