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The response of radiative forcing and climate to temporal trends in aerosol concentrations

greenhouse gases, and quantification of the resulting radiative forcing of climate

3.3 The response of climate to radiative forcing due to air quality pollutants

3.3.2 The response of radiative forcing and climate to temporal trends in aerosol concentrations

Fonte: NASCIMENTO, Larissa Aparecida Camargo do; 2013.

Em relação a esse altar e aos outros santos católicos no interior do terreiro, Pai Francisco explica que o candomblé passou por um sincretismo que ainda não se extinguiu. Relata que tanto a sua Avó de Santo, como sua Mãe de Santo, são extremamente sincréticas. Entretanto, afirma que sua postura é diferente, uma vez que não se considera sincrético, mas sim político. Explica que o gesto de acender velas, colocar água e flores para esses santos é feito por respeito e não por crença. Nesse sentido, Pai Francisco considera, por exemplo, que Nossa Senhora Aparecida é a santa dos cristãos e não possui o mesmo sentido e história que o òrìsà feminino Òsún:

É impossível, numa casa de candomblé, você não ter um altar para os santos católicos. Porque se houve um sincretismo, ele ainda não morreu. Apesar de me achar uma pessoa mais respeitadora, do que propriamente que a religião tenha que passar por aqui. Eu acho que Nossa Senhora Aparecida é a Nossa Senhora dos cristãos, com a sua história. O candomblé, por ela ser uma santa negra e por ter sido jogada no rio... As pessoas até se valem disso pra dizer que ela é do candomblé. Eu boto vela, boto flores, boto água. Mas na verdade eu gosto de candomblé. Minha mãe e minha avó são sincréticas. Eu sou mais político do que crente, nessas horas. O que é deles, é deles. O que é nosso, é nosso. Nessas horas eu sou mais político do que crente (JOÃO FRANCISCO LIMA FILHO ‘Pai Francisco de Òsún’. Entrevista realizada em: 05/07/2013).

Essa postura política que o Pai de Santo sustenta permite assumir o cargo religioso do GRCSES Vai-Vai, acendendo velas e colocando flores para São Jorge e São Cosme Damião que se encontram na quadra da escola. Ou ainda, possibilita que ele partilhe

o altar com o pároco durante as missas inculturadas da Pastoral Afro Achiropita e, inclusive, ao final da cerimônia, profira discursos que apresentam as crenças que envolvem os adeptos do candomblé. Em depoimento, o babalorisá conta que foi convidado pelo Padre Toninho a participar das missas afro-religiosas. Após o convite fez questão de explicar que não era adepto do sincretismo:

Uma das coisas que ele [Padre Toninho] queria quando fundou a pastoral afro dentro da igreja, era que a comunidade negra também fosse na igreja. Porque ele sentia que havia uma divisão. E como a igreja era no bairro, é de todos, né. Então ele fundou a pastoral negra e ele achou interessante vir aqui, me fazer uma visita, e me convidou. Veio com mais dois seminaristas. E ele disse, quero que você sempre que possível esteja presente nos nossos cultos afro-religiosos, gostaria que o senhor estivesse presente. Aí eu disse para ele assim: “Mas eu não sou sincrético. Eu sou totalmente candomblé. Ògún é Ògún, Santo Antônio é Santo Antônio. São Jorge é São Jorge, e Oxóssi é Oxossí. Eu conheço o sincretismo, reconheço a necessidade do sincretismo, mas hoje não vejo mais essa necessidade. Eu vou pra lá, mas eu vou com as minhas coisas, minhas túnicas”. E ele respondeu: “É justamente isso que nós queremos, que as pessoas saibam que têm outra religião no bairro”. E dali foi-se unindo (JOÃO FRANCISCO LIMA

FILHO ‘Pai Francisco de Òsún’. Entrevista realizada em: 05/07/2013)

No trecho destacado o Babalorisá faz referências à época em que havia perseguições de autoridades aos cultos afro-brasileiros. Diante da proibição, casas de candomblé passaram a exibir imagens de crucifixos em seus templos e a associar òrìsàs com santos católicos. Todavia, apesar do preconceito em relação às religiões de matrizes- africanas ser uma realidade, não há mais leis que proíbem o culto aos òrìsàs, o que faz com que determinados terreiros rejeitem o sincretismo com elementos cristãos. Contudo o envolvimento de Pai Francisco com a Igreja Católica vem desde antes a Pastoral Afro e relembra em entrevista que em diversas ocasiões foi convocado pelo Padre Batista a realizar trabalhos voluntários junto aos moradores de rua.

4.2.1 O Cotidiano

Durante o percurso da pesquisa, Pai Francisco solicitou que os encontros fossem agendados preferencialmente às sextas-feiras, com o argumento de que os dias de Oxálá eram destinados ao descanso. Portanto, às sextas-feiras, dias em que sempre vestia indumentárias brancas, o babalorisá teria maior tempo para dialogar. Porém, o fluxo de pessoas não cessa. No cotidiano do ilê, foi possível encontrar filhos de santo que estavam recolhidos ou que trabalhavam em dedicação aos òrìsàs, seja limpando, seja atendendo a porta, cozinhando, ajeitando algo no peji, enfim. Afinal, os filhos da casa possuem maiores

responsabilidades com a manutenção do terreiro que os clientes que o frequentam esporadicamente.

Em outros dias da semana, que não sexta-feira, o trânsito de pessoas era ainda maior, no qual foi possível presenciar sujeitos que, por exemplo, iam para tomar banhos rituais, jogar búzios ou dar comida ao òrìsà, no sentido de solucionar suas angústias. No salão principal, cada um espera sua vez. Durante a espera, as pessoas evitam conversar, para não atrapalhar e respeitar a presença dos òrìsàs. O tempo de espera pode ser demorado, mas pressa num terreiro para Pai Francisco é inadmissível “porque o òrìsà não tem pressa”. Nesse período, as pessoas se dispõem sentadas, no chão ou em alguma cadeira, mas nunca na cadeira de Òsún. Essa cadeira, que também está presente durante as festas, simboliza a presença do òrìsà. Apenas os deuses e as autoridades podem nela sentar. Aliás, o respeito às hierarquias101 é uma constante no cotidiano do terreiro.

Nessas idas e vindas, constatou-se que o número de clientes femininos é superior ao de clientes masculinos, sendo que o público não se restringe ao bairro da Bela Vista, com diferentes realidades socioeconômicas e identificação racial. Há ainda alguns africanos, entre eles moçambicanos, angolanos e inclusive iorubás, que praticam outras doutrinas religiosas cultuadas em África, mas diferentes do candomblé. Segundo Pai Francisco, muitos desses sujeitos dizem que, apesar de serem africanos não sabem muito sobre o culto aos òrìsàs no Brasil. Porém, o fato dessa pessoas reconhecerem o vínculo do candomblé com o continente africano ao qual pertencem causa muito orgulho no babalorisá.

A rotina do terreiro é marcada por uma série de atribuições. Os ebós podem levar dias para serem preparados e necessitam de grandes deslocamentos para serem despachados. Pai Francisco explica que um abará102, por exemplo, requer que o feijão seja colocado de molho dias antes, e os despachos devem ser realizados na madrugada, fora do perímetro urbano. Além disso, o que torna dificultoso o preparo das comidas rituais é a falta de ingredientes, fator relacionado às Leis de Crimes Ambientais e a localização do terreiro, em pleno centro da cidade de São Paulo.

Nesse sentido, o depoimento de Paulo explicitou que o candomblé é frequentemente posicionado na esfera da criminalidade, principalmente no contexto urbano. O depoente relatou que frequentava um terreiro de candomblé na Bela Vista que se localizava num casarão repleto de casas, tal como o terreiro do Pai Francisco está situado.

101 Andreas Hofbauer (2011) compreende que os mitos e a noção de asè constituem para os yorúbás são fundamentais para explicar as diferenças de poder, status, riqueza.

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Porém a casa de asè teve de ser fechada por conta da reclamação dos vizinhos, que sempre chamavam a polícia. Dessa maneira, certos de que há uma gama de estereótipos negativos acerca dessa religião, como medida de precaução, alguns depoentes não informaram logo de início os vínculos que mantinham com o candomblé, outros, relataram ser espíritas e posteriormente foi possível compreender que estavam se referindo à doutrina afro-brasileira.

4.2.2 As Festas

O calendário de festas no Ilê Asè Iyá Osun começa geralmente no mês de maio, com a Festa do Cacique Pena Branca. Em junho, há a Feijoada de Ògún; em julho, há o Amalá de Sángó; em agosto, ocorre o Olubajé; setembro, o Ipeté de Òsún e em dezembro, ocorre o Acarajé de Oyá (Iansan). As celebrações ocorrem aos domingos, começando por volta das 17h e podem seguir até 02h da madrugada. Como os nomes sugerem, em cada festa há uma comida ritual específica para o òrìsà homenageado.

Os preparativos começam dias antes, e envolvem desde a decoração da cumeeira, a troca dos màrìwò, a limpeza física do ilê, até a limpeza espiritual/ritual. O babalorisá afirma ainda que quando há festa “as meninas do Vai-Vai” também ajudam em retribuição ao trabalho que ele faz na escola. Então é comum na véspera de alguma cerimônia uma ou outra pessoa com a camisa da escola de samba descascando um legume, cortando vegetais, separando feijão. Além disso, há aqueles que contribuem por meio da doações de alimentos.

Em dia de candomblé103 antes da chegada dos convidados, realiza-se o ritual de despachar Esú. Segundo Pai Francisco, despachar Esú significa abrir a casa para não ter brigas ou nenhum tipo de aborrecimento. Nesse ritual inicial é oferecido a Esú algum despacho, ou seja, alguma comida que agrada esse òrìsà, tal como farofa de dendê, farofa de mel, água ou até mesmo uma vela. Isso ocorre do lado de fora do terreiro. Assim, feito esse ritual inicial, Esú tem a obrigação de ficar no portão, guarnecendo a casa. Após o ritual de despacho, é realizada a defumação.

O número de celebrantes gira em torno de 50 a 60 pessoas, entre ogãs, alabês, iaôs, ekedis, sacerdotes e visitantes. Durante essas festas rituais, há um equilíbrio de gênero. Porém entre os rodantes, o número de mulheres é predominante. É comum que durante a celebração algumas pessoas fiquem dispostas no corredor, observando o ritual do lado de

fora, uma vez que o salão não comporta todos os presentes. Sobre o perfil de frequentadores, o babalorisá diz que entre os vizinhos que partilham o mesmo portão, são poucos os que vão a suas festas e, quando vão, não frequentam no sentido de doutrina religiosa, frequentam apenas por conta da dimensão da festa. Aliás, já houve celebrações rituais que ocorreram enquanto um ou outro vizinho, da casa de baixo ou do fundo, também fazia sua festa e, assim, aqueles que ficavam dispostos no corredor podiam escutar o forró eletrônico misturando-se às rezas e toques dos atabaques. Porém, os dois eventos seguiram concomitantemente, sem um impedir o andamento do outro.

Os membros do GRCSES Vai-Vai costumam chegar atrasados uma vez que os ensaios da escola ao longo do ano também ocorrem nas noites de domingo. Durante a festa de Ògún em 2013 o presidente da Vai-Vai chegou a entrar no salão, mesmo com o grande número de pessoas na porta, no sentido de abraçar no òrìsà e receber o seu asè. Ademais, da mesma maneira que Pai Francisco é convidado para participar das celebrações afro- religiosas da Pastoral, os membros da Pastoral são bem-vindos nas festas aos òrìsàs no ilê. Desse modo, Dona Carlita, que há mais de 25 anos reza o terço toda a semana na Igreja da N. Sra. Achiropita, é uma assídua frequentadora do Ilê Asè Iyá Òsún, presente em todas as festas frequentadas durante a pesquisa. Aliás, Dona Carlita diz ter grande respeito pelos òrìsàs, e é uma das responsáveis em levar folhas a serem preparadas para as festas no ilê. Da mesma maneira, nas celebrações da Pastoral Afro, Dona Carlita providencia folhas.

Os òrìsàs são invocados por meio de danças e cantos destinados a eles. Assim o xirê (Siré Òrìsà) significa a sequência de cantos que começa por Esú e termina com os cantos para Oxalá. No Ilê Asè Iyá Òsún a ordem do xirê é a seguinte: Esú, Ògún , Odé (conhecido como Òxòssí), Ossain, Òsùmàrè, Obaluàyé, Omolú, Nanã, Òsún, Logun Edé, Obá, Ewa, Oyá, Ibeji, Yemanjá, Sàngó, Airá, Oxalá. Depois de terminado o xirê há a manifestação dos òrìsàs. Durante o xirê, as folhas jogadas ao chão significam que os primeiros quatro òrìsàs do xirê, os quatro òrìsàs primogênitos filhos de Oxalá com Yemanjá, já foram louvados. Ou seja, significa que houve asè, houve preparativo, porque segundo Pai Francisco, kosi Ewé kosi Òrisà, o òrìsà não atende sem folha, sem folha não há òrìsà. Portanto, as folhas indicam que Esú já foi despachado, a comida dele já foi jogada na porta, e Ògún, Òxòssí e Ossain foram louvados (foto 19).