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A presença das populações indígenas no território paranaense, conforme estudos arqueológicos e antropológicos, é de cerca de 3 mil anos. Muitas análises apontam para a hipótese de deslocamento de habitantes de outras áreas no sentido da região Sul do Brasil por algum motivo ainda desconhecido, embora um estudo de relevo geográfico mostre que se dirigiram a uma região de planalto semelhante ao seu habitat originário. Assim, o certo é que as pesquisas arqueológicas indicam que os Jê Meridionais (Kaingang e Xokleng) deslocaram-se do Brasil Central (nascentes do Rio São Francisco e Araguaia) em direção à região Centro-Sul estabelecendo-se nas regiões hoje conhecidas como estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, além da província de Missiones, na Argentina, aproximadamente por volta de 3 mil anos. Desso modo, não se tem ideia de quando teriam chegado à região que atualmente ocupam no sul do Brasil. Além disso, conforme Urban: “Tampouco se sabe por que migraram, embora um estudo do relevo geográfico mostre que se dirigiram a uma região de planalto semelhante ao habitat original.” (URBAN, 1992, p 90). Esse estudo vem reforçar a tese de que na região do Planalto Meridional, habitavam povos originários conhecidos hoje como Guarani, Xetá, além de Kaingang e Xokleng (AMBROSETTI, 1895; URBAN, 1992; MOTA, 1994; NOELLI, 2000; TOMMASINO, 2000, VEIGA, 2006).

A seguir, o Mapa 1 apresenta povos indígenas pertencentes ao tronco Macro- Jê que se concentram na maior parte da região oriental e central do Planalto Brasileiro, entre eles, o povo Kaingang. No deslocamento em direção ao Sul do País, a população Jê permaneceu povoando geograficamente a região do Planalto Meridional, formando um corredor de povos em que os Kaingang aparecem como povo marcante, como se verá na ilustração a seguir.

Mapa 1: Ocupação Kaingang no Brasil Meridional

Fonte: adaptado de IBGE (1981).

Antes, porém, é preciso dizer que os Kaingang fazem parte da família Jê do tronco Macro-Jê assim como os grupos Bororos, Krenák, Karajá etc. Dito isso, muitos antropólogos, cronistas, viajantes, entre eles, Baldus (1952), Nimuendaju (1981), Borba (1908), Mota (1994), Rodrigues (2000), Tommasino (2000), Fernandes (2003), Crépeau (2006), Veiga (2006), Laroque (2006) e Gibran (2012) convencionaram denominar os Kaingang de povos baseados em metades exogâmicas patrilineares (sistema dualista) nos estudos antropológicos, linguísticos e etno-históricos. Vale lembrar, havia uma geração de antropólogos que buscava

aproximações etnológicas entre os Kaingang e a área cultural do jê-Bororo do Brasil Central – a qual contou com as célebres e importantes pesquisas realizadas pelos membros do projeto Harvard-Brasil Central em parceria com o Museu Nacional durante os anos de 1960, coordenado pelo professor David Maybury-Lewis. Os estudiosos procuraram compreender e formular a organização dualista como princípio fundamental encontrado nas sociedades indígenas Jê, por exemplo, nos grupos Apinayé, Kayapo, Xavante e Krinkata.

Como bem esclarece Veiga:

Os Kaingang e os Xokleng, juntos, representam 50% dos falantes das línguas Jê. São, também, a mais numerosa das sociedades jê. Ocupam três dezenas de áreas indígenas que se espalham entre o oeste paulista e o norte-noroeste do Rio Grande do Sul, incluindo o Paraná (norte, centro e sudoeste) e o oeste catarinense. Destaque- se que a região que encerra as áreas de Guarita e Nonoai (no norte rio-grandense), Xapecó e Chimbague (no oeste catarinense), Palmas e Mangueirinha (no sudoeste paranaense), concentra 50% de toda a população Kaingang estimada, no total, em cerca de 29 [hoje 37.470] mil pessoas. (VEIGA, 2006, p. 37).

A grafia do termo Kaingang pode ser encontrada de diferentes maneiras ao longo da história de contato com o homem branco e as instituições sociais não- indígenas. Assim, como se pode notar, o termo aparece escrito em documentos jurídicos e históricos nas seguintes grafias: Caingang, Kaingangue, Kaingáng, Kaingang. Até nos apontamentos do reverendo Chagas Lima (1842) há nomenclatura referente aos índios Camé, Votoron, Dorin e Cayere que habitavam a região dos Campos de Guarapuava.

Segundo Mota (1994), quem primeiro utilizou o termo Kaingang para designar grupo étnico no Paraná foi um militar da Armada Imperial, chamado Camilo Lellis da Silva, em 1849, durante uma expedição realizada à região dos Campos Gerais e de Guarapuava. Entretanto, no tocante à terminologia empregada nos documentos oficiais de governo, foi Carlos Augusto de Carvalho, advogado e político, presidente da província do Paraná (1882–1883), quem utilizou, pela primeira vez, no Catálogo Oficial, termos alusivos como: Caingang, Camé (coroado) e Tac-tais, sobretudo já utilizados nos escritos de Telêmaco Borba, Frei Luiz Cemitille e Pe. Chagas Lima.

Além disso, quanto ao sentido do vocábulos Kaingang é possível encontrar alguns significados como “homem do mato” e/ou “pessoa de nossa gente” (VEIGA, 2006).

Os territórios na Região Sul do País, sobretudo na Província do Paraná, foram áreas de abundantes florestas nativas e grandes rios que enriqueciam a região e permitiam a autossustentabilidade da população nativa. Sabe-se que os índios habitavam por aqui antes mesmo da vinda dos luso-brasileiros, com as expedições de reconhecimento e colonização dos Campos Gerais de Curitiba e Guarapuava. A partir desse momento, os nativos passaram a perder espaços para as instalações de fazendas de gado, agricultura e, mais tarde, extração de madeira. Nota-se que do período imperial à fase republicana, o processo de expropriação continuou violento com a divisão das áreas para empresas colonizadoras com a anuência das autoridades brasileiras.

Em relação à localização e à fixação da população Kaingang na Região sul do Brasil é possível dizer que ela se estabeleceu mais precisamente na região do Planalto Meridional, sobretudo cerca dos vales e rios na fronteira com a Argentina. O Mapa 2 expõe a presença dos povos Kaingang na Região Sul do Brasil atualmente. Os registros históricos assinalam que, além deles, havia outros povos na área como os Guarani, Xetá e Xokleng até o século XIX, quando chegaram os colonizadores.

No tocante ao envolvimento com a sociedade nacional, os Kaingang têm-se mostrado como um povo que ora guerreou contra a espoliação dos seus territórios pelos colonizadores, ora estabeleceu alianças políticas estratégicas de resistência social e política com os exploradores de seus territórios, sobretudo nos últimos dois séculos.

El-Khatib (1969) salienta que os Kaingang, no início do século passado, interagiram com os portugueses nos três Estados do Sul e, ainda mais tarde, mantiveram contatos com os imigrantes europeus – o italiano e o alemão. Além disso, conforme o autor, muitos indígenas convivem nas cidades e por consequência aprenderam hábitos e costumes da sociedade envolvente, o que em contrapartida, não sucedeu com os brancos em se tratando de aprendizado com os indígenas. Assim, essa aproximação e interação cultural entre o indígena e o branco no passado desencadearam diversos apelidos de tipo muito comum no que tange ao índio, por exemplo, “bugre”, “mestiço” e este reconhecido como “branco” por viver na cidade e forjar a sua identidade social. Em que pese o processo de influência sociocultural, os nativos tiveram que aprender algumas táticas de sobrevivência e de pressão para sobreviver junto à sociedade envolvente.

Durante o tempo em que El-Khatib (1969) observou o contexto interétnico Kaingang, na região paranaense, os nativos assimilaram particularidades bem típicos do colonizador: falava português, católico, evangélico, assumiam chefia de posto e até pleiteavam cargos políticos no parlamento municipal34. Ou seja, eles estavam em franco processo de “integração forçada” à sociedade nacional, terminologia muito utilizada por meio das políticas indigenistas dirigidas pelo órgão federal de assistência ao índio (no início SPI e depois Funai) do Estado brasileiro.

No que tange ao sistema político, os Kaingang, em geral, organizam-se politicamente da seguinte maneira: na hierarquia política, fica a liderança maior (Pã`i bmãg), chefe político, autoridade política ou mais conhecido por cacique35. Além disso, existem outras lideranças menores (Pã`i sῖ) que, dependendo do contexto sociocultural e político, são nomeadas e subordinadas ao chefe político. Geralmente, elas são designadas pela autoridade política para colaboração e condução de tarefas restritas ao cotidiano das comunidades. Nessa hierarquia política do pã`i sῖ pode aparecer a presença dos conselheiros de cada aldeamento, o capitão, o cabo, quer dizer, a polícia local Kaingang. Estes são os que ajudam a governança do cacique e mantêm a ordem e a disciplina na comunidade. Usando uma expressão muito utilizada nas áreas indígenas Kaingang, “somos os olhos do cacique dentro dos locais”. Assim, na ausência do cacique as pessoas de confiança dele assumem o comando interinamente. O sistema político Kaingang é constituído de núcleos familiares, entrelaçados culturalmente, que estabelecem alianças internas e externas a que Fernandes (2003) nomeou de espaços de parentagens e afins.

É importante dizer que os caciques são venerados pelos Kaingang, estes depositam toda a confiança e crença possível nessas autoridades tradicionais. Os

34 Os Kaingang normalmente participam das disputas eleitorais nas municipalidades onde

estão concentradas as suas terras, muitos deles já foram vereadores e até vice-prefeito, por exemplo, o índio Orides Belino, eleito em 2000 pela legenda PPS, na cidade de Ipuaçu, Terra Indígena Xapecó, Santa Catarina. Nas eleições de 2012, observa-se a presença de candidatos indígenas ao parlamento municipal em quase em todos os Estados da Região Sul. Na Região Sudoeste do Paraná, encontraram-se registros de candidatos a vereadores na Terra Indígena Mangueirinha, com o cacique Valdir e na Terra Indígena de Rio das Cobras, Nova Laranjeira, com o cacique Ângelo.

35 Líder indígena. Termo de língua taino, de índios do Caribe, oriundos da Venezuela, que

tiveram contato com os primeiros colonizadores europeus no século XVI. Essa palavra acabou sendo utilizada, no novo contexto, para designar, genericamente, chefes ou líderes de quaisquer grupos indígenas, independentemente da etnia que pertenciam. Os guarani chamam o líder de Tamõi e o chefe político de Mboruvixa; os Kaingang para líder maior Pã`í

mbâng ou Pay-bang/Pay, e para líderes secundários usam uma palavra Pã`í ou Pay.

caciques são os representantes legítimos na base; o poder do cacique é medido pelo trabalho interno e externo à comunidade, além disso acrescentaria o fator muito importante e decisivo – o segmento da parentagem em torno dele.

Ademais, os chefes políticos não podem ser tão autoritários nem ausentes em relação aos pedidos do povo que o apoia internamente. Eles têm de estar presentes em todas as atividades que envolvem aspectos socioculturais e políticos da comunidade. Na verdade, os chefes políticos devem participar dos acontecimentos importantes inclusive das festividades relativas à comunidade.

O sistema é entrelaçado pelo faccionalismo político e pelo dualismo cosmológico entre metades exogâmicas denominadas Kamẽ e Kaῖru. No tocante ao poder político, os homens são encarregados de participar das atividades políticas visto que o sistema de parentesco remente-se sempre à ascendência do lado paterno. Convém dizer que o filho é a imagem e semelhança do pai - é aquilo que o pai é. No que tange à posição de poder, os índios obedecem às solicitações dos líderes (que são normalmente homens) durante o tempo em que eles estão na função de representante da comunidade. Observou-se que o princípio da obediência às lideranças maiores é algo considerado de valor e temido dentro da cultura política kaingang.

As autoridades tradicionais têm um mecanismo de informação sutil e poderoso, que são as pessoas ligadas a eles por laços de parentescos, de amizades e alianças políticas. Assim, eles poderão saber por meio dos “olhos invisíveis” do sistema de informantes de quase todos os eventos ocorridos no interior da comunidade, por exemplo, na instituição escolar, na enfermaria e o que se passa no campo de futebol. O sistema de lealdade funciona em pontos estratégicos onde normalmente há indígenas trabalhando a serviço da comunidade, a saber: escolas, posto de saúde, posto da Funai e no espaço das igrejas. A rede de vigilância constante foi uma expressão para caraterizar aquilo que o orientador pedagógico da Escola Estadual Indígena Kókoj Tỹ Hãn revelava: “[…] Nós somos os olhos do cacique dentro da escola.”