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3.3 C ROSS - RESISTANCE

Em termos de produção documental, nas questões de culto e liturgia, temos o documento Vida e Missão52, produzido por uma geração de metodistas, totalmente envolvida com as questões da Igreja Cristã na América Latina e com as suas propostas pastorais, teológicas e litúrgicas para a realidade brasileira.

Esse documento aprovado no XIII Concílio Geral da Igreja Metodista, em 1982, ainda apresenta traços de atualização tanto para uma reflexão interna da igreja como para o seu envolvimento com a sociedade em perspectivas sacerdotais e proféticas (cf. Plano de Vida e Missão, 1982).

A Igreja participa na missão e cresce em santificação, o que acontece quando produz atos de piedade e obras de misericórdia. Os atos de piedade são principalmente o culto e o cultivo da piedade pessoal e comunitária e as obras de misericórdia são preferencialmente o trabalho que valoriza e realiza a pessoa enquanto constrói em amor e justiça, a nova comunidade e o Reino de Deus. (cf. SILVA, 2005, p. 14)

Maraschin, (1996) diz que, nesta proposta Litúrgica estão de forma clara as dimensões da ―piedade e da misericórdia‖: O culto em sua liturgia deve: ―ser amplamente participativo, onde a comunidade tenha vez e voz; ser inserido no dia-a- dia da comunidade onde a Igreja está localizada; expressar as angústias, lutas, alegrias e esperanças do povo, ofertando-as a Deus.‖ (P. Vida e Missão, 1982, p.15) A proposta litúrgica considera recomendações de participação do povo, nas celebrações, que sejam contextualizadas e que respondam às aspirações do povo. A igreja Metodista a partir dos anos 60 tem o desafio de refletir junto à comunidade suas questões e problemas, realizando uma renovação na essência da liturgia pastoral, com as propostas mencionadas no documento Metodista. (cf. PVM, 1982, p.15).

Congar destaca a liturgia da palavra e do Espírito, como um instrumento de reflexão teológica sobre a Igreja Cristã atual do sec. XX bem como a dimensão dialogal e de serviço presentes em suas celebrações litúrgicas. (cf. CONGAR, 1989, p. 41)

52 Plano para a Vida e Missão. São Paulo: Ed. UNIMEP, 1982; Decisões do XII Cocilio Geral da Igreja Metodista

Valverde discute os espaços para a adoração, para a confissão, para o louvor, para a Liturgia da Palavra e para a Comunhão Eucarística, (cf. VALVERDE, 1996, p. 15), de uma forma que possam transcender, em muito, as dimensões rituais. (cf. BECKHAUSER, 2004, p.110)

É nesse olhar hermenêutico, de uma liturgia numa dimensão de relações: Deus, pessoas e vida, que podemos analisar a ilustração de Kirst, para definir liturgia e situar o lugar das celebrações litúrgicas na vida dos celebrantes:

Kirst, fala de um ―rancho‖ construído pelos camponeses em um canto da área das atividades rurais como o local onde se amola as ferramentas, mata-se a sede, fazem-se as refeições e renovam-se as forças para a continuidade dos serviços, ou seja, ―a família vai da enxada para o rancho e sai fortalecida do rancho para a enxada.‖ (KIRST, 1998, p.119)

As afirmações de Kirst alertam-nos para o fato de que ―a construção física do espaço para as celebrações litúrgicas pode ser reservada exclusivamente para esse fim, mas não pode estar acima ou à margem dos labores e alegrias da vida.‖

Esse é o risco atual dos templos cristãos que nos foram mandados pelo cristianismo português de um lado, e pelo cristianismo Alemão, Inglês e norteamericano, de outro. Com isso, perdemos a simplicidade da casa (Mt 26.18) e da mesa (Lc 24.30) como locais de diálogo com Deus, com o próximo e com as outras expressões de vida existentes. A liturgia do serviço visto a partir do campo, da zona rural, do trabalho na agricultura e da convivência caipira reflete bem a questão de uma ecoliturgia, que ainda hoje é expressa e cantada nos cultos das igrejas do interior através das musicas de raízes, caipiras, duplas de duas vozes sertanejas que relatam testemunhos de conversão, o evangelho na roça e a grandiosidade da criação na natureza.

É preciso um retorno não no modo de vida, mas no modo de dar sentido à vida por meio dessa liturgia serva. Nas diversas expressões litúrgicas, há a necessidade de se conscientizar de que cada vez mais, vivemos um tempo de abundância de celebrações, mas a liturgia cristã, em sua essência, só acontece quando os elementos que a envolvem possibilitam uma reedição de Hb 1.1-4: ―Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.‖ Sobre o assunto discorre

A Expressão, ―a busca do falar de Deus‖, termo utilizado para se referir a pessoas ou grupos que ressaltam o emocional nas atividades litúrgicas, esse deve ser um dos desafios igreja metodista em popularizar a questão litúrgica no contexto cúltico e de uma ecoliturgia.

Kirst diz: ―Tanto nas camadas mais pobres, como nas elitizadas, onde a liturgia possa atingir a linguagem de cada um, bem como sinalizar um diálogo com as questões de sentido da vida.‖ (cf. KIRST, 1998, p.119-129)

O que caracteriza uma liturgia cristã é o diálogo com Deus, o ato de dirigir-se a Deus e ouvir o seu falar. Não importa aqui seu espaço, sua identidade sua comunidade.

A liturgia da palavra, termo litúrgico utilizado para designar as leituras bíblicas do Antigo Testamento; do Evangelho, das Cartas ou Atos dos Apóstolos que, com a homilia ou pregação sempre focou na celebração litúrgica cristã, o falar de Deus nos diversos tempos da História.

Ela deve estar aberta a todos os desafios da realidade, obrigando necessariamente a contextualização por parte da liturgia na vida e vivência do cotidiano de cada um.

A celebração começa na estrada, lugar de partilha das questões reais e, naquele momento, entristecedoras e carregadas de desesperanças.

A presença litúrgica se torna um meio da presença espiritual. Assim, a liturgia tradicional deve assumir a liturgia do ―rancho‖ trabalhado por Kirst. (cf. KIRST, 1998, p.119-129)

As questões existenciais dos celebrantes são valorizadas e desenvolvidas na perspectiva de uma construção conjunta, de alternativas litúrgicas que os possibilitem encontrar novos sentidos para a vida e para a situação que os afligiam, tanto pessoais como da sociedade.

Confirmando esta idéia Magali Cunha cita:

Essa base bíblica se reforça na humanidade de Cristo: Deus estava em Cristo, se fez carne, se fez parte da sociedade e da criação. E se solidifica ainda mais com o estabelecimento do Reinado de Deus, uma imagem política desenvolvida por Jesus para expressar o projeto de Deus para sua criação (valores, ações, comportamentos, posicionamentos). (CUNHA, apud. RENDERS, 2009, p. 132)

Niebuhr (1951) citado por Cunha faz uma avaliação critica do isolacionismo e mundanismo da igreja. (CUNHA, apud. RENDERS, 2009, p. 132)

a) ―Não é fácil convencer as igrejas a se engajarem socialmente.‖ b) ―O discurso é bonito, mas a prática não lhe diz respeito.‖

c) ―Onde está o exercício da responsabilidade como cristãos/ãs? Hoje cantamos tão bonito... e a ação?‖

d) ―Corremos o risco nas igrejas de viver um ensimesmamento (isolamento coletivo).‖

e) ―A Igreja vive em outro mundo: divide claramente o mundo de lá e o mundo de cá. A ação social acaba sendo algo paralelo e marginalizado nas ações da igreja‖.

A liturgia metodista na tentativa de unir questões da natureza em atos litúrgicos, muitas vezes tem sido entendida, como igreja sem doutrina, igreja de elite e não raro com coisas anticristãs dentro das igrejas. Isto por outras igrejas irmãs, como também por membros da comunidade.

Este desafio se dá até mesmo nas datas previstas no calendário litúrgico como ex: Natal, ressurreição, onde várias pessoas se escandalizam com o acender de velas e com símbolos que não estão no pensamento popular evangélico fundamentalista brasileiro.

Vê-se também no ato de contextualizar textos bíblicos a realidade da ciência, uma rejeição quanto a liturgia e ações metodista. A ponto de haver dizeres como: ―estão fora da palavra‖ ou ―isso é do diabo‖; a acupuntura é do diabo; a homeopatia é espírita; a igreja metodista é igual à igreja católica; não aceito isto dentro da igreja, isto não é de Deus; não está na bíblia.

Cunha diz ser necessário popularizar e conscientizar mais os membros e simpatizantes do pensamento e da teologia metodista, sua posição, expressão e entendimento da realidade de forma mais incisiva, possa contribuir para responder aos desafios da vida litúrgica da comunidade. (cf. CUNHA, apud. RENDERS, 2009, p. 131-133).

Tal responsabilidade universal é incompatível com um espiritualismo que limita a preocupação da igreja a valores não materiais; com um moralismo que não compreende o valor do pecador e da nação pecadora; com um individualismo que torna a humanidade como um todo e suas sociedades menos preocupada com Deus do que como mercado e com qualquer daquelas teorias particularistas e politeístas de valor e responsabilidade que substituem o Deus-em-Cristo por outra divindade como a fonte do ser que tem valor. (CUNHA, apud. RENDERS, 2009, p. 131)

A Herança Metodista mostra o equilíbrio de Wesley na caminhada de sua fé. Quando diz: ―No presente século de gigantesco progresso científico e tecnológico, a Igreja Metodista reafirma a verdade proclamada por João Wesley no século XVIII na Inglaterra: Vamos unir ciência e piedade vital há tanto tempo separadas‖. (Credo Social, 1971, Item 5).

Neste sentido Renders vê a possibilidade de uma interação maior da liturgia, isto é, entre fé e ciência, hoje em dia e, diz como podem se articular as novas relações entre ciência e fé:

Temos hoje uma tendência mais autocrítica tanto entre os cientistas naturais e humanos como entre os teólogos. Dessa forma, podemos superar antigos discursos mais apologéticos e nos concentrar às perguntas mais essenciais. Por exemplo, seria o ser humano uma máquina? Um conjunto muito complexo de impulsos químico- elétricos? Pode-se descrever e compreender o ser humano somente na base dessas descobertas? Há tendências nas interpretações neurológicas e genéticas que fortalecem uma visão mais determinista do ser humano, reduzindo ou questionando a sua capacidade de escolher ou responder. ―Certamente precisamos compreender ainda melhor o significado do fato que o ser humano faz parte da natureza, em termos teológicos e da criação.‖ (RENDERS, 2009, no 19)

Esta união expressa na verdade o que pensamos e como podemos praticar a nossa práxis litúrgica, assim, a implantação do Plano para Vida e Missão (PVM) se deu com algumas dificuldades, porém abriu mão de uma estrutura pesada da vida da igreja. O processo reforçou o papel do leigo na vida e liturgia da igreja, abriu oportunidades de reflexão das necessidades das igrejas locais e uma motivação de pequeno crescimento nacional. Renders diz que a proposta do PVM-Plano de Vida e Missão está contextualizada no pensamento de uma liturgia Wesleyana e cita:

PVM - Plano para Vida e Missão, pretende provocar uma espiritualidade que é muito parecida com o aspecto místico: ambos propõem como elemento essencial um contato imediato — ou seja, sem intermediação. O acento místico favorece o contato imediato com Deus e o acento ético o contato imediato com o próximo que se torna contato intermediado com Deus. Assim a liturgia, ou seja, ambos têm a idéia em comum de que a espiritualidade acontece face-a-face, para com Deus, face-a-face ao próximo. 25 anos depois da criação do PVM e 20 anos depois da implantação de dons e ministérios precisamos entender melhor a contribuição do metodismo na terra brasileira e perguntar qual é a espiritualidade que tem a força, a compreensão e a humildade para fazer isso acontecer. (RENDERS, 2007, p. 102)

Todos esses esforços estão vinculados, sem sombra de dúvidas, aos valores, em grande parte, apreendidos e vivenciados nas práticas litúrgicas. Pois, sendo a ―Liturgia Cristã um abrir de olhos para a vida no encontro com o Ressuscitado‖, é difícil admitir que o diálogo litúrgico com Deus em Cristo, não nos leve à renovação do encontro com o outro, com a natureza, nas questões ambientais e ecológicas.