greenhouse gases, and quantification of the resulting radiative forcing of climate
3.3 The response of climate to radiative forcing due to air quality pollutants
3.3.1 Future trends in air quality pollutants
Afro Achiropita, 2014
Coordenada pela psicóloga Maria Célia Malaquias82, houve a participação de 22 mulheres, das quais três eram brancas. Aliás, um aspecto interessante que marcou esse encontro foi o momento de socialização, com petiscos e bebidas providenciados pelos integrantes da Pastoral, no sentido de conhecer e convidar as pessoas do bairro a participarem do grupo, sempre relembrando que o perfil de membros não se restringe a pessoas negras.
Ao longo do ano de 2013 ocorreu o Projeto Fé & Festa83, por meio do patrocínio do Governo do Estado de São Paulo e da Secretaria da Cultura. O Projeto integrou oficinas gratuitas de dança afro, capoeira, samba de roda e tricô, destinadas, principalmente, a adultos, jovens e crianças que moram no bairro. Em outros anos a Pastoral Afro também ofertou aulas nesse sentido, mas o diferencial nesse caso foi a parceria com a Casa Mestre Ananias - Centro Paulistano de Capoeira e Tradições Baianas - localizada a algumas quadras da Igreja N. Senhora Achiropita. Assim, as oficinas que envolviam expressão corporal ocorreram no espaço da casa de capoeira angola.
De acordo com Cida Godoy a Paróquia Achiropita não possui espaço para a samba de roda, a capoeira ou a dança afro. Isso por dois motivos principais: um deles seria o som do atabaque que poderia incomodar as pessoas e, outro, pelo fato da Paróquia ter sido construída para atender suas obras sociais e, portanto, é um grupo quem decide quais são as ações consideradas obras sociais e como os espaços serão utilizados. Diante desse entrave, com a verba disponibilizada pela Secretaria da Cultura, foi possível estruturar melhor as oficinas, oferecendo um lugar adequado para os praticantes.
Cida enfatiza que essas oficinas vão além do aspecto cultural. Segundo a depoente, as oficinas de tricô, por exemplo, atingiram uma grande significação social uma vez que atenderam mulheres em estágio de depressão. A partir das oficinas, criou-se um ambiente agradável, com a possibilidade de ampliar o círculo social e compartilhar vivências, no intuito de melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Todavia, apesar das oficinas ofertadas pela Pastoral abordarem temáticas relacionadas à cultura negra, o público, em sua maioria, não é composto por negros. Em depoimento, Cida diz perceber que “as
pessoas que gostam de vir na pastoral, são majoritariamente brancas”84.
82 Autora da dissertação Pastoral Afro Achiropita: identidades e práticas de um catolicismo afro-brasileiro- Dissertação de Mestrado em Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica, PUC/SP, 2003.
83 Como explicitado no início da pesquisa, as Missas de São Benedito e Missa da Mãe Negra fazem parte do calendário turístico do Estado de São Paulo e do Calendário Oficial de Eventos do Município de São Paulo e, portanto, recebem patrocínio para realizar algumas atividades.
4.1.3 Festa de São Benedito das Flores
A celebração começa com o Batuque de Louvor das Congadas, em frente a Escadaria do Bexiga. Posteriormente há a Procissão até a Igreja N. Sra. Achriropita precedida pela “Missa Afro-Festiva”85 e, finaliza-se com o Almoço de São Benedito. Irmandades religiosas e congadas são incluídas na celebração com a intenção de divulgar e valorizar a cultura negra. A coordenadora da Pastoral explicita que são grupos católicos que cultuam muitos valores que já se perderam e que muitos da igreja desconhecem. Ao relatar brevemente a história das irmandades religiosas e, mais especificamente, a da Nossa Senhora da Boa Morte e a de São Benedito, considera que a Pastoral Afro é uma continuidade dessas associações:
Os donos de escravos não os enterravam e, para o negro, era fundamental ser enterrado, se não ele não conseguia se reunir com os ancestrais dele. É por isso que surgiram as famosas associações da Boa Morte. Surgiram para poder socorrer o negro na dificuldade. A de São Benedito era para dar comida para os negros que tinham sido presos e para família deles. Aí chegou um bispo aqui em São Paulo e acabou com as quermesses de São Benedito, deixando só as italianas. A Pastoral Afro é a continuidade das irmandades de fraternidade. Algumas conseguiram se manter mas outras os filhos e netos não querem continuar
(MARIA APARECIDA DE GODOY ‘Cida Godoy’. Entrevista realizada em 10/10/2013).
Nas Festas de São Benedito analisadas, estavam representados na procissão a Paróquia São Benedito do Jaçanã (São Paulo/SP), a Irmandade de São Benedito da Praia Grande (São Paulo), a Irmandade de São Benedito e Nossa Senhora Aparecida de Lauzane Paulista (SP), a Pastoral Afro Jesus Adolescente da Vila Dalila (São Paulo), a Irmandade do Glorioso São Benedito de Angra dos Reis (RJ), o Grupo Magia da Capoeira, a Congada de São Benedito de Cotia (SP), a Congada de Santa Efigênia de Mogi das Cruzes (SP), a Congada Batalhão Nossa Senhora Aparecida de Mogi das Cruzes (SP). Na última festa, entre os grupos devocionais, foi incluído o Jongo do Piquete.
A festa ocorre a partir de doações. Em uma das reuniões uma das integrantes informou que em Festa de São Benedito, tradicionalmente, “tem que se tirar o dinheiro do
bolso”, ou seja, fazer doação de mantimentos. Além dos membros da pastoral, cantinas, restaurantes e padarias ao redor da igreja, também contribuem. Dessa maneira, o almoço comunitário oferecido ao público é gratuito e realizado a partir da contribuição dos devotos. Os integrantes da pastoral dividem-se de acordo com as funções, de modo que alguns ficam responsáveis pela recepção dos grupos, outros em registrar o evento, outros comunicam-se por meio de walkie-talkies para garantir o sucesso da procissão, alguns
revezam o trabalho da venda de bebidas, ou o trabalho no caixa. Todos são convocados para a limpeza e decoração do salão no dia anterior à Festa, exceto os que estão ocupados trabalhando na cozinha. Aliás, antes das celebrações, os compromissos relacionados ao ensaio, à ornamentação da igreja e do salão e à limpeza podem levar um dia inteiro de trabalho. Já a preparação da comida se inicia com dias de antecedência, principalmente na Feijoada da Festa da Mãe Negra.
Um caráter interessante, tanto em relação à Festa de São Benedito, como à Festa da Mãe Negra, é o fato do trabalho na cozinha ter certo prestígio entre as pessoas da Pastoral, mesmo que essa função impossibilite acompanhar a missa e a procissão. Preparar os alimentos torna-se algo de grande responsabilidade e, no decorrer das festas, toma-se o cuidado para que as pessoas não fiquem entrando e saindo da cozinha, à revelia, sem permissão. Paralelamente, a cozinha do terreiro Ilê Iyá Asè Òsùn é um lugar sagrado e preparar a comida das cerimônias rituais também é de grande importância, ficando a cargo das Iyabassé.
Os grupos chegam de ônibus e são recepcionados pela Pastoral. As congadas se preparam no salão da igreja, onde é oferecido um café da manhã. Em seguida seguem para a Escadaria da Treze de Maio. Como a procissão ocorre na manhã de domingo, coincide com a Feira de Antiguidades do Bexiga - na Praça Dom Orione - em frente do local onde começam os batuques, o que aumenta ainda mais a concentração de pessoas. Diferentemente da procissão da Nossa Senhora Achiropita, são os santos negros - Nossa Senhora Aparecida e São Benedito - que percorrem a Rua Treze de Maio. As congadas e o grupo de capoeira revezam-se nos cantos e nos batuques durante a descida até a igreja. O grupo de capoeira, ao som de berimbaus, pandeiros e caixixi faz pausas para rodas de crianças e adultos. As rainhas da congada levam seus estandartes à frente de seus grupos, que cantam e dançam em devoção a São Benedito. As Baianas da Vai-Vai, com ricas indumentárias, giram ao som da batucada. Acompanham o cortejo religioso sacerdotes de religiões de matrizes africanas, membros do sacerdócio católico, homens negros católicos com roupas semelhantes ao de babalorisás mas, enquanto alguns integrantes da pastoral usam roupas coloridas, turbantes, amarrações, outros preferem apenas utilizar a camiseta com o símbolo da pastoral. Ao longo do percurso é possível captar a aprovação dos transeuntes, bem como a rejeição de outros. Durante o trajeto, há duas paradas conduzidas pelo pároco da Igreja, para um momento de reza e reflexão.
A última Festa de São Benedito foi reconfigurada e ampliada, contando com um maior envolvimento de pessoas. A concentração ocorreu na quadra do GRCSES Vai-Vai,
ou seja, os santos negros católicos foram levados da quadra da escola até o Batuque de Louvor das Congadas (Escadaria do Bexiga) e depois, até a igreja. Além da presença de
vaivaivenses - representantes da Bateria, Ala das Baianas, Velha Guarda, Mestre-Sala, Porta-Bandeira, Diretorias e Presidente - foram convidados membros de outras escolas de samba: Grêmio Recreativo Social e Cultural Prova de Fogo, Nenê de Vila Matilde, Mocidade Alegre, Unidos do Peruche, Grêmio Recreativo Cultural Esportivo Social Escola de Samba Imperatriz da Sul, Camisa Verde e Branco. Os convidados foram recepcionados pela escola anfitriã e, antes de seguirem a procissão, Pai Francisco de Òsún solicitou que os presentes se dispusessem numa grande roda e conduziu a reza Pai Nosso, a classificando como reza universal. Nessa ocasião, os pavilhões das escolas, reverenciados pelos seus integrantes, confundiam-se com os estandartes das irmandades e congadas e, dentro da igreja, ficaram dispostos ao lado dos santos católicos. Em reunião, quando alguém questionou qual a justificativa de escolas de samba participarem da Procissão, a resposta foi direta “A inclusão das escolas é de caráter evangelizador”. O trajeto escolhido até a Escadaria do Bixiga buscou contemplar as ruas em que havia maior número de moradores, uma vez que o sentido da procissão também é evangelização: explicitar e transmitir a fé, a devoção. Assim, foram percorridas as Ruas São Vicente e Treze de Maio ao som das baterias carnavalescas. Pai Francisco ficou encarregado de decorar o andor de Nossa Senhora Aparecida, e o fez no dia anterior, na quadra da Vai-Vai. À frente de São Benedito, grupos de baianas de cada escola revezavam-se na função de carregar o andor da santa negra.
Em frente a Igreja da Achiropita são jogadas pétalas de rosas aos santos antes de sua entrada na Igreja. Desde o início da procissão, a igreja já se encontra cheia de pessoas que esperam o início da missa, portanto, muitos assistem toda a celebração em pé. As baianas entram com velas acesas e as congadas fazendo o batuque em louvor aos santos. Os cantos afro litúrgicos mudam conforme a celebração, alguns possuem um tom reivindicatório, outros se apropriam de palavras em yorùbá comumente utilizadas nos terreiros de candomblé, ou ainda exaltam personalidades e santos negros. Segue um dos cantos utilizados na entrada da Missa de São Benedito ao som dos atabaques:
Eu vou tocar minha viola Eu sou um negro cantador
O negro canta deita e rola lá na casa do Senhor Dança aí Negro Nagô (4x)
De negro inferior
O negro é gente e quer escola Quer dançar samba e ser doutor O negro mora em palafita Não é culpa dele, não Senhor A culpa é da abolição Que veio e não libertou Vou botar fogo no engenho Aonde o negro apanhou O negro é gente como o outro Quer ter carinho e quer amor.
O canto afro litúrgico relaciona-se com alguns dos discursos do movimento negro e agenda antirracista, no qual denuncia o 13 de Maio como a falsa abolição, denuncia as péssimas condições sociais da população negra, almeja melhores condições de vida por meio da educação, tratamento igualitário e a preservação de sua cultura.
4.1.4 Festa da Mãe Negra
Na Festa da Mãe Negra, após a missa afro-festiva, ocorre a Feijoada D’Achiropita com show ao vivo no salão da igreja. Durante os shows, há a feira de artesanatos em que são privilegiados expositores que comercializam produtos relacionados à temática afro-brasileira ou africana. Desse modo, é possível comprar batas africanas, bonecas negras, acessórios, adornos com búzios, camisetas com estampas que vão desde òrìsàs e santos católicos negros até de músicos e líderes negros internacionais como Billie Holiday e Nelson Mandela. São vendidas também bebidas, sem faltar a tradicional caipirinha para acompanhar a feijoada, além de outros pratos típicos.
Diferentemente do Almoço de São Benedito, a Feijoada D’Achiropita não é gratuita e, em outros tempos, já chegou a vender mais de 800 convites. Contudo, a pesquisa demonstrou que as decisões acerca do pagamento ou entrada na festa, e até mesmo decisões referentes à missa afro-festiva, tem sofrido alterações a cada ano. Cabe salientar que as pessoas que frequentam o almoço de São Benedito ou a Feijoada da D’Achiropita não são necessariamente do bairro. Em um almoço a São Benedito conheci duas senhoras que moraram na Bela Vista por muitos anos, mas atualmente residem na Cidade Tiradentes. A mesma dupla compareceu na celebração da celebração da Mãe Negra do mesmo ano.
Dona Joana, Chefe das Baianas da Vai-Vai, discorre que a mãe negra representaria as amas de leite e, por isso, a preferência em entrar na missa com uma criança branca no colo:
Eu entro na igreja com uma criança clara, de preferência branquinha, bem branquinha. Porque as verdadeiras mães não tinham leite, então precisavam das amas de leite. Aí a gente entrava, antigamente, com a criança mamando, a criança mamava e entrava um bocado de criança. Hoje não entra tanta crianças junto. O altar ficava lotado de crianças também. Agora está mais moderno a Mãe Negra. Agora entra uma criança só e não tem aquela coisa de ser uma criança loira. Porque é difícil. Ano retrasado eu entrei com uma neta pequenininha também. Ela e um monte de criança que tem por aí que estão grandes eu carreguei comigo na igreja, um povo daqui da Vai-Vai (JOANA APARECIDA BARROS ‘Dona Joana’. Entrevista realizada em: 17/07/2013)
Além das modificações pontuadas por Dona Joana - a tez da criança e o número de participantes - em 2014 seria a primeira vez, durante anos, que ela não assumiria esse papel. Ademais, baianas de outras escolas de samba, que não a Vai-Vai, também passaram a compor o ofertório. O presente estudo destacou na segunda seção, mais precisamente na página 57, que Maués (1991) pontuou que o movimento negro do final da década de 1970 associou o culto da Mãe Negra à exaltação da passividade dos negros escravizados e, portanto, esse culto foi alvo de muita crítica. Entretanto, os discursos e revindicações dos movimentos negros são paradoxais, conflitantes. Dona Joana, em seu depoimento, não faz uma leitura crítica da Mãe Negra no contexto da exploração. Porém, a “modernização” da Mãe Negra explicitada em seu depoimento pode significar que membros da Pastoral Afro atribuem outros sentidos a essa figura. A foto 9 demonstra o cartaz da Festa da Mãe Negra de 2014, onde a mãe representada carrega uma criança também negra. Nos outros dois cartazes de divulgação da Festa, nos anos de 2012 e 2013, também não há criança branca, apenas uma garotinha negra. Portanto, essa Mãe Negra pode estar associada não às amas de leite, mas às mães negras que zelam por seus filhos: