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A participação política dos Kaingang dentro do movimento regional tem sido fundamental, já que é a maior população indígena do Sul do País. Nesse sentido, a presença das lideranças políticas deste povo no cenário regional é visível a ponto de

estarem inseridos dentro das principais entidades representativas no Sul. A atuação afirmativa das lideranças Kaingang regionalmente tem-lhes dado certa visibilidade e demonstração de muita força política no cenário indígena nacional e internacional.

Observa-se que essa participação política das lideranças pode ser interpretada de duas maneiras importantes. No Estado do Paraná existem dois mecanismos importantes de participação e envolvimento dos índios na questão da política indígena. A primeira perspectiva diz respeito às lideranças tradicionais das comunidades, no caso, os caciques que estão organizados por meio do Conselho Indígena e o Conselho dos Caciques de Guarapuava; a segunda perspectiva está diretamente ligada à questão da atuação das lideranças externas e/ou emergentes que são àquelas que vivem nos centros urbanos e têm uma atuação política pautada pela intercalação entre o movimento indígena regional e nacional, sobretudo engajadas às associações de professores, às organizações não-governamentais e aos órgãos governamentais.

Assim, no que tange ao primeiro caso de engajamento político em defesa da causa indígena, exemplo maior é o Conselho Indígena, que é a entidade máxima de decisões dos caciques e das políticas indígenas na região. Logo, apenas os caciques fazem parte da estrutura e tomam decisões importantes, sobretudo em relação à legitimidade das lideranças políticas externas. Ou seja, elas somente falam em nome dos povos indígenas e tomam decisões importantes nos órgãos governamentais se tiver o consentimento livre e prévio deste conselho.

Convém notar que o Conselho Indígena no Paraná - diferentemente do que acontece noutros estados brasileiros em que não se segmentou - aqui houve uma divisão político-admistrativa dos trabalhos em duas frentes de atuação, conhecidas como Conselho Indígena do Paraná (qualquer liderança política do Estado participa como membro), que representam todas as Terras Indígenas que estão localizadas ao Norte do Estado; e o Conselho dos Caciques de Guarapuava (apenas os cacique da região participam), que tem a função de auxiliar todas as áreas que se encontram nas sub-regiões administrativas do Sudoeste e Centro-Oeste e Oeste da mesma unidade federativa.

Conforme Neoli Olíbio, ex-presidente do Conselho dos Cacique de Guarapuava, não existe diferença de estrutura e de atuação; os poderes são os mesmos para todos e o formato político em duas entidades é apenas para aproximar e facilitar os trabalhos administrativos em cada região, já que as demandas das

comunidades são diferentes em se tratando das peculiaridades regionais e a dimensão geográfica do Estado do Paraná.

Em relação a outras perspectivas de interação com a sociedade envolvente, os Kaingang destacam-se pelas suas lideranças políticas externas que se apresentam cada vez mais atuantes e inseridas nos diferentes espaços de intermediação política no Estado-nação. Não por acaso, a participação política das lideranças externas tem acontecido por meio da instituição escolar, das associações indígenas, dos centros estudantis nas universidades e das organizações não- governamentais, o que explica, de certa maneira, a organização do movimento indígena no Sul do País a partir dos anos 1990.

Durante os anos 1990, os professores indígenas deram um passo importante na organização do movimento regional com a criação da primeira organização APBKG (Associação dos Professores Bilíngues Kaingang e Guarani) no Estado do Rio Grande do Sul, que dava exemplo de organização social e política para os outros estados da região. Nesse sentido, a participação dos professores, alguns já lideranças políticas nas suas comunidades, possibilitou e ajudou na estruturação do movimento indígena e na ascensão de outras lideranças.

Ainda no ano de 1992, paralelo às discussões sobre educação intercultural e diferenciada, surgiu a entidade política Onisul (Organização das Nações Indígenas do Sul), que articularia o movimento em torno da retomada de terras indígenas na região do Planalto do Rio Grande do Sul, mais especificamente na região do Alto Uruguai, o que veio acontecer, sobretudo com a Terra Indígena Iraí, território considerado sagrado e reconquistado pelo povo Kaingang.

Maria Inês Kaingang, professora bilíngue e liderança indígena no estado do Rio Grande do Sul, narrou a dificuldade no início do movimento social, sobretudo na questão da criação de uma entidade representativa dos indígenas no Sul do Brasil. Segundo ela, faltavam recursos, estrutura física, e ainda mais experiência técnico- administrativa para lidar com a burocracia governamental. Os novos dirigentes enfrentavam muitas dificuldades no dia-a-dia, particularmente na questão da experiência político-organizacional, o que, de certa maneira, afetava o desempenho das atividades e fragilizava as tentativas de sustentabilidade da estrutura política em meio a sociedade externa.

Entretanto, mesmo diante do isolamento político e das adversidades encontradas, no que tange à adaptação ao meio urbano, durante os anos 1990,

havia uma disposição dos indígenas que viviam na cidade de se organizarem politicamente, sobretudo para reivindicar mais direitos e visibilidade perante as entidades indigenistas e a sociedade não-indígena. Romancil Cretãn conta que, entre os anos de 1999 e 2003, os indígenas que moravam em Curitiba passaram a discutir e a trocar experiências pessoais com mais frequência, no sentido de criar uma entidade própria que auxiliasse os indígenas que residiam na zona periférica de Curitiba. Ele explica que era uma maneira de reunir os índios e matar a saudade dos parentes que ficaram nas aldeias. Segundo ele, os índios passavam por dificuldades de adaptação na cidade e precisavam de uma associação que protegesse, defendesse e promovesse o resgate crítico e reflexivo da sociodiversidade dos povos tradicionais do Paraná.

Assim, com base nesses encontros informais, para tomar chimarrão e trocar experiências significativas, surgiu a ideia de criar a entidade Orccip-Curim (Organização Resgate Crítico da Cultura Indígena do Paraná Curitiba e Região Metropolitana). Logo, a ideia de discutir a diversidade cultural no entorno da região curitibana foi o primeiro passo dado para se pensar no futuro da organização política, já que não se tinha nada que agregasse e mobilizasse os indígenas, sobretudo os Kaingang que vivem na zona metropolitana da capital paranaense como estudantes, trabalhadores formais e vendedores de artesanatos no centro da cidade.

Ainda no tocante à questão, de acordo com o Romancil Cretãn: “[…] a ideia nossa era começar com a associação indígena, mas, no futuro, a gente queria que se tornasse uma entidade no Paraná para ajudar todos os índios do Sul. Eu fui eleito presidente, na época, dessa associação.” De fato, a participação dos indígenas urbanos, principalmente estudantes universitários, professores e trabalhadores foram sujeitos importantes na construção da Orccip-Curim.