Box 4.1 Summary response to Question 3
4.2 Climate change and air quality in the historical record
4.2.2 The role of weather in day-to-day and inter-annual variations in air quality at the UK and European scale
Fonte: GOOGLE MAPS, 2011.
As passagens de acesso ao local do ensaio são fechadas para automóveis, e a entrada de pessoas ocorre mediante pagamento, sob controle de seguranças. Há um acordo entre a escola e os bares que ficam dentro do perímetro interditado pela Vai-Vai. Por exemplo, para não haver concorrência, todas as barracas da Vai-Vai e esses bares vendem pelo mesmo preço apenas latinhas de cerveja da marca patrocinadora da escola. Apesar de alguns vendedores demonstrarem certa insatisfação com a proposta colocada pela agremiação, todos obedecem a regra.
De acordo com a percepção de Paulo, muitas famílias se afastaram da escola por considerarem que o carnaval está cada vez mais atrelado ao mundo dos negócios. Afirma ainda que outros se encontram incapacitados financeiramente de participar dos ensaios e desfiles:
É complicado tipo um pai de família, ele, a mulher e mais dois filhos irem ao Vai- Vai todo domingo e pagar vinte conto para cada um, já é difícil. Aí tem a condução, chega no carnaval todo mundo quer desfilar, não tem um boleto pro pessoal ir pagando a fantasia. Porque o carnaval é o ano todo, quem desfila um ano vai querer continuar desfilando. É uma forma de o povo participar, mas hoje tem muita gente que fica de fora, porque tem que pagar a fantasia da filha, da mulher e a dele. Cada uma quinhentos conto, é você trabalhar o ano todo para desfilar, receber o décimo terceiro e pagar as fantasias e fora o ensaio, e quem bebe uma cerveja, se tiver carro, tem que pagar o estacionamento. Então hoje, até o pessoal da Bela Vista mesmo, tem muitos que não desfilam, por causa desse carnaval caro que tem agora (PAULO ‘ÁFRICA’ ROGÉRIO. Entrevista realizada em: 05/07/2013).
Sobre os custos relacionados a entrada nos ensaios e as observações pontuadas por Paulo, durante a pesquisa verificou-se uma série de táticas utilizadas para “burlar” o pagamento. Até certo horário, ainda no começo da festa, a entrada “clandestina” é concebida pelos seguranças da escola, ao ser comprovado que a pessoa é da comunidade, do bairro. Outros chegam com antecedência, antes das ruas serem fechadas e ficam dentro da “quadra” antes do evento começar, garantindo sua entrada gratuita. Penteado, por sua vez, pondera que há um trabalho social dentro do próprio desfile, uma vez que em alas específicas as fantasias não são vendidas, mas sim doadas aos componentes. Dentre as alas mencionadas estão a Alas das Baianas, Ala da Comunidade, Bateria.
Kelly, a coordenadora da Ala da Comunidade, explica que o lema da Vai-Vai é
Escola do Povo e que sendo assim, sua comunidade não se restringe ao bairro da Bela Vista. Ela informa que muitas pessoas nasceram e cresceram no bairro, mas por motivos financeiros tiveram que se mudar para a Zona Leste, Zona Sul, entre outras. Famílias que hoje moram afastadas continuam frequentando a Bela Vista quando as atividades da Vai-Vai se intensificam. Penteado complementa que algumas pessoas, mesmo residindo na Cidade Tiradentes, afirmam ser do Bexiga, porque a relação do bairro e a Vai-Vai é muito forte. Nesse sentido, Kelly considera que essas pessoas também tem o direito de desfilar na Ala da Comunidade. O critério para compor a Ala é participar de todos os ensaios e demonstrar prazer em participar, mas como são apenas 100 componentes, as vagas são disputadas:
É aberta uma inscrição, a gente faz um caderno, só que tem aquela coisa, né? Tem um limite, se não, não dá para todo mundo. Infelizmente estamos com 100, que na verdade esses 100, já estão quase ultrapassando. Que nem, eu estou com uma lista de mais ou menos 450 pessoas interessadas. Mas sempre dá um jeito d colocar aquele componente, que são pessoas que gostam, que você vê nos ensaios, você entendeu? O critério da ala, é participar dos ensaios e a pessoa demonstrar que gosta de participar (KELLY APARECIDA DA SILVA. Entrevista realizada em: 22/10/2013).
Porém Paulo entende que isso ainda é muito pouco e não resolve o problema, refletindo que deveria haver mais alas para a comunidade. Em um dos ensaios pude conversar com uma senhora que resumia muito bem esse público descrito por Kelly e Paulo. Essa senhora negra, com um pouco mais de sessenta anos, me informou que morou por muitos anos na Bela Vista e que já passou madrugadas e madrugadas a costurar fantasias para Vai-Vai sair na avenida. Agora ela mora no bairro do Campo Limpo, um bairro afastado do centro na cidade, na zona sudoeste. Segundo seu relato, ela foi ao ensaio procurar alguém conhecido da escola para lhe conseguir uma fantasia (de graça), pois desfilava na Vai-Vai praticamente todos os anos.
Durante os ensaios, é perceptível que tanto os membros da escola como o público que frequenta, é majoritariamente negro, principalmente nos meses iniciais de ensaio. Em uma das visitas cotidianas à sede, uma senhora comentava para a outra sobre a primeira atividade do pré-carnaval: “Você deveria ter vindo, precisava ver que lindo. Só
tinha a nossa gente. Sabe? Só a negritude”. Conforme se aproximam as datas dos desfiles de carnaval, quando as escolas de samba adquirem maior notoriedade e status, os ensaios são fortemente marcados pela presença de turistas e foliões. Os relatos demonstraram também que a participação de migrantes nordestinos do bairro e de imigrantes africanos que residem nas redondezas é pouco expressiva, tanto no cotidiano da escola, como nos dias de festas.
Por vezes, a administração da escola pode se configurar como rígida e hierárquica. Para Penteado, apesar do cotidiano da escola ser marcado pelo trabalho das mulheres, e de considerar o samba uma manifestação cultural matriarcal, poucas compõem a diretoria, que é pesadamente masculina. Muitos dos integrantes que assumem algum cargo de coordenação possuem um vínculo familiar com alguém que participa da escola, ou seja, são parentes de algum fundador, ou residem no bairro há anos e pertencem a uma rede de amizade. Os departamentos da Vai-Vai são: Departamento de Assistência Social, Departamento de Esportes (ou seja, o vínculo com o futebol de várzea permanece), Departamento de Informática (responsável pela página eletrônica da escola), Departamento Social (departamento de caráter receptivo, equipe responsável como, por exemplo, receber as coirmãs). Há ainda as alas com seus respectivos chefes (como Ala das Baianas, Ala da Comunidade, Ala de Compositores, Ala das Passistas, Ala das Crianças), a Bateria com mestre e diretores, Intérprete, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, os Diretores de Harmonia e Disciplinas113 (responsáveis pela organização do desfile, principalmente em relação ao canto e evolução), Velha Guarda, Rainha de Bateria, Madrinha de Bateria, etc.
4.3.2 Fica Vai-Vai No Bexiga
Como foi apresentado na seção 3 deste estudo, a construção da estação do Metrô Linha 6 - Laranja (São Joaquim - Brasilândia) dispõe a desapropriação do GRCSES Vai- Vai. Praticamente todos os entrevistados que opinaram acerca dessa determinação consideram que a Vai-Vai deve permanecer na Bela Vista, porém as opiniões sobre a permanência da escola na atual sede são controversas. Algumas falas denunciaram que a desapropriação da Vai-Vai significa uma expulsão sumária da população negra, que a escola
113 Kelly explica que os Disciplinas tem mais proximidade com os componentes e intermediam componente e harmonia.
é vista como um local de marginais, e que a região não necessita de mais uma estação de metrô. Outros consideram que a sede deve ser deslocada para uma área maior, um lugar onde haja a possibilidade da escola ter uma quadra. Todavia, a grande maioria considera que esse deslocamento só pode ocorrer desde que dentro dos limites do bairro.
De acordo com as palavras de Carlos o metrô significa progresso e é algo positivo para os moradores. Complementa ele que hoje em dia a permanência da Vai-Vai onde está é inviável, porque sem uma quadra não é possível criar departamentos, criar eventos grandes tal como os encontros de bateria, não é possível crescer e nem ajudar a comunidade, porque sem quadra é impossível: “trazer seu povo. Você tem que ter uma casa
para proteger sua família”114. Alguns consideraram também que a saída da Vai-Vai não deve ser motivada apenas por uma quadra maior, mas também pelas constantes reclamações e abaixo-assinados de moradores próximos à sede que se incomodam com a escola.
Como descrito anteriormente, o movimento Fica Vai-Vai no Bexiga surgiu por meio de uma reportagem115 divulgada nas redes sociais que afirmava a mudança da escola de samba para o bairro da Luz. Isso preocupou bastante os componentes uma vez que o deslocamento para outro bairro descaracterizaria a Vai-Vai, Paulo argumentou que todas as raízes da escola, toda a sua tradição, toda a sua história, está relacionada com o bairro há mais de oitenta anos. Penteado e Paulo afirmam que realmente alguns diretores consideraram ir para o terreno oferecido pelo poder público na região da Luz motivados pelo sonho de uma quadra para a escola, mas houve uma pressão da maioria dos componentes para que isso não ocorresse:
Realmente a diretoria do Vai-Vai abraçou essa ideia. Pelo que eu entendi, para eles seria um bom negócio, mas foi aí que surgiu essa revolução popular (PAULO ‘ÁFRICA’ ROGÉRIO. Entrevista realizada em: 05/07/2013).
Como eles ainda querem reurbanizar a Luz. [...] Queriam dar um terreno para gente, para fazer parte da reurbanização. Aí saiu até no jornal, mas ficou aquele “vai, não vai”. Mas nós não vamos, porque como eu disse, Bexiga é Vai-Vai, Vai- Vai é Bexiga. “Como falar do Bexiga na Luz”? Daí falam que a gente vai para a rua, mas nós já estamos na rua (FERNANDO PENTEADO. Entrevista realizada em 22/07/2013).
Até o fim dessa pesquisa o paradeiro da sede da agremiação ainda era uma incógnita. No último ensaio oficial da escola, no Dia da Benção, um dos componentes lamentou ao microfone que aquele poderia ser o último ensaio da Vai-Vai naquele lugar.
114CARLOS ALBERTO RIBEIRO ‘Pastel’. Entrevista realizada em 25/07/2013.
115 ATHAYDE, Eduardo. Vai-Vai quer trocar o Bixiga pela Cracolândia. Diário de São Paulo, São Paulo, 8 março 2013. Dia a Dia. [online] Disponível em: http://diariosp.com.br/noticia/detalhe/45838/VaiVai
4.3.3 Religiosidade no samba
Como foi pontuado em momentos anteriores da pesquisa, tanto o pároco da Igreja Nossa Senhora da Achiropita como o babalorisá Francisco de Òsùn abençoam a escola no último ensaio que precede o desfile. É o Dia da Benção. Quando a escola é a vencedora do carnaval, os membros da alvinegra vão em conjunto até a porta da Igreja e rezam em agradecimento à santa padroeira do bairro. A foto 22 registra um dos momentos da Benção, padre e pai de santo estão no palco externo da escola, diante de seu símbolo maior, o pavilhão. Integrantes da Pastoral Afro Achiropita e membros da Vai-Vai também dividem o mesmo espaço. Primeiramente o padre faz a sua preleção, no intuito de entregar a escola nas mãos de Jesus Cristo e de Deus, e benze os símbolos da Vai-Vai e seus componentes. Em seguida, o babalorisá com a mesma intenção de fazer reinar a paz entre os homens dentro da escola de samba, com o uso do adjá (sineta ritual de metal) reza em yorùbá para Oxálá. Ao invés de água benta, assopra a pemba de Oxalá (pó branco ritual) e ao final solta um pombo branco, em louvação ao òrìsà. Durante a cerimônia, na mesma mesa são apoiados os santos católicos ao lado dos elementos rituais do candomblé:
Foto 22. Dia da Benção - GRCSES Vai-