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How will key meteorological conditions change in the future?

Eltham July

4.4 Climate change and air quality in the future

4.4.1 How will key meteorological conditions change in the future?

A resistência às relações de poder mantidas por sujeitos africanos e seus descendentes no período escravocrata do Brasil assumiu diferentes formas: da resistência cultural e religiosa à insubmissão aos trabalhos forçados, ocupação das terras disponíveis, revoltas, fugas, abandono das fazendas, formação de quilombos, entre outras estratégias (MUNANGA, GOMES, 2004). Nas cidades, havia os chamados quilombos urbanos, ademais, a cidade oferecia uma chance maior de anonimato para os foragidos das fazendas. Segundo Rolnik ([1989] 2007), tais espaços eram moradias “coletivas no centro da cidade ou núcleos semirrurais – as roças das periferias urbanas, bastante semelhantes ao que são hoje as roças de periferia dos terreiros de candomblé nas cidades” (ROLNIK, [1989] 2007, p.78). No final do século XIX, segundo essa autora, se constituiu o Quilombo do Saracura, na região brejeira às margens do córrego de mesmo nome que fora canalizado por galerias subterrâneas em meados da década de 1930. O Mapa 140– O Córrego da Saracura – indica o caminho dessas águas:

40 Os mapas deste estudo foram elaborados por meio dos Dados Cartográficos © 2013Google, recurso disponível no sítio eletrônico https://maps.google.com.br/.

Mapa 1. O Córrego da Saracura

Fonte: NASCIMENTO, Larissa Aparecida Camargo do; 2014.

Segundo a oficina-intervenção Trafegar pelos rios do Bixiga (2013) do Coletivo Mapa Xilográfico, e como demonstra o Mapa 1, o córrego Saracura possui o afluente Saracura Pequeno. O Saracura ou Saracura Grande possui sua nascente, no morro do Caaguaçu, região da Avenida Paulista, de onde desce no sentido da Rua Almirante Marques Leão, ao lado da Rua Rocha, até se juntar ao Saracura Pequeno, que nasce entre a Avenida Nove de Julho e a Rua Barata Ribeiro. Ambos se encontram na Avenida Nove de Julho na altura da Praça Quatorze Bis e segue até desaguar no Ribeirão Anhangabaú, na altura da Praça da Bandeira.

Ao lado do que hoje é a movimentada Praça da Bandeira, havia o antigo Largo do Piques, atualmente denominado Largo da Memória. Ali foi construído em 1814 o primeiro monumento da cidade de São Paulo - a Pirâmide do Piques - atual Obelisco da Memória. No século XIX, o Largo do Piques era uma região de intensa atividade comercial e grande movimento de tropeiros, justamente por significar um ponto onde cruzavam

Legenda

Região aproximada da nascente do Saracura Grande Região aproximada da nascente do Saracura Pequeno Praça Quatorze- Bis – ponto aproximado do encontro do Saracura Pequeno e Saracura Grande

GRCS Escola de Samba Vai-Vai Instituto Afro-Religioso Ilê Asé Iyá Òsùn

várias estradas, tanto para o interior como para fora da Província. No Chafariz do Piques, extinto em 1872, os tropeiros se abasteciam de água potável e descansavam os animais (KOK, 2004). Segundo Célia Lucena (1984), Rosangela Borges (2001), Marcio S. Castro (2008) e mesmo no documentário São Paulo - Memória em Pedaços: Bexiga (1997),junto à Pirâmide do Piques, ocorria, uma vez por semana, o leilão de escravizados:

Se, muitas vezes, na lembrança paulistana, o Largo do Piques aparece como local de orgulho, pois com suas feiras de animais, suas casa de comércio, seu Obelisco da Memória ostentando um poético chafariz, contribuiu muito para o progresso urbano da área citadina de São Paulo, ele é lembrado por muitos como palco de acontecimentos sombrios, lugar de triste memória.

Acontece que no Largo do Piques, exatamente junto ao chafariz, uma vez por semana, quando o sino de bronze da Igreja de São Francisco anunciava o meio- dia, começava o concorrido leilão de escravos (BORGES, 2001, p.42).

No entanto, durante esses leilões ocorriam fugas também:

As capoeiras e capinzais que havia em torno do Tanque Reúno, no Bexiga, como em outros pontos que corriam o Anhangabaú e o Riacho do Saracura, serviram de esconderijo onde se aquilombavam negros rebelados. Esses matos eram convidativos para esconderijos. Em 1831 foi feito um documento com a tentativa de fechar o acesso do Anhangabaú para o Bexiga, cujo objetivo era impedir o trânsito de escravos fugitivos para o Bexiga (LUCENA, 1984, p.24).

No trecho destacado Lucena (1984) afirma que, na primeira metade do século XIX, negros rebelados aquilombavam-se nas matas próximas do rio Anhangabaú e do riacho Saracura, sendo que um dos pontos de morada era em torno do Tanque Reúno. De acordo com Sacchetto (2001), o Tanque Reúno ou Tanque do Bexiga localizava-se no Campos do Bexiga e era um alargamento do córrego Saracura que formava uma espécie de lago. Dessa maneira, antes mesmo do loteamento dos Campos do Bexiga, em 1878, e da chegada dos imigrantes italianos, viviam nestas matas africanos e seus descendentes. O Mapa 2 - Planta da Cidade de São Paulo (1800-1874) de Affonso A. de Freitas, reproduzido no estudo de Lucena (1984), demonstra o Tanque Reúno junto à Chácara e Campos do Bexiga:

Mapa 2. Planta da Cidade de São Paulo (1800-1874)

Fonte: LUCENA, Célia Toledo; 1983.

Contudo, além da narrativa do Quilombo do Saracura indicar que os primeiros habitantes do Bexiga eram negros, existem outras versões a respeito da origem do bairro a partir da sua nomeação popular: Bexiga. Pois, desde 1791 até o final do século XIX, a região que hoje fica entre as Ruas Santo Amaro e Rua Santo Antônio, conforme indica o Mapa 02, era conhecida como Chácara do Bexiga. Esse fato não só é curioso, mas pode revelar que há, por trás, uma disputa entre grupos distintos acerca de quem seriam os pioneiros nesta localidade.

De acordo com uma destas versões havia uma hospedaria próximo ao Largo do Piques cujo dono chamava-se Antonio Bexiga. Nesse local haveria quartos para hospedagem de tropeiros e local para esses descansarem os animais. Bexiga seria um nome popular que faz referências à doença varíola e seria, portanto, um apelido uma vez que Antonio apresentaria marcas da doença no rosto. Outra versão considera que, pelo fato da Bela Vista encontrar-se, na época, numa região mais afastada do núcleo urbano, seria um lugar que acolhia escravizados acometidos pela mesma doença. Seria uma maneira de

isolar os doentes, uma vez que não haveria cura para a doença e, portanto, a medida profilática seria o isolamento. Uma terceira hipótese afirma que a denominação viria do fato do dono da chácara comercializar “bexiga de boi”, negócio lucrativo e bastante explorado na São Paulo daquela época. Lucena (2013) discorre ainda que havia um Matadouro Municipal na Rua Santo Amaro, próximo à hospedaria de Antônio Bexiga, indicando o intenso comércio de bexigas de boi na região. Posteriormente, devido à proximidade do centro da cidade e das águas do rio Anhangabaú, que abasteciam três principais chafarizes de São Paulo, o Matadouro foi transferido para a Rua Humaitá em 1852, como confirma o depoimento de Roberto Fiovoranti41, aos 92 anos de idade, em entrevista à Lucena (2013). A autora indica ainda que em 1887 o Matadouro foi transferido para a Vila Mariana.

Apesar das contradições a respeito dos motivos que acarretaram na denominação popular ao bairro, Lucena (1983, 1984, 2013), Borges (2001) e Castro (2006), entre outros pesquisadores, apoiam-se na citação de Afonso A. de Freitas que anuncia lá pela década de 1870, antes da ocupação em massa de imigrantes italianos, que “a Chácara do Bexiga possuía extensas plantações de jabuticabeiras, laranjeiras e capinzais, onde se caçavam veados, perdizes e até escravos fugitivos”. Portanto, revela-se que escravizados foragidos desde muito antes habitavam os Campos do Bexiga, constatação que concorda de certa maneira com a pesquisa de Raquel Rolnik ([1989]2007).