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2. TEORETISK RAMMEVERK

2.1 I NTERGUVERNMENTALISME (IG)

O estudo realizado foi constituído por uma pesquisa social em que participaram vinte pessoas, em situação de desemprego, que buscaram emprego no SINE, em Porto Alegre, no período de julho a agosto de 2006. A amostra foi não

probalística do tipo dirigida ou intencional, aplicada a pesquisas qualitativas que não permitem fazer generalizações, mas privilegiam o aprofundamento do fenômeno em estudo, a partir do que o pesquisador tem acesso (MARCONI; LAKATOS, 1999).

De acordo com Bauer e Gaskell (2002), o número de entrevistas deve ter um limite entre quinze e vinte e cinco. Conforme os autores, é necessário ir além da seleção superficial de um determinado número de citações ilustrativas, pois é preciso comparar e contrastar os relatos dos entrevistados. Para isso, o entrevistador deve envolver-se com as entrevistas, o que não seria possível com um número maior de entrevistados, considerando o tamanho das mesmas e de suas transcrições.

A pesquisa qualitativa apresenta algumas características particulares. Nesse tipo de pesquisa, o envolvimento do entrevistado com o entrevistador é um requisito de uma relação intersubjetiva. O êxito da pesquisa depende da inter-relação no ato da entrevista que privilegia o contexto da vida cotidiana, o afetivo, as experiências, a linguagem como forma de expressão do senso comum (MINAYO, 1999).

A investigação social deve satisfazer uma característica básica de seu objeto que é o aspecto qualitativo, considerando como sujeito de estudo: “gente, em determinada condição social, pertencente a determinado grupo social ou classe com suas crenças, valores e significados”. Além disso, é preciso levar em conta que o objeto das ciências sociais é impregnado de complexidade, contradições, inacabamento e está em constante processo de transformação (MINAYO, 1999, p.22).

Na pesquisa qualitativa, o método dialético privilegia os aspectos contraditórios dinâmicos do fenômeno observado e as contradições presentes entre o todo e a parte. Ou seja, entre o contexto geral e a realidade específica do sujeito, desvendando os significados das ações e das relações ocultadas nas estruturas sociais (MINAYO, 1999).

A pesquisa qualitativa contempla a originalidade e a imprevisibilidade que são inerentes às relações sociais, valorizando os aspectos qualitativos que expõem a amplitude da vida humana. Parte do princípio de que existe uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, entre o universo objetivo e a sua subjetividade (MINAYO, 1999).

O mundo social não é dado naturalmente, mas é construído ativa e dinamicamente por pessoas através de suas vidas cotidianas e por condições que

não foram estabelecidas por elas próprias. A abordagem qualitativa preocupa-se com o mapeamento da realidade das pessoas entrevistadas e com a compreensão do seu mundo vivencial, proporcionando dados essenciais para o entendimento de suas crenças, valores e motivações em determinados contextos sociais (BAUER; GASKELL, 2002).

Enquanto a pesquisa quantitativa privilegia os números e utiliza modelos estatísticos para a explicação dos dados, a pesquisa qualitativa lida com interpretações das realidades sociais. No entanto, é preciso superar a idéia de competitividade entre ambas. O debate sobre elas, em especial sobre a pesquisa qualitativa, tem contribuído para desmistificar a sofisticação estatística como o percurso unívoco para o alcance de resultados considerados relevantes (BAUER; GASKELL, 2002).

No presente estudo, a técnica utilizada para a coleta de informações foi a entrevista, sobre a qual se pode dizer que é um procedimento utilizado, na investigação social, para coletar dados ou para auxiliar a diagnosticar ou a resolver um problema social. Ocorre através da reunião entre duas pessoas com a finalidade de que uma delas adquira informações acerca de um assunto específico ou de um determinado problema, mediante uma conversação metódica e profissional (MARCONI; LAKATOS, 1999).

A entrevista é uma técnica de investigação que permite a obtenção de dados e possibilita levar o cotidiano do ser humano ao nível do conhecimento e da elaboração científica. Por isso, ela é considerada um meio de interação entre a ciência e as necessidades práticas (MINAYO, 1999).

Quanto ao conteúdo, a entrevista pode apresentar alguns objetivos: a averiguação de fatos; a determinação das opiniões sobre os fatos, dos sentimentos e anseios por eles despertados; a descoberta de planos de ação; o conhecimento da conduta atual ou do passado de uma determinada pessoa e a descoberta de fatores que podem influenciar opiniões, sentimentos e atitudes (MARCONI; LAKATOS, 1999).

Além da observação assistemática (livre, sem roteiros), optou-se pela entrevista semi-estruturada, que dá flexibilidade ao entrevistador para repetir e esclarecer as perguntas e até mesmo formular, de maneira diferente, no intuito de garantir que está sendo compreendido. Esse tipo de entrevista “valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante

alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação” (TRIVIÑOS, 1987, p. 146).

As perguntas foram orientadas por um roteiro43e realizadas a partir da aplicação de um formulário. O formulário é um instrumento caracterizado pelo contato face a face entre entrevistado e entrevistador, e inclui um conjunto de questões preparadas sistematicamente pelo pesquisador; o preenchimento e/ou gravação também são feitos pelo entrevistador no momento da entrevista. As perguntas foram abertas (também chamadas livres ou não limitadas) por possibilitarem que os pesquisados pudessem respondê-las livremente, expressando suas opiniões e utilizando linguagem própria (MARCONI; LAKATOS, 1999).

Após o processo de coleta, os dados foram organizados a partir da transcrição das entrevistas e montagens de mapas descritivos (quadros com as respostas em seqüência)44 para facilitar a interpretação. As fitas foram transcritas pela própria pesquisadora que, ao invés de transferir essa tarefa a terceiros, optou por realizá-la, por julgar que esse envolvimento do pesquisador é necessário para qualificar o processo de análise dos dados. A transcrição de fitas exigiu empenho da pesquisadora e demandou um dispêndio considerável de tempo, mas, apesar de ter sido um processo exaustivo, foi fundamental para que as informações fornecidas pelos entrevistados fossem aproveitadas ao máximo.

A análise dos dados foi feita com base na técnica de Análise de Conteúdo (BARDIN, 1977) que reúne procedimentos sistemáticos do conteúdo manifesto das comunicações, visando à interpretação destas. Consiste nas seguintes fases: a pré- análise, a exploração do material, o tratamento dos resultados obtidos e a interpretação.

A pré-análise é basicamente a fase da leitura flutuante em que se deve deixar invadir pelas impressões e orientações do texto. Implica o preparo e organização do material que será submetido à análise; a seleção dos documentos e das hipóteses ou questões norteadoras e, por fim, a elaboração dos objetivos e indicadores que dêem consistência e fundamentação à interpretação final (BARDIN, 1977).

O preparo do material consiste nos procedimentos que possibilitam a realização da análise, como transcrição de fitas, fichamentos, etc. A exploração do material é o momento da codificação dos dados. A descrição analítica inicia já na

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Ver apêndice B.

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pré-análise, mas, nessa etapa, há um aprofundamento conduzido por hipóteses ou questões norteadoras e referenciais teóricos. A interpretação inferencial é constituída na análise, a partir da mediação entre o conteúdo descrito e a teoria que orienta o pesquisador para a realização das inferências (BARDIN, 1977).

Para o desenvolvimento deste estudo, foram elaboradas três categorias cuja definição ocorreu anteriormente à pesquisa de campo. As categorias teórico- temáticas são as seguintes: Trabalho, Subjetividade e Desemprego. A seguir, elas serão definidas sob a forma de síntese.

Trabalho

Essa categoria permitiu contemplar alguns dos muitos significados que o trabalho possui, privilegiando o enfoque marxista. Possibilitou analisar como o trabalho vem se constituindo ao longo da história, da atividade vital às formas assalariadas impostas pelo capitalismo. Através dela, estudaram-se as transformações que vêm ocorrendo no mundo do trabalho nas últimas décadas, as quais envolvem mudanças institucionais e organizacionais nas relações de produção e de trabalho, bem como os efeitos de tais transformações para o mercado de trabalho e, principalmente, para os trabalhadores.

Subjetividade

A subjetividade é tratada a partir de uma perspectiva dialética que não compreende o indivíduo como algo isolado, mas reconhece o movimento relacional entre sujeito e objeto, pois a sociedade constrói e é construída pelo indivíduo. Nesse sentido, a subjetividade é produção e é processo, visto que os indivíduos, através das relações sociais, produzem a sua subjetividade e ao mesmo tempo a sociedade. A análise dessa categoria auxiliou a compreender como os desempregados vivenciam as experiências de desemprego.

Desemprego

Adotou-se a conceituação de desempregados utilizada pelo DIEESE (2006, p. 28), conforme segue: “indivíduos que se encontram numa situação involuntária de não-trabalho, por falta de oportunidade de trabalho, ou que exercem um trabalho irregular com desejo de mudança”. De acordo com essa definição, são considerados desempregados aqueles trabalhadores que estão na situação de desemprego aberto e desemprego oculto pelo trabalho precário e pelo desalento. Ou seja, os trabalhadores que não procuraram trabalho ou exerceram qualquer atividade na semana de referência da pesquisa (PED), mas que o fizeram no decorrer do mês; que exercem algum tipo de atividade irregular e descontínua simultaneamente à procura de trabalho; que não procuraram trabalho no mês anterior, por se sentirem desestimulados pelo mercado de trabalho, mas que procuraram trabalho nos últimos 12 meses.

5 OS RESULTADOS DO ESTUDO: desvendando a expressão dos sujeitos

O propósito deste capítulo é apresentar a análise dos dados pesquisados, trazendo à tona a voz dos sujeitos entrevistados, dando visibilidade às suas expressões. Os resultados apresentados são inferências e conclusões da pesquisadora acerca das vivências subjetivas dos entrevistados e da sua realidade concreta. Destaca-se que, tendo em vista a perspectiva dialética adotada, tais resultados são provisórios.

O conhecimento não é impossível de ser construído, mas é preciso reconhecê-lo como processual, histórico e, por isso, provisório e superável. A historicidade, importante categoria do método dialético, que emana da própria realidade e como categoria possibilita sua análise, privilegia esse movimento e reconhece o processo de autoconstituição.

Portanto, o pesquisador é condicionado pelo seu contexto, sua consciência histórica, assim como os sujeitos entrevistados, ambos considerados unidades dialéticas em curso de desenvolvimento e de vida. Como unidades, recebem influência de fatores diversos que ora se ocultam e ora se manifestam, mas que, de modo interconectado, constituem as múltiplas determinações que conformam os fenômenos humanos e sociais.

A perspectiva da totalidade articula esses fatores, não de modo linear, pois eles se manifestam e se alteram no curso da história social, permeados de contradições. Privilegiando essa categoria, não foi subdividido por itens ou tópicos o processo de análise, embora se reconheça que a subdivisão tornaria o texto mais didático. Contudo, entende-se que a articulação de aspectos diversos, que emanam de momentos distintos da expressão dos sujeitos, amplia a possibilidade de leitura dos sentidos por eles atribuídos, facilitando o processo de análise.

Inicia-se pela apresentação de algumas características dos sujeitos. Os dados quantitativos não tiveram centralidade no processo de coleta, mas sabe-se que a dicotomização entre quantitativo e qualitativo reduz as possibilidades de explicação dos fenômenos que se constituem por qualidade e quantidade. O quadro que segue sintetiza as características dos sujeitos entrevistados.

Quadro 1 - Características dos Sujeitos Entrevistados Entrevistado Sexo Idade Escolaridade Tempo de Desemprego

01 Feminino 40 anos Fundamental

Completo 5 meses

02 Feminino 51 anos Fundamental

Incompleto 2 meses 03 Masculino 28 anos Fundamental

Incompleto 1 ano e 6 meses 04 Masculino 46 anos (Técnico em soldagem e Médio Incompleto

serralheria)

6 meses 05 Masculino 43 anos Fundamental

Incompleto 8 meses 06 Feminino 48 anos (Técnica em Desenho e Médio Completo

Arquitetura)

10 anos

07 Masculino 48 anos Médio Completo (Técnico de Administração) 2 anos 08 Masculino 53 anos Médio Completo (Técnico em Contabilidade) 6 meses

09 Masculino 29 anos (Técnico em Segurança Médio Completo doTrabalho)

6 meses 10 Masculino 25 anos Médio Incompleto 2 meses 11 Feminino 24 anos Médio Incompleto 1 ano 12 Feminino 29 anos Médio Incompleto 8 meses 13 Masculino 26 anos Fundamental

Completo 6 meses

14 Feminino 25 anos Médio Completo

(Técnica em Enfermagem) 1 ano

15 Feminino 33 anos Fundamental

Incompleto 3 meses 16 Masculino 64 anos Fundamental

Completo 2 anos

17 Masculino 33 anos Superior Completo

(Engenharia Química) 6 meses

18 Feminino 49 anos Superior Completo

(Direito) 6 anos

19 Feminino 47 anos Superior Completo

(Arquitetura e Urbanismo) 2 anos

20 Masculino 43 anos Superior Completo

Observa-se que a maioria dos participantes deste estudo é do sexo masculino, porém a diferença do número de entrevistados, conforme o sexo, não é significativa, pois, dentre as vinte pessoas entrevistadas, nove são do sexo feminino, onze são do sexo masculino.

A idade dos entrevistados varia entre 24 e 64 anos, havendo uma concentração maior na faixa de 40 a 49 anos (8 de 20). A faixa com menor concentração é de 60 a 69 anos (1 de 20), como se pode observar no gráfico a seguir:

Gráfico 1 - Entrevistados segundo faixa etária Fonte: A autora (2007).

Quanto ao nível de escolaridade, há uma equilibrada distribuição dos participantes, ocorrendo uma concentração no nível médio completo (5 de 20), como mostra o gráfico:

Gráfico 2 - Entrevistados segundo nível de escolaridade Fonte: A autora (2007). 7 2 8 2 1 20 a 29 anos 30 a 39 anos 40 a 49 anos 50 a 59 anos 60 a 69 anos 4 3 4 5 4 Fundamental Incompleto Fundamental Completo Médio Incompleto Médio Completo Superior Completo

O tempo de desemprego varia de 2 meses a 10 anos, sendo expressivo o número de desempregados que sofrem do desemprego prolongado cujo tempo é superior há um ano (10 de 20).

Gráfico 3 - Entrevistados segundo o tempo de desemprego Fonte: A autora (2007).