5.4 Main results
5.4.2 Anisotropic hairs
A partir da década de 1960, o mundo vem experimentando as grandes convulsões sociológicas de que fala Thomas Kuhn. Assistiu-se a gênese de uma nova era dos estudos da linguagem: a lingüística da comunicação. Esta nasce como desdobramento de alguns pressupostos não desenvolvidos pelo paradigma estrutural-gerativista. Tais pressupostos, com base em Ordóñez (1992), estão relacionados à:
(i) dimensão sociológica: mesmo que o caráter social já fosse uma característica da língua definida por Saussure, estava desprovido de todo valor sociológico: porque se partia do suposto de que a língua (ou a competência) era idêntica em todos os usuários. Estudos funcionalistas e sociolingüísticos rompem com esse postulado; e a
(ii) dimensão comunicativa: o modelo estrutural-gerativista se centrava no código (ou competência), desconsiderando de modo sistemático a
65 De minha parte, julgo necessário e oportuno apresentar os principais autores e pressupostos
teóricos da LF – principalmente na vertente norte-americana – em contraponto com os postulados do formalismo gerativista. Creio se tratar de um procedimento simples que pode dar relevo aos pontos centrais da presente exposição e garantir aos iniciados nas teorias lingüísticas uma melhor compreensão de seus aspectos históricos e metodológicos. Igualmente, adoto esses mesmos procedimentos, mais adiante, em relação aos aportes teóricos emanados da LC.
influência de elementos relevantes como, por exemplo, o emissor, o destinatário, o contexto, o meio para a configuração da mensagem. O lingüista chegava até o significado, porém ficava impossibilitado de explicar os efeitos de sentido que têm lugar no discurso. Então a Pragmática se apresenta como a disciplina que estudaria a comunicação em todos seus fatores pertinentes. Supera o puro significado lingüístico para intentar oferecer uma explicação ao sentido global e particular da mensagem.
Em razão disso, aconteceram desdobramentos teóricos e metodológicos consideravelmente relevantes. Em especial, tornou-se notória nos círculos de estudos lingüísticos a idéia de que há dois grandes paradigmas na Lingüística hodierna: o formalismo e o funcionalismo. Sob o prisma do formalismo, o estudo da forma está centrado na língua (mais especificamente, na sintaxe). Para o funcionalismo, suas estratégias incidem no estudo da função e centram-se nos domínios da semântica e da pragmática.
Seguindo os passos de Hjelmslev (1975, apud MARTELOTTA; AREAS, 2003), no enfoque formalista66 a língua não deve ser interpretada como o reflexo de um conjunto de fenômenos não-lingüísticos, e sim como uma estrutura autônoma em si mesma.
Com efeito, a decisão formalista (estruturalista / gerativista) de estudar a língua em si mesma e por si mesma (langue / competência) e de descrever cada subdomínio (nível / constituinte) mediante a adoção de critérios internos resultou numa perspectiva centrada nos dados formais. Para Neves (1997b), tal ênfase no plano formal da língua desviou o estudo dos dados funcionais concernentes ao uso efetivo da língua (parole / performance) ou mesmo à interação entre os subdomínios.
Com isso, questões essenciais inerentes à natureza interativa e dialógica da linguagem são desconsideradas, tais como fatores extralingüísticos (espaço, tempo,
66 O pólo formalista apresentou, nos seus primórdios, forte manifestação com o descritivismo
americano (BLOOMFIELD, TRAGER, BLOCH, HARRIS, FRIES). Todavia, alcançou máxima aplicabilidade com os vários modelos da lingüística gerativa a partir dos meados do século XX. Para mais informações sobre o gerativismo, indico a leitura de Ruwet (1975), Lopes (1995), Mussalim e Bentes (2001), Weedwood (2002), Paveau e Sarfati (2006), entre outros.
interlocutor, ações) e aspectos psicológico-emocionais (humor, volição, desejos, etc.).
Nesse sentido, segundo Borges Neto (1996), a perspectiva do formalismo não é a da Lingüística, mas a da teoria dos conjuntos e a da teoria das linguagens formais, ou seja, a perspectiva da Lógica-matemática de Montague67.
Isso talvez tenha levado Flenik (2000) a defender a tese de que as línguas naturais seriam reedições (imperfeitas) de uma língua platonicamente lógica. Por essa razão, o trabalho dos formalistas – com relação à semântica –, é o de construir modelos de mundo, estabelecendo um mecanismo formal que relacione as expressões lingüísticas com "os estímulos recebidos da Natureza" que "não são imagens da realidade, mas documentos a partir dos quais construímos nossos modelos pessoais" (CHERRY, 1957, apud JAKOBSON, 1995, p. 78).
Nesse ponto, a visão formalista se revela como uma investigação que se preocupa primordialmente com as propriedades estruturais da língua. Chomsky, o arquiteto da Gramática gerativa, adota uma perspectiva formalista nos processos de análise dos dados lingüísticos. Assim, pelo estudo da língua – em termos de suas partes constitutivas – busca determinar os princípios de sua organização, visando estabelecer as relações entre elas e seu uso (ideal).
Além disso, na visão de Berlinck, Augusto e Scher (apud MUSSALIM; BENTES, 2001), a pesquisa em gramática gerativa da linha chomskiana segue o método dedutivo, que se baseia na introspecção do lingüista. Seus postulados são em favor de um fundamento inatista para explicar o processo de aquisição da linguagem. O tratamento dos fatos lingüísticos acontece de forma modular. Para essas autoras, esse conjunto de características é peculiar a uma abordagem formal de análise lingüística.
67 Modelo de gramática gerativa iniciado pelo lógico norte-americano Richard Montague (1930-1971),
embasado na semântica formal e na lógica matemática. Não considera a referência à fonologia, à morfologia e às transformações, pelo que tampouco distingue nitidamente uma estrutura subjacente ou profunda de outra ou outras superficiais, o que, por outro lado, a aproxima de determinados desenvolvimentos ulteriores da própria gramática gerativa. Circunscreve-se, pelo contrário, ao componente sintático e semântico, em que postula regras veritativas de composição léxica derivadas da teoria de verdade de modelos, que aplica quase exclusivamente ao conteúdo proposicional das orações na delimitação de um determinado “mundo possível“ (SÁNCHEZ, 2000). Leia tambem sobre a gramática de Montague em Marcuschi (2007).
Por outro lado, focando o paradigma funcional68, tem-se também várias abordagens funcionalistas. Com base em Kato (1998), se admite na escola funcionalista a existência de diferenças quanto às funções privilegiadas e o método de trabalho. Por isso, é importante estabelecer de imediato uma distinção entre lingüistas que propõem explicações funcionalistas na descrição de línguas particulares e aqueles que procuram explicar os padrões formais possíveis nas línguas através de princípios funcionais. Para essa autora, os primeiros são os funcionalistas que trabalham em variação intralingüística, e os últimos são funcionalistas que se alinham a uma perspectiva interlingüística (ou translingüística).
Dessa forma, segundo Kato, existem os teóricos que estão mais direcionados ao estudo da variação interlingüística (GREENBERG, 1966: KUNO, 1972; KEENAN e COMRIE, 1977; CLARK e CLARK, 1977; JOHNSON, 1977; DIK, 1978), enquanto outros buscam a causa da variação intralingüística (HALLIDAY, 1967; LI e THOMPSON, 1975; GIVÓN, 1979; HOPPER, 1979; KUNO, 1987; DU BOIS, 1985; VOTRE e NARO, 1989; CASTILHO, 1994)69. No entanto, parece haver um denominador comum que aproxima esses estudos, visto que todos eles estão sintonizados, em maior ou menor escala, com a pesquisa da competência comunicativa dos usuários em situações concretas de interação sociodiscursiva.
De fato, a linha funcionalista da linguagem se tem caracterizado pela diversidade de modelos e propostas que se reconhecem como integrantes dessa corrente, em oposição ao paradigma formal elaborado por Chomsky. Desde novas metodologias de análise do uso lingüístico em determinados grupos sociais até gramáticas que introduzem elementos da pragmática, encontram-se múltiplos aportes que advogam pela necessidade de descrever a linguagem a partir do estudo dos usos reais dos falantes em situações comunicativas concretas.
68 Esse paradigma, segundo Nichols (1984, apud NEVES, 1997b, p. 55-56) e Furtado da Cunha
(1989), recebe um tratamento feito de três modos: o modo conservador, moderado e extremado. Afirma que há um Funcionalismo Conservador, que aponta a inadequação do formalismo ou do estruturalismo, sem propor uma análise de estrutura; o Moderado, que não apenas aponta essa inadequação, mas vai além, propondo uma análise funcionalista da estrutura; o Extremado, que nega a realidade da estrutura enquanto sistema autônomo e considera que as regras se baseiam internamente na função, não havendo, pois, restrições sintáticas. Adoto neste trabalho, em consonância com a maioria dos estudiosos funcionalistas, a postura moderada – pelas razões acima explicitadas.
69 Nesta mesma perspectiva, no plano local, considero também as pesquisas de Furtado da Cunha
(1989), Costa (1995), Silva (2000), Vidal (2000), Costa (2001), Costa (2005) e Furtado da Cunha e Souza (2007), entre outros trabalhos de alguns desses referidos autores.
Segundo Cabré e Lorente (2003), a sociolingüística, a dialetologia urbana de Labov, a análise crítica do discurso, a tipologia lingüística de Givón, as contribuições de Halliday à análise do discurso, a gramática de Dik – são manifestações distintas que compartilham a idéia de que a linguagem é motivada pragmaticamente. Em todos os casos, trata-se de relacionar a estrutura da linguagem com as necessidades, os propósitos, os meios e as circunstâncias da comunicação humana.
A esse respeito, acho oportuno reportar-me às palavras de Kato (1998, p. 13) quando afirma que, em se tratando da forma da gramática, “não se deve menosprezar a importância dos autores funcionalistas-processualistas, que propõem suas análises principalmente com base em dados experimentais e de introspecção”. Pois, segundo Kato, é a sua capacidade imaginativa de descrever contextos possíveis e sentenças possíveis “a responsável heurística das explicações funcional e psicologicamente interessantes”.
Dito isso, encontra-se com a denominação de Gramática funcional tipológica alguns trabalhos de natureza interlingüística, cujos autores mais representativos são Li, Givón e Croft. Pode-se afirmar, também, que as teorias funcionais têm estado sempre preocupadas com análise contrastiva, visando produzir generalizações válidas para o estabelecimento de tipos lingüísticos e para a detecção de correlações entre forma e função (CABRÉ; LORENTE, 2003).
Retomando a concepção de língua como objeto social, pode-se asseverar que, sob a dimensão comunicativa, ela projeta-se no uso e pelo uso. Entretanto, essa manifestação pelo uso deixa-a sujeita a constantes modificações. Na visão de Hopper (1987), a gramática é emergente e por isso as estruturas lingüísticas não podem ser aprioristicamente definidas, nem fixas. A estrutura da língua é moldada pelo discurso: assim, quanto mais uma construção for utilizada, maior a probabilidade de ela tornar-se plenamente estruturada. Estudos recentes elaborados por Bybee e Hopper (2001) ressaltam a importância do papel da freqüência de uso na formação daquilo que se convencionalizou chamar gramática.
A propósito, a gramática funcional, concentrando-se na comunicação dos falantes, tem como ponto de partida as significações das expressões lingüísticas e procura investigar como essas se codificam gramaticalmente.
Nesse sentido, a abordagem funcionalista concebe a linguagem como um sistema não-autônomo, cuja origem advém das necessidades de comunicação70 entre os membros de uma comunidade e que está sujeito às diferentes limitações impostas pela cognição humana e às diferentes pressões oriundas do contexto sociocultural em que se processa a interação verbal71.
Com efeito, para Berlinck, Augusto e Scher (apud MUSSALIM; BENTES, 2001, p. 212), “pensar a Sintaxe segundo uma perspectiva funcionalista implica, então, alargar a análise para além dos limites da sentença”. Assim, os processos sintáticos são compreendidos nas inter-relações do componente sintático da língua com os componentes semântico e discursivo (pragmático). Somente nesse espaço ampliado de investigação pode-se identificar e descrever as motivações das escolhas que o falante faz em termos estruturais.
Importa ainda registrar, com base em Cabré e Lorente (2003), que os funcionalistas tomaram como referência a obra de Greenberg (1966, 1974), cujos postulados sobre tipologia lingüística se centram na formulação de universais sintáticos, a partir da análise contrastiva de um conjunto de trinta línguas. Daí que a aproximação ao estudo dos universais lingüísticos por parte de Greenberg difere ostensivamente do realizado por Chomsky. Greenberg e a tradição funcionalista operam com um maior número de dados e buscam uma explicação funcional ou pragmática para cada universal proposto. A tradição gerativista, a seu modo, opta por trabalhar em detalhe um número menor de línguas, fazer propostas com um maior grau de abstração, centrando a explicação da gramática universal em hipóteses do inatismo da linguagem.
70 É importante observar que, para a GF, o conceito de comunicação não se restringe à codificação e
à transmissão de informação, mas abrange um conjunto de fatores envolvidos no evento discursivo. Dessa forma, o objeto de estudo da GF é a língua em uso, isto é, a competência comunicativa. Na perspectiva funcionalista, a língua é estudada considerando-se a integração dos vários níveis de análise, inclusive os níveis semântico e pragmático, que são centrais para qualquer modelo de investigação funcionalista.
71 Essa parece ser a idéia central do funcionalismo norte-americano, que corresponde ao postulado
básico – a língua é uma estrutura maleável, sujeita às pressões do uso e constituída de um código
parcialmente arbitrário – defendido por Du Bois (1985, apud FURTADO DA CUNHA; SOUZA, 2007, p. 17), e por vários pesquisadores da área, entre estes, destaco aqui alguns trabalhos de representantes da UFRJ/UFF: Oliveira (1994), Martelotta, Votre e Cezário (1996), Furtado da Cunha, Oliveira e Martelotta (2003), e da UFRN: Furtado da Cunha (1989), Silva (2000), Costa (2001), Costa (1995, 2005).
Contudo, segundo Comrie (1981), essas duas posições, mais que se opõem, se complementam, seja metodologicamente ou do ponto de vista teórico, podendo ser defendida uma solução de compromisso que busca a explicação dos universais lingüísticos tanto no âmbito da cognição como dos aspectos pragmáticos da comunicação (CABRÉ; LORENTE, 2003).
Charles Li, por sua vez, parte dos resultados de Greenberg para buscar a motivação funcional dos universais lingüísticos detectados. Entre os anos de 1975 a 1977, Li publica três livros em que aborda as noções funcionais de topicalização e focalização, entendidas como variações lingüísticas de transmissão de informação motivadas pela adaptação ao propósito comunicativo do falante, e defende a integração da sincronia e da diacronia no estudo das línguas.
Em se tratando da linha funcionalista72 givoniana, Votre e Oliveira (1997) afirmam que, como estratégia de equilíbrio dos estudos funcionalistas, Givón (1995) propõe a rejeição ao autoritarismo estrito das correntes lingüísticas e a adoção da diversidade teórica e metodológica. Outros dois pontos relevantes da proposta de Givón consistem em (i) manter o isomorfismo entre marcação sintática e semântica – cláusulas que são mais complexas semanticamente também tendem a ser mais complexas sintaticamente, e (ii) demonstrar que as relações gramaticais não formam categorias discretas, pois são caracterizadas por indeterminação e por gradação.
Talvez, considerando essa postura de Givón como eclética e democrática, possa justificar-se que teóricos como Li e Thompson, Keenan e Comrie, Hopper, Bever, e o próprio Givón, entre outros, procurem legitimar a forma das gramáticas usando como base de estudo os padrões lingüísticos nas várias línguas, pois seu ponto de partida é a forma sentencial (mesmo dispensando estruturas arbóreas), identificando-se nesse caso, segundo Kato (1998), metodologicamente com os formalistas.
72 Por extrapolar os limites práticos e teóricos desta pesquisa, não descrevo aqui o conjunto das
teorias funcionalistas. Lembro, apenas, que, sob o rótulo de funcionalista, enquadra-se o Círculo Lingüístico de Praga – hoje designado de Escola de Praga – movimento pioneiro do pensamento funcionalista encabeçado pelos expoentes Mathesius, Trubetzkoy e Jakobson; a Escola de Genebra com Bally e Frei; os trabalhos de Martinet (França); a Escola de Londres com Firth e Halliday; e o Grupo da Holanda com Reichling e Dik (cf. LYONS, 1979; NEVES, 1997b; NEVES, 1999; MARTELOTTA e AREAS, 2003; CABRÉ e LORENTE, 2003; FURTADO DA CUNHA e SOUZA, 2007).
Kato entende também que a linha de Halliday, por outro lado, usa como ponto de partida não as funções gramaticais para descrever padrões sentenciais, e sim funções de vários níveis como primitivos, incluindo-se aí as funções pragmáticas do tipo ilocucionário, procurando descrever como esse conjunto de funções determinaria o formato das enunciações. Nesse caso, a perspectiva mostra-se interativa entre níveis, embora os níveis enfatizados na descrição sejam aqueles relacionados à comunicação. Com isso, para Halliday, a unidade de estudo é o texto, e não a sentença (unidade sintática), apesar de não se esquivar, metodologicamente, ao uso de unidades sentenciais em sua descrição e argumentação73.
Sobre essa interseção de domínios teóricos, também Rocha (2004, p. 6) vislumbra áreas fronteiriças e de contatos entre estudos funcionalistas e sociocognitivistas:
É verdade que o Sociocognitivismo, apesar de suas características intrínsecas, tem sido confundido com Funcionalismos de toda sorte, muito em virtude do fato de estudar a sensibilidade da expressão lingüística às pressões de uso e tratar a gramática como fenômeno, não como estrutura. É relevante dizer ainda que os sociocognitivistas de hoje foram funcionalistas no passado, o que justificaria, em princípio, o mal-entendido. Na última década, produziam-se artigos científicos a partir da moldura da Lingüística Funcional-Cognitiva (LFC), como o trabalho de Chiavegatto e Ferrari (1997). Na verdade, este foi um modelo de transição para o sociocognitivismo. Nesse artigo, as autoras defendem a motivação conceptual da gramática a partir da LFC, através da qual “buscam- se descobrir, no efetivo desempenho lingüístico dos falantes, em integração com suas experiências psico-sociais, discursivas e culturais, as bases internas, de natureza cognitiva, que sustentam a Gramática” (CHIAVEGATO; FERRARI, 1997).
Com base em Gumperz e Levinson (1996), tem-se afirmado que os sociocognitivistas reivindicam a concepção de contexto como modo de ação 73 Pode-se acrescentar que o funcionalismo de Halliday difere ainda do de autores americanos,
sobretudo pela dimensão cognitivo-sócio-cultural que ele adota em contraposição à perspectiva cognitivo-psicológica dos demais. Assim, por exemplo, se Keenan e Comrie, de um lado, e Kuno, de outro, independentemente, explicam a forma das relativas nas várias línguas usando argumentos de processabilidade, mostrando que as línguas elegem as alternativas que favorecem o processamento automático, Halliday já relaciona complexidade lingüística com complexidade da própria interação social. Nesse sentido, ele se alinha com os funcionalistas sociolingüistas como Sankoff e Brown (1976), para quem o desenvolvimento da crioulização, por exemplo, se dá por necessidades comunicativas (KATO, 1998, p. 16).
construída socialmente, sustentada interativamente e temporalmente delimitada. Entretanto para Salomão (1999), essa concepção é inconciliável para os cognitivistas formalistas e para alguns representantes funcionalistas. Salomão também elucida o fato de que o cognitivismo praticado pelos sociocognitivistas diferencia-se do cognitivismo modularista praticado por Chomsky, Fodor e Pinker. Segundo ela, o sujeito cognitivo que se pretende abordar não é “desencarnado”, mas inserido no meio social, afeito à experiência comunicativa, cultural e histórica.
Com efeito, os falantes – em condições normais de sociabilidade – estão permanentemente imersos no universo sociocultural de uma determinada comunidade lingüística. A sua produção discursiva está permeada pelas marcas emanadas das crenças e saberes locais. Em suas interações comunicativas cotidianas, pode-se observar a veiculação de repertórios temáticos convencionais, socialmente compartilhados e negociados dialeticamente.
Dessa forma, torna-se insustentável o postulado que concebe a linguagem como sistema autônomo, imutável, em que se projeta um sujeito falante, mas usuário passivo desvinculado do processo histórico e sociocultural das práticas discursivas. Na verdade, desde pequenas, as crianças já estão dotadas de extraordinária capacidade cognitiva, que as torna aptas à aprendizagem da linguagem. Progressivamente, elas se inserem nas trocas verbais com os membros da coletividade, dominando os usos cada vez mais sofisticados de sua gramática vernacular (COSTA, 2005).
Ainda lembro que Camacho (1994) afirma que o sistema lingüístico não é arbitrário – como declaram estruturalistas, gerativistas e formalistas em geral –, pois um texto, escrito ou falado, deixa-se modelar pelos usos da linguagem. Assim, o modo como é organizada a linguagem é funcional porque se desenvolve para satisfazer as necessidades humanas. Por isso, não há espaço para algum tipo de "sintaxe autônoma" como quer o formalismo.
Daí que os funcionalistas consideram a sua perspectiva mais abrangente, de alcance mais amplo. Para eles, os formalistas se preocupam com uma parte muito específica da lingüística – a sintaxe – e acabam por esquecer da Lingüística como um todo.
Nesse sentido, julgo oportuno proceder, aqui, à projeção de um conjunto de tópicos contrastivos entre esses dois paradigmas (Paradigma Formal = PFO; Paradigma Funcional = PFU), apresentado em Dik (1989, apud NEVES, 1997b):
Quadro 2 – Tópicos contrastivos entre os paradigmas formal e funcional
Fonte: Dik (1989, apud NEVES, 1997b, p. 46-47).
Observa-se, portanto, a partir do confronto de tópicos listados acima, que ficam muito mais salientes os pontos de divergência entre o paradigma formal e o funcional, de modo que se justifica a adoção de parâmetros de análise bastante distintos por parte de cada modelo lingüístico.
Todavia, nesse ínterim, proponho um recorte temático em relação aos questionamentos teóricos e metodológicos relativos ao cotejo entre esses dois
TÓPICOS PARADIGMA FORMAL PARADIGMA FUNCIONAL Definição de língua Conjunto de orações. Instrumento de interação