Paper I · Bianchi cosmologies with p -form gauge fields 77
A.5 Lie transport and killing-vectors
Alguns estudiosos do campo cognitivista, entre esses menciono Johnson (apud CASTANHO, 2007), costumam identificar três “revoluções cognitivas”. A primeira revolução, iniciada nos finais dos anos 50, representa, na verdade, o estágio inicial de uma revolução em cadeia. Foi protagonizada por lingüistas, entre os quais se distinguiu especialmente Chomsky, e estimulou sobretudo as pesquisas no âmbito da Inteligência Artificial e da Psicologia da Informação. A segunda começa a delinear-se nos meados dos anos 70, a qual se prolonga por todos os anos 80 e 90, mantendo-se válidos os seus princípios gerais, até os dias de hoje, para um número significativo de pesquisadores, entre os quais se destacam Lakoff e Johnson. A terceira revolução, ainda em decurso, se relaciona às investigações empreendidas pelas Neurociências.
Sobre a primeira revolução, Johnson designa-a como a fase da “ciência cognitiva da mente desencarnada” (desincorporada). No entanto, reconhece como mérito fundamental dessa revolução cognitiva a contestação e superação do conceito de mente humana até então imposta pelo behaviorismo, que a considerava um elemento inobservável, inútil à análise psicológica e, por acaso, inexistente. Na exata expressão de Johnson (2002, p. 25) – retomada de Lakoff e Johnson (1999, p. 108) –, a mais importante descoberta chomskiana foi a da existência do "inconsciente cognitivo", ainda que Chomsky nunca se tenha referido a tal entidade nesses termos precisos. O "inconsciente cognitivo" é constituído por estruturas que funcionam de modo automático e em nível subconsciente, as quais dão origem a todas as manifestações humanas de tipo simbólico – e também, portanto, à linguagem humana articulada (CASTANHO, 2007).
Para Johnson (2002), apesar das fundamentais mudanças de perspectiva introduzidas pela primeira revolução concernentes à concepção behaviorista da mente humana, é ainda nesse mesmo contexto de concepção da mente que a chamada primeira revolução cognitiva denuncia as suas maiores limitações. Assim, numa visão que ainda depende, no essencial, da concepção cartesiana de mente, esta era concebida, no âmbito da Gramática Gerativa, como um programa computacional, instalável em diversos tipos de "máquinas" ou de hardware: uma
realidade separada do corpo, que usa este apenas como "suporte de instalação" e fonte de energia.
Todavia, contrariariamente à primeira revolução cognitiva, a segunda já implica a concepção de mente humana como necessariamente incorporada, isto é, radicada numa realidade corpórea e numa experiência do próprio corpo que são os alicerces de todas as fases de desenvolvimento dos processos de cognição, e não apenas meros suportes materiais destes últimos.
Nesse sentido, os estudos sobre os protótipos e as categorias conceptuais básicas – realizados por E. Rosch e U. Neisser; sobre as imagens esquemáticas – estudadas por L. Talmy, R. Langacker; e sobre os frames – através de C. Fillmore, R. C. Schank, muito contribuíram para reforçar a convicção, cada vez mais generalizada, de que existe uma ampla rede de metáforas conceptuais que condicionam a formação da linguagem desde a base, aos níveis mais profundos dos processos mentais subjacentes à criação, à aquisição e ao uso da língua. A segunda revolução cognitiva fixa-se, pois, na tese de que todas as formas de raciocínio e de conceptualização assentam numa base imaginativa e, simultaneamente, numa incontornável base corpórea (CASTANHO, 2007).
Por outro lado, segundo Castanho, é o problema em torno da compreensão do que seja base corpórea que inspira a terceira revolução cognitiva – e que explica o papel central que vem sendo assumido pelas Neurociências. Nestas, desenvolve- se o conceito de corpo fenomenológico, atinente à experiência que os seres humanos têm de si próprios como "habitantes" de um corpo, e o conceito de corpo neural, que implica a tomada de consciência do fato de serem organismos dotados de sistemas neurais complexos, os quais – ao contrário do que preconizavam as correntes até então dominantes nas Ciências da Cognição – condicionam fortemente o desenvolvimento das capacidades linguísticas humanas.
Dessa forma, a Lingüística Cognitiva (LC) tem seus primeiros fundamentos nos últimos anos da década de 60 e início da década de 70, emancipando-se em definitivo a partir dos anos 80. A LC então surge dos questionamentos da relação entre forma sintática e significado, no âmbito do pensamento gerativista, mas se diferenciando deste por repelir a similaridade língua vs. mundo.
O gerativismo, ao contrário do cognitivismo, postula, ainda, que a gramática – e, por conseguinte, o significado – se articula em camadas. Tais camadas, ou blocos, [...] por princípios sintáticos, apresentariam cada vez um grau maior de complexidade, segundo o falante entrasse em contato com estruturas também mais elaboradas. Para os cognitivistas, a construção gramatical está intrinsecamente associada a seu significado, e os elementos (lexicais) é que podem variar. O novo paradigma em que se constitui a LC vê a linguagem como um sistema cognitivo de conceptualização do mundo, portanto não há, para esta vertente, os sistemas computacionais, inscritos de maneira modular e descontextualizada na mente humana, capazes de “gerar” enunciados. Nesta nova visão, vários elementos se articulam na realização da capacidade cognitiva da linguagem – a percepção corpórea, o conhecimento de mundo, os modelos interacionais, por exemplo. A linguagem, sob essa perspectiva, é apenas mais uma das potencialidades cognitivas, ao lado de tantas outras que estruturam nossa conceptualização do mundo.
De fato, a perspectiva cognitiva da linguagem surgiu como resposta ao descontentamento de alguns gerativistas que defendiam a necessidade de uma semântica que estudasse o indivíduo e suas habilidades cognitivas. Isso os obrigou a romper com a tradição gerativo-transformacional e propor postulados básicos distintos, por parte, entre outros, de Johnson, Lakoff e Langacker.
Ainda assim esse não foi o primeiro intento de integrar a perspectiva extralingüística (psicológica, antropológica, neurológica, etc.) na lingüística, pois uma década antes houve tentativas multidisciplinares de abordar essas áreas conjuntamente. Entretanto, realmente, essas colaborações fomentaram o surgimento da LC frente à autonomia gerativista da linguagem, defendendo uma relação entre linguagem e outros aspectos cognitivos e perceptivos. Salienta-se, por exemplo, que as duas principais capacidades cognitivas relacionadas à linguagem são a categorização e os processos de metáfora e metonímia.
Dessa forma, a LC76 que toma relevo nos anos 80, a partir da tradição funcionalista, enfatiza, como pré-requisito para a descrição lingüística, o uso de um conhecimento prévio do mundo (backstage, cognition) de que fazem parte diversos 76 Com efeito, deu-se início à publicação de obras fundamentais sob essa perspectiva, destacando-
se, entre outras, Metaphor we live by (1980), Philosophy in the flesh (1999), ambas de G. Lakoff e M. Johnson; os dois volumes de Cognitive grammar (1987, 1991), de R. Langacker; Women, fire and
dangerous things (1987), de G. Lakoff; Mental spaces (1994), de G. Fauconnier; Toward a cognitive
semantics (2000), de L. Talmy. Também têm sido produzidas importantes obras coletivas como
Topics in cognitive linguistics (1988), editada por Rudzka-Ostyn, e Cognitive Linguistics in the
fatores. Assim, Langacker (1999, apud ABREU, 2003) reconhece que a maior parte dos lingüistas – basicamente funcionalistas e cognitivistas – acredita que a linguagem é moldada e delimitada pelas funções para as quais serve e por uma variedade de fatores inter-relacionados: ambientais, biológicos, psicológicos, evolutivos, históricos e socioculturais.
Em princípio, a abordagem cognitiva, contrariando a tradição milenar (objetivista) da epistemologia ocidental, sustenta-se numa visão do significado lingüístico que emerge com o nome de experiencialismo. Em outras palavras, pressupõe-se que a compreensão humana opere através de estruturas decorrentes da interação do organismo com o meio ambiente que o rodeia, tais como a experiência perceptiva, a deslocação no espaço e a manipulação de objetos (ABREU, 2003).
Nesse sentido, a premissa central do paradigma cognitivo, para a LC, é a natureza do significado e como lidar com ele (LANGACKER, 1987).
Convém lembrar que a LC representa, inclusive, uma associação mais estreita com a psicologia cognitiva. O impulso inicial, para o estabelecimento da LC como um campo teórico específico, veio de trabalhos como os de E. Rosch, psicóloga cognitiva, sobre a natureza da categorização humana.
Para Guadaño (2004), a LC não concebe a linguagem como um sistema autônomo e independente pelo qual se percebe e categoriza o mundo, ou as experiências do mundo. Com isso, o axioma fundamental da LG, se é possível esta afirmação, é que a linguagem humana é a forma privilegiada pela qual se concebe o mundo e se raciocina acerca dele. A linguagem expressa o pensamento e a experiência dos indivíduos, porém não é o reflexo direto de uma realidade autônoma, alheia ao ser humano. Quando se prescinde desse simples fato, segundo Guadaño, a investigação lingüística perde seu foco: se esquece que analisar a linguagem é averiguar como é e como funciona a mente humana.
Assim sendo, uma das coisas que a LC estuda, em sua vertente semântica, é a conceptualização, isto é, a forma como os humanos agrupam suas experiências, as relacionam com outras e raciocinam sobre elas. Em suma, trata de como as pessoas constroem os conceitos, como aprendem e utilizam tais conceitos na
interação com o mundo; como integram e manejam a informação que extraem do entorno natural e social em que se desenvolve a sua existência (GUADAÑO, 2004).
A natureza humana está relacionada causalmente com a existência de universais, tanto lingüísticos como culturais. Cada cultura – e cada língua –, segundo Guadaño (2004), conforma uma concepção de mundo e da vida social que é preciso compreender em seus próprios termos e que não se pode comparar literalmente com outras concepções. Para esse autor, se existe uma natureza humana, é uma questão empírica, não um postulado de princípio, e não implica necessariamente a existência de universais inatos, porque a mente humana pode ser o suficientemente flexível ou plástica para ser capaz de elaborar formas (culturais e lingüísticas) de ver o mundo e a vida social radicalmente diferentes.
Na linha dessas investigações, a LC tem se ocupado especialmente dos problemas de categorização conceptual (teoria dos protótipos e das categorias de nível básico), dos modos de organizar e estocar conhecimento sob uma concepção enciclopédica da semântica (HAIMAN, 1980; LANGACKER, 1987), da conexão entre a conceptualização, o razoamento e as categorias conceptuais enraizadas na experiência sensorial e motora em relação ao entorno – a teoria dos esquemas de imagens (JOHNSON, 1987).
Pode-se destacar, em geral, três grandes linhas (IBÁÑEZ, 2001):
a) os estudos de metáfora e metonímia, instigados por trabalhos já clássicos como Lakoff e Johnson (1980), Lakoff (1987), Lakoff e Turner (1989), Lakoff (1993, 1996), Lakoff e Johnson (1999); nessa linha se inserem também aplicações inovadoras como a teoria dos espaços mentais combinados de Turner e Fauconnier (cf. FAUCONNIER e TURNER, 1996, 1998, 2002; TURNER e FAUCONNIER, 1995), que intentam explicar as projeções metafóricas como uma questão mais de integração conceptual; b) a semântica de marcos (FILLMORE, 1985; FILLMORE e ATKINS, 1994;
LOWE, BAKER e FILLMORE, 1997) ou de modelos cognitivos proposicionais (LAKOFF, 1987), cujo objetivo é descrever com detalhe os componentes e a organização das estruturas conceptuais em toda sua complexidade;
c) os estudos de diversos aspectos da gramática desde o ponto de vista da sua motivação cognitiva. Nesse sentido, destacaremos duas linhas de trabalho: uma, a Gramática Cognitiva, de Langacker, cuja primeira apresentação se fez em Langacker (1982), porém os estudos mais elaborados se encontram em Langacker (1987, 1990, 1991); outra, a Gramática de Construções nas versões de Kay e Fillmore (1994), por um lado, e de Goldberg (1995), por outro.
A propósito, para Nuyts (1993, apud IBÁÑEZ, 2001), a LC é de orientação pragmática, pois se trata de um modelo focado no usuário e que resulta em considerações funcionais. Não obstante, na prática, sua principal preocupação se tem voltado para o estudo do reflexo na gramática de diversos fenômenos semânticos.
A LC é, de acordo com a posição defendida aqui, complementar de uma teoria inferencialista da pragmática. Os modelos cognitivos representam estruturas conceptuais ricas que guiam o trabalho inferencial com base no jogo de informação proporcionado pela relação texto-contexto. Nesse sentido, uma teoria de modelos cognitivos se torna fundamental para a descrição lingüística.
Isso posto, importa registrar que os temas de especial interesse da LC são os seguintes:
os princípios funcionais da organização lingüística (iconicidade e naturalidade);
a interface conceptual entre sintaxe e semântica;
a base pragmática ligada à experiência da linguagem em uso;
a relação entre linguagem e pensamento (incluindo questões sobre o relativismo e sobre os universais conceptuais), e
as características estruturais da categorização lingüística, tais como a prototipicidade, assunto a ser tratado neste estudo.
Nesse estudo, defende-se a noção de construção gramatical que se caracteriza não somente como uma associação de forma-sentido, mas como um sistema de instanciações das condições semânticas de modelos cognitivos genéricos, instanciações essas guiadas pela natureza do potencial funcional das diversas expressões lingüísticas e por fatores contextuais.
Dessa forma, Castilho (2003, p. 61) entende que “a perspectiva realmente mais suculenta é a da exploração das categorias cognitivas, do modo como elas se gramaticalizam na língua, e do modo como elas aparecem ali”. Para Castilho, levar a lingüística do estudo dos produtos para o estudo dos processos de criação dos produtos lhe parece o grande lance que poderá atrair novos pesquisadores. Entretanto, deve-se reconhecer que a gramaticalização é apenas um desses processos, pois a semantização, a discursivização e a lexicalização (foco desta pesquisa) são igualmente outros processos relevantes.
A essa altura, redirecionando-se o foco das discussões para o campo da lexicalização – sobretudo em relação à idiomaticidade –, observa-se que os aportes da LF e da LC propiciam contribuições relevantes ao estudo dos sintagmas verbais idiomatizados.
Faz-se imperativo, portanto, selecionar entre os vários princípios funcionalistas e cognitivos aqueles que melhor se coadunam com o objeto de estudo e com os objetivos desta pesquisa. Dessa forma, seleciono os princípios / parâmetros cognitivo-funcionais da marcação, figura-fundo, prototipicidade, motivação metafórica, mediante os quais tento descrever as propriedades sintáticas, semânticas e pragmáticas dos SVIs focalizados nesta pesquisa.
Em suma, a abordagem cognitivo-funcional da língua consiste na exploração de fenômenos cognitivos, socioculturais, históricos, além dos aspectos formais e funcionais inerentes à organização e processabilidade comunicativa.