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Com base nessa fase de tentativas de construção do movimento social crítico-reflexivo aproximando todos os povos indígenas Kaingang, Guarani, Xokleng, Xetá e remanescentes de Charruas, é que a Orccip-Curim veio, mais tarde, a se transformar na Articulação dos Povos Indígenas do Sul (ArpinSul).

Em relação a esse momento histórico, Romancil Cretãn faz questão de contar os detalhes de como foi a fundação da entidade ArpinSul:

[…] Naquele momento, ninguém podia ir ao Forum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia, então, todo mundo olhou prá mim, porque estava morando em Curitiba, então, já trabalhava ali. A ArpinSul não tinha apoio nenhum, não tinha recurso nenhum. Então, o único que poderia estar a frente dessa organização era eu, né. Claro! Que não foi fácil porque fizemos reuniões no Rio Grande do Sul, depois fizemos em Santa Catarina, fizemos aqui no Paraná com mais de 250 lideranças do Sul. Teve briga, rachou, depois a gente se juntou de novo, e conseguimos chegar a um consenso. E hoje a gente tem ArpinSul aí, né, com esses projetos que ela já está tocando. Com projeto institucional dela, ArpinSul. Hoje, a gente também conseguiu construir e apoiar duas organizações indígenas, que é uma do Mato Grosso do Sul, que se chama Arpipan, tanto que os nomes são parecidos, né!? E a Arpin-Sudeste, que é de São Paulo e Rio de Janeiro. Então, para gente começou aqui. Assim, eu acredito, assim a gente conseguiu dar passos. E a nível nacional, chegamos na Apib, que nós somos membros, ArpinSul. A gente conseguiu criar essa organização maior que é a Apib, com as organizações de base que seria nós, né; a ArpinSul base, a Coiab base, a Apoinme é base, nós temos uma estrutura hoje. (Romancil Cretã, coordenador da ArpinSul).

Em relação a autossustentação financeira da organização e a gestão dos eventos políticos das lideranças na região Sul, Romancil Cretãn comentou que a ArpinSul tem uma equipe específica para trabalhar com o marketing político da entidade com todos os povos, no planejamento e execução de projetos, por exemplo, organização de debates com a juventude indígena, faz palestras com as mulheres e os idosos nas comunidades. Conforme Romancil Cretãn:

É a equipe nossa mesmo que toca os projetos da ArpinSul. A equipe do projeto institucional da organização. Então, eles que são responsáveis por toda a organização. O meu [papel] é mais pela parte política, de chegar lá onde a gente acredita que vai dar [conseguir] apoio para nós para aquele evento. Eu levo o projeto, sento e negocio. E depois é a equipe nossa que organiza. A assessoria de comunicação, o próprio administrativo, o assessor administrativo também, mais os estagiários que a gente tem lá. Então, são eles que organizam. Eles que ligam para as comunidades. Eles que ligam para os caciques. E tudo é a ArpinSul que paga. Tudo pelo projeto nosso com a Embaixada da Noruega40.

(Romancil Cretãn, coordenador político da ArpinSul).

Entretanto, a ArpinSul não se restringe apenas a articular e a apoiar os eventos indígenas, há interação e dialogo com os movimentos sociais em geral, principalmente com a rede social de povos de comunidade tradicionais no Estado do

40 O líder indígena explicou que a entidade mantém-se por meio de recursos recebidos do

programa de apoio aos Povos Indígenas firmado em 2008, com a Embaixada da Noruega no Brasil. O convênio tem como objetivo garantir o foco na promoção dos direitos humanos para os Povos Indígenas no Brasil.

Paraná intitulada Rede Puxirão41. De fato, a entidade indígena transpôs o isolamento da causa indígena ao procurar dialogar com outros povos tradicionais como os quilombolas, os pescadores artesanais, os faxinalenses, as cipozeiras, as benzedeiras, os caiçaras e as religiões de matriz africana.

O depoimento abaixo reforça a ideia de superação do isolamento e salienta a importância das alianças políticas com outras matrizes sociais e políticas. Conforme Romancil Cretãn:

Eu sou convidado para vários espaços, né. Então, hoje, a ArpinSul é ligada a uma rede de povos tradicionais aqui no Paraná. Que tem pescadores, ribeirinhos, quilombolas, religiões de matriz africana, ciganos. Não lembro todos, mas, são nove, que sou ligado. Essa Rede Puxirão que é de povos tradicionais. Estou sempre participando dos eventos deles, sempre estou participando com uma palavra. Sempre estamos participando com uma contribuição. É muito difícil para mim, porque são movimentos que ainda estão tentando buscar os seus direitos, garantir seus direitos, garantir as políticas para eles, os programas, né, diferente de nós, os indígenas, que desde de 1988, já têm aí políticas específicas dentro da Constituição Federal. (Romancil Cretãn, coordenador político da ArpinSul)

Como se pode notar a partir da explanação acima, a emergência de lideranças indígenas externas com competências técnico-científicas e engajadas nas

41 “A emergência de identidades coletivas no Brasil nas últimas décadas tem revelado a

existência de diversos grupos étnicos organizados em movimentos sociais, que buscam garantir e reivindicar direitos que sempre lhes foram negados pelo Estado. Desta forma, compreendem-se sem exaustão os motivos para o qual um país tão diverso em sua composição étnica, racial e cultural, a persistência de conflitos oriundos de distintas visões de mundo e modos de vida, que desencadeiam desde o período colonial, lutas pela afirmação das identidades coletivas, territorialidades específicas e reconhecimento dos direitos étnicos. Na Região Sul, especialmente no Paraná e Santa Catarina, a invisibilidade social é uma das principais características dos povos e comunidades tradicionais. Até pouco tempo atrás, a inexistência de estatísticas e censos oficiais fez com que estes grupos elaborassem seus levantamentos preliminares numa tentativa de afirmarem sua existência coletiva em meio a tensões, disputas e pressões que ameaçam seus diretos étnicos e coletivos garantidos pela Constituição Federal de 1988 e, diversos outros dispositivos jurídicos infraconstitucionais. Destas demandas surge, na Região Sul, a Rede Puxirão dos Povos e Comunidades Tradicionais, fruto do I Encontro Regional dos Povos e Comunidades Tradicionais, ocorrido no final do mês de maio de 2008, em Guarapuava/PR. Neste espaço de articulação, distintos grupos étnicos, a saber: xetá, guaranis, kaingangs, faxinalenses, quilombolas, benzedores e benzedeiras, pescadores artesanais, caiçaras, cipozeiras, religiosos de matriz africana e ilhéus; tais segmentos se articulam na esfera regional fornecendo condições políticas capazes de mudar as posições socialmente construídas neste campo de poder. Ademais, a conjuntura política nacional corrobora com essas mobilizações étnicas, abrindo possibilidades de vazão para as lutas sociais contingenciadas há pelo menos 3 séculos, somente no Sul do País.” (REDE PUXIRÃO, 2010).

entidades políticas vêm dialogando de maneira afirmativa sobre políticas públicas e reivindicações específicas dentro do Estado-nação.

PARTE II – A ATUAÇÃO DAS LIDERANÇAS INDÍGENAS KAINGANG NO ÂMBITO REGIONAL E (INTER)NACIONAL.