Analisando-se os índices de pobreza ajustados entre as regiões, nota-se que a região Nordeste e Norte apresentam as maiores índices de pobreza multidimensional, seguidas pela região Centro-Oeste, Sudeste e Sul (Tabela 5). Estes resultados estão de acordo com os resultados prévios de índices de pobreza calculados com base nas medidas de bem-estar de consumo e renda, para os quais as regiões Norte e Nordeste também apresentaram os maiores índices de pobreza de necessidades básicas alimentares e não alimentares e de rendimento e as regiões Sul e Sudeste apresentaram os melhores índices entre todas as regiões. Estes resultados, com base nas POFs 2002-2003 e 2008-2009, mostram que esta é uma situação que tem se perpetuado ao longo do tempo.
Desde que áreas urbanas e rurais diferem significativamente em termos de incidência de pobreza, conforme já foi mostrado no capítulo 1, é interessante observar as diferenças nas medidas de pobreza multidimensional entre estas regiões. Ainda por meio da Tabela 5, percebe-se que o índice de pobreza multidimensional headcount ajustado para as áreas rurais é expressivamente maior do que o índice para as áreas urbanas, 37,3% contra 11,8% em 2002-2003 e 29,7% contra 7,8% em 2008- 2009 (considerando k=1). Observa-se que a taxa de pobreza multidimensional nas áreas rurais declinou em 7,6 p.p. no período analisado, enquanto que a taxa multidimensional de pobreza urbana registrou queda menor, de 4 p.p.. Porém, as taxas de pobreza urbana permanecem muito abaixo das taxas de pobreza rural.
170 Tabela 5: Comparação de diferentes medidas de pobreza multidimensional: Índice de Pobreza Multidimensional Headcount (H0), intensidade média de privações (A) e o Índice Headcount ajustado (M0=HA) de AF por macrorregiões e áreas rurais e urbanas (com pesos iguais entre as dimensões e k=1 e k=2), para POF 2002-2003 e POF 2008-2009, em percentual
Grupos POF 2002-2003 POF 2008-2009
K=1 H0 A M0 H0 A M0 Brasil 40,6 38,17 15,5 31,9 35,11 11,2 Sudeste 28,3 34,27 9,7 19,3 31,61 6,1 Nordeste 65,5 43,20 28,3 55,6 38,67 21,5 Norte 60,9 40,22 24,5 48,9 36,40 17,8 Centro Oeste 48,8 34,84 17,0 33,5 32,24 10,8 Sul 27,9 31,90 8,9 19,6 29,08 5,7 Rural 83,0 44,93 37,3 74,2 39,18 29,7 Urbano 33,6 35,12 11,8 24,1 32,36 7,8
Grupos POF 2002-2003 POF 2008-2009
K=2 H0 A M0 H0 A M0 Brasil 19,9 49,75 9,9 12,8 48,44 6,2 Sudeste 9,9 47,47 4,7 5,0 46,0 2,3 Nordeste 42,6 51,88 22,1 29,7 49,16 14,6 Norte 35,2 50,28 17,7 22,6 47,79 10,8 Centro Oeste 19,9 45,22 9,0 9,6 45,83 4,4 Sul 8,2 45,12 3,7 3,8 44,74 1,7 Rural 57,2 53,15 30,4 42,8 49,77 21,3 Urbano 13,4 47,7 6,4 7,3 46,57 3,4
Fonte: Resultados da pesquisa com base na POF 2002-2003 e POF 2008-2009.
Além de destacar a quantidade de domicílios pobres, é importante também analisar a intensidade da pobreza vivida por tais domicílios. O IPM permite um avanço neste sentido, pois permite que áreas com pobreza muito severa sejam priorizadas, mesmo que haja poucos domicílios pobres. Nos resultados apresentados, percebe-se que as regiões com maior incidência de pobreza são também as que apresentam maior intensidade da pobreza, como pode-se verificar nas regiões Norte e Nordeste e também nas áreas rurais.
Na Tabela 6, encontram-se os resultados do índice de pobreza multidimensional ajustado para diferentes valores de k, por macro-regiões e áreas urbanas e rurais. Em nível regional, assim como para população total, observa-se que se k = 0,33, o índice de pobreza multidimensional M0 é superestimado, em todos subgrupos, nos dois anos analisados (Tabela 6). Por outro lado, para k acima de 4, a incidência de pobreza é relativamente baixa, apresentando índices de pobreza multidimensional muito baixos, devido ao número elevado de privações exigidas
171 neste caso para que o domicílio seja considerando pobre. Para k = 5, o índice de pobreza torna-se igual a zero e, portanto, as estimativas tornam-se irrelevantes. O intervalo de valores plausíveis para k é limitado também em nível de macro-regiões.
Tabela 6: Índices de Pobreza Multidimensional Headcount ajustado (M0=HA) de Alkire e Foster para o Brasil, macrorregiões e áreas rurais e urbanas, com k variando de 0,33 a 5, para a POF 2002-2003 e POF 2008-2009, em percentual
Grupos POF 2002-2003 K=0,33 K=0,5 k=1 k=2 k=3 k=4 k=5 Brasil 19,4 18,5 15,5 9,9 4,9 1,3 0,0 Sudeste 14,3 13,6 9,7 4,7 1,6 0,3 0,1 Nordeste 30,7 29,9 28,3 22,1 13,2 3,8 0,1 Norte 27,4 26,5 24,4 17,7 9,6 2,2 0,0 Centro Oeste 20,4 19,4 17,0 9,0 3,2 0,4 0,0 Sul 13,4 12,6 8,9 8,2 0,9 0,1 0,0 Rural 39,0 38,7 37,3 30,4 19,9 6,5 0,2 Urbano 16,2 15,2 11,8 6,4 2,3 0,3 0,0 Grupos POF 2008-2009 K=0,33 K=0,5 k=1 k=2 k=3 k=4 k=5 Brasil 15,2 14,3 11,2 6,2 2,5 0,5 0,0 Sudeste 10,6 9,8 6,1 2,3 0,5 0,1 0,0 Nordeste 24,5 23,6 21,5 14,6 7,0 1,6 0,0 Norte 21,4 20,2 17,8 10,8 4,8 0,7 0,0 Centro Oeste 14,6 13,4 10,8 4,4 1,0 0,1 0,0 Sul 9,9 9,0 5,7 1,7 0,3 0,0 0,0 Rural 31,9 31,4 29,7 21,3 11,5 2,9 0,1 Urbano 12,1 11,1 7,8 3,4 0,8 0,1 0,0
Fonte: Resultados da pesquisa com base na POF 2002-2003 e POF 2008-2009.
É importante observar que as taxas de pobreza multidimensional (M0), para os diferentes valores de k, são menores em 2008-2009 do que em 2002-2003 em todas as macro-regiões.
O Índice de Pobreza Multidimensional pode contribuir no planejamento das políticas de enfrentamento da pobreza na medida em que revela a intensidade da pobreza em diferentes grupos populacionais (macro- regiões e áreas rurais e urbanas), possibilitando melhor focalização. Conforme foi destacado anteriormente a região Norte e Nordeste apresentam os maiores índices de pobreza multidimensional de qualidade de vida, confirmando o histórico de pobreza apresentado nestas regiões, além disto, as áreas rurais também se destacaram com elevados IPM.
172 Uma das características interessantes da medida de pobreza headcount ajustado é que esta pode ser decomposta por subgrupos da população. Esta característica é extremamente útil para orientar políticas públicas sobre quais grupos da população tem a maior participação na pobreza total. Como ilustração, a Tabela 8 apresenta a decomposição de diferentes medidas de pobreza (H0 e M0) por macro- regiões, áreas rurais e urbanas. Esta Tabela mostra que o tipo de medida faz diferença e a política adotada poderá ser afetada pelas escolhas que são feitas. Nesta análise por subgrupos (macrorregiões e áreas rurais e urbanas), utilizam-se os valores de k=1 e k=2.
Antes de apresentar a decomposição por região e por áreas rurais e urbanas, apresenta-se na Tabela 7 a participação da população de cada região e áreas na população total, tanto na POF 2002-2003 como na POF 2008-2009. É importante a análise desta Tabela, uma vez que a pobreza geral é uma média ponderada dos níveis de pobreza dos subgrupos, em que os pesos são as participações dos subgrupos populacionais.
Tabela 7: Participação da população de cada região na população total, para POF 2002-2003 e POF 2008-2009, em percentual
Grupos POF 2002-2003 POF 2008-2009
Sudeste 44,4 44,1 Nordeste 24,8 26,1 Norte 6,4 6,8 Centro Oeste 7,1 7,6 Sul 15,6 15,4 Rural 15,1 15,6 Urbano 83,1 84,4
Fonte: Dados da pesquisa.
Pela Tabela 7 nota-se que, em 2003, a região Sudeste se destaca com maior participação na população total, 44,4%. Em seguida aparece a região Nordeste com uma parcela de 24,8% e, em terceiro lugar, a região Sul, com 15,6%. As regiões Centro-Oeste e Norte ficam mais próximas entre si, com parcelas de 7,1% e 6,4%, respectivamente.
Em 2009, nota-se participação maior, do que em 2003, para quase todas as regiões. A ordenação segue a mesma que em 2003. A região Sudeste aparece com a maior participação na população total, de 44,1%, seguida da região Nordeste, com
173 parcela de 26,1%. A região Sul apresenta participação 15,4% e, por fim, aparecem as regiões Centro-Oeste e Norte, com 7,6% e 6,8%, respectivamente.
A Tabela 8 apresenta as decomposições por subgrupos da população, macroregiões e áreas rurais e urbanas, para 2003 e 2009, considerando dois valores de k, k=1 e k=2.
Tabela 8: Decomposição de diferentes medidas de pobreza multidimensional: Índice de Pobreza Multidimensional Headcount (H0) e o Índice Headcount ajustado, por macrorregiões e áreas rurais e urbanas, com k=1 e k=2, para POF 2002-2003 e POF 2008-2009, em percentual
Grupos POF 2002-2003 POF 2008-2009
K=1 H0 M0 H0 M0 Sudeste 31,0 27,8 26,7 24,0 Nordeste 39,9 45,1 45,5 50,1 Norte 9,5 10,1 10,5 10,9 Centro Oeste 8,5 7,7 7,9 7,3 Sul 10,8 9,0 9,5 7,8 Rural 30,9 36,4 36,2 41,2 Urbano 68,8 63,3 63,8 58,7 K=2 H0 M0 H0 M0 Sudeste 22,10 21,10 17,3 16,5 Nordeste 53,1 55,1 60,4 61,8 Norte 11,3 11,3 12,0 12,0 Centro Oeste 6,8 6,4 5,7 5,4 Sul 6,4 5,9 4,6 4,2 Rural 43,5 46,3 51,9 54,0 Urbano 56,3 53,5 48,1 46,0
Fonte: Resultados da pesquisa com base na POF 2002-2003 e POF 2008-2009.
Analisando-se as regiões, nota-se que a região Nordeste apresentou maior contribuição para o índice total de pobreza, M0, tanto em 2003 quanto em 2009. Sendo que, em 2003, esta região teve participação de 45,1% e, em 2009, de 50,1%, considerando k=1. Em seguida aparece a região Sudeste com participações de 27,8% e 24,0%, em 2003 e 2009, respectivamente. Observa-se que no caso da região Sudeste houve queda na participação da pobreza para o índice de pobreza geral, contrário ao que se verificou na região Nordeste. A região Norte aparece com terceira maior contribuição para o índice de pobreza, de 10,1% em 2003 e 10,9% em 2009. Este resultado é interessante uma vez que a participação desta região na população total é a menor entre todas as regiões, sendo assim, os níveis de pobreza deste subgrupo são relativamente elevados, o que resulta numa maior contribuição no
174 índice total de pobreza. As regiões Sul e Centro Oeste apresentaram as menores contribuições para a pobreza total entre todas as regiões. A região Sul apresentou contribuição de 9% em 2003 e 7,8% em 2009 e a região Centro Oeste apresentou a menor contribuição entre todas as regiões, de 7,7, em 2003 e 7,3%, em 2009.
Considerando-se as áreas rurais e urbanas, nota-se que a contribuição das áreas urbanas para o índice de pobreza total é bem maior do que a contribuição das áreas rurais, em ambos os anos. Porém, cabe destacar que a contribuição da área rural aumentou de 36,4% para 41,2%, de 2003 para 2009, e que a contribuição da área urbana caiu de 63,3% para 58,7%, no mesmo período.