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Box 3.1 Summary response to Questions 1 and 2

Fonte: LUCENA, Célia Toledo; 1983.

Contudo, além da narrativa do Quilombo do Saracura indicar que os primeiros habitantes do Bexiga eram negros, existem outras versões a respeito da origem do bairro a partir da sua nomeação popular: Bexiga. Pois, desde 1791 até o final do século XIX, a região que hoje fica entre as Ruas Santo Amaro e Rua Santo Antônio, conforme indica o Mapa 02, era conhecida como Chácara do Bexiga. Esse fato não só é curioso, mas pode revelar que há, por trás, uma disputa entre grupos distintos acerca de quem seriam os pioneiros nesta localidade.

De acordo com uma destas versões havia uma hospedaria próximo ao Largo do Piques cujo dono chamava-se Antonio Bexiga. Nesse local haveria quartos para hospedagem de tropeiros e local para esses descansarem os animais. Bexiga seria um nome popular que faz referências à doença varíola e seria, portanto, um apelido uma vez que Antonio apresentaria marcas da doença no rosto. Outra versão considera que, pelo fato da Bela Vista encontrar-se, na época, numa região mais afastada do núcleo urbano, seria um lugar que acolhia escravizados acometidos pela mesma doença. Seria uma maneira de

isolar os doentes, uma vez que não haveria cura para a doença e, portanto, a medida profilática seria o isolamento. Uma terceira hipótese afirma que a denominação viria do fato do dono da chácara comercializar “bexiga de boi”, negócio lucrativo e bastante explorado na São Paulo daquela época. Lucena (2013) discorre ainda que havia um Matadouro Municipal na Rua Santo Amaro, próximo à hospedaria de Antônio Bexiga, indicando o intenso comércio de bexigas de boi na região. Posteriormente, devido à proximidade do centro da cidade e das águas do rio Anhangabaú, que abasteciam três principais chafarizes de São Paulo, o Matadouro foi transferido para a Rua Humaitá em 1852, como confirma o depoimento de Roberto Fiovoranti41, aos 92 anos de idade, em entrevista à Lucena (2013). A autora indica ainda que em 1887 o Matadouro foi transferido para a Vila Mariana.

Apesar das contradições a respeito dos motivos que acarretaram na denominação popular ao bairro, Lucena (1983, 1984, 2013), Borges (2001) e Castro (2006), entre outros pesquisadores, apoiam-se na citação de Afonso A. de Freitas que anuncia lá pela década de 1870, antes da ocupação em massa de imigrantes italianos, que “a Chácara do Bexiga possuía extensas plantações de jabuticabeiras, laranjeiras e capinzais, onde se caçavam veados, perdizes e até escravos fugitivos”. Portanto, revela-se que escravizados foragidos desde muito antes habitavam os Campos do Bexiga, constatação que concorda de certa maneira com a pesquisa de Raquel Rolnik ([1989]2007).

3.2. O BEXIGA DE NEGROS E ITALIANOS

Ainda que o movimento pela abolição da escravatura apresente um sentido humanitário, grande parte da elite adepta a esse movimento buscava resguardar interesses e valores sociais prejudicados por conta da vigência da escravidão. Segundo Andreas Hofbauer (2003), com a abolição da escravatura a elite brasileira queria mudanças econômicas mas, ao mesmo tempo, preocupava-se em manter a velha estrutura de poder. Desse modo, não foram tomadas medidas para garantir a inserção, proteção e sobrevivência dos negros. Houve, portanto, a exclusão racial do trabalho, restando a essa população os trabalhos mais penosos e mal remunerados. As oportunidades foram monopolizadas pelas antigas camadas dominantes e pelos imigrantes europeus, pois teorias racistas impulsionaram o governo a patrocinar a vinda em larga escala desses imigrantes

41 Entrevista de Roberto Fiovoranti, seresteiro do Bixiga, coletada por Célia Lucena no Museu do Bixiga em 19/03/1982.

para substituir a mão de obra dos escravizados e recém “libertos” nas lavouras e, posteriormente, nas indústrias. Defendia-se ainda que o progresso do país ocorreria a partir do branqueamento da população, o que impunha o “branqueamento fenotípico” por meio da miscigenação, com o intuito de supressão da população negra. A Tabela 1 - Habitantes na Cidade de São Paulo por Nacionalidade em 1872, 1886, 1890, 1893 e 1895 - destaca esse aumento de imigrantes na Cidade de São Paulo:

Tabela1. Habitantes na Cidade de São Paulo por Nacionalidade em 1872, 1886, 1890, 1893 e 1895

Ano N Estrangeiro % N Nacional % Total

1872 2.082 8,00 23.938 92,00 26.020

1886 12.290 25,77 35.407 74,23 47.697

1890 14.303 22,03 50.631 77,97 64.934

1893 67.060 55,52 53.715 44,48 120.775

1895 71.000 54,62 59.000 45,38 130.000

Fonte: SANTOS, Carlos José Ferreira dos; 2008.

Conforme podemos observar na Tabela 1, a população paulistana de 1872 a 1895 apresentou um aumento de aproximadamente 103.980 habitantes, sendo que a parcela estrangeira significou 68.918 habitantes desse aumento – aproximadamente 66% -, ou seja, mais que a metade do crescimento demográfico da cidade de São Paulo nesse período foi composta por imigrantes. Carlos José Ferreira dos Santos (2008) ressalta ainda que, entre os estrangeiros, a maioria eram italianos (63,38%), seguida por portugueses (21,13%), espanhóis (6,76%), alemães (3,38%), franceses (1,55%), austríacos (1,41%) e um pequeno número de ingleses, belgas e suecos.

Os números demonstram a meta do governo em tornar a população paulistana predominantemente europeia e branca. A população nacional era desqualificada e inferiorizada, enquanto que os imigrantes europeus eram sinônimos de modernização, superioridade, qualificação e, por isso, eram majoritários nos setores industrial, artístico, comercial, bancário. Nesse sentido, Bandeira Junior 42 apud Santos ( 2008, p. 51) destaca que a Fábrica de Santa Marina – Vitraria, por exemplo, cujo prefeito Antonio da Silva Prado era um dos sócios, “empregava em 1901 duzentas pessoas, sendo que todas elas eram de origem francesa ou italiana” (BANDEIRA JUNIOR, 1901, p. 151 apud SANTOS,

42

BANDEIRA JUNIOR, Antônio F. A Indústria no Estado de São Paulo. São Paulo: Tipografia do Diário Oficial, 1901, p. 150-1.

2008, p. 51). Contudo, Santos (2008) refuta a suposta qualificação técnica da população estrangeira. O autor levanta a probabilidade de que o grande número de trabalhadores imigrantes que entraram em São Paulo terem a lavoura como principal ocupação em seus países de origem. Ademais, havia os empresários estrangeiros que priorizavam imigrantes, principalmente compatriotas, a trabalharem em suas fábricas, independentemente de qualificação.

Assim, nessa febre de europeização, e na corrida pela modernização e urbanização, as chácaras passaram a ser loteadas e, antes mesmo da abolição da escravatura, já no final da década de 1870, portugueses, espanhóis e italianos, principalmente calabreses, ocuparam o Bexiga atraídos pelos baixos preços. Lucena (1983) destaca o seguinte anúncio de 26 de julho de 1878 do Jornal a Província:

Terrenos do Bexiga – Acha-se prompta a planta deste terreno e vende-se em lotes ou as braças, à vontade do comprador.

Não há nada a desejar nestes terrenos, dentro da cidade, água excellente em diversas fontes, lindos golpes de vistas, salubridade e preços baratíssimos, conforme a localidade escolhida. Para tractar nas officinas de Santo Antônio com os proprietários ou a Rua do Rosário 44, com a E. Rangel Pestana (LUCENA, 1983, p. 49).

Foi a firma Antônio José leite e Braga e Cia. que deu início ao loteamento do Campos do Bexiga, o local que ora ou outra alagava possuía preços baixos e por isso atraiu imigrantes pobres, principalmente italianos, seguidos por espanhóis, portugueses, sírios e judeus, que também ocuparam esse espaço (LUCENA, 2013). O número de italianos provenientes da região da Calábria que se fixaram nessa região era superior em relação aos imigrantes de outros países e regiões da Itália. Muitos desses calabreses haviam desistido do trabalho nas lavouras do café para residir no centro paulistano com o intuito de trabalhar como artesão, comerciante, e posteriormente, como operário na primeira fase da industrialização paulista.

Como ressaltado no início desta seção, a população negra também era protagonista nesse contexto, abrigando escravizados rebelados. Além disso, cabe pontuar que ex-escravizados e seus descendentes, no final do século XIX e início do século XX, se deslocaram das fazendas de café do interior paulista para os grandes centros urbanos, como a cidade de São Paulo. A partir desse período, o Bexiga se consolidou ainda mais como um importante núcleo negro, uma vez que determinadas medidas higienistas na região central da cidade de São Paulo, principalmente na região da Sé, fez com que se deslocassem para lá uma considerável parcela da população negra. Portanto, mesmo após a abolição da escravatura, os negros ainda se fizeram presente no cenário do bairro, e um dos grandes

motivos foi a exclusão geográfica da população negra concomitantemente à exclusão racial do trabalho.

A cidade de São Paulo passou por uma intensa redefinição territorial/racial encabeçada pelo poder público e pela elite paulistana, fazendo com que os negros se deslocassem para as regiões mais periféricas da cidade (OLIVEIRA, 2008). Essas medidas foram tomadas desde a década de 70 do século XIX. Um exemplo seria o loteamento da Chácara Campo Redondo em 1873 para a idealização do bairro Campos Elíseos, destinado aos barões do café (PORTO, 1992), marcado por ruas largas e mansões. Mas foi na gestão do prefeito Antônio Prado (1899 - 1911), cerca de uma década após a abolição da escravatura, que a “limpeza” do Centro Velho foi intensificada com o intuito de redefinir a espacialidade urbana aos moldes de grandes cidades europeias, além de isolar e excluir os indesejados das áreas mais centrais da cidade. De acordo com Porto (1992), a administração do prefeito Antônio da Silva Prado visou o “descongestionamento e arejamento do centro da cidade” (PORTO, 1992, p. 97).

Entre os projetos urbanos em que os negros foram o grande alvo das remoções, podemos mencionar a desapropriação de vários imóveis para a ampliação do Largo do Rosário (que fora rebatizado em 1905 com o nome do prefeito “modernizador”, tornando-se Praça Antônio Prado), o que incluiu, inclusive, a demolição da Igreja do Rosário dos Homens Pretos em 1904; as demolições dos cortiços na região do Sul da Sé (área localiza entre a Praça da Sé, parte do Glicério e da Liberdade) a partir de 1910; e o saneamento e urbanização da Várzea do Carmo (atual região do Parque Dom Pedro II e mercado Público Municipal) durante a gestão do prefeito Washington Luís (1914- 1919).

A Igreja do Rosário, fundada no século XVIII, de acordo com Castro (2008) abrigava a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos que tinha, como principal objetivo, a mobilização para comprar cartas de alforrias de escravizados. Ademais, por trás da prática católica havia a manutenção de manifestações culturais afro-brasileiras – no Largo do Rosário eram comuns congadas, moçambiques e a concentração de negros, entre eles quituteiras e ambulantes. Todavia, essa concentração de negros e batuques finda com as intervenções de Antonio Prado. A igreja foi demolida e reconstruída no Largo Paiçandu, mas perdendo a sociabilidade de outrora, tendo em vista normas e padrões municipais rígidos. Em 1955, é instalada no Largo Paiçandu a estátua “Mãe Preta”, de Júlio Guerra (MATTOS et.al., 2008).

Em relação à tentativa de eliminar manifestações culturais de matrizes afro, como as que ocorriam no Largo do Rosário, Santos (2008) menciona ainda as repressões

que ocorriam no Sul da Sé. Nesse sentido, o autor destaca a notícia de 18 de julho de 1897 do Jornal a Redempção em relação à repressão policial aos festejos comemorativos de 13 de maio do mesmo ano, festejos que sempre ocorriam naquela região, fato que indica o elevado número de negros residentes no sul da Sé antes das obras de reurbanização.

Por fim, as obras públicas, na Várzea do Carmo, resultaram, principalmente, no deslocamento das “lavadeiras da Várzea” ou “lavadeiras do Carmo”. Graças às cheias do Tamanduateí, essas mulheres, em sua maioria negras, lavavam roupas nessa região como forma de sustento. O relato de Sesso Júnior 43 apud Santos (2008, p. 99) demonstra o quanto essas mulheres e sua ocupação eram desqualificadas naquela época:

Outras cenas desagradáveis, que frequentemente ocorriam e que se tornaram comuns, [...] eram as tradicionais ‘brigas das lavadeiras’, que então ocorriam na Várzea do Carmo. Como tais fatos-tragicômicos, que o povo também considerava de ‘pouca vergonha’, [...] quando da falta de água [...]. Numerosos grupos de mulheres apressadas se dirigiam em direção à Várzea do Carmo. A maioria eram ex-escravas e mamelucas, sendo poucas as mulheres brancas. [...] Acontecia que muito antes de se acomodarem, cada qual em seus lugares, já se iniciava a discussão que era acompanhada de impropérios e palavrões e terminava em brigas – tudo isso para a disputa de melhores lugares. Raro era o dia em que a polícia não era chamada para intervir, havendo, às vezes, a necessidade de as autoridades realizarem alguma prisão, principalmente quando se tratava de lavadeiras mais exaltadas, que brigavam como homem. A algazarra e os gritos histéricos das mulheres eram ouvidos a distância; todas as vezes que tal acontecia, podia-se notar a enorme aglomeração de populares e curiosos, que, dos outeiros do Carmo e do Largo das Casinhas [Largo do Tesouro], se divertiam gostosamente, presenciando, lá embaixo, na Várzea do Carmo, a já costumeira e tradicional ‘briga das lavadeiras’ (SESSO JÚNIOR, 1983, p. 79 apud SANTOS, 2008, p. 99-100)

A repressão policial era constante na região. A partir da perspectiva elitista de Sesso Júnior, tais lavadeiras são descritas como briguentas, de “pouca vergonha”, histéricas, enfim, descritas como “ex-escravas e mamelucas” que possuíam um comportamento impróprio naquele espaço público central. Ocorria na Várzea também o “Mercado Caipira” ou “Mercado dos Caipiras” em que sujeitos de localidades mais distantes iam comercializar produtos agrícolas, medicinais, artesanais, entre outros. Havia também “os vendedores de ervas, ou ervanários, por vezes também descritos como ‘curandeiros’, ‘benzeduras’, ‘pretos veios’” (SANTOS, 2008). Esses sujeitos visivelmente descendiam de negros e/ou de indígenas e detinham o conhecimento das raízes, das ervas, enfim, dominavam um saber ancestral da cura. Contudo, medidas sanitaristas transformaram a Várzea do Carmo em um parque municipal, baseado no projeto do francês Cochet, com o intuito de afastar a população descrita. Aliás, Rolnik ([1989] 2007) ressalta

que o desejo de tornar São Paulo uma cidade “civilizada” e “europeizada” já se manifestava na formulação do Código de Posturas do Município de São Paulo de 1886, que visava proibir determinadas práticas relacionadas à população negra:

as quituteiras devem sair porque ‘atrapalham o trânsito’; os mercados devem ser transferidos porque ‘afrontam a cultura e conspurcam a cidade’; os pais de santo não podem mais trabalhar porque são ‘embusteiros que fingem inspiração por algum ente sobrenatural’. (ROLNIK, [1989] 2007, p. 81).

Diante das circunstâncias apresentadas, do desalojamento forçado, principalmente aquele em relação ao Sul da Sé, uma parcela da população negra se deslocou para o Bexiga, tendo em vista o já existente núcleo negro do Saracura e a proximidade em relação às regiões valorizadas da cidade - como Avenida Paulista, Rua Consolação, Rua Brigadeiro Luis Antônio e arredores - que demandavam mão de obra braçal, principalmente nas mansões dos barões do café ou de imigrantes enriquecidos pela indústria, como ingleses e franceses. Esses se encontravam principalmente na região mais acima denominada Morro dos Ingleses, próximo da Avenida Paulista - inaugurada em 1891. O Morro dos Ingleses, em 1912, recebera orientação diferenciada em relação ao alinhamento das ruas. Com ares aristocráticos, a região fora habitada pela elite paulistana, onde ingleses, inclusive, praticavam golfe. (LUCENA, 2013).

Lucena (2013) afirma que de um modo geral, no contexto do Bexiga, as pessoas negras eram obrigadas a trabalhar para os italianos em situação precária, visto que as lojas, empresas e instituições não os aceitavam. Aqueles que viviam nas margens do Saracura se submetiam às tarefas mais árduas, buscando ocupações na coleta de lixo, na construção de edificações como pontes, canalização de córregos e rios, aberturas de ruas e avenidas, demolição e construção de casas ou palacetes. As mulheres aproveitavam as águas do córrego, inclusive no ponto do seu represamento natural – Tanque Reúno – para dedicarem-se à ocupação de lavadeiras, além dos penosos trabalhos nas mansões. O relato de Fernando Penteado, nascido no Bexiga em 1947, apresenta percepções do processo histórico de desigualdade social vivida pela população negra nesse contexto urbano:

A minha avó, junto com outras negras do bairro, era quituteira, porque não tinha buffet naquela época. Elas eram aquelas negras que trabalhavam para os barões do café na Avenida Paulista. Então faziam os quitutes. Minha avó era uma quituteira de mão cheia, como tantas outras daquela época. E as festas se valiam pela quituteira que se tinha. [...] Elas [mulheres negras]detinham as rédeas, porque após a escravidão nós homens [negros] não tínhamos emprego. E foram as mulheres que seguraram. O italianos não queriam o serviço pesado. Não faziam o serviço pesado. Nós que fazíamos o serviço pesado. As negras ficavam nas casas como cozinheiras, como pajem. Mas não tinha muito

emprego, então foi a mulher negra que segurou (FERNANDO PENTEADO. Entrevista realizada em 22/07/2013).

Observe que a profissão de cozinheira das mulheres negras do Bexiga apontada por Fernando Penteado apresenta resquícios do período colonial. O espaço da cozinha, tanto nos palacetes dos industriais enriquecidos, como nas mansões dos barões do café, ou na Casa Grande, era predominantemente negro e feminino. Assim, numa sociedade estruturada racialmente, as desigualdades não deixariam de ocorrer. A ocupação de quituteira, ou cozinheira, significava uma das poucas oportunidades que essas mulheres negras tinham para garantir a sobrevivência e o sustento de suas respectivas famílias, uma vez que a inserção dos homens negros no mercado de trabalho foi ainda mais difícil.

Desta maneira, a Saracura e a questão do trabalho subalterno nas mansões dos barões ou dos industriais foram fatores que contribuíram para que, na época, o Bexiga se consolidasse, de acordo com Rolnik ([1989] 2007), como um importante território negro da zona central da cidade. Koguruma44 apud Castro (2008, p.57) destaca no jornal Correio Paulistano de 03 de outubro de 1907 uma descrição da região do Saracura enfatizando sua população predominantemente negra:

[A Saracura] É um pedaço da África. As relíquias da pobre raça impellida pela civilização cosmopolita que invadiu a cidade, ao depois de 88, foi dar ali naquela furna.

O vale é fundo e estreito. Poças dagua esverdeada marcam os logares donde sahiu a argila transformada em palacetes e residências de luxo.

Cabras soltas na estrada, pretinhos semi-nus fazendo gaiolas, chibarros de longa barba ao pé dos velhos de carapinha embranquecida e lábio grosso de que pende o cachimbo, dão áquelle recanto uns ares do Congo.

Alli pae Antonio, cujas mandingas celebram os supersticiosos de Pinheiros, de Santo amarão, da várzea do Tasbôa, pratica os seus mysterios e tange o urucungo, apoiando o ventre rugoso e despido a cabaça resonanta. As casas são pequenas; as portas baixas. Há pinturas enfumaçadas pelas paredes embrancadas. A mobília, caixas velhas e torós de pau, sobre ser pobre, é sórdida. E alli vão morrendo aos poucos – sacrificados pela própria liberdade que não souberam gozar, recosidos pelo álcool e estertorando nas angustias do brightismmo que os dizima, eliminados pela elaboração anthropologica da nova raça paulista – os que vieram no navio negreiro, que plantaram o café, que cevaram este solo de suor e lágrimas, acumulados alli, como rebutalho da cidade, no fundo lôbrego de um valle” (KUGURUMA, 2001, p. 210 apud CASTRO, 2008, p. 57).

Assim, no bairro do Bexiga residia um grande número de calabreses, mas o Quadrilátero da Saracura, delimitado segundo o estudo de Castro (2008), era habitado majoritariamente por negros. Como descrito no trecho do Correio Paulistano, a região tratava-se de um vale, ou seja, era cercada por áreas mais altas, como por exemplo, onde

44 KOGURUMA, Paulo. A Reelaboração das Práticas e Crenças Afro-Brasileiras na “Metrópole do Café” (1890 - 1920). São Paulo, Annablume/Fapesp, 2001.

hoje se localiza a Avenida Paulista. A área mais baixa, antes da canalização do Saracura em 1930, era alagadiça e, portanto, quanto mais baixo geograficamente era o terreno, menor era o valor imobiliário e maior era a quantidade de negros. A área brejeira da Saracura era destinada à plantação e às moradias mais simples. Ou seja, os negros residiam na região alagadiça, mais abaixo do riacho Saracura, em lotes irregulares, e os imigrantes italianos situaram-se nas áreas mais altas. Desse modo, os italianos, mesmo os pobres, com uma situação econômica desfavorável, conseguiram comprar os lotes ofertados. O Mapa 3 - O Quadrilátero da Saracura - permite visualizar geograficamente a região da Saracura nos dias de hoje: