A fundamentação epistemológica utilizada para o presente estudo foi o materialismo dialético e histórico, que se orienta pela teoria marxiana, cujo objetivo é interpretar e desvendar as contradições da sociedade capitalista, mais especificamente, a exploração do trabalho humano. Essa teoria busca compreender como os homens, coletivamente, vivenciam as desigualdades oriundas do capitalismo e como podem buscar alternativas de resistência. O ponto de partida para sua análise crítica é a realidade concreta, historicamente determinada, em que os indivíduos se constituem a partir das condições materiais de sua produção, do seu trabalho.
Os pressupostos dos quais partimos não são arbitrários nem dogmas. São bases reais das quais não é possível abstração a não ser na imaginação. Esses pressupostos são os indivíduos reais, na sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas que eles já encontraram elaboradas quanto aquelas que são o resultado de sua própria ação. Esses pressupostos são, pois, verificáveis empiricamente (MARX; ENGELS, 2005, p. 44).
A realidade só é possível de ser revelada quando vivenciada pelos homens através do trato prático-utilitário com as coisas, não pode ser tratada como algo à parte do mundo dos homens, passível apenas de análise, intuição e compreensão teórica. O desvendamento da realidade é viabilizado pela práxis humana que se refere à ação, à atividade livre, universal, criativa e autocriativa, ou seja, é a prática consciente com direção social em que o homem transforma o mundo e a si mesmo (MARX; ENGELS, 2005).
A dialética pode ser concebida como o modo de pensar as contradições presentes na realidade e de apreendê-la como contraditória e em constante transformação. A dialética é uma postura, um método investigativo e uma práxis, um movimento de superação e transformação em que ocorre um tríplice movimento: de crítica, da nova síntese acerca do conhecimento e da ação (FRIGOTTO, 1994).
O materialismo histórico estuda as leis sociológicas que marcam a vida social, a evolução histórica da sociedade e o exercício social dos homens no desenvolvimento da humanidade. Nessa perspectiva, a análise da origem das sociedades é feita a partir das formações socioeconômicas e das relações de produção (TRIVIÑOS, 1987).
A pesquisa realizada partiu da realidade concreta e buscou superar o dualismo entre objetividade e subjetividade, sujeito e objeto, individual e social, o que justifica a escolha pelo paradigma dialético crítico. Este concebe o sujeito como unidade em processo, em devir; refuta a neutralidade da ciência e do pesquisador; busca a interconexão entre múltiplos fatores e o desvendamento do real a partir de suas contradições inclusivas; almeja não apenas conhecer, mas apreender as condições e o modo de vida dos sujeitos, considerando a racionalidade e a sensibilidade como indissociáveis (PRATES, 2003b).
As principais categorias do método dialético crítico são a contradição, a historicidade e a totalidade, que não significa a soma das partes, mas representa a articulação de um todo conectado, em que a relação entre as partes modifica o sentido de cada uma delas e do todo. A totalidade concreta é um todo em permanente processo de autocriação, o que envolve a historicização dos fenômenos que a constituem (PRATES, 2003b).
A análise de uma situação não se dá pelo esgotamento dos fatos, mas através da tematização destes, de forma inter-relacionada, com o objetivo de desvendá-los para compreender e interpretar a realidade (PRATES, 2003b). Na perspectiva de totalidade, a realidade ultrapassa o conhecimento que se possa ter dela, pois a visão de conjunto é permanentemente provisória. Por isso, existe algo que sempre foge às sínteses formuladas numa determinada situação (KONDER 1999).
A contradição dialética ultrapassa a relação de exclusão, é uma inclusão plena e, ao mesmo tempo, uma negação inclusiva. Ou seja, um elemento é definido pelo que ele não é, pois é a partir da determinação e negação do outro que se constitui a existência de cada fenômeno. A contradição tem a capacidade de destruir e a capacidade de criar; ao ser desvendada, mostra os contrários em luta pela superação (PRATES, 2003b).
A historicidade está relacionada com a processualidade dos fenômenos sociais, isso quer dizer que os fenômenos não são estanques, ao contrário, estão
em constante movimento, em curso de transformação, só podendo ser compreendidos e desvendados a partir de cortes históricos. É preciso fazer um movimento histórico regressivo, partindo do presente até o passado, para poder entender o processo que tornou o presente o que ele é. O inverso também é necessário, através de um movimento complementar progressivo cujo ponto de partida é o passado, retornar ao presente apresentando o seu desenvolvimento (PRATES 2003b).
Nesta pesquisa, foi contemplada a historicidade, resgatando a processualidade dos aspectos históricos que contribuíram para o exacerbamento do desemprego nas últimas décadas. Através dos depoimentos dos entrevistados, foi possível compreender a importância do trabalho em suas vidas, conhecer as experiências e vivências oriundas de suas trajetórias de emprego e desemprego, desvendando como os trabalhadores foram se constituindo e se modificando nesse processo. Sem perder de vista os objetivos da pesquisa, deu-se visibilidade ao desemprego e aos seus efeitos psicossociais.
Dentre as muitas aproximações do Serviço Social com a obra marxiana, destaca-se que ambos possuem o mesmo objeto de estudo: a questão social, definida como:
[...] o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 2005, p. 27).
A questão social expressa a contradição central do modo capitalista de produção que é o conflito entre capital e trabalho. A produção da riqueza gerada socialmente é produzida pelos trabalhadores que vendem sua força de trabalho (capacidade física e intelectual) para sobreviverem, porém quem a usufrui e dela se apropria são os capitalistas, detentores dos meios de produção (máquinas, instrumentos de trabalho, matérias-primas). As múltiplas expressões da questão social são o desemprego, a violência, a pobreza, o analfabetismo, etc. Esses problemas revelam que a prioridade da sociedade capitalista, na qual o capital predomina sobre o trabalho, é a acumulação e não a garantia de condições de vida para a população.
No entanto, Iamamoto (2005) salienta que a questão social também significa o contraponto, ou seja, é resistência, rebeldia, transgressão, pois os sujeitos, coletivamente, vivenciam as desigualdades e a elas se opõem na busca da reinvenção da vida social e da transformação da realidade. A questão social nem sempre é algo que está dado, é preciso desvendá-la.
No que tange à temática dessa pesquisa, a adoção do método marxiano é pertinente já que as categorias emergem da realidade e auxiliam a explicá-la. O desemprego é resultante de uma relação conflituosa entre capital e trabalho. É, portanto, uma expressão da questão social, porém esta não se resume a um conjunto de desigualdades, ela também significa resistência.
O desemprego deve ser visto como o produto de um processo histórico do sistema capitalista. Esse regime está sempre se inovando a fim de manter a hegemonia dos proprietários dos meios de produção sobre a classe trabalhadora, aprimorando as formas de exploração da força de trabalho e buscando ocultar a diferença de classes.
Em contrapartida, as formas de resistências também são reinventadas, exemplo disso é o propósito que esse estudo teve ao investigar e desvendar a temática e seus múltiplos aspectos, pois, além de dar visibilidade ao desemprego e às suas conseqüências, poderá subsidiar alternativas de enfrentamento. Por fim, é possível identificar a presença da contradição, da historicidade e da totalidade, de modo articulado no movimento que constitui o fenômeno estudado.