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The Roulette formalism

In document Tales from Wonderland (sider 71-79)

4.4 The two approaches to gravitational lensing

4.4.3 The Roulette formalism

Todo conhecimento científico – em qualquer área de atividade humana – tende a reger-se por um conjunto de princípios que o identifica e distingue de outros saberes a partir de suas especificidades teóricas e metodológicas. No cenário científico, costuma-se denominar esse conjunto de princípios pelo termo paradigma.

Segundo Kuhn (1992), paradigmas são as realizações científicas universalmente conhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade praticante de uma ciência. Com isso, segundo ele, o paradigma, em ciência, não pode ser “copiado” ou “imitado”, ou seja, não permite “reprodução”. O paradigma, por esse prisma, é um objeto a ser articulado e testado em condições novas ou mais rigorosas. Dessa forma, os paradigmas adquirem seu status porque são mais bem sucedidos que seus

século XIX, ocorreu então uma massiva gramatização das línguas do mundo a partir de uma só tradição, a greco-latina, tradição que garantiu a homogeneidade conceptual, a identidade de metalinguagem, representando um fator de unificação teórica sem equivalente na história. Para Orlandi (2001), a gramatização pode ser pensada nas várias instâncias de instrumentalização de uma língua.

competidores na resolução de alguns problemas que parte da comunidade científica reconhece como relevantes.

Kuhn explica ainda que as anomalias podem levar a uma modificação do paradigma ou contribuir para isso. A anomalia é verificada quando, com a utilização de um paradigma, não se obtém os resultados almejados por determinado segmento científico. A crise, então provocada, pode obrigar a modificar ou construir um novo paradigma.

Em A estrutura das revoluções científicas, Kuhn (1992, p. 44) admite, contudo, que

[para o paradigma] ser bem sucedido não significa nem ser totalmente bem sucedido com um único problema, nem notavelmente bem sucedido com um grande número de problemas. Nesse sentido, uma promessa de sucesso pode ser descoberta em exemplos selecionados e ainda incompletos. Isso porque a ciência normal consiste na atualização dessa promessa, atualização que se obtém ampliando-se o conhecimento daqueles fatos que o paradigma apresenta como particularmente relevantes, aumentando-se a correlação entre esses fatos e as predições do paradigma e articulando-se ainda mais o próprio paradigma.

Por fim, Kuhn esclarece que as revoluções científicas são como os episódios de desenvolvimento não-cumulativos, nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior. Por isso mostra que as revoluções científicas não ocorrem de forma cumulativa, e sim por ruptura com as teorias até então adotadas.

Isso posto, de um modo geral, ao contemplar-se a história dos estudos sobre a linguagem, conforme a breve exposição feita na seção anterior, pode-se observar que as especulações de natureza filosófica sempre permearam os debates e as discussões entre os estudiosos, fossem estes filósofos antigos ou modernos, sejam, inclusive, filósofos ou lingüistas contemporâneos.

É bem verdade que, ao combater o paradigma metafísico-essencialista que sustentava as primeiras especulações filosóficas, foram os estóicos que proporcionaram as bases para a formulação de uma futura gramática. Sobretudo,

procederam à ruptura entre as palavras e as coisas, pois não reconheciam relação intrínseca entre o discurso e o mundo do qual o discurso fala.

Entre os estóicos, a função especulativa da gramática cede lugar à praticidade. Assim, os estudos gramaticais ganham certa autonomia com relação aos estudos filosóficos propriamente ditos, concentrando-se especialmente na descrição estrutural do grego, e não em sua relação com a epistemologia.

De acordo com Brito (2004), o interesse prático dos estóicos nos estudos gramaticais justifica o seu caráter particular, em oposição ao caráter universalista dos estudos aristotélicos sobre o logos. O objetivo prático e utilitário da gramática está relacionado com um problema de natureza essencialmente política, e não gramatical. As gramáticas estóicas propunham um conjunto de informações que fosse capaz de instruir os falantes a utilizar o grego do passado helênico, e não o grego daquele presente que refletia a decadência.

Assim sendo, a descrição lingüística previa a conservação de valores e prescrevia a forma correta de uma fala padrão. Com isso, o princípio da normatização verbal é introduzido nos estudos lingüísticos. De acordo com Brito (2004), essa orientação normativa se sustentava com base na crença equivocada de que (i) era possível impedir que a língua sofresse modificações ao longo da história e que (ii) a preservação de um determinado momento da língua seria capaz de assegurar status quo à cultura grega.

É possível admitir que a finalidade prática da gramática dos estóicos faz evocar de imediato o princípio da ciência aplicada. De fato, tais gramáticos visavam, sobretudo, ao ensino do grego clássico, particularmente do seu complexo sistema de casos, que sofrera grande simplificação no grego coloquial. Por isso, a gramática estóica privilegiava em sua organização o componente morfológico, no qual o tempo havia interferido com maior intensidade. Para Brito, é exatamente essa a origem das gramáticas normativas que até hoje freqüentam as nossas escolas.

Segundo Camara Jr. (1979), os fundamentos da gramática grega foram idealizados por Aristóteles e ampliados pelos estóicos. Porém, Aristóteles via a língua através da lógica e daí desenvolveu o estudo lógico da linguagem, que prevaleceu até o advento da lingüística propriamente dita. Camara Jr. afirma também que a gramática grega atingiu seu auge no período helenístico, quando

suas formulações foram compiladas no sucinto trabalho de Dionísio da Trácia (século II a.C.), mas que exerceria influência inegável sobre todas as gramáticas subseqüentes.

Assim, depois de mais de dois séculos, quando já haviam florescido na Grécia os debates filosóficos sobre a linguagem, os estudos gramaticais53 em Roma tiveram seu momento culminante no século I a.C., quando Varrão, sob influência grega, escreveu o estudo De língua latina.

No período entre o século V e o século XI, houve muitas mudanças políticas, grandes guerras e pestes atingiram as civilizações, sendo considerado o período negro para as ciências. Todavia, no século XI, ocorreu a retomada dos estudos das ciências, com a tradução de grandes obras da Antigüidade, estendendo-se até o século XII – o século das traduções. A partir daí, os gramáticos latinos traduziram a gramática do grego para o latim, seguindo-se, mais tarde, traduções para as línguas européias. É oportuno lembrar que esse processo foi acelerado principalmente pela invenção da imprensa (CARDOSO, 2001).

Muito tempo depois, já no século XVII, a gramática passou por outro momento de marcante revitalização, através dos mestres de Port Royal com a publicação da Gramaire Générale et raisonéé (1660), "cujo objetivo era demonstrar que a estrutura da língua é um produto da razão, e que as diferentes línguas são apenas variedades de um sistema lógico e racional mais geral" (LYONS, 1979, p. 17-18).

Com o advento do método cartesiano, no qual se inspirou a Gramática geral e razoada (Gramática de Port-Royal), fica explícita a noção de signo como recurso mediante o qual os homens expressam seus pensamentos. Na relação pensamento / linguagem, os gramáticos de Port-Royal elaboraram teorias, pelas quais essa relação era estabelecida por princípios gerais, que se estenderiam a todas as línguas. Assim sendo, afirmaram que, através das operações do espírito, o homem concebia, julgava e raciocinava. Tais operações serviam ao aspecto interno da linguagem e, a partir delas, os homens utilizavam-se dos sons e das vozes, isto é, do aspecto externo da linguagem, para expressar o resultado daquelas operações 53 Segundo Camara Jr. (op. cit., p. 18-20), tanto a gramática grega quanto a gramática latina (romana)

eram assentadas em bases filosóficas, isto é, na lógica e seguiam uma forte orientação do certo e do

errado na consolidação dos dialetos hegemônicos, o ático (Grécia) e o latim clássico (Império Romano).

(ARNAULD; LANCELOT, 1992). Entretanto, levantaram-se muitas críticas a essa abordagem lingüística, pois na língua nem tudo pode ser reduzido à razão. Além do mais, os gramáticos faziam muita abstração, baseada em poucas línguas, todas provenientes do indo-europeu. Este e outros fatores tornaram impossível o projeto de uma Gramática Geral que descrevesse todas as variantes lingüísticas da Humanidade. Tem-se esse como o último grande acontecimento em torno da gramática tradicional ou filosófica.

Outra ruptura se opera, no período renascentista, quando se retoma a gramática empírica, recusando o formalismo abstrato da gramática medieval. É novamente a gramática normativa posta em sintonia com o ideário clássico de Donato, Prisciano e Quintiliano (os dois primeiros gramáticos e o terceiro retórico e pedagogo, contemporâneos do século IV d.C.), que atende somente ao cultivo e estudo das autoridades (auctoritas).

Paralelamente, as línguas vulgares, ou seja, as línguas faladas nos diversos reinos haviam ganhado estatuto de línguas de cultura e assumem-se como objetos de investigação gramatical. São publicadas nos séculos XV e XVI as primeiras gramáticas do espanhol, do italiano, do francês e do português (1536, Fernão de Oliveira; 1540, João de Barros). Apesar de tudo, o latim continua a ser o alvo privilegiado da teorização lingüística. Além disso, com os Descobrimentos, o mundo descobre também inúmeras línguas, cujas primeiras gramáticas se devem em larga medida aos missionários jesuítas.

A rigor, independentemente das Idéias e de seu debate54 secular, seria necessário identificar no fim da Idade Média, em matéria de Iinguagem, sinais de ruptura com a tradição. De acordo com Jacob (1984, p. 38-39), a relevância dada à Iíngua vulgar por Dante, que distingue dela uma Iíngua secundária "que os romanos chamaram de gramática", "feita antes por arte", privilegiava enfim a primeira, natural e própria ao conjunto do gênero humano. Assim, a reflexão sobre a linguagem incidia na prioridade dada à linguagem de fato falada, desembaraçada de toda normatividade, e ao uso das línguas vernaculares, destronando os modelos clássicos (grego e latino).

54 Para se ter um panorama mais completo das reflexões filosóficas e das idéias gramaticais no

Ocidente, sugiro a consulta, entre outros, de Malmberg (1974), Camara Jr. (1979), Auroux (1998), Mussalim e Bentes (2001), Neves (2002), Weedwood (2002) e de Paveau e Sarfati (2006).

Em conseqüência, mais tarde, no início do século XIX surge Franz Bopp (1791-1867) com a Gramática comparada55, trazendo uma visão mais historicista dos estudos gramaticais e abrindo perspectivas para o surgimento dos estudos lingüísticos.

Nesse tempo, a questão da arbitrariedade e da motivação em torno da linguagem ainda persistia. Essa questão polêmica, já se sabe, remonta aos tempos clássicos com a discordância entre Platão (linguagem natural) e os estóicos (linguagem convencional). Pode-se acreditar que, naqueles momentos iniciais de estruturação da gramática, os seus princípios se destinavam mais a pensar que falar. No entanto, tal ênfase essencialista dominou a gramática até o advento das idéias de Bopp.

Advogando essa ruptura com a tradição clássica, Bopp preferiu abordar o fenômeno à essência, almejando estudar a língua por si mesma, através da sua fala. Para realizar seu intento, ele começou por comparar diversas línguas tradicionais, tentando descobrir seus pontos de interseção e suas estruturas mais antigas. Com isso, o privilégio anterior dos estudos gramaticais, que focalizavam o significado, passou a priorizar o significante e, gradativamente, a filosofia da escritura foi se ampliando em lingüística da fala, inaugurando-se assim, com Bopp, uma nova idade na arqueologia lingüística. A gramática passa a se preocupar mais com o signo, as flexões, as raízes, etc. (LIMA, 2001).

Privilegiando a fala, no seu Ensaio sobre a origem das línguas, Rousseau56 (1983, apud DOMINGUES, 1991, p. 333) postula:

A gramática não deve ser tida como a arte de pensar, mas como a arte de falar, e que em sua origem, a língua não é um instrumento de conhecimento, mas um instrumento de comunicação, veículo dos afetos e dos sentimentos e não da razão e do pensamento. Sendo o

55 Essa gramática aborda O sistema de conjugação do sânscrito comparado aos das línguas grega,

latina, persa e germânica (1816). Bopp demonstrou a afinidade genética que existe entre essas línguas, deduzindo os princípios gerais de sua formação. Sua monumental Gramática comparada das

línguas indo-européias (1833-1852), traduzida para o francês por Michel Bréal (1832-1915), exerceu uma influência profunda.

56 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra (Suíça) e mudou-se para Paris em

1741. Filósofo de expressão francesa, formou, com Montesquieu e os liberais ingleses, o grupo de brilhantes pensadores pais da ciência política moderna. Rousseau faleceu em Paris, aos 66 anos. Suas obras não se resumem somente a escritos filosóficos, escreveu também romances, cartas e uma autobiografia.

que ela é, língua de poetas e não de geômetras, e nascendo não das necessidades práticas dos homens mas da abundância do coração e das exigências morais, os homens ao falarem não começam por racionar mas por sentir, e não foi a fome nem a sede, mas o amor, o ódio, a piedade, a cólera etc., que lhes arrancaram as primeiras palavras. Eis por que, segundo Rousseau, as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas, de modo que suas primeiras expressões foram os tropos, e o sentido próprio o último a nascer (cf. DOMINGUES, 1991).

Na esteira desse pensamento rousseauniano, Bopp investigou, em línguas mais primitivas, as raízes e pontos de interseção que clareassem a origem dos falares. Como conseqüência, surgiu sua Gramática comparada, comprovando os laços comuns do sistema lingüístico indo-europeu. Através de seus estudos, Bopp concluiu que o sânscrito, entre as línguas comparadas, é a que mais se faz presente no conjunto geral, muito mais que o latim, o grego e o hebraico. De fato, as evidências assegurariam que a língua sagrada dos hindus constitui uma espécie de irmã mais velha de todo o sistema lingüístico estudado na Gramática comparada.

Por outro lado, segundo Cardoso (2001), convém ressaltar que, no século XIX, prevaleceu a concepção de ver o homem como um ser cultural, dotado de inteligência e com poder de criação, e a noção de que as línguas modificavam-se no decorrer dos tempos. Os lingüistas comparativistas procuraram então identificar essas modificações e estudá-las no arcabouço de cada língua. Tais estudos foram desenvolvidos adotando-se métodos específicos. Cabia, portanto, ao lingüista estudar os fenômenos e classificá-los.

O método comparativo foi primordial para realizar tais estudos. Porém, de acordo com Elia (1978, p.12), o lingüista Antoine Meillet (1866-1936) observou que as aproximações históricas dos comparativistas eram precárias, pois “as transformações lingüísticas não tomam sentido senão quando se considera o conjunto de que fazem parte”. O próprio Meillet afirmou que o método comparativo no estudo dos fatos lingüísticos é insuficiente, visto que não é capaz de identificar as condições em que ocorrem esses fatos, isto é, torna-se incapaz de estabelecer relações entre as transformações das estruturas sociais e as transformações na estrutura lingüística.

No entanto, reconhecendo o papel histórico assumido pela gramática comparativa, transcrevo aqui as palavras de Costa (2003, p. 4):

Atribuindo-se ou não caráter científico aos estudos sobre a(s) língua(s) desde a Antigüidade, certamente não se pode negar esse estatuto aos estudos desenvolvidos durante o século XIX, pois [são] detentores dos requisitos que se costumam exigir para reconhecer a cientificidade de uma área do conhecimento: objeto e metodologia definidos, formulação de hipóteses, procedimentos explícitos de testagem, conclusões passíveis de fundamentar o avanço da pretendida ciência. Como afirmam Dascal e Borges Neto (1991:33), no século XIX, “ao invés de se estudar a linguagem para ‘fazer filosofia’ ou para ‘fazer crítica literária’, como nos séculos anteriores, passa-se a estudar a linguagem pensando-se um ‘fazer ciência’”. Talvez pudéssemos adotar a postura de que as investigações, os novos questionamentos produzem resultados, talvez provisórios, mas que, na sua vigência, configuram saberes, dos quais o saber sobre a linguagem humana, sobretudo sobre as línguas naturais, que, apenas por economia de referência significativa, estamos chamando Lingüística.

As últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX constituem um momento extraordinário na cultura ocidental e, em particular, na História da Ciência. De acordo com Condé (2004), nesse intervalo de tempo, concentrou-se grande parte das principais idéias que caracterizariam a ciência contemporânea, imprimindo uma nova perspectiva concernente, inclusive, à própria concepção ocidental de racionalidade científica. Por diversos aspectos, essas novas teorias, presentes em diferentes campos de estudos, colocaram-se em oposição à idéia de racionalidade científica moderna erigida a partir do século XVII por cientistas como Galileu Galilei (1564-1642) e Isaac Newton (1643-1727), e filósofos como René Descartes (1596- 1650), Francis Bacon (1561-1626) e Immanuel Kant (1724-1804).

A crise das matemáticas, a teoria da evolução e o surgimento das ciências humanas, a partir da segunda metade do século XIX, juntamente com a mecânica quântica e a teoria da relatividade na física, a partir do início do século XX, acabaram por exigir um modelo de racionalidade diferente daquele que caracterizou a ciência moderna. Assim, a ciência contemporânea constitui novas possibilidades do saber que, diferentemente da ciência moderna obriga, entre outras coisas, a desconstrução da idéia de fundamentos (verdades) últimos na formulação de nosso conhecimento e conseqüente compreensão da realidade. Nesse novo contexto, as novas idéias científicas, por mais que sejam de campos variados (biologia, física, matemática, etc.), contrapõem-se em bloco à idéia de uma racionalidade científica universal “sintetizada” pela mecânica newtoniana e ratificada pela filosofia de Kant (CONDÉ, 2004, p. 2).

Esse novo paradigma de racionalidade científica possível de ser consolidado a partir de Wittgenstein (1889-1951), em especial de suas noções de gramática e pragmática da linguagem, configura-se como um peculiar tipo de sistema que tem como aspecto essencial uma perspectiva holista, porém não totalizante. Diferentemente da racionalidade científica moderna – totalizante –, esse novo paradigma de racionalidade não se constitui mediante uma ordem a priori e hierárquica, ao contrário, ela se desenha como uma “teia”, uma rede multidirecional flexível que se estende através de semelhanças de família (CONDÉ, 2004).

Condé (2004) ainda explica que esse novo paradigma não é totalizante porque, além de não possuir fundamentos irrevogáveis, não pretende fornecer a inteligibilidade total e completa do mundo, como se todas as visões de mundo fossem convergentes. No entanto, é holista porque revela uma dimensão panorâmica refletindo um tipo de sistema aberto e descentralizado no qual a racionalidade não está assentada em nenhum lugar privilegiado, mas se configura pelas múltiplas relações no interior do sistema. E, embora componha um sistema autônomo, não se fecha no relativismo extremo, de modo que está aberto a outros sistemas.

Em sintonia com a visão de Condé (2004), a linguagem em Wittgenstein pode ser pensada como um modelo de racionalidade que se contrapõe à razão moderna para superá-la em suas dicotomias e paradoxos. É preciso observar, também, que a expressão “gramática”, no sentido em que Wittgenstein a emprega, não deve ser confundida com a gramática normativa de uma dada língua em particular.

De acordo com Wittgenstein, o uso no interior de um jogo de linguagem não é uma prática aleatória. Mesmo sendo relativamente livre, o uso é regido por regras que distinguem o emprego correto do incorreto das palavras nos diversos contextos. Essas regras não são apenas lingüísticas, mas também pragmáticas (envolvem ações). Com efeito, é o conjunto dessas regras, de aspecto dinâmico e em contínuo fluxo, que compõe a Gramática. Na medida em que a gramática, mais que a dimensão sintático-semântica, incorpora a pragmática, ela insere-se na prática social. Uma regra pode apenas constituir-se efetivamente como tal pela práxis social. Em suma: a gramática é um produto social (CONDÉ, 2004).

Assumindo a defesa da noção wittgensteiniana de gramática, Condé (2004, p. 11) também adverte:

Poder-se-ia argumentar que esse posicionamento de Wittgenstein, ao estabelecer os critérios de nosso conhecimento e julgamento na gramática e jogos de linguagem, acaba por encerrar o conhecimento no relativismo. No entanto, esse talvez tenha sido o maior equívoco atribuído à filosofia de Wittgenstein. Se a gramática fosse impermeável a outras gramáticas teríamos o relativismo, mas na medida em que a gramática é um sistema aberto, podemos mitigar o relativismo. A partir da minha gramática, posso estabelecer relações e critérios para compreender outras gramáticas com base em eventuais pontos de aproximação, mas sobretudo no compartilhar semelhanças no modo como atuamos no mundo. Embora a gramática seja o lugar onde construo os meus critérios de julgamento, é possível

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