5 Samanliknande analyse og diskusjon
5.2 Skilnader
5.2.2 Rutenettet som struktur og myte
Dissestes que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira.
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade E há tempos são os jovens que adoecem. E há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção. Renato Russo
Este item trata dos conflitos instalados na relação materno-filial. Esta zona de sentido foi construída a partir da narrativa da mãe de Beatriz quanto à sua relação com a filha e sobre sua projeção de futuro para ela com base na experiência da violência sexual e nos comportamentos adquiridos pela criança. Apesar de os indicadores de sua fala não coincidirem com a narrativa das outras três mães, optamos por considerá-la em sua singularidade, tanto pela alta frequência no decorrer de sua fala, quanto pela importância de apresentarmos o outro lado da moeda, isto é, quando a filha de vítima passa a ser considerada como vilã em sua própria história de vitimização e quando a negação do abuso e de sua gravidade se torna uma arma contra a própria vítima.
Um olhar atencioso sobre a história de Beatriz, apresentada na identificação dos sujeitos, nos permite considerar que os sentimentos que sua mãe nutre por ela são de grande ambiguidade, alternando entre momentos de afeto com momentos de rejeição. Beatriz parece carregar em si toda a representação das dificuldades de sua mãe de assumir sozinha e ainda muito jovem o papel de mãe e de provedora. A criança apresenta características semelhantes às da mãe, as quais esta rejeita em si mesma e acaba por projetar na filha a insatisfação e a necessidade de mudança. A mãe de Beatriz destaca essas semelhanças como: “gênio forte, teimosia, resistência.”
Arriscamos ainda considerar que Beatriz tornou-se o pivô dos problemas conjugais de sua mãe e de seu padrasto, pois o abuso sexual sofrido “obrigou” a mãe a tomar uma atitude de proteção que resultou no rompimento do relacionamento conjugal e, consequentemente, no fim do seu sonho de casamento e de família nuclear.
Assim, os comportamentos difíceis da filha suscitam sentimento de rejeição na mãe, coexistindo, de forma ambígua, com o afeto materno. Com isso, Beatriz é tanto filha a ser protegida, como vilã que traz conflitos emocionais à mãe.
Nesse contexto, a mãe de Beatriz se sente impotente, percebendo que perdeu o controle e quer reavê-lo, pois do contrário prevê prejuízos futuros:
124 “Me sinto perdida, né? Perdi o ponto da meada, perdi minha filha, perdi. Não tenho mais como educá-la, nada que eu aplique pra ela, serve de educação. ‘Ah! Pega ela e dá uma surra servida’, não vai funcionar. Dá presente pra ela. Não funciona. Ela recebe hoje e amanhã ela apronta, certo? ‘Ah! Mas ela não pensa: ela é ruim... Não, ela não é ruim. Eu fui menina na idade dela...Eu não quero deixar a minha filha à toa, ela já criou corda pro mundo, ela já criou corda pro mundo. Essa menina, ela, ela dentro da desobediência. Que Deus o livre e guarde! Com essa, essa desembesto que ela pegou pra vida, ela pode começar usando um tipo de droga, né? Ela pode começar fazer coisas ruins pra si própria. Então, uma pessoa quando começa a desimbestar. Desculpa a palavra! Desimbestar quer dizer: “perder o meio da meada”, achar que a vida dela é viver na rua sem dar explicação a ninguém, passear o tanto que quer, andar com pessoas boas, andar com pessoas ruins. Quando ela se acordar, ela vai tá dentro de um hábito de crime e de uma prostituição ou coisa pior. Então pra que ela esquecesse esse lado de que ela se domina e que a polícia ajuda, que eu não posso fazer nada, que ela me desobedece a hora que ela quer.
A narrativa dessa mãe indica a crença de que, depois da experiência e do contexto que se instalou com a denúncia, a filha está perdida, precisa ser “doutrinada, endireitada” como se tivesse se tornado algo diferente do que ela esperava. O aspecto perverso do ato adulto e imposto à Beatriz passou a ser projetado pela mãe na própria criança, parecendo ter se tornado parte de sua personalidade.
Sentindo-se “perdida”, sem recursos e sem ter com quem compartilhar a dificuldade de proteger, a mãe de Beatriz deseja “um lugar,” “um seguidor” que possa auxiliá-la a “conter” a criança:
“Eu fui menina na idade dela... Eu não tive ninguém pra me dar freio. Mas também eu nunca roubei, nunca usei droga, né? Nunca me prostiui. Mas ela não vai ter o mesmo seguro que eu, né? Ela não tá achando quem segurar. Ela tá mais perdida do que eu mesma.”
“Um local desse tipo até ela tomar um pouco de maturidade me ajudaria mais porque ali sim eu sabia que na hora que ela saísse, ela saia com seguidor. Pra fazer um passeio no zoológico, em algum lugar, ela tá com o seguidor. Quinzenalmente eu busco em casa, no outro dia eu devolvo. Ela tá com seguidor... Eu quero resguardar a minha filha da droga, da prostituição e de outras coisas. E pra isso eu preciso manter ela nesse caminho porque uma menina mais tarde com dezesseis, dezoito anos, com vinte anos, vai tá estudada, vai está bem estruturada, vai saber o que quer da vida. Com onze, com doze anos no mundo ninguém sabe o que quer da vida. Quem tem que doutrinar é os pais, mas eu não tenho mais condições pra doutrinar... estou perdendo o meu controle de mãe com ela, estou perdendo o meu controle.”
Em contraposição a esse sentimento de perda do controle no exercício da função materna em relação à Beatriz, observamos o exercício do papel materno em relação ao ex-
125 companheiro, autor da violência. Cecília concordou com o afastamento do companheiro do lar, atribuiu significado de proteção a essa medida protetiva e deu cumprimento a ela durante todo o período do acompanhamento. No entanto, ela se manteve no papel de cuidadora do ex-companheiro, encontrando novo local de moradia para ele, mantendo a ajuda nos cuidados com a nova casa e com a roupa, conseguindo emprego e insistindo em sua participação no atendimento psicoterapêutico para o qual ele fora encaminhado.
Essa atitude da mãe em relação ao autor da violência sexual contra a filha nos remete novamente à questão das barreiras transgeracionais mal delimitadas e dos conflitos de lealdade. Conforme destaca Hamon (1997),
Em certas situações percebemos que a mãe se encontra na posição de mãe em relação ao marido; à luz dessa observação, devemos compreender os conflitos de lealdade dos quais as mães são prisioneiras. Elas não estão diante da escolha impossível de ter que escolher entre o marido e o concubino, mas de ter que escolher entre dois filhos. Esses conflitos de lealdade são um tanto complexos e particularmente difíceis de solucionar, e testemunham um sofrimento intenso. (p. 176)
Nesse contexto, questionamos: Beatriz está de fato protegida? Em termos judiciais podemos considerar que sim, o autor da violência foi afastado da moradia comum e o abuso sexual foi interrompido. Em termos emocionais e em relação ao seu saudável desenvolvimento, não podemos afirmar o mesmo. Temos observado que o movimento de
famílias em favor da proteção ao autor da violência, seja por receio de que ele venha a ser preso, seja em relação à condenação social que sobre ele repousa, implica sempre na desproteção da vítima. Percebemos como tarefa impossível conciliar proteção aos adultos e proteção à criança ou adolescente nos casos de violência sexual. A invalidação da experiência ou da palavra da criança ou do adolescente sempre se faz necessária quando se pretende proteger o adulto. E esse fato, por si só, já é indicativo da violência emocional que se pratica contra a criança na tentativa de se resguardar a liberdade ou a imagem do autor da violência sexual.
Mais uma vez, podemos constatar nesse contexto não apenas os aspectos pessoais e interpessoais na forma encontrada pela mãe para discernir entre a proteção à filha e a proteção ao ex-companheiro, tais como as expectativas construídas em torno da nova família nuclear, a dependência emocional, o impacto dos aspectos positivos que porventura existam na relação conjugal, a sexualidade, entre outros. Mas podemos também apontar aspectos histórico-sociais que estão presentes em nossa sociedade adultocêntrica. A literatura aponta
126 que, tradicionalmente, crianças e adolescentes têm ocupado lugares implícitos no processo de conhecimento das ciências sociais, de forma que o que é pensado e dito sobre essas duas categorias sociais vem inscrito e explicado apenas nas reflexões de outras categorias, grupos sociais e eventos, tais como família, parentesco, religião, educação e gêneros, para dar conta da vida adulta (Valderrutén, 2008). É recente o entendimento de que crianças e adolescentes têm status de categoria social, com direitos e cidadania. Mais recente ainda é o entendimento de que são sujeitos ativos, tais como os adultos, e que em seu viver diário também produzem significados às suas experiências e às tramas sociais e políticas que dão sentido às suas trajetórias.
A história revela que a infância como fase específica da vida é concepção que teve início apenas no fim da Idade Média. Também revela que essa fase da vida é vivida de maneiras diversas no decorrer da história da humanidade, ora como adultos em meio a adultos, ora como adultos em miniatura, ora como anjos, ora como demônios (Ariès, 1981). De acordo com Valderrutén (2008), foi só por volta do século XVI que a infância passou a ser considerada estrutura social e condição psicológica. E, apesar desse avanço no entendimento da infância, Sarmento (s/d) pontua que a tradição epistemológica – funcionalista e evolucionista – ainda concebe a criança como alguém que carece de um mundo objetivo e racional e, por isso, tem vínculos imperfeitos com a realidade. Essa compreensão, segundo o autor, vem sendo incorporada no imaginário coletivo e pode ser observada não apenas nas esferas acadêmicas e conceituais, mas em especial no conhecimento ordinário do senso comum que atribui à criança o lugar de quem nada entende e tudo esquece.
Em nossa experiência diária temos observado como essa compreensão sobre a criança favorece e influencia de forma impactante a forma como alguns adultos lidam com a vitimização de suas crianças e adolescentes. Cecília não nos parece estar isenta dessa influência, pois ao considerar a filha como uma criança a ser moldada, focaliza sua atenção na necessidade de controle do comportamento. Em razão disso, parece não enxergar o sofrimento, as dúvidas e os medos de sua filha que, apesar de ainda jovem encontra-se subjetivamente vinculada aos laços sociais, e é capaz de pensar, interpretar, redefinir e reorganizar o conhecimento que tem de si e dos outros e de sua própria experiência (Valderrutén, 2008). Além disso, não podemos nos esquecer que a relação materno-filial reflete toda a ambivalência e contradições que caracterizam a vivência de situação de violência sexual.
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Em relação a esses aspectos, mais uma vez é possível notar que proteção efetiva envolve aspectos para além de ações objetivas judiciais. E, acreditamos que somente
quando o Estado, em seus três níveis de representatividade, se der conta do grau de complexidade do fenômeno da violência sexual que está inscrito nas relações sociais, e de que qualquer intervenção necessita levar em conta essa complexidade, poderemos considerar que, de fato, estamos conseguindo garantir a proteção integral e os direitos da infância e da adolescência.
No entanto, como poderemos perceber na próxima zona de sentido de análise, as ações de alguns profissionais e das instituições que deveriam atuar na proteção e na garantia de direitos ainda não correspondem às demandas que lhes são endereçadas e que envolvem muito mais do que uma ação específica. Embora não seja a tônica deste trabalho, não
podemos deixar de abrir um parêntese e questionar: para onde têm sido endereçados os conhecimentos acadêmicos adquiridos? Infância, violência, complexidade, subjetividade são temas apenas literários? Como vincular o saber ao fazer diário? Como torná-los complementares? E, nos casos em que o conhecimento é utilizado na prática, em que medida ele é um instrumento de empoderamento e não de normatização, de poder e de controle?
O quadro a seguir sintetiza o tema em discussão neste item.
Quadro 13: A relação materno-filial Medidas de proteção Significado conferido pelos sujeitos às medidas protetivas
Exemplos de narrativa Alcance da medida protetiva Limitações da medida protetiva / Efeitos contraditórios Intervenção legal: • Denúncia • Afastamento do autor da violência do lar Proteção
Ah! Pega ela e dá uma surra servida’, não vai funcionar. Dá presente pra ela. Não funciona. Ela recebe hoje e amanhã ela apronta, certo? ‘Ah! Mas ela não pensa: ela é ruim... Não, ela não é ruim. Eu fui menina na idade dela...Eu não quero deixar a minha filha à toa, ela já criou corda pro mundo, ela já criou corda pro mundo. Essa menina, ela, ela dentro da desobediência. “Me sinto perdida, né? Perdi o ponto da meada, perdi minha filha, perdi. Não tenho mais como educá-la, nada que eu aplique pra ela, serve de educação.” (mãe de Beatriz) Interrupção da violência sexual • Pode promover ou destacar conflitos nas relações familiares. • Pode ressaltar o lugar da vítima como bode expiatório das dificuldades dos adultos em admitir a violência e enfrentar seus efeitos.
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